sexta-feira, 29 de novembro de 2013

No meu copo 350 - Quinta do Gradil, Arinto e Sauvignon Blanc 2011

Continuando nos brancos, damos um salto à região de Lisboa.

A Quinta do Gradil é uma propriedade situada a poucos quilómetros do Cadaval, entre as povoações de Vilar e Martim Joanes, na região vitivinícola de Lisboa e geograficamente situada na órbita da Denominação de Origem Óbidos, num cenário maravilhoso de planície próxima do sopé da serra de Montejunto. Em tempos idos foi propriedade do Marquês de Pombal.

Nos anos recentes a Quinta do Gradil tem proporcionado aos enófilos a possibilidade de passarem um dia na vindima, tomando contacto com o mundo real que existe para além do que está dentro da garrafa. Quem sabe se um dia destes não nos candidatamos a ir lá...

No mercado dos vinhos da zona de Lisboa, marcados pelo clima atlântico devido à proximidade do mar, têm surgido novidades muito interessantes, pois são vinhos marcados por alguma frescura, ao mesmo tempo que mostram uma estrutura interessante (no caso dos tintos) e aromas com alguma predominância vegetal e bastante mineralidade. Curiosamente, continua a ser nesta região que existe uma maior incidência de apostas nos vinhos monocasta, de que tanto a Quinta do Gradil como a Casa Santos Lima são exemplos relevantes. No caso da Quinta do Gradil, a aposta tem-se centrado tanto nos mono como nos bivarietais, e neste caso foi um exemplar destes últimos que tive à mesa.

As castas Arinto e Sauvignon Blanc têm sido usadas com alguma frequência em combinação no mesmo lote, e geralmente com bons resultados. O Arinto, com a sua acidez característica e que se expressa de modo particularmente exuberante na Estremadura/região de Lisboa, é determinante para a frescura do vinho e uma evidente vivacidade na prova de boca pontuada por notas cítricas e alguma mineralidade. Entretanto o Sauvignon, por natureza com notas mais tropicais e algum perfil mais vegetal, complementa o lote com uma boa estrutura e uma macieza que contrabalança a acidez do Arinto. Daqui resulta uma combinação feliz e bem conseguida, num conjunto marcadamente fresco e apelativo, que se expressa muito bem na companhia de entradas diversas, mariscos ou peixes não demasiado temperados.

Tendo em conta o preço, estamos perante um produto que, sendo fácil de agradar, é bastante acessível e versátil. Portanto, uma boa aposta para brancos não muito pretensiosos e para beber com descontracção.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Quinta do Gradil, Arinto & Sauvignon 2011 (B)
Região: Lisboa (Óbidos)
Produtor: Quinta do Gradil - Sociedade Vitivinícola
Grau alcoólico: 13%
Castas: Arinto, Sauvignon Blanc
Preço em feira de vinhos: 4,75 €
Nota (0 a 10): 7,5

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

domingo, 24 de novembro de 2013

No meu copo 349 - Topázio Reserva 2010

Aproveitando a embalagem dos brancos franceses, continuamos a falar de brancos, agora acerca dum vinho que em tempos teve algum destaque entre os brancos portugueses, quando ainda era produzido pelas Caves Velhas. Era um daqueles brancos leves e fáceis de beber. Depois a marca desapareceu do mercado, até ressurgir nas prateleiras há 2 ou 3 anos, já sob o chapéu da Enoport mas mantendo no rótulo a menção às antigas e prestigiadas Caves Velhas.

Muito aromático, floral e citrino, elegante e com uma acidez que dá uma boa frescura na boca, é um vinho simpático, apelativo e fácil de beber. As castas usadas naturalmente ajudam: a acidez do Arinto junta-se ao aroma floral da Malvasia Fina e à estrutura do Viosinho.

Em resumo, o reencontro com este vinho, após longos anos de ausência, foi prazeroso, e o preço apresentado torna-o naturalmente uma compra recomendável para quem quiser um branco agradável e descomplicado, pelo que o juntámos à nossa lista de sugestões.

O único senão é que raramente se consegue encontrar à venda. O Continente por vezes apresenta-o nas feiras de vinhos, mas após o fim destas o vinho desaparece das prateleiras até à próxima feira...

