quarta-feira, 31 de julho de 2013

No meu copo 330 - Casa da Passarela, A Descoberta 2012

Terminamos o mês de Julho no Dão, com um branco que nos despertou a curiosidade há uns meses e do qual adquiri uma garrafa a semana passada. Aproveitando um repasto de fim de época com os comensais do costume, tratei de levar a garrafa e desde logo se procedeu à sua degustação.

Conhecemos este vinho aquando do evento Dão Winelover Whiteday, que teve lugar em Abril passado. Entre os muitos vinhos brancos presentes para prova, este foi uma boa e grande surpresa pela frescura e elegância que apresentou, que nos deixou curiosos para uma prova mais demorada. E uma deslocação à Delidelux para uma prova de brancos da Niepoort fez-nos cruzar o olhar com uma destas garrafas. O Politikos tratou, logo ali, de adquirir uma e eu acabei por voltar atrás e comprar outra, que foi aberta no fim-de-semana seguinte.

A primeira impressão no nariz confirmou as memórias que tínhamos, com um floral marcante no aroma. Na boca apresentou uma frescura evidente, com notas marcadamente vegetais, uma acentuada mineralidade e grande persistência.

Um vinho elegante, de belo recorte e com uma excelente relação qualidade/preço, pois por aquilo que custou, e fazendo jus ao nome que ostenta, merece “a descoberta” e sucessivas “redescobertas”.

Agora é tempo de férias.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Casa da Passrela, A Descoberta 2012 (B)
Região: Dão
Produtor: O Abrigo da Passarela
Grau alcoólico: 13%
Castas: Encruzado, Malvasia Fina, Verdelho
Preço: 5,10 €
Nota (0 a 10): 8

sábado, 27 de julho de 2013

No meu copo 329 - Quinta dos Carvalhais, Alfrocheiro 2006

Ainda no Dão e agora com um grande tinto da Sogrape: este Quinta dos Carvalhais 2006 foi adquirido numa promoção da revista Sábado, que durante algumas semanas colocou à venda um conjunto de vinhos de qualidade acima da média a preços razoáveis. Aproveitámos a ocasião e um dia destes abrimos este Alfrocheiro.

Esta é aquela casta de que ninguém parece lembrar-se, de que ninguém fala, que passa sempre despercebida entre as castas da moda e das que migram de norte para sul e de sul para norte. Mas eis senão quando topamos com ela... e saem-nos vinhos extraordinários!

Nunca será demais recordar aqui as provas efectuadas com umas garrafas de Alfrocheiro de 2000 da Herdade do Peso (portanto, e talvez não por acaso, continuamos no universo Sogrape...), e este Quinta dos Carvalhais foi uma quase completa revelação!

A primeira impressão foi desde logo muito boa no nariz. Grande profundidade aromática, com algumas notas a folhas e frutos do bosque, e uma prova de boca com uma bela estrutura, garra, personalidade e persistência, mas também com aquela elegante suavidade (ou suave elegância, como preferirem) que só no Dão encontramos com esta polidez. E fica ali, pelo serão fora, sem dar sinais de queda.

Em suma, um belo vinho! Que pena só ter comprado este exemplar, mas a partir de agora vou estar atento a ele, porque passa a fazer parte das nossas escolhas recomendadas. Mais uma vez, palmas para a Sogrape!

Ah, não se esqueça de o consumir já se tiver alguma garrafa: está no ponto óptimo de consumo, e apesar da grande capacidade de envelhecimento que normalmente encontramos nos tintos do Dão (veja-se apreciação anterior), qualquer expectativa de crescimento em garrafa neste momento parece-nos que será um tiro no escuro. Parece-me que este será o momento ideal para tirar todo o partido do que ele pode dar.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Quinta dos Carvalhais, Alfrocheiro 2006 (T)
Região: Dão
Produtor: Sogrape Vinhos
Grau alcoólico: 14%
Casta: Alfrocheiro
Preço: 7,99 €
Nota (0 a 10): 8,5

terça-feira, 23 de julho de 2013

No meu copo 328 - Álvaro Castro 2004

Continuamos no Dão, desta vez com um tinto de Álvaro Castro, uma quase-antiguidade que o tuguinho tinha lá em casa, da colheita de 2004. Já há alguns anos tinha tido oportunidade de provar uma garrafa desta colheita, e passado este tempo considerámos interessante rever o estado do vinho.

