domingo, 27 de dezembro de 2015

No meu copo 498 - Tavedo branco 2013

Numa deslocação à cidade invicta, aproveitei uma bela tarde soalheira para ir almoçar na Ribeira, ali mesmo com o Douro aos pés.

Deambulei pela marginal à procura do local adequado, sem nada preparado antecipadamente. Olhadela aqui, espreitadela ali, um olhar de relance para alguns menus e resolvi sentar-me numa esplanada à vista da ponte D. Luís, com os barcos turísticos nas proximidades.

A refeição queria-se relativamente simples e rápida, e optei por um prato típico e descomplicado: filetes de polvo com arroz de feijão. Apetitoso, agradável e suficiente, em qualidade e quantidade.

Para acompanhar, o vinho da casa, também descomplicado. Não o conhecendo, era uma boa ocasião para experimentar: um Tavedo branco, da Sogevinus. Feito com casata típicas do Douro, revelou-se aromático com um nariz sedutor de fruta fresca e notas florais. Na boca mostrou-se aberto, elegante e suave, com boa frescura e carácter frutado muito agradável.

Um vinho essencialmente simples mas que cativa logo à primeira impressão. Agradou e valeu a pena. Está na gama abaixo dos 3 € mas é boa aposta para o dia-a-dia.

É para acrescentar às nossas escolhas.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Tavedo 2013 (B)
Região: Douro
Produtor: Sogevinus - Fine Wines
Grau alcoólico: 12,5%
Castas: Malvasia Fina, Gouveio, Rabigato
Preço: 2,99 €
Nota (0 a 10): 7

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

No meu copo 497 - Herdade do Perdigão Reserva 2005

Temos bebido este vinho espaçadamente, em ocasiões especiais. Sempre com enorme sucesso junto dos bebedores de ocasião.

A última prova não fugiu à regra. Às primeiras gotas deglutidas, os provadores multiplicaram-se em elogios à pujança deste vinhos, à exuberância dos aromas, à estrutura e à persistência.

Muito encorpado mas com as arestas bem limadas e os taninos arredondados, o traço vegetal da Trincadeira está bem complementado com a robustez do Aragonês e algum apimentado do Cabernet Sauvignon, a par com um toque a frutos vermelhos que sobressai com a evolução e envelhecimento dos vinhos da casta.

É um vinho que pode ser comprado a bom preço em circunstâncias de ocasião. O preço de referência costuma andar à volta dos 25 €. Em certas promoções, como foi o caso desta garrafa, conseguiu-se por menos de metade. Por este valor, é imperdível, e ainda recentemente encontrei a colheita de 2008 a 9,99 €, o que é quase oferecido...

Ao preço normal, apesar da elevada qualidade, há que pensar duas ou três vezes... Mas a qualidade está lá e é inegável.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Herdade do Perdigão Reserva 2005 (T)
Região: Alentejo (Monforte - Portalegre)
Produtor: Herdade do Perdigão
Grau alcoólico: 14,5%
Castas: Trincadeira (80%), Aragonês (15%), Cabernet Sauvignon (5%)
Preço em feira de vinhos: 11,49 €
Nota (0 a 10): 8,5

sábado, 19 de dezembro de 2015

No meu copo 496 - Quinta do Monte d'Oiro: Aurius 2002; Têmpera 2004; Reserva 2004

A descrição da prova que se segue foi uma ocasião especialíssima, daquelas que acontecem uma vez por acaso e que tornam cada momento único.

Tratou-se de uma prova horizontal de vinhos de topo da Quinta do Monte d’Oiro. Por ordem crescente de qualidade e de preço, a ordem da prova seguiu o mesmo critério: tivemos um Aurius 2002 (que já tinha sido provado há uns anos), um Têmpera 2004 e um Quinta do Monte d’Oiro Reserva 2004, tudo adquirido numa única caixa pelo valor imbatível de 66,50 €.

Os três vinhos foram arrefecidos e decantados atempadamente, de modo a estarem nas condições óptimas de consumo quando chegasse o momento de os verter nos copos. A acompanhar, umas costeletas de novilho assadas na brasa ao momento, complementadas com alho moído, molho de alho e molho cocktail.

Decantados os três vinhos como era requerido, fomos provando pela ordem requerida e intercalando cada um deles para estabelecer comparações. A qualidade de todos é tão elevada que quase parece um sacrilégio tentar diferenciá-los. Em todo o caso, em traços gerais as impressões colhidas foram as que se seguem.

