quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Um passeio pelo Dão - 2 (por entre serras e vinhas)

No meu copo, na minha mesa 345 - Cabriz, Touriga Nacional 2010; Restaurante Quinta de Cabriz (Carregal do Sal)


                
   

O resto do fim-de-semana foi para passear e conhecer a zona, tanto quanto possível dentro dos limites da região demarcada do Dão. De tarde fomos a Penalva do Castelo, passeámos nos enormes jardins da Casa da Ínsua, depois fomos a Fornos de Algodres e regressámos a Mangualde. Seguimos a sugestão do Pingus Vinicus e tentámos jantar no Valério... só que estava fechado, num sábado à noite. Foi difícil encontrar algo decente para jantar, e acabámos numa churrasqueira/pizzaria, a comer pizza e lombinhos de porco com cogumelos. Jantar tipicamente beirão, portanto...

Estranhámos a falta de oferta gastronómica na cidade num sábado à noite, mas talvez a crise ajude a explicar o fenómeno, pois no distrito de Viseu, para além da capital de distrito, Manugalde parece ser a cidade mais em destaque e naquela zona, para sueste, não há mais nenhuma cidade. Talvez o turismo não seja muito tido em conta por aquelas paragens...

O domingo foi dedicado a mais passeios, mas já apontando a sudoeste: primeiro em direcção a Nelas, com passagem à porta do Bem-Haja, uma referência obrigatória nos guias de restaurantes e com menção no Guia Michelin (pelo sim pelo não, já está localizado...), junto à adega Pedra Cancela e, quase por acaso, acabámos por topar com a entrada do Centro de Estudos Vitivinícolas do Dão, essa entidade histórica e que tão importante papel teve ao longo de décadas no vinho da região, que acabou de completar 105 anos de existência!

De Nelas rumámos a Santar, onde quase somos inundados pela vasta área de vinha da Casa de Santar, que começa a ser visível quando se começa a descer para o vale antes da povoação, depois de passar Vilar Seco. Passámos junto à adega da Casa de Santar, espreitámos o Paço dos Cunhas e a Quinta do Sobral e serpenteámos pelas ruas estreitas da povoação, que mantém uma traça quase medieval muito bem preservada. Para além das empresas produtoras de vinho ali sediadas, vale a pena visitar a pequena povoação pela beleza e enquadramento paisagístico.

Em todo este périplo, acabámos por deixar para trás um dos alvos possíveis da viagem, a Quinta dos Carvalhais, que implica um desvio em direcção a Alcafache. Mas ficou na agenda para uma próxima oportunidade, assim como o Bem-Haja, porque a seguir apontámos o trajecto em direcção a Carregal do Sal para chegar à Quinta de Cabriz à hora de almoço - ainda era demasiado cedo para parar em Nelas e abancar no Bem-Haja.

Mesmo ao pé da rotunda à entrada de Carregal do Sal, quando se entra pelo lado do IC12, logo junto à estrada vemos a placa que indica Restaurante Quinta de Cabriz – Enoturismo. Enoturismo a sério, é o mínimo que se pode dizer. Serviço impecável, rápido, simpático, eficiente, sempre em cima do acontecimento mas sem maçar o cliente.

Antes do prato principal fomos brindados com uma oferta do chefe, que nos enviou uns rissóis e uns pastelinhos de bacalhau ainda quentes, e com um espumante de boas-vindas, um Quinta do Encontro rosé feito exclusivamente de Touriga Nacional, muito leve e aberto, de cor salmão clara e um bom complemento para as entradas.

Havia um menu de degustação por 17,50 €, que incluía uma entrada, um prato e uma sobremesa, cada um acompanhado com o seu vinho, mas com um pequeno senão: era tudo baseado em maçã bravo de Esmolfe, do princípio ao fim, e considerámos que era maçã a mais, pelo que fomos para o menu da casa e escolhemos um cabrito à moda de Cabriz, de confecção irrepreensível, com batatinhas assadas, esparregado e arroz de feijão. De realçar a possibilidade, assinalada no menu, de pedir dose e meia do prato principal, o que também é de saudar e ajuda a gerir as quantidades que se pode comer, e foi essa a opção escolhida.

No final, um carrinho de sobremesas com múltiplas escolhas, tendo-se pedido apenas uma versão cremosa de tiramisu a lembrar mais o leite-creme, que estava bom mas muito consistente, dando para dividir por dois.