A verdade é que não desiludiu, antes pelo contrário. O tuguinho tinha bebido um Reserva há pouco tempo, e considerou que este até estava melhor. Já com uma cor um pouco menos carregada e menos fruto no aroma, apresentou um desenvolvimento aromático mais lento e prolongado, ganhando complexidade e macieza, num conjunto muito equilibrado, bem estruturado e persistente. Pleno de saúde, mostrou estar num patamar de evolução óptimo para consumir, mas a prometer longevidade.

É de realçar o preço deste vinho, que a preços de 2012 apareceu abaixo de 5 € nas grandes superfícies, o que é notável para um vinho desta qualidade. E, se dúvidas houvesse, mais uma vez se comprovou que se ganha muito mais do que se perde dando tempo aos vinhos para amadurecer na garrafa, em vez de andar a bebê-los à pressa.

tuguinho e Kroniketas, os diletantes preguiçosos

Vinho: Álvaro Castro 2004 (T)
Região: Dão
Produtor: Álvaro Castro - Quinta da Pellada
Grau alcoólico: 13%
Preço em feira de vinhos: 4,79 €
Nota (0 a 10): 8

sábado, 20 de julho de 2013

No meu copo 327 - Cabriz rosé 2011; Quinta de Saes rosé 2011

Estas duas garrafas tinham sido compradas por mim e pelo Politikos para levarmos ao Dão Winelover Pinkday, no qual por motivos pessoais acabámos por não poder comparecer. Face à escassa oferta encontrada, não houve grandes alternativas pelo que só nos pudemos cingir a estas. Acabámos por deixá-las em lista de espera para abrir quando a ocasião se proporcionasse, e esta aconteceu em mais um encontro do Grupo Gastrónomo-Etilista “Os Comenais Dionisíacos”, onde avançaram em primeiro lugar para acompanhar os entreténs-de-boca.

Dada a sua proveniência (entenda-se produtores), esperávamos um nível sempre acima do aceitável, mas a verdade é que neste caso ficámos pela mediania. Eu já tinha provado o Cabriz há uns anos, e não me desagradou, bem pelo contrário, tinha ficado bem impressionado. A verdade é que desta vez ficou um pouco aquém das expectativas. Aroma a frutos vermelhos muito discreto e pouco pronunciado, corpo leve (o que para um rosé não é um defeito, antes pelo contrário) mas o final a esvair-se, deixando pouca sensação na boca.

Quanto ao Quinta de Saes, que é uma das marcas de referência nos tintos de Álvaro Castro, o perfil foi algo semelhante. Mostrou algum corpo um pouco mais pronunciado, maior persistência, alguns aromas a morangos ou framboesas, mas também um final curto. Serão um pouco estes os perfis que os produtores querem obter, o que não se discute, pelo que temos aqui dois rosés com perfil mais adequado para os tais “vinhos de Verão”, “de piscina” ou “de esplanada”, primando pela leveza e prova de boca curta e pouco impressiva.

Apenas uma curiosidade, as castas usadas em ambos os casos são as mesmas. Em todo o caso fico na expectativa relativamente ao perfil dos próximos rosés do Dão que vou encontrar. Vamos ver se serão vinhos apenas para refrescar ou se serão para apreciar algo mais...

Kroniketas, enófilo desiludido

Região: Dão

Vinho: Cabriz 2011 (R)
Produtor: Dão Sul
Grau alcoólico: 12%
Castas: Touriga Nacional, Alfrocheiro
Preço em feira de vinhos: 3,99 €
Nota (0 a 10): 6

Vinho: Quinta de Saes 2011 (R)
Produtor: Álvaro Castro - Quinta da Pellada
Grau alcoólico: 13%
Castas: Touriga Nacional, Alfrocheiro
Preço em feira de vinhos: 4,99 €
Nota (0 a 10): 7

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Harmonias ComProvadas

O Facebook tem destas coisas. Através de um contacto através dos outros contactos, cheguei a um blog, no mínimo, diferente.

Chama-se Harmonias Comprovadas e é melhor percorrer o seu conteúdo do que estar a descrevê-lo.

PS: Fiquei com água na boca, principalmente daquelas na Ria Formosa...

Kroniketas, enófilo esclarecido

quarta-feira, 17 de julho de 2013

No meu copo 326 - Duque de Viseu branco 2011

Continuamos nos brancos, e desta vez damos um salto ao Dão para provar um da Sogrape, produzido na Quinta dos Carvalhais sob a batuta de Manuel Vieira.

É um vinho que se posiciona na gama média dos vinhos da quinta, logo acima da zona de grande combate. Nesta prova não se saiu nada mal. Suave e equilibrado na boca, aroma com algum floral proveniente da Malvasia Fina, citrinos e leves notas tropicais, alguma mineralidade e boa persistência final, tudo envolvido por uma acidez que equilibra o conjunto e lhe confere frescura.