Aurius 2002 – No ponto óptimo de consumo. Elegante, encorpado, persistente, profundo. Magnífico.

Têmpera 2004 – Estagiou 15 meses em barricas de carvalho francês. Muito estruturado, persistente, encorpado, longo. Elegante e persistente na boca e equilibrado no aroma.

Quinta do Monte d’Oiro Reserva 2004 – Estagiou em barricas 100% novas de carvalho francês Seguin Moreau. Estruturado e longo, elegante e com taninos de seda. De cor vermelho escuro, que não deixa revela a idade do vinho, apresenta aromas de fruta preta e alguma especiaria, madeira discretíssima e integrada, acidez irrepreensível, tudo no ponto certo. Um vinho quase perfeito. A mestria de José Bento dos Santos no seu auge.

Em resumo: são momentos como os que nos permitem usufruir de néctares de excepção como estes que nos fazem sentir como há coisas belas nesta vida.

Obviamente, perante este nível qualitativo, e apesar do preço, estes vinhos merecem estar nas nossas escolhas.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Região: Lisboa (Alenquer)
Produtor: José Bento dos Santos - Quinta do Monte d’Oiro

Vinho: Aurius 2002 (T)
Grau alcoólico: 14,5%
Castas: Touriga Nacional, Syrah, Tinta Roriz, Petit Verdot
Preço: 19 €
Nota (0 a 10): 9

Vinho: Têmpera 2004 (T)
Grau alcoólico: 14,5%
Casta: Tinta Roriz
Preço: 26 €
Nota (0 a 10): 9

Vinho: Quinta do Monte d'Oiro Reserva 2004 (T)
Grau alcoólico: 14,5%
Castas: Syrah (96%), Viognier (4%)
Preço: 37,50 €
Nota (0 a 10): 9,5

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

No meu copo 495 - Ramos Pinto: as duas quintas em brancos

Bons Ares branco 2013; Duas Quintas branco 2014


Agora que o consulado de João Nicolau de Almeida como responsável máximo pelos vinhos da Casa Ramos Pinto se aproxima do fim, anunciado pelo próprio, e depois da prova vertical que assinalou os 25 anos do Duas Quintas tinto no Encontro com o Vinho e os Sabores 2015, é uma boa oportunidade para apreciar alguns dos vinhos da casa que têm sido lançados ao longo do último quarto de século.

Não temos sido grandes frequentadores dos brancos da Ramos Pinto, incidindo mais nos tintos. Mas duas compras recentes permitiram provar dois brancos de marcas emblemáticas que já têm nome feito nos tintos: o Bons Ares, proveniente da quinta com o mesmo nome, e o Duas Quintas, que tal como o tinto junta as uvas desta quinta às uvas da Quinta de Ervamoira.

A Quinta dos Bons Ares é a que fica situada em altitude, cerca de 600 m acima do nível do mar, e tem solo granítico. É daqui que vêm habitualmente as uvas que conferem mais frescura e acidez aos vinhos. Este lote de Viosinho e Rabigato, castas tradicionais durienses, associado ao Sauvignon Blanc (cuja incorporação no lote o torna vinho Regional Duriense em vez de DOC Douro) resultou num vinho fresco, aromático, medianamente estruturado e persistente, com um final suave. No sabor apresenta-se com algum citrino e um ligeiro vegetal com leves notas tropicais, que denota a presença do Sauvignon Blanc. Acidez elegante, sem ser impositiva.

Um vinho extremamente equilibrado, onde parece que nada foi deixado ao acaso, com todas as componentes presentes na dose certa, de forma mais ou menos discreta e sem exageros, formando assim um conjunto versátil que pode ligar bem com peixes sofisticados e carnes não muito pesadas de forma quase indistinta – experimentei as duas variantes e ambas resultaram em pleno. É um branco de meia estação, o que o torna versátil para múltiplas ocasiões.

Temos assim mais um branco para acrescentar à nossa lista de preferências e a manter debaixo de olho.

Quanto à versão em branco do Duas Quintas, que temos provado amiudadamente em tinto e que temos sempre em stock, segue um pouco a linha do tinto em comparação com o Bons Ares. Aqui o lote contém Arinto em vez de Sauvignon Blanc, mantendo-se as outras duas castas. O vinho mostra-se mais estruturado e com mais corpo, mas com menos frescura e suavidade – a proveniência, da Quinta de Ervamoira, de uvas com maturação mais profunda (como reza o contra-rótulo do tinto) traz alguma complexidade e persistência ao vinho mas retira-lhe alguma elegância, o que no caso destes dois brancos torna o Bons Ares um pouco mais apelativo. O Duas Quintas é um vinho mais de Inverno e para pratos mais fortes.

