segunda-feira, 30 de novembro de 2015

No meu copo 494 - Bairrada: os clássicos rebeldes

Quinta das Bágeiras Reserva tinto 2010; Pato Rebel 2009; Campolargo, Baga 2010


Por uma curiosa coincidência, tivemos oportunidade de provar em ocasiões muito próximas três tintos da Bairrada provenientes de três produtores que funcionam “fora da caixa”, ou fora dos cânones que marcam a tradição da região. A descrição que se segue coincide apenas com a ordem da prova, e nada mais.

Comecemos então pelo tinto Reserva da Quinta das Bágeiras. Uma marca clássica da Bairrada de um produtor que foge aos cânones, e é desalinhado das tendências dominantes, de tal forma que nem sequer faz questão de ter o nome “Bairrada” nos rótulos dos seus vinhos. Nos anos mais recente, um vinho branco chumbado pela Comissão Vitivinícola tornou-se um caso raro de sucesso junto dos apreciadores (estamos a falar do Pai Abel Chumbado).

Este Quinta das Bágeiras Reserva 2010, fermentado em pequenos lagares, sem desengace, estagiou em tonel de madeira avinhada e foi engarrafado sem colagem ou filtragem. Foram adquiridas duas garrafas Março de 2013, portanto ainda relativamente novo. A primeira já tinha sido consumida e na altura o vinho mostrou-se algo rugoso e duro na prova.

Entretanto amaciou. Apresentou-se encorpado, persistente, com boa estrutura na boca e aroma vinoso intenso. Um vinho para carnes com algum requinte, um Bairrada com uma base clássica mas com alguns laivos de modernidade. Para quem não quer ou não pode chegar ao excelente (e bem mais dispendioso) Garrafeira, aqui está outro bom produto por um valor bem mais acessível, em que vale a pena apostar.

Em seguida, o Pato Rebel 2009, um tinto que estava à espreita para ser provado, mais uma inovação do enfant terrible da Bairrada, Luís Pato, o “Senhor Baga”. Sempre a inovar defendendo as raízes da região, e sempre com especial carinho pela Baga. Este é um Regional Beiras, mas quem se importa com isso?

Aqui nasceu um vinho também feito fora dos cânones: um Baga para beber com facilidade, jovem, para o Verão. Mostrou-se macio, aberto na cor, mas com o arejamento foi desenvolvendo aromas e mostrando uma pujança e estrutura que o caracterizam como muito mais do que um tinto de Verão. É um tinto que merece respeito.

Finalmente, o Campolargo Baga 2010. Outro produtor que, assentando raízes na Bairrada, também pouco liga às tradições. Pouco importa que as castas sejam clássicas ou modernas, nacionais ou estrangeiras, típicas ou atípicas: o que interessa é o resultado final. Aqui temos, por coincidência, um monocasta de Baga, que também se apresenta muito macio e pronto a beber.

Tal como é prática habitual em Luís Pato, este fermentou com desengace total das uvas. A fermentação terminou em balseiro e barricas, nas quais fez a fermentação maloláctica e onde permaneceu até Março de 2012. Outro Bairrada de respeito, a precisar de algum tempo para se mostrar em plenitude.

E assim se fez um pequeno percurso por produtores que defendem o melhor que se faz na região, cada um com o seu cunho muito próprio que permite perceber que, afinal, mesmo com a dominância da Baga, podem existir várias e diferentes “Bagas”...

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Quinta das Bágeiras Reserva 2010 (T)
Região: Bairrada
Produtor: Mário Sérgio Alves Nuno
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Baga, Touriga Nacional
Preço em feira de vinhos: 8,59 €
Nota (0 a 10): 7,5

Vinho: Pato Rebel 2009 (T)
Região: Regional Beiras
Produtor: Luís Pato
Grau alcoólico: 13%
Casta: Baga
Preço: 10,46 €
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Campolargo, Baga 2010 (T)
Região: Bairrada
Produtor: Manuel dos Santos Campolargo
Grau alcoólico: 13%
Casta: Baga
Preço em feira de vinhos: 8,99 €
Nota (0 a 10): 8

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

No meu copo 493 - Periquita Reserva 2010

O Periquita, marca de vinho mais antiga produzida em Portugal, tem vindo a ter o seu portefólio alargado. Mudou a garrafa, o rótulo, surgiu o Reserva, o branco e o rosé.