Realce-se o facto de, não descurando a casta branca da moda, o Encruzado (agora nos vinhos parece que a tendência é funcionar quase obstinadamente por modas, e quando se começa a falar duma casta numa determinada região só se fala nessa, e todas as outras quase parece que deixam de contar, mas isso são dissertações para outra ocasião), ser composto por um lote com outras castas que aqui se complementam de forma interessante, com o Bical e a Malvasia Fina a acrescentarem algum equilíbrio e vivacidade. Pratos de peixe suaves e delicados, sem grandes exageros de tempero, ou entradas com algum requinte serão uma boa parceria para este vinho que ganhará ao ser apreciado à mesa.

Temos aqui mais um bom representante da nova vaga de vinhos do Dão, com uma oferta que vale a pena procurar, descobrir e apreciar.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Duque de Viseu 2011 (B)
Região: Dão
Produtor: Sogrape Vinhos
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Encruzado, Malvasia Fina, Bical
Preço em feira de vinhos: 3,99 €
Nota (0 a 10): 7,5

terça-feira, 16 de julho de 2013

“Guerra” de garrafeiras em Lisboa - parte 2

Nem de propósito: a Wine O’Clock e a GN Cellar anunciam provas para a próxima 5ª feira. Só falta chegar a comunicação da Delidelux para o mesmo dia. Estará tudo louco, como o país?

Kroniketas, enófilo desinformado

domingo, 14 de julho de 2013

Na Wine O’Clock 15 - FTP Vinhos



Com a profusão de marcas e produtores que existe actualmente, às vezes há algumas que nos confundem. Este produtor não é mais que a sigla do nome do proprietário, Fernando Tavares Pereira. Sediado em Carregal do Sal, em plena região do Dão, também produz vinhos no Douro, e foram estas regiões que tivemos em prova em mais uma visita à Wine O’Clock.

Dos vinhos provenientes do Dão, destaque para a Quinta do Serrado, com S, que nada tem a ver com a de nome igual mas escrito com C. Esta de que aqui falamos foi adquirida à antiga empresa Carvalho, Ribeiro & Ferreira, que produzia o vinho com esta marca, enquanto a outra pertence à União Comercial da Beira. Com apenas uma letra a diferenciá-las e a mesma pronúncia, a confusão entre nomes é inevitável.

Do Douro vieram os vinhos Duvalley: um branco, um branco Reserva e um tinto, produzidos na zona de São João da Pesqueira. Do Dão veio um Quinta do Serrado Reserva tinto e dois outros denominados Picos do Couto, da Quinta com o mesmo nome situada na zona de Tábua.

De todos os vinhos provados, uns mais interessantes que outros, o meu destaque vai para um Picos do Couto Chardonnay parcialmente fermentado em madeira que, para grande surpresa da minha parte (que normalmente não aprecio mesmo nada o estilo que daqui resulta), se mostrou com uma leveza e sobretudo uma frescura notáveis, nada habituais neste tipo de vinhos. Se me dissessem que era outra casta eu acharia que fazia mais sentido, porque este foge completamente ao padrão habitual deste tipo de vinho. Mas este de facto agradou-me, de tal forma que se já estivesse à venda teria comprado desde logo um exemplar.

De resto, são vinhos interessantes que vale a pena conhecer para nos inteirarmos do estilo e depois fazer o devido enquadramento nos respectivos patamares do mercado. Uma coisa ficou clara, não se tentou descobrir a pólvora, os vinhos não fogem aos padrões típicos das suas regiões e, no caso concreto do Dão, podem ser mais duas marcas que ajudem a puxar o nome da região para a notoriedade que se procura.

A rever no devido tempo.

Kroniketas, enófilo esclarecido

sexta-feira, 12 de julho de 2013

“Guerra” de garrafeiras em Lisboa?

 

Ontem aconteceu uma coisa verdadeiramente inusitada e insólita na capital: foram anunciadas para o mesmo dia e praticamente à mesma hora, em dois locais diferentes, provas de vinho com a presença do mesmo enólogo, no caso Anselmo Mendes. A Wine O’Clock anunciara desde o dia 5 a presença do enólogo na sua loja de Lisboa no dia 11, e na véspera a Delidelux fazia o mesmo anúncio.

Perante o insólito da situação, contactei por e-mail as duas lojas, tendo-me sido garantido (por ambas!!!) que Anselmo Mendes estaria presente em ambas as provas... Como em princípio o senhor não tem o dom da ubiquidade, presumi que ou ele andaria a saltitar entre as Amoreiras e Santa Apolónia (um DeLorean voador como no “Regresso ao futuro” daria muito jeito para a ocasião...) ou então alguém estava a meter água (no vinho) à força toda, ou então alguém andaria a beber fora de tempo para fazer este tipo de anúncios.