De todo o modo, foi uma comparação de estilos muito interessante e, conforme o acompanhamento que se pretende, temos dois perfis de vinho diferentes à escolha do consumidor. Pessoalmente, o Bons Ares vai mais ao encontro do meu gosto.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Região: Douro
Produtor: Ramos Pinto

Vinho: Bons Ares 2013 (B)
Grau alcoólico: 13%
Castas: Viosinho, Rabigato, Sauvignon Blanc
Preço em feira de vinhos: 8,99 €
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Duas Quintas 2014 (B)
Grau alcoólico: 13%
Castas: Rabigato, Viosinho, Arinto
Preço em feira de vinhos: 9,59 €
Nota (0 a 10): 7,5

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

10 anos é muito tempo


Já assim rezava a canção de Paulo de Carvalho:

10 anos é muito tempo
Muitos dias, muitas horas a beber.


Ou seria a cantar? Espero que não porque, apesar de tudo, bebemos melhor que cantamos. Ou não, porque um dos elementos deste blogue toca e canta, e às vezes encanta...

Parece que foi ontem que bebemos aquele tinto que nos tirou do sério e nos fez saltar de contentamento... Esperem! Isso foi mesmo ontem! Há 10 anos deve ter sido outro. Já houve uns quantos ao longo deste tempo de fruição do produto da fermentação dos frutos da Vitis Vinifera – ou, dito de outra forma, já emborcámos (com classe, of course) muita vinhaça da boa!

Se a idade e o fígado nos deixar, pretendemos continuar a fazê-lo por muitos e bons anos, apreciando este produto fruto do engenho do homem e das dádivas da natureza, quiçá continuando a reportar as nossas impressões neste moderno caderno de notas electrónico.

Esperamos que vos dê tanto prazer ler as nossas opiniões como nos deu beber os vinhos – embora as opiniões sejam um pouco mais secas e menos saborosas...

Para o ano cá estaremos a marcar um novo aniversário e esperamos que convosco a continuar a ler.

Bem hajam!

tuguinho e Kroniketas, enófilos finos

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Encontro com o Vinho e os Sabores 2015 (2ª parte)

Prémios Escolha da Imprensa


  

Tal como em 2014, tive oportunidade de assistir, logo no primeiro dia, ao anúncio da Escolha de Imprensa feito pela Revista de Vinhos. Depois pude provar uma parte significativa dos vinhos premiados no espaço reservado para o efeito.

Em primeiro lugar, destaque para os vencedores do Grande Prémio em cada categoria: Murganheira Cuvée Reserva Especial nos espumantes; Muros de Melgaço (Anselmo Mendes) nos brancos; MR Premium (Monte da Ravasqueira) nos rosés; H. O. Grande Escolha (Casa Agrícola Horta Osório) nos tintos; e Vau Porto Vintage (Sogrape) nos licorosos. Os dois primeiros sem surpresa, os restantes algo inesperados.

Houve mais vinhos premiados que em 2014, com algumas boas surpresas, nomeadamente a nível dos rosés, e outras confirmações, como o Villa Oliveira da Casa da Passarela (um repetente), o Paço dos Cunhas de Santar, o Cartuxa Reserva, o Pai Chão da Adega Mayor, o Poliphonia Reserva, o Dona Maria Reserva ou o Quinta da Touriga Chã. O nível dos vinhos escolhidos é elevadíssimo, como seria de esperar, sendo que alguns vinhos são mesmo de encher as medidas.

Não sendo viável provar nem mencionar todos os vinhos, não podemos deixar de destacar mais um conjunto de prémios arrebatados pelos espumantes Murganheira (5 prémios no total entre as marcas Murganheira e Raposeira, e vencedor do Grande Prémio na categoria de espumantes), o aparecimento de novos produtores como o Monte da Serenada, já aqui mencionado com o seu branco Serras de Grândola Edição Especial, e o recuperar de clássicos como a Adega Cooperativa de Cantanhede, com o seu 2221 Terroir de Cantanhede e o Foral de Cantanhede Gold Edition Grande Reserva, depois de em 2014 ter feito furor com o Marquês de Marialva Confirmado de 1991, bem como o Quinta dos Carvalhais Branco Especial, também um repetente.