Tenho sempre alguma hesitação em relação a este vinho. Por um lado, ele é bastante melhor que o Periquita Clássico, mas fico sempre com uma certa sensação de expectativas frustradas. É certo que não é um vinho mau, nem sequer razoável, é bom. Mas parece que estou sempre à espera de mais qualquer coisa que me surpreenda.

Acho que talvez seja isto que falta a este Periquita Reserva: algo de verdadeiramente novo, inesperado, surpreendente, como o enólogo Domingos Soares Franco nos tem habituado com as suas apostas arrojadas, como o rosé de Moscatel Roxo ou o excelente branco de Verdelho da Colecção Privada.

Este Periquita Reserva 2010 estagiou 8 meses em barrica e apresenta um aroma predominante a frutos vermelhos. É suave na boca, com persistência média e medianamente encorpado. O final está ali entre o macio e o rugoso.

Não é caro e não é uma má aposta para o preço que custa. Mas falta-lhe algum golpe de asa.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Periquita Reserva 2010 (T)
Região: Península de Setúbal
Produtor: José Maria da Fonseca Vinhos
Grau alcoólico: 13%
Castas: Castelão, Touriga Nacional, Touriga Franca
Preço em feira de vinhos: 6,29 €
Nota (0 a 10): 7,5

domingo, 22 de novembro de 2015

No meu copo 492 - Casa da Ínsua branco 2014; Casa da Ínsua rosé 2013

Voltamos ao Dão, para uma prova de mais uma marca antiga que andou desaparecida durante algum tempo.

A Casa da Ínsua, antiga casa senhorial do século XVIII, actualmente é um hotel de charme situado em Penalva do Castelo, propriedade dos Empreendimentos Turísticos Montebelo, do grupo Visabeira, e dentro dos seus vastos jardins estão situadas as vinhas donde provêm as uvas para os vinhos que produz.

Nesta ocasião tivemos oportunidade de provar um branco e um rosé. Os tintos ficam para mais tarde.

O branco agradou à generalidade dos provadores. Apresentou-se com uma cor citrina, elegante, com aroma complexo com notas de frutos do pomar. Na boca mostrou-se encorpado, macio, estruturado, persistente e com final marcadamente mineral. Um vinho para agradar com entradas ou pratos de peixe com algum requinte. Não é um simples vinho de Verão mas um vinho para apreciar com tempo e a companhia adequada à mesa.

Quanto ao rosé, foi uma decepção: chato, doce, sem acidez, liso e desinteressante. A cor é marcadamente rosada concentrada, o aroma limpo mas na boca torna-se enjoativo. Um resultado francamente mal conseguido.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Região: Dão
Produtor: Empreendimentos Turísticos Montebelo

Vinho: Casa da Ínsua 2014 (B)
Grau alcoólico: 13%
Castas: Encruzado, Sémillon
Preço no produtor: 5,10 €
Nota (0 a 10): 7,5

Vinho: Casa da Ínsua 2013 (R)
Grau alcoólico: 13%
Castas: Touriga Nacional, Tinta Roriz
Preço no produtor: 5,10 €
Nota (0 a 10): 4

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

No meu copo 491 - Bucelas Capital do Arinto, Seleção da Confraria Reserva 2014

Comprei esta garrafa por curiosidade, uma vez que era uma marca diferente da Quinta da Romeira num rótulo semelhante ao Prova Régia Reserva. O nome é invulgar e original, o conteúdo desperta interessa aos apreciadores dos vinhos de Arinto de Bucelas.

A prova, contudo, decepcionou. O vinho mostrou-se desinteressante. Algo aguado, delgado, descolorido, algo insípido e sem aroma. Não faz jus à casta e acaba-se sem perceber para que foi produzido...

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Bucelas Capital do Arinto, Seleção da Confraria Reserva 2014 (B)
Região: Bucelas
Produtor: Wine Ventures - Quinta da Romeira
Grau alcoólico: 13,5%
Casta: Arinto
Preço em hipermercado: 4,99 €
Nota (0 a 10): 5

sábado, 14 de novembro de 2015

No meu copo 490 - Evel tinto 2012

Continuando a descomplicar, voltamos agora à Real Companhia Velha, depois dos brancos monocasta da Quinta de Cidrô nos meses anteriores.