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Topázio Reserva 2010 (B)
Região: Douro
Produtor: Enoport - Produção de bebidas
Grau alcoólico: 12,5%
Castas: Arinto, Viosinho, Malvasia Fina
Preço em feira de vinhos: 3,99 €
Nota (0 a 10): 7,5

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

No meu copo, na minha mesa 348 - Jantar no Jacinto com vinhos franceses

   
   
   
 

Este evento decorreu no mesmo dia do início do Encontro com o Vinho e os Sabores 2013. Tudo aconteceu de forma inesperada, após ter recebido um e-mail, proveniente dum velho conhecido ligado ao sector do vinho, com um convite para um jantar com provas comentadas de champanhe. Embora já tivesse planos para esse dia, que em parte continham uma primeira passagem pelo Encontro com o Vinho, pareceu-me que a proposta era demasiado aliciante para declinar, tendo em conta que não havia custos envolvidos.

Dito isto mudei de planos e, após a confirmação de local e horas, saí mais cedo do Centro de Congressos de Lisboa e dirigi-me a Telheiras para estar no Jacinto por volta das 21 horas. O que aconteceu, no entanto, foi que a quase totalidade dos participantes estavam no Encontro com o Vinho e foram chegando a conta-gotas, de tal forma que pelas 22 horas ainda não estávamos à mesa. Enquanto se esperava, foi-nos servido um copo de champanhe Deutz para ir passando o tempo.

Só quando toda a gente estava à mesa e foram feitas as apresentações do que se iria passar fiquei a saber que o evento era promovido pela distribuidora Mister Wine e que em vez de um produtor de champanhe iríamos ter na sala os representantes de não 1, não 2, não 3, mas 4 produtores franceses: Deutz (da região de Champagne), Delas Frères (Côtes-du-Rhone), Michel Laroche (Chablis) e Pascal Jolivet (Loire). Conversa puxa conversa, um contacto leva a outro, um é convidado para apresentar os seus vinhos e há outro que entra na conversa, e assim em vez de apenas champanhe iríamos ter também vinho branco, tinto e doce. Um verdadeiro desfile de néctares de excepção à nossa espera! E só à medida que fui identificando os presentes, quase todos ligados ao sector do vinho (jornalistas e/ou enólogos e /ou produtores, representantes da Revista de Vinhos, jornal “I”, Exame) é que me apercebi de como era um privilegiado por estar ali, eu, um mero amador que escreve num blog e de vez em quando vai conhecendo as pessoas do meio numas provas aqui e ali...

A condução das operações foi feita por José Carneiro Pinto, ligado à Quinta do Oritgão, que apresentou os representantes dos produtores presentes e anunciou o que se iria beber ao longo da refeição. Tudo em inglês, para que toda a gente percebesse...

E assim foram desfilando os pratos e os vinhos, quase todos em garrafas magnum, começando pelo champanhe Deutz Brut Classic, composto pelas castas Pinot Noir (que dá volume de boca e corpo ao vinho), Pinot Meunier e Chardonnay em partes iguais (portanto um misto de brancas e tintas, como é típico da região). Bolha fina, muito elegante, persistente (Nota: 8,5).

A partir daqui tivemos os vinhos apresentados aos pares para acompanhar cada prato. Começámos com um prato de cogumelos recheados, ovos com farinheira e queijo de cabra com mel, tudo muito bem temperado e apaladado, com os sabores muito suaves a casarem muito bem com os vinhos.

Fui debicando de cada um alternadamente, acompanhando com um branco de Pascal Jolivet, Clos du Roy 2012, da região de Sancerre. Excelente acidez, macio e persistente, com boa estrutura (Nota: 8,5). A emparelhar, um Domaine Laroche, Saint Martin 2011, de Chablis (Borgonha). Mais doce e menos estruturado que o anterior, dois perfis bastante diferentes (Nota: 8).

Passámos então à pièce de résistance, com dois pratos. Primeiro veio um polvo de cebolada que depois foi ao forno, bastante suculento, bem temperado e apetitoso. Para acompanhar, novamente um vinho de Sancerre e um de Chablis, tal como na parelha anterior. Pascal Jolivet Les Caillottes 2001, suave, aromático e profundo (Nota: 9). Infelizmente perdeu na comparação com o parceiro que veio ao mesmo tempo, para mim o vinho da noite: um Chablis Premier Cru (o segundo nível de topo, apenas abaixo dos Grand Cru) Domaine Laroche Les Vaudevey 2006, 100% Chardonnay. Grande corpo, grande estrutura, aroma interminável, tudo pontuado por uma finesse notável e uma elegância soberba. Grande, grande vinho, um autêntico néctar dos deuses que nos ajuda a perceber o porquê da fama dos brancos franceses, e dos da Borgonha em particular! E que diferença em relação aos Chardonnay feitos em Portugal, carregados de madeira, pesados, amanteigados, enjoativos... No fim, como recordação, levei para casa a garrafa de 1,5 L deste vinho sublime! (Nota: 10)