Os vinhos são vendidos a preços de produtor, mais baratos que no supermercado, o que se saúda. Por exemplo, o Cabriz Colheita Seleccionada, que se compra por cerca de 2,70 € no comércio, estava à venda a 2,20 € por garrafa de 75 cl, e a 1,10 € a garrafa de 37,5 cl. O preço dos pratos também não escalda. No final, com vinho, sobremesa e café, 20 € por pessoa é bastante razoável para a qualidade do restaurante nas suas diversas vertentes.

O ponto menos positivo acabou por recair precisamente no vinho escolhido. Estando disponível todo o portefólio da Dão Sul, desde os Portos das Tecedeiras até ao alentejanos do Monte da Cal, passando pela Quinta do Encontro na Bairrada e pela Casa de Santar e pelo Paço dos Cunhas no Dão, a dificuldade está em adequar a quantidade que se vai beber e o perfil do vinho ao prato. Dentro dos preços ajuizados, a escolha foi um Cabriz Touriga Nacional 2010, que decepcionou e se revelou uma má opção: 14,5% de álcool, um vinho pesadíssimo, superconcentrado, enjoativo, impossível de beber por muito tempo. Ao segundo copo já farta a ficamos com o palato completamente saturado. Com algum sacrifício, eu e a minha mulher não conseguimos sequer beber metade da garrafa, pelo que o resto veio rolhado para casa. Não é que se possa dizer que o vinho é defeituoso, mas com vinhos deste perfil, infelizmente, por este caminho não vamos lá.

Definitivamente, estou farto deste tipo de vinhos e não consigo mais bebê-los. Bem refere Luís Antunes, no seu artigo na Revista de Vinhos de Outubro, os casos em que em vez de apetecer uma segunda garrafa, nem se consegue acabar a primeira. Foi esse o caso. Se soubesse que esta colheita estava assim, tinha pedido um Casa de Santar Reserva, que de certeza ficava mais bem servido.

Enquanto os produtores e enólogos insistirem neste caminho, estão a dar tiros nos pés. Porque quando o cliente não consegue consumir, sequer, metade duma garrafa de vinho que se espera que seja de qualidade superior, certamente a culpa não é do cliente... Senhores produtores e enólogos, duma vez por todas abram os olhos e não insistam em trilhar este caminho, porque mais cedo ou mais tarde vão arrepender-se. Pela parte que me toca, enquanto este vinho mantiver este perfil não voltarei a pedi-lo nem a comprá-lo em lado nenhum. É pena, porque a Dão Sul é uma das empresas de que se espera sempre o melhor, mas ir atrás da moda é capaz de não ser a melhor política.

No fim, ainda antes do regresso a casa e para ajudar a digerir o almoço, ainda houve tempo para um pequeno passeio pelo jardim entre o restaurante, a loja de vinhos e a adega, uma espreitadela às gigantescas cubas de fermentação por trás desta e ainda a observação de 10 fileiras de cepas com amostras de castas tintas usadas nos vinhos da empresa, que bordejam a entrada da adega. Por ordem alfabética, encontramos Alfrocheiro, Alicante Bouschet, Aragonês, Baga, Jaen, Syrah, Tinto Cão, Touriga Franca, Touriga Nacional e Trincadeira. Aliás, já tínhamos visto o mesmo nos jardins da Casa da Ínsua, onde está devidamente assinalado o Canteiro das Castas que são usadas nos vinhos da casa.

A partir daqui, o regresso à capital com uma sensação de satisfação pelos passeios dados e pelos locais visitados, mas com vontade de voltar ao Dão mais cedo ou mais tarde. De preferência mais cedo...

Viva o Dão e os 105 anos da região demarcada!