O Evel também é uma marca muito antiga, estando registada desde 1913. Comecei por conhecê-lo na mesma época do Dão Meia Encosta (referido no post anterior), primeiro o branco e só mais tarde o tinto, a par com o Porca de Murça. Agora já surgiu um Reserva, um Grande Escolha, e mais recentemente um Evel XXI...

Este tinto é o mesmo de sempre, o clássico, produzido com uvas provenientes de diversas quintas da Real Companhia Velha nas zonas de Alijó, Pinhão e São João da Pesqueira.

Evel é “leve” escrito ao contrário. Leve nasceu, leve se mantém. De cor rubi, suave, aberto, macio, mediano de corpo e de persistência. É agradável e frutado no paladar, sem sinal dos 8 meses de contacto com a madeira, com taninos bem suaves e redondos.

É bom e é barato.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Evel 2012 (T)
Região: Douro
Produtor: Real Companhia Velha
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Touriga Franca, Touriga Nacional, Tinta Roriz
Preço em feira de vinhos: 3,49 €
Nota (0 a 10): 7

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Bloggers Challenge - 2ª edição

    


Realizou-se na 2ª quinzena de Setembro, no mesmo local da primeira edição (na qual não pude estar presente), o restaurante A Tendinha, em Mem Martins, a segunda iniciativa promovida pelo blogue Comer, Beber & Lazer.

O princípio é simples e curioso: desafiam-se dois autores de blogues que escrevam sobre vinho para, dentro da carta de vinhos de um restaurante e de acordo com um menu previamente escolhido, sugerirem um vinho de preço moderado para harmonizar com cada prato. A cada iguaria que vai para a mesa, são servidos os dois vinhos selecionados (em garrafas tapadas), os comensais provam os vinhos e numa pequena ficha classificam cada um dos vinhos de per si de 1 a 5 e classificam-nos também na harmonização com o prato. Quer dizer, portanto, que há duas votações a decorrer em simultâneo, e que o vinho mais votado isoladamente pode não o ser na harmonização, o que até torna a votação ainda mais interessante.

Após cada votação, o promotor da iniciativa, Carlos Janeiro, conta os votos e anuncia o resultado para o vinho 1 e o vinho 2, revelando-se então quais os vinhos em confronto.

Dito isto, passemos então à acção.

Para esta segunda edição foram convidados os bloggers Rui Barradas (Reserva Recomendada) e o Jorge Filipe Nunes (Joli Wine & Food Activist). Cada um escolheu um vinho para a entrada, para o prato de peixe e para o prato de carne.

As boas-vindas ficaram a cargo do Carlos Janeiro, que escolheu um espumante bairradino das Caves São João, para acompanhar presunto fatiado com pão e broa. Espumante fresco e medianamente encorpado, com alguma estrutura mas não muito persistente, adequado para o momento inicial de descontracção.

Passando à mesa e aos pratos de resistência, começou por se provar como petiscos uma salada de polvo e recheio de sapateira, acompanhados por um Bridão Clássico branco 2014, da Adega Cooperativa do Cartaxo. Produzido a partir de Fernão Pires, mostrou-se um vinho algo liso, simples no aroma e com final de boca curto.

Com a entrada, crepe de camarão com salada russa, teve lugar o primeiro embate de dois vinhos. Em confronto, ficámos a saber após a votação que tinham estado um branco do Dão e um da Bairrada:

Somontes branco 2013 - Dão - Casa da Passarela - 12,5% - Encruzado, Malvasia Fina e Gouveio
Frei João branco 2013 - Bairrada - Caves São João - 13% - Maria Gomes, Bical, Sercial e Sauvignon Blanc

As apreciações foram muito próximas, embora o Somontes parecesse ter um aroma mais intenso e mais estrutura, o que acabou por ter reflexos na votação. O Frei João mostrou-se mais mineral e persistente, parecendo casar melhor com o prato. No entanto, no final foi Somontes a recolher a maior votação.