Seguiu-se outro prato de resistência, uma empada de pato com salada de alface, também excelentemente temperada. Para acompanhar, um champanhe e um tinto. Champagne Deutz Brut 2006: mousse suave, fino, elegante, excepcional! (Nota: 10). A fazer parceria, o único tinto da noite: Marquise de La Tourette Delas 1999, da região de Hermitage (Côtes-du-Rhone), 100% Syrah ou não esitvessemos no berço da casta. Um vinho que se impõe pela suavidade e elegância, típica dos tintos daquela região, marcando a diferença em relação às bombas de fruta e álcool com que vamos levando por cá na última década. (Nota: 8,5)

Para as sobremesas ainda tivemos direito a mais um duo de pratos. Primeiro um folhado de morangos com natas, acompanhado com um Champanhe Deutz rosé. Elegante, suave e aromático, corpo médio. (Nota: 8).

Finalmente, uma trilogia de doces conventuais, encharcada, fidalgo e sericaia (qual deles o melhor), acompanhados por mais um duo de vinhos. O famoso Sauternes, porventura o branco doce mais emblemático do planeta, um Château Doisy Daëne 2005 (Nota: 8,5) e mais um champanhe: Cuvée William Deutz Millésime 1999, muito seco, elegante e equilibrado. (Nota: 9)

Foi um fecho em beleza para um repasto excepcional e inolvidável, com pratos de alto nível e vinhos de excepção. Lá pela 1:30 da manhã finalmente abandonei o local, ainda restando alguns minutos de convívio entre os mais resistentes, que foram ficando até ao fim.

Só me resta agradecer o convite que em boa hora me foi dirigido pelo meu amigo José Carneiro Pinto e à Mister Wine por ter organizado este magnífico jantar. Também ao restaurante Jacinto, com uma confecção, um serviço de refeição e de vinhos irrepreensível. Depois de alguma crise atravessada na década de 1980, o Jacinto renasceu em grande e tem sido palco de alguns jantares de grande nível, cotando-se como um dos locais de eleição para jantares vínicos na cidade de Lisboa  nos últimos anos já tinha lá participado num jantar da Niepoort (1ª parte e 2ª parte) e num da Dão Sul. E finalmente aos produtores que disponibilizaram os seus fantásticos vinhos e me permitiram pela primeira vez provar e degustar um painel de vinhos franceses sublimes.

Foi mais uma noite para recordar no restaurante Jacinto. Parabéns a todos.

Kroniketas, enófilo embevecido

domingo, 17 de novembro de 2013

Encontro com o Vinho e os Sabores 2013 - As nossas visitas

 

Este é um ritual que já celebramos há bastantes anos. O Encontro com o Vinho e Sabores, organizado pela Revista de Vinhos, é sempre um marco no nosso ano vínico, chamemos-lhe assim, e um acontecimento da maior importância para todos os amantes do vinho. Por isso, mais uma vez, lá estivemos presentes no passado sábado (e não só), com a maior satisfação e disponibilidade.

Antes de falarmos mais sobre o certame e as provas, algumas considerações gerais. A quem tem ido lá todos os anos, como nós, é fácil constatar várias coisas: a afluência de público que cresceu de forma acentuada nos últimos anos o que, embora espelhe o êxito do evento, torna cada vez mais difícil o seu usufruto; a alteração na composição desse mesmo público, que passou do quase exclusivamente masculino para um equilíbrio entre os géneros, o que muito nos apraz por diversos motivos; a manutenção da representatividade dos produtores, apesar das flutuações naturais neste tipo de organizações.

A experiência deste ano começou na noite de 6ª feira, em que o Kroniketas aproveitou não só para fazer uma primeira ronda pelos stands e estar presente na divulgação dos prémios da imprensa, como se aventurou pelas mesas do restaurante Jacinto num convite de última hora (mas deste acontecimento noutra posta se falará).