Kroniketas, enófilo itinerante

Vinho: Cabriz, Touriga Nacional 2010 (T)
Região: Dão
Produtor: Dão Sul
Grau alcoólico: 14,5%
Casta: Touriga Nacional
Preço no restaurante: 10,40 €
Nota (0 a 10): 5,5

Restaurante: Quinta de Cabriz
Carregal do Sal
Tel: 232.961.222 / 232.960.140
Preço médio por refeição: 20 a 25 €
Nota (0 a 5): 4,5

domingo, 27 de outubro de 2013

Um passeio pelo Dão - 1

Almoço na Quinta da Espinhosa


  
     

Respondendo ao desafio do Pingus Vinicus, no âmbito de mais uma iniciativa do grupo do Facebook #daowinelover, no fim-de-semana de 19 e 20 de Outubro desloquei-me ao Dão para um almoço com alguns dos irredutíveis amantes do vinho do Dão, que andam à procura de vinhos diferentes e de relíquias do antigamente. Aliás, o próprio tema do encontro era subordinado aos vinhos do século XX: cada participante, para além do custo do repasto, estava comprometido a contribuir com uma garrafa de vinho do Dão do século XX.

Desta vez nenhum dos comparsas do costume se disponibilizou para alinhar na iniciativa, pelo que a deslocação se fez, pela primeira vez, em formato de casal. Aproveitando uma oferta surgida do nada, pernoitei durante o fim-de-semana com a minha mulher no Hotel Senhora do Castelo, situado no cimo dum monte em Mangualde, mesmo ao lado do santuário com o mesmo nome. Dificilmente o local poderia ser mais adequado, pois ficámos mesmo no coração da região demarcada do Dão, com acesso rápido à maioria das localidades onde se situam produtores e quintas de referência.

A viagem decorreu na 6ª feira à noite sob um temporal incessante, que se prolongou ao longo de todo o trajecto até à chegada a Mangualde. O Pingus Vinicus tinha-me dito que era fácil encontrar o hotel, bastava olhar ao longe até encontrar a cruz do Santuário da Senhora do Castelo... Mas com o céu carregado como estava, não se via além de 100 metros, pelo que santuário... nem vê-lo. Mas lá conseguimos chegar ao monte da Senhora do Castelo já para lá da meia-noite, na esperança de que o dia seguinte nos brindasse com alguma acalmia.

O amanhecer revelou-nos o esplendor do local. Em frente à janela do quarto, estendendo-se ao longo do horizonte, a Serra da Estrela marcava a paisagem para nascente. Do cimo do monte tem-se uma vista privilegiada sobre toda a zona circundante e lá em baixo avista-se Mangualde, a A25 e toda uma zona mais ou menos plana por entre as serras que caracterizam a região.

O encontro estava marcado para o meio da manhã na Quinta da Espinhosa, em Vila Nova de Tázem, onde iria decorrer o convívio e o almoço. Tomado o caminho para Gouveia, entrámos rapidamente em zona de serra e estradas sinuosas, serpenteando por entre vinhas, olivais e floresta, passando por algumas localidades com a traça típica da Beira Alta, com as suas casas de pedra. Por entre subidas e descidas várias, lá chegámos em menos de meia-hora a Vila Nova de Tázem e encontrámos a Quinta da Espinhosa, onde foi possível conhecer uma boa parte dos convivas com quem habitualmente vamos trocando impressões no grupo do Facebook.

Desde logo atacámos a mesa onde os vinhos iam sendo expostos. Tendo esgotado as relíquias que ainda restavam na garrafeira, só me restou recorrer a um exemplar do Dão Sogrape Reserva 99 que tinha sido adquirido há uns meses através duma encomenda na garrafeira Néctar das Avenidas. À volta da mesa de petiscos foram-se trocando impressões, obtendo informações de alguns produtores presentes (Luís Lourenço, da Quinta dos Roques, já lá estava e foi um dos animadores de serviço), debicando aqui e ali até ser tempo de sentar à mesa de almoço, onde pudemos entreter-nos com um cabrito feito à moda da casa e ir rodando pelos vinhos que estavam à disposição.

Na impossibilidade de provar todos os vinhos, resta dar algum destaque àqueles que mais me marcaram. Excelentes um Quinta dos Roques 1990, um 1996 do Centro de Estudos Vitivinícolas do Dão, um Meia Encosta Garrafeira de 1995 e, aparecido já com o almoço a decorrer, um Porta dos Cavaleiros 1983, adquirido pela Joana Marta e pelo Pedro Moreira às Caves São João. Um daqueles à moda antiga, espantoso na saúde dos seus 30 anos! Já em final de repasto, um Colibri Presidencial branco de 1980 fez a sua aparição à mesa, também pleno de saúde e aromas. Foi assim baptizado em homenagem à visita do Presidente da República à Quinta da Espinhosa, em 1980, e bem mereceu o nome porque estava digno de um presidente ou de um rei!