Novidades foram os tintos da Reserva da Casa Santos Lima, Pinot Noir e Touriga Nacional da DFJ, o Conde d’Ervideira Private Selection, e os brancos Reserva da Quinta das Carejeiras, MR Premium do Monte da Ravasqueira, Mula Velha da Quinta do Gradil e o Viosinho da Adega Mãe.

Verdadeira surpresa para o aparecimento do rosé JP, menos surpresa a presença do Quinta do Poço do Lobo Baga-Pinot Noir, um rosé em grande estilo!

Como o tempo este ano foi escasso, estas duas actividades acabaram por ocupar a maior fatia da minha presença no certame. Dentro do recinto dos expositores fiz o périplo mais ou menos habitual, desta vez prestando menos atenção e dedicando menos tempo às provas nos stands. Dei especial atenção a algumas novidades da Casa da Passarela, um produtor que se afirma cada vez mais com vinhos que representam o verdadeiro carácter do Dão, e o resto foi mais ou menos sortido. Ao fim de tantos anos começa a ser difícil encontrar muitas novidades e dispersar a atenção por tantas marcas.

Para o ano há mais. Na altura se verá como corre.

Kroniketas, enófilo itinerante

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Encontro com o Vinho e os Sabores 2015 (1ª parte)

25 anos de Duas Quintas


  

Cumprindo o ritual de todos os anos, que já é presença obrigatória no calendário, há um mês dirigimo-nos ao Centro de Congressos de Lisboa para a edição 2015 do Encontro com o Vinho e os Sabores.

Tal como o ano passado, decidi participar numa prova especial, desta vez os 25 anos de existência do Duas Quintas sob a batuta de João Nicolau de Almeida.

O enólogo e administrador da Casa Ramos Pinto anunciou a sua reforma para breve, em que vai passar o testemunho aos mais novos e dedicar-se em exclusivo aos projectos familiares com os seus filhos, Mateus e João.

Começou por fazer um historial do seu percurso antes e durante a Ramos Pinto, a busca do seu tio José António Ramos Pinto Rosas por um local de excepção que viria a encontrar na Quinta de Ervamoira, a investigação das castas mais adaptadas à produção de “vinho de pasto” no Douro e, finalmente, a inovadora plantação de vinhas ao alto em vez da tradicional disposição em patamares.

Depois da apresentação histórica de como surgiu o Duas Quintas (e dos acidentes que ocorreram na primeira colheita, em 1990), passou-se então à prova de algumas colheitas disponíveis da versão Reserva, que surgiu em 1992, não sem que antes ainda nos fosse dado a provar a colheita de 1990, que já está em óbvio declínio, algo oxidado e descorado, mas ainda se bebe... Tive a feliz coincidência de encontrar esta colheita na Feira de Vinhos do Pingo Doce, em 1993, pelo que tenho acompanhado este vinho desde o seu nascimento. Foram produzidos 80.000 litros desta primeira colheita.

Do Duas Quintas Reserva foram provadas as colheitas de 1992, 1994, 1997, 2000, 2005, 2008 e as três últimas, 2011, 2012 e 2013.

As diferenças foram óbvias: os mais antigos mais suaves e delicados, os mais recentes mais frutados, pujantes e persistentes. Em todos eles, uma exuberância aromática evidente, um corpo pujante e estruturado. 1994 mais elegante, macio e frutado que o de 1992. 1997 ainda algo adstringente e com arestas, resultante da incorporação da casta Tinta da Barca, que lhe dá taninos mais duros.

O de 2000 apresentou-se muito equilibrado, suave e redondo, mas foi revelando pujança e robustez enquanto arejava, libertando-se numa explosão de aromas! Muito bem! O 2005 apresentou-se algo linear numa primeira abordagem. O 2008 algo rugoso no início, estruturado e longo, enquanto os três finais apresentaram-se marcados por especiarias, com o 2011 a ser o mais suave e redondo.

Dentro desta panóplia ficou patente a elevada qualidade deste vinho, com diferentes moldagens pelo tempo e diferentes evoluções em garrafa. Uma excelente amostra dum magnífico vinho.

Daqui saiu-se para o anúncio dos prémios da escolha de imprensa.
(continua)

Kroniketas, enófilo esclarecido