Vamos então às impressões destes escribas sobre os vinhos provados no Encontro, recolhidas no sábado à tarde. Desde logo se notou a afluência mais vespertina do público, apresentando-se o pavilhão bem cheio logo por volta das 16 horas. Começou-se pela ala direita do certame, zona onde pontificam habitualmente verdes e espumantes, e foi exactamente por um verde estreme da casta Loureiro que se iniciaram as lides. O vinho da Casa da Senra mostrou grande afabilidade, sem exagero na acidez e sabor acentuado à casta. Correcto e apetecível.

Continuou-se pelos brancos com um Chardonnay Quinta do Valdoeiro, da Messias, que se mostrou escorreito, a mostrar que a casta também aqui pode fazer vinhos de valor, embora diferentes dos obtidos na origem ou nas versões Novo Mundo (leia-se, essencialmente, Nova Zelândia). Provou-se a seguir um Encruzado da Quinta da Pellada (Álvaro Castro) que, apesar do potencial que se lhe adivinhou, mostrou-se ainda muito novo e um tanto agreste. De certeza que o tempo o transformará em mais um excelente Encruzado deste produtor, que de há muito nos habituou a elevada qualidade.

A intenção de efectuar uma primeira volta só a provar brancos e fazer uma segunda passagem só para os tintos mostrou-se impossível de concretizar, pelo que se passou a usar o método habitual, ou seja, tudo à mistura.

O Bairrada estreme de Merlot (pois, agora pode) Nelson Neves Reserva mostrou-se correcto nos taninos, aromas e sabores da casta mas, como os nossos leitores já sabem, a nossa Bairrada preferida não passa por aqui. Um bom Merlot, mas que podia ser feito noutra região qualquer. De caminho provou-se também um “velho” conhecido, o Moscatel Galego da Quinta do Vallado, fresco e com o moscatel bem presente, bem adequado a pratos leves ou entradas.

Os clássicos Meandro e Quinta do Vale Meão mostraram-se iguais a si próprios, mas temos de confessar que é um perfil que começa a cansar e a saber a mais do mesmo, não refutando a sua notável qualidade. São gostos...

Outros destaques foram o Frei João Reserva 1990 em garrafa magnum, das Caves São João, o espumante Quinta do Encontro Special Cuvée (foi um dos premiados) e os Villa Maria Sauvignon Blanc e Sauvignon Blanc Reserve, assim como o Riesling e o Pinot Noir. Também se experimentou o Antónia Adelaide Ferreira no stand da Sogrape e uma grande surpresa foi um espumante de Arinto da A. C. Borba, muito bem conseguido e com uma frescura inesperada para aquelas paragens.

Acabámos também por descobrir dois produtores que não tínhamos o prazer de conhecer, um do Douro, outro do Dão. Comecemos pela Vinilourenço, onde se provaram dois monocastas durienses sob a chancela D. Graça, um de Tinto Cão, outro de Sousão. Ambos se mostraram equilibrados, com os taninos domados e sabor característico das castas que lhes deram origem. Sendo o escriba apreciador confesso da casta Tinto Cão, gostou bastante do exemplar provado – casta que não anda pelos sabores florais ou de fruta, de bom corpo sem deixar de ser elegante, pode não ser da moda mas esta metade das Krónikas gosta muito; surpreendeu a casta Sousão (Vinhão na zona dos Vinhos Verdes), tanto pelo corpo como pelo fim de boca que se diria reverberar o sabor sentido no início da prova – não a conhecíamos em versão estreme, embora seja um clássico no verde tinto e nos lotes de Porto. Só agora começa a surgir com maior notoriedade em nome próprio e parece-nos que daqui poderão sair grandes vinhos, se não se enveredar pelas bombas de fruta e álcool e quejandos.

O outro produtor dá pelo nome de Quinta das Camélias. Provaram-se um Touriga Nacional e um Reserva de lote, com castas características da região (Touriga, Alfrocheiro, Tinta Roriz e Jaen). Embora o Touriga Nacional se mostrasse de grande classe, a nossa preferência foi para o clássico de lote, que evidenciava todas as características que idolatramos nos tintos do Dão, a começar pela elegância e continuando na complexidade de aroma e sabor, naqueles níveis a que um vinho de uma única casta, por muito bom que seja, nunca conseguirá chegar (na nossa opinião, claro).