Para finalizar ainda circulou pela mesa um licoroso da Quinta da Falorca de 2010, que em nada desmerece na comparação com alguns vinhos do Porto mais comuns, para acompanhar leite-creme, arroz doce, castanhas e maçãs assadas (estamos na terra da maça bravo de esmolfe).

Terminado o repasto, era altura de regressar à base, a Mangualde, pois o programa para o resto do dia ainda ia a meio. Os restantes convivas ficaram até à noite, todos na boa companhia uns dos outros.

Resta-me agradecer ao Pingus Vinicus por mais esta iniciativa em prol dos vinhos do Dão, que à semelhança de outras nos vão ajudando a redescobrir as preciosidades que ainda andam por aí, e nos permitem beber vinho sem ter de “gramar” com 14 graus de álcool a cada passo que damos. Assim tenhamos oportunidade de encontrá-las.

Kroniketas, enófilo itinerante

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

No meu copo 344 - Pai Abel Chumbado 2011

Continuando na Bairrada... Já tivemos oportunidade de falar de passagem deste vinho, a propósito de duas provas da Quinta das Bágeiras, na Wine O’Clock e na GN Cellar.

É um branco que, graças às originalidades da regulamentação portuguesa, conseguiu a proeza de ser reprovado como vinho DOC Bairrada da câmara de provadores da Comissão Vitivinícola Regional. O produtor, Mário Sérgio, pouco se importou com esse detalhe de ordem legal e aproveitou para baptizar o vinho com um nome que só lhe dá mais destaque: acrescentou-lhe ao nome a palavra “Chumbado”. Daí a tornar-se um caso de notoriedade foi um passo. Sabe-se como muitas vezes a publicidade negativa tem o efeito contrário sobre o objecto dessa publicidade, e o facto de ter sido chumbado pela CVR fez disparar a curiosidade sobre este vinho. A curiosidade e o preço...

Assim tivemos oportunidade de adquirir uma garrafa que já foi partilhada entre os convivas habituais, e confirmou as impressões recolhidas nas provas. É um Bairrada de perfil clássico, encorpado, cheio, de aroma algo fechado, mas que é aveludado na boca, persistente e longo. Um branco vocacionado para dias mais frios mas que tem capacidade para se bater com qualquer prato requintado. Mesmo com alguns pratos de carne poderá ser uma opção a considerar.

Em suma, um vinho excelente, por um preço algo exagerado mas que vale bem a prova para se ficar a conhecer como é, e ver como se faz um branco que pode ser de Inverno ou de todas as estações sem o carregar de madeira. Mais um produto da Quinta das Bágeiras que promete tornar-se um clássico da Bairrada.

E de seguida, vamos para os clássicos do Dão...

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Pai Abel Chumbado 2011 (B)
Região: Bairrada (sem denominação de origem)
Produtor: Mário Sérgio Alves Nuno
Grau alcoólico: 13,5%
Preço: 23,85 €
Nota (0 a 10): 8,5

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

No meu copo 343 - Luís Pato 2003

Para enquadrar o relato sobre o evento na Bairrada, nada melhor que voltar a provar um clássico da Bairrada, neste caso sob o lema da “tradição de inovar”: trata-se de um Luís Pato 2003, produzido apenas com a casta Baga, já com a nova roupagem que o distingue das colheitas até aos anos 90.

Tratando-se dum vinho com 10 anos, e que esperou 8 anos para ser consumido (foi adquirido em 2005, portanto ainda bastante jovem), espera-se que esteja no ponto óptimo para beber, e de facto assim aconteceu. Na boca apresentou-se cheio, estruturado e robusto, ainda com potencial para continuar em garrafa, mas ao mesmo tempo já amaciado e com taninos suaves e sedosos. Acompanhou na perfeição um frango assado no forno, batendo-se bem com alguma acidez dos temperos, ao mesmo tempo que limpou o palato e deixou sempre espaço em aberto para mais um copo.

Claro que não tem nada de parecido com os vinhos da moda, felizmente digo eu, e era isso que eu esperava dele. Só me faz confusão haver quem prefira o outro estilo a este...