Para o prato de peixe, um saborosíssimo arroz de sapateira real com camarão, deu-se quanto a mim a grande surpresa. Estiveram em compita:

Prova Régia Reserva branco 2014 - Bucelas - Wine Ventures - 13,5% - Arinto
Herdade do Rocim branco 2013 - Alentejo - Rocim - 13% - Antão Vaz, Arinto e Roupeiro

Pessoalmente agradou-me mais o Prova Régia, a começar pela maior acidez, o aroma citrino e algo tropical, aromático e frutado, enquanto o Herdade do Rocim se apresentou mais encorpado e estruturado. No entanto, feita a votação o segundo venceu claramente. E com a vitória nos dois brancos, o blog Reserva Recomendada já tinha a vitória assegurada.

Faltava, no entanto, o prato de carne, um cabrito saloio à Tendinha, excelente, com batatinhas assadas e nabiças. Vinhos escolhidos:

Solista Touriga Nacional tinto 2012 - Alentejo - Adega Mayor - 14% - Touriga Nacional
Porta dos Cavaleiros tinto 2011 - Dão - Caves São João - 13,5% - Touriga Nacional, Tinta Roriz e Alfrocheiro

Mais encorpado o Solista, talvez demasiado novo, ainda adstringente e algo “cru”, é um vinho que precisa de evoluir e amaciar em garrafa. Mais suave e aromático o Porta dos Cavaleiros, acabou por ser este a recolher o maior número de votos, que deram a vitória neste confronto ao blog Joli Wine & Food Activist, ficando assim final o resultado em 2-1 a favor do Reserva Recomendada.

Para a sobremesa veio uma tarte de queijada de Sintra com um novo Bridão, desta vez um Colheita Tardia já fora do combate de blogues. Uma boa forma de fechar as hostilidades.

Mais do que quem venceu, o mais importante na noite foi o agradável convívio entre os participantes, a oportunidade de provarmos e compararmos vários vinhos em prova cega e ser apanhados por algumas surpresas que sempre acontecem em ocasiões como esta.

Parabéns à organização e aos dois bloggers que aceitaram o desafio e fizeram as suas escolhas para todos nós apreciarmos.

E agora resta aguardar pela marcação do 3º combate.

Kroniketas, enófilo esclarecido

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

No meu copo 489 - Dão Cardeal Reserva, Touriga Nacional 2009

Por falar em Dão Cardeal... Eis uma marca que não é muito badalada. Nem no Dão nem quase em lado nenhum. E no entanto existe há muitos anos, desde o tempo das antigas Caves Velhas.
À boa maneira dos tintos clássicos do Dão, apresentou-se muito suave, elegante e macio. Uma cor granada intensa e concentrada com tons violáceos, típicos da casta, aroma intenso com notas florais e de frutos vermelhos maduros, frutos do bosque e algum tostado. Sabor marcadamente frutado, macio, com boa estrutura de boca e final persistente e suave.
Boa compra, a rever e a reter nas nossas escolhas.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Cardeal Reserva, Touriga Nacional 2009 (T)
Região: Dão
Produtor: Enoport - Produção de bebidas
Grau alcoólico: 13,5%
Casta: Touriga Nacional
Preço em feira de vinhos: 7,19 €
Nota (0 a 10): 8

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

No meu copo 488 - Dão Meia Encosta tinto 2013

De vez em quando sabe bem baixar um pouco a exigência e voltar a um vinho mais simples e descomplicado.

Tal como o Terras do Demo branco seco, aqui referido há algumas semanas, este foi um dos primeiros que conheci nos anos 90 e era, na altura, um dos meus preferidos pela sua macieza, que me tornou desde logo um apaixonado pelos vinhos do Dão.

Curioso é ver os vinhos do Dão que podia beber na época. Num caderninho onde registava os vinhos que ia conhecendo, lá constam o Dão Terras Altas, o Dão Real Vinícola, o Dão Cardeal, o Porta dos Cavaleiros. O Meia Encosta estava, à época, no topo das minhas preferências.

Passados tantos anos, de vez em quando lá me apetece reencontrar-me com ele. A última tinha sido há cerca de 9 anos...

O perfil mantém-se mais ou menos na mesma. Suave, elegante, macio, sem grande exuberância aromática mas o quanto baste, bebe-se com agrado e sem esforço. Acaba por valer a pena.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Meia Encosta 2013 (T)
Região: Dão
Produtor: Sociedade dos Vinhos Borges
Grau alcoólico: 12,5%
Castas: Touriga Nacional, Jaen, Alfrocheiro, Tinta Roriz
Preço em feira de vinhos: 3,29 €
Nota (0 a 10): 6,5