Terminou-se o périplo com uma ligeira incursão pelos Portos, que a condução posterior não permitia abundâncias etílicas. Desta vez optou-se por provar três tawnies de dois produtores: um Niepoort de 20 anos e dois Kopke, um de 10 e outro de 20 anos. Não há muito a dizer sobre estas três maravilhas – o nosso favor continua a oscilar entre a força dos Vintage e a beleza dos Tawnies velhos –, apenas que, em termos de perfil, os Kopke nos agradaram imenso.

Como já referimos, fomos amavelmente convidados (com direito a um representante, tarefa que esteve a cargo do Kroniketas) para a prova aberta à imprensa e bloggers com os 44 vinhos premiados na Escolha da Imprensa, que englobava 4 categorias: espumantes, brancos, tintos e fortificados (nenhum dos rosés avaliados teve direito a prémio).

Infelizmente, no início da prova nenhum dos vinhos estava à temperatura correcta (nem sequer os brancos e espumantes), com a excepção dos Portos Burmester 1937 e 1965, que estavam no frio e, como não existiam cuspideiras, não havia para onde deitar fora o vinho, pelo que os participantes o foram despejando no gelo onde estavam as garrafas a refrescar. Só cerca de 10 minutos depois apareceram dois bidões para servirem de cuspideiras e os vinhos, com o tempo, lá foram ficando capazes para provar.

A meio dos tintos voltou-se a um espumante rosé da Aliança, para refrescar a boca que já estava encortiçada de tanto tinto morno. E no Quinta da Leda ainda se teve direito a um bocado de rolha esfarelada dentro do copo...

Agradaram bastante os espumantes premiados, todos bem feitos, e nos brancos destacou-se o Viosinho da Quinta do Gradil, com excelente acidez e muita frescura, muito equilibrado e com boa estrutura mas elegante. Outro destaque para o Poeira branco, uma boa novidade.

A seguir aos Portos da Burmester só se experimentou um Noval 2001 e, como saltou imediatamente o álcool ao nariz, acabou-se a prova por aqui.

Chegado o tempo de partir, que o derby estava à porta, ainda houve tempo para agradecer os convites oferecidos pela Revista de Vinhos à gestora de produto da revista e para comprar umas castanhas de Trás-os-Montes que, digo-vos já, estavam óptimas!

Fica aqui também um agradecimento especial pelo convite dirigido a este blog bem como a respectiva credenciação para o acesso à prova dos vinhos premiados na escolha da imprensa. Há que ter em atenção, contudo, à logística deste evento paralelo que não é assim tão complicada. Tendo em conta a longa experiência tanto da organização como dos produtores neste tipo de certames, não se compreende que não se tenha tido na preparação da prova os cuidados básicos que qualquer enófilo minimamente experiente tem em casa: as garrafas tinham de estar à temperatura correcta para a prova antes de serem transportadas para o local, os brancos e espumantes tinham de estar já devidamente frescos e as cuspideiras tinham de estar a postos, para não se incorrer na situação verificada, de começarmos a provar espumantes que nem frios estavam e ficarmos a olhar para os produtores e os produtores para nós, sem sabermos o que fazer ao vinho que tínhamos no copo porque o mesmo não estava bebível e não tínhamos onde o despejar... Uma falha a corrigir em próximas edições, quem em nada retira o mérito a esta enorme empreitada. Mas como no melhor pano cai a nódoa, convém não descurar os detalhes para que não ocorram situações embaraçosas. Até porque provar vinhos a tender para o morno não faz jus à qualidade que os levou a serem premiados.

Até para o ano!

tuguinho, enófilo esforçado e às vezes regressado

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

No meu copo 347 - Dão Pipas Reserva 1999

Para finalizar este périplo pelo Dão, e continuando no universo Sogrape, voltamos aos clássicos.

Ainda antes do evento na Quinta da Espinhosa à volta dos vinhos do século XX, tinha sido consumida com os comensais habituais o último exemplar de Dão Pipas, adquirido em 2008 aproveitando uns restos de colecção no Jumbo a um preço muito atractivo. E depois de provar este último exemplar, como lamentei não ter comprado todas as garrafas que lá estavam...