É sem dúvida um clássico com um toque moderno por um preço muito apelativo.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Luís Pato 2003 (T)
Região: Bairrada
Produtor: Luís Pato
Grau alcoólico: 12,5%
Casta: Baga
Preço em feira de vinhos: 4,14 €
Nota (0 a 10): 8

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

1º Encontro com os Vinhos e Sabores da Bairrada 2013 (4ª parte - final)

Prova de brancos de excelência


 

Velódromo de Sangalhos, 16:00 h. O autocarro estaciona no parque e saímos apressadamente em direcção a uma porta lateral que dá entrada directa para a sala onde vai decorrer a prova de brancos de excelência. Ao comando das operações está Luís Antunes, um dos redactores da Revista de Vinhos, que conduz a prova num tom leve, simpático, descontraído e bem-disposto, bastante diferente do registo por vezes excessivamente técnico com que escreve. Dirige-se directamente aos presentes, questiona, pede opiniões, incita os presentes na prova a uma participação mais interactiva.

Em pequenas mesas fomo-nos distribuindo pela sala até esta ficar repleta, e os vinhos começaram a desfilar. 10 brancos da Bairrada, de diversos produtores e com diversos perfis, abarcando as castas mais emblemáticas da região: Bical e Maria Gomes são incontornáveis, e juntam-se o Cerceal, o Arinto, o Chardonnay, com madeira e sem madeira, com bâtonnage e sem bâtonnage, vários estilos nos vão vai passando pelos copos: Aequinoctium, Encontro 1, Filipa Pato Nossa Calcário, Frei João Reserva, Luís Pato Vinha Formal, Quinta do Ortigão Sauvignon Blanc, Quinta do Valdoeiro Chardonnay, Quinta dos Abibes Sublime, Rama Sauvignon Blanc, Volúpia...

Durante uma hora pudemos apreciar vários estilos, e em todos eles encontrámos um traço comum: frescura, boa acidez, uma envolvência na boca que pede comida, estrutura e persistência, tudo a prometer uma longevidade invulgar.

Eram 5 da tarde, e estávamos em provas praticamente desde as 11 da manhã, com um almoço de permeio. Agora finalmente íamos rumar à sala do velódromo, no piso inferior, onde decorria o festival de vinhos propriamente dito, com a presença de 32 produtores da região, desde os mais mediáticos como Aliança, Adega Cooperativa de Cantanhede, Luis Pato, Filipa Pato, Campolargo, Caves São Domingos, Caves Messias, Caves Primavera, Caves São João, Quinta das Bágeiras ou Quinta do Encontro, até outros menos badalados, como Ataíde Semedo, Casa d’Almear, Caves Arcos do Rei, Célia e Nelson Neves, Paulo Santos, Quinta da Mata Fidalga, Quinta dos Abibes, Quinta do Ortigão ou Vinícola Castelar, além de diversas empresas de sabores com produtos regionais.

Fui parando e provando aqui e ali, trocando uns dedos de conversa ali e acolá, mas o cansaço e a saturação das provas começou a fazer-se sentir. Ainda havia a possibilidade de participar no jantar “Sabores da terra”, a 35 € por cabeça, que inicialmente era um dos objectivos da viagem, mas que estava esgotado. Embora à última hora houvesse desistências e portanto abrissem vagas, considerei que já não tinha condições para mais provas nesse dia, pelo que por volta das 19 horas o meu programa terminou, abdicando do ansiado jantar temático. A solução passou por comprar umas doses de leitão na Mealhada para comer ao chegar a casa.

Deste intenso dia de provas quase em ritmo non-stop, o que fica de relevante é isto: tanto o Dão como a Bairrada, regiões esquecidas pelo grande público consumidor nos últimos 10/15 anos, estão a renovar-se e, por diversas formas – quer através das entidades oficiais, quer através de associações de produtores, quer através dos simples enófilos que promovem encontros para dinamizar e dar a conhecer o que se faz agora – a tentar recuperar o estatuto de excelência que já possuíram e sem dúvida merecem (por sinal, sempre foram as minhas duas regiões preferidas). Cada uma com um perfil muito próprio e diferenciado de todas as outras, estas são as duas regiões onde se pode apostar na longevidade, no equilíbrio e na elegância que só o tempo consegue conferir a certos vinhos. Todos aqueles que querem mais do que simplesmente beber bombas de fruta, superdoces, hiperconcentradas e hiperalcoólicas, é aqui que devem procurar a diferença em relação aos já saturantes “vinhos da moda”.