Tive o cuidado de reconfirmar com ambas as lojas e da Wine O’Clock voltou a ser-me garantido que Anselmo Mendes estaria na prova. Como de facto esteve, tal como se vê na foto. Ficou depois a saber-se que na Delidelux estaria, à mesma hora, um outro enólogo residente da empresa de Anselmo Mendes, mas não o próprio.

Como não podia deixar de ser, alguém se enganou em toda a linha. Para além da desinformação que isto encerra, acontece também que, à mesma hora, decorriam noutros locais mais 3 provas de vinho: na Hills Bottled, na Avenida Elias Garcia (perto da Néctar das Avenidas), uma prova da Quinta dos Tourais; na Garrafeira de Santos, na Rua de Santos-o-velho, uma prova de Serros da Mina; e na GN Cellar (as novas instalações da Garrafeira Nacional na Rua da Conceição, na baixa lisboeta) um prova de vinhos da Enoport (que engloba entre outros os vinhos das antigas Caves Velhas). E ainda não há muito tempo Luis Pato apresentava os seus novos vinhos nas Coisas do Arco do Vinho ao mesmo tempo que a Delidelux apresentava os de Rui Reguinga...

Perante este panorama completamente ilógico e desconchavado, uma dúvida me assalta: será que estamos a ter uma “guerra” de garrafeiras em Lisboa, em que tentam tirar público umas às outras e estragar o negócio mutuamente? É que se não é isso que se passa, começa a parecer que é. Se é esse o objectivo, é bom que os responsáveis tenham consciência de que estão a dar um enorme tiro nos respectivos pés, porque ninguém fica a ganhar: o público interessado porque não pode estar em vários locais ao mesmo tempo, e as próprias lojas porque perdem frequência, dada a dispersão a que isto obriga. Em casos muito excepcionais, pode haver quem se disponha a ir de uma garrafeira a outra (já o fiz entre a GN Cellar e a Delidelux por haver um desfasamento de horário e serem relativamente perto), mas por sistema o que vão conseguir é estragar o negócio que interessa a todos.

Pessoalmente, como visitante interessado e cliente que vai comprando de vez em quando, não me apetece nada estar a ser bombardeado com informação incorrecta, por um lado, e principalmente considero uma enorme falta de visão estratégica não aproveitar o calendário para distribuir as provas de modo mais espaçado ao longo da semana. Neste aspecto, a Delidelux tem-se mantido fiel ao horário, pois as provas são sempre à 5ª feira a partir das 19, mas os outros vão mudando de dia, tanto se faz à 3ª, como à 4ª ou à 6ª... Durante meses a Garrafeira Nacional fazia as provas à 4ª feira, agora mudou para a 5ª. E agora nem sequer há jogos de futebol a atrapalhar...

Era bom que se entendessem e até que falassem, e estabelecer uma estratégia de cooperação, porque (até ver) há lugar para todos (senão não surgiriam novas lojas a cada passo) e estar a tentar tirar público uns aos outros prejudica principalmente os próprios. Não sei se é o caso ou se é apenas distracção, ou simplesmente desinteresse pelo que andam a fazer os parceiros do mesmo negócio. Mas podiam pôr os olhos na colaboração que alguns produtores estabelecem para serem mais fortes em vez de se digladiarem e seguir-lhes o exemplo.

E, principalmente, não tentem brincar com o consumidor, porque este, normalmente, quando é enganado só se deixa enganar uma vez. Portanto não nos tentem impingir informação errada, porque isso vai ter um efeito de bumerangue.

Kroniketas, enófilo desinformado

PS: É verdade, de facto houve a prova do Muros Antigos Loureiro, do Muros Antigos Alvarinho, do Muros de Melgaço Alvarinho (de 2009 e de 2006) e a apresentação do verde tinto, ainda sem rótulo, que se vai chamar Pardusco, e é assim uma espécie de clarete. Quanto aos verdes brancos, o que dizer? Todos excelentes, como é sobejamente conhecido. Nem outra coisa seria de esperar.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Na Wine O’Clock 14 - Herdade dos Coelheiros


Mais uma prova a que não se podia faltar. Contando com a presença do enólogo António Saramago, autor de vinhos em diversas zonas do Alentejo e também na Península de Setúbal, tivemos oportunidade de conhecer a história recente da herdade no que se refere à produção de vinho, que começou apenas