Prudentemente decantado com a antecedência suficiente para libertar os aromas aprisionados por tão longa permanência em garrafa, rapidamente o vinho se guindou a um nível de exuberância aromática surpreendente e com uma vivacidade e estrutura na boca que em nada indiciavam estarmos perante um vinho já com 14 anos. A cor estava lindíssima, com um rubi brilhante que era característico de muitos clássicos do Dão em novos, o aroma limpíssimo e jovem, ainda com bastante presença de fruta e um final longo, longo, longo... Mais uma vez se confirmou que estes vinhos eram autênticas preciosidades feitas para durar e apreciar durante longos anos.

Depois desta prova e da que se realizou na Quinta da Espinhosa, ficou a vontade de voltar a procurar estes vinhos nas garrafeiras. Porque estes nos deixam memórias quase irrepetíveis.

Notável!

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Dão Pipas Reserva 1999 (T)
Região: Dão
Produtor: Sogrape Vinhos
Grau alcoólico: 12%
Preço: 8,57 € (em 2008)
Nota (0 a 10): 9


Provas de outras colheitas deste vinho:
Dão Pipas 1985
Dão Pipas 1983 e 1997
Dão Pipas 1996

domingo, 10 de novembro de 2013

Na GN Cellar 3 - Quinta dos Carvalhais

     
Mesmo na véspera do arranque do Encontro com o Vinho e os Sabores 2013, ainda houve oportunidade de passar pelas instalações da Garrafeira Nacional na Rua da Conceição para uma prova de vinhos da Quinta dos Carvalhais, com a presença do enólogo-chefe Manuel Vieira e da enóloga Beatriz Cabral de Almeida.

Em prova estiveram dois brancos e quatro tintos, que foram sendo apresentados pelo Eng. Manuel Vieira à medida que cada um deles era servido no copo. Nesta provas tivemos a curiosidade de serem provados vinhos monocasta e vinhos de lote de forma intercalada, o que permitiu diferenciar claramente as características duns e doutros.

Nos brancos tivemos em primeiro lugar um monocasta de Encruzado. Pareceu-me algo linear na prova de boca, embora melhor no aroma, mais exuberante e mineral. Lembrei-me ainda do Encruzado da Quinta da Falorca que tinha provado na semana anterior, e tinha-me agradado mais, revelando-se mais estruturado e persistente.

Bem diferente foi o segundo branco, um Colheita Selecionada de Encruzado e Verdelho, que mostrou bem a diferença em relação ao anterior. Teve estágio em madeira, o que lhe dá outra complexidade, sendo que a madeira não se impõe nos sabores nem nos aromas. Este provou melhor, revelou-se com outro porte, estando mais vocacionado para a mesa, com aromas mais tropicais e maior persistência. Não conhecia esta versão e fiquei bastante agradado.

Passando aos tintos, começámos pelo Colheita, o mais barato dos quatro e feito a partir de um lote de Tinta Roriz, Trincadeira e Alfrocheiro. Um vinho equilibrado mas consistente, estruturado quanto baste e feito para se gostar. Um Dão típico, à moda clássica.

Seguiu-se um monocasta de Touriga Nacional, com aquelas características florais típicas da casta. Confesso, no entanto, que este perfil de vinhos já me começa a cansar, porque apesar de todas as loas que são cantadas a esta casta, a solo começa a tornar-se monocórdica, sempre igual, nunca se espera nada de novo. Não há muito tempo tinha bebido um Alfrocheiro de 2006, que se revelou muito mais vibrante que este. Após muita insistência, a Touriga já cansa, principalmente porque se seguiu o Reserva, outro vinho de lote entre a Tinta Roriz e a Touriga Nacional, que se apresentou muito mais complexo e estruturado, com outra persistência, um vinho a requerer mais tempo no copo para melhor lhe apreciar as características.

Finalmente, o topo da gama dos Carvalhais: o Único 2009, apenas a segunda colheita depois da de 2005 que tínhamos provado há uns anos em estreia na Wine O’Clock. Na altura achámo-lo extraordinário, quase ao nível dum Vinho do Porto, e pareceu estar ali o potencial e ansiado Barca Velha do Dão. Nesta prova apareceu menos exuberante, com os aromas algo escondidos, porque ao contrário da ocasião anterior não houve tempo para libertar todas as suas características aromáticas e estruturais. Mas o potencial pareceu novamente estar lá.

Manuel Vieira foi explicando as características de cada vinho e o modo como é produzido e como são escolhidas as uvas, dando realce a duas vinhas da Quinta dos Carvalhais: a vinha da Palmeira e a vinha da Anta, que parece ser aquela que apresenta as características ideais para a escolha das uvas para fazer vinhos de excepção. Foi dali que saíram as uvas para o Único, que deveria ser um lote mas em que as uvas de Touriga se impuseram ao enólogo, nas palavras do próprio.