Por aquilo que se pôde ver e provar, o caminho ainda está por fazer, mas abre-se à nossa frente para ser percorrido. Assim os todos os agentes e as entidades interessadas tomem as decisões certas e puxem todos para o mesmo lado.

Kroniketas, enófilo viajante

terça-feira, 15 de outubro de 2013

1º Encontro com os Vinhos e Sabores da Bairrada 2013 (3ª parte)

Luís Pato fala sobre os seus vinhos e sobre a casta Baga



Com a devida vénia, aqui reproduzimos um excerto da exposição de Luís Pato sobre os seus vinhos e a sua devoção pela casta Baga. Este vídeo foi gravado na cave da adega. Vale a pena ouvir com atenção esta lição de sabedoria.

Kroniketas, enófilo viajante

domingo, 13 de outubro de 2013

1º Encontro com os Vinhos e Sabores da Bairrada 2013 (2ª parte)

Almoço na Adega Luís Pato


        
   

O autocarro aguardava já para arrancar rumo ao próximo destino, e a Joana Pratas chamava os retardatários, que tardavam em abandonar as instalações das Caves São João...

Tomámos assento rapidamente e rumámos a Amoreira da Gândara, em Óis do Bairro, para ir ao encontro de Luís Pato. O estacionamento fez-se junto duma zona de vinhas enquanto o enólogo aguardava já à porta os visitantes. Lá dentro, na zona de recepção, mais dois elementos da Revista de Vinhos (João Afonso e Fernando Melo, alvo de leituras regulares na revista) entretinham-se já com uns brancos de Vinhas Velhas, de 1995 e 1998.

Feita a recepção aos visitantes e após uma pequena introdução por parte do “senhor Bairrada” acerca do seu projecto, descemos à cave onde se situam as salas de barricas e de armazenamento, em ambiente naturalmente fresco por estarem no piso abaixo da entrada que, no exterior, está forrada a relva, conseguindo assim uma variação anual de temperatura lenta e que oscila apenas entre os 13 e os 18 graus.

Reunidos em frente às salas de barricas, o enólogo dissertou pacientemente sobre as virtualidades da sua amada Baga, uma casta difícil mas que bem trabalhada pode guindar-se ao nível de algumas das mais famosas dos mais famosos países produtores de vinho, como o Pinot Noir, da Borgonha, e o Sangiovese, do Brunello di Montalcino. Luís Pato fez também questão de frisar que não planta castas estrangeiras a não ser as que vieram de regiões vizinhas: a Touriga Nacional, do Dão, e o Tinto Cão, do Douro (por sinal são as que utiliza no seu BTT). E deixou no ar uma pergunta: se eu tenho aqui condições para produzir com castas ao nível das melhores do mundo, porquê importá-las do estrangeiro?

A hora ia adiantada, e a fome já apertada, pelo que era tempo de voltarmos a subir para o almoço. Passámos pelo exterior para uma ampla esplanada onde pudemos servir-nos das diversas iguarias disponíveis (destaque para a originalidade duma cabidela de leitão) e dum amplo leque de vinhos, entre brancos, tintos e espumantes brancos e rosés.

À volta da mesa, fomo-nos deliciando com os néctares que conseguíamos trazer, e dos quais tirámos alguns momentos sublimes. Destaque particular para as colheitas de Luís Pato 1988, 1990 e 1995, verdadeiramente sublimes, vinhos sem idade, expoentes máximos da casta Baga que mostram como estão desfasados da excelência aqueles que lhe viraram as costas. Porque como realçam os grandes mestres do vinho, quando mais trabalho o vinho dá a fazer, mais prazer vai proporcionar no futuro. E graças ao “mister Baga” esta casta não morrerá e, mais dia menos dia, acabará por retomar o lugar de excelência que os resultados obtidos proporcionam. Assim os consumidores não queiram beber apenas o vinho do ano...

Chegámos a meio da tarde, e mais uma vez estávamos a queimar o horário. Para as 16 h estava marcada a prova de brancos de excelência, no Velódromo de Sangalhos. Ainda com o almoço a digerir, rumámos de novo apressadamente para o autocarro a caminho de Sangalhos, onde nos esperava Luís Antunes.

Kroniketas, enófilo viajante