E assim ficámos a conhecer as novidades da Sogrape no Dão, numa antecipação do evento que se ia seguir. No dia seguinte marchámos para a 14ª edição do Encontro com o Vinho e os Sabores.

Em aberto ficou ainda a hipótese de marcar uma visita conduzida pelo Eng. Manuel Vieira à garrafeira da Quinta dos Carvalhais, para descobrir as relíquias que por lá estão...

Kroniketas, enófilo esclarecido

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Na GN Cellar 2 - Quinta da Falorca



Continuando este périplo pelo Dão, na passada semana tive oportunidade de me deslocar às novas instalações da Garrafeira Nacional, a GN Cellar na Rua da Conceição, na baixa lisboeta, para uma prova de vinhos da Quinta da Falorca, onde tive oportunidade de reencontrar o Pingus Vinicus, natural e grande aficionado da região.

Sendo um dos nomes que vão sendo badalados como estando na linha da frente para a reabilitação do prestígio do Dão, era uma boa oportunidade de conhecer o que este produtor nos coloca à disposição. Começámos por um branco de Encruzado de 2012, a casta da moda nos brancos do Dão, que se mostrou apetitoso, bem estruturado, com alguma mineralidade e frescura na boca. Apesar dos 14% de álcool, este não se faz sentir e não pesa na prova.

Seguiram-se 4 tintos, um deles que apareceu como surpresa para o fim do evento. O Reserva Lagar 2009 é um tinto típico do Dão, suave e equilibrado, algo discreto de aromas. Os dois seguintes, um Touriga Nacional 2005 e um Garrafeira 2007, mostraram perfis bastante diferentes. No caso no monocasta, apresentou o floral típico da Touriga, alguma vivacidade na boca, mas perdeu na comparação muito próxima com o Garrafeira. Este revelou-se um vinho já maduro, crescido, num óptimo ponto de evolução, elegante e ao mesmo tempo estruturado, um verdadeiro Dão clássico, um vinho claramente para mesa, a pedir um prato requintado e bem temperado.

Já na recta final, apareceu o vinho-surpresa, um Reserva 2001. Um dos tais a fazer lembrar os vinhos antigos. Suave, equilibrado, elegante, com tudo no ponto certo, um vinho para apreciar e degustar devagarinho e sem pressa.
Daquilo que é possível reter num evento deste género, a qualidade média mostrou-se bastante elevada, embora os preços dos vinhos apresentados possam tornar-se dissuasores, uma vez que à excepção do branco todos apresentam valores acima dos 20 €. Há que lhes dar tempo para fazerem o seu caminho.

Kroniketas, enófilo esclarecido

domingo, 3 de novembro de 2013

No meu copo 346 - Paço dos Cunhas de Santar Nature 2010

Continuando na onda dos vinhos do Dão, e ainda dentro do universo da Dão Sul/Global Wines, agora um vinho recente e que se pretende diferente. O nome “Nature” que foi acrescentado à marca refere-se ao modo de elaboração do mesmo: obtido a partir de uvas biológicas, sem estágio em madeira, estabilização pelo frio nem filtração. Pretende-se, portanto, ter um produto o mais natural possível.

A verdade é que o resultado é deveras agradável. Embora mantendo também o defeito de um pouco de álcool a mais, aqui esse aspecto não é tão evidente como no Cabriz Touriga Nacional mencionado no post anterior. Este Paço dos Cunhas de Santar Nature é um vinho mais aberto na cor, com a fruta bem marcada no aroma, muito menos concentrado e bastante mais leve na prova de boca, onde predomina alguma elegância e o equilíbrio.

Deste modo temos aqui um vinho que faz jus à suavidade dos vinhos do Dão enquanto apresenta um perfil moderno que pode dar um bom contributo para a recuperação do prestígio da região.

Um bom produto, por um preço aceitável, a revisitar.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Paço dos Cunhas de Santar Nature 2010 (T)
Região: Dão
Produtor: Paço de Santar - Dão Sul
Grau alcoólico: 14%
Castas: Tinta Roriz, Touriga Nacional
Preço em feira de vinhos: 6,99 €
Nota (0 a 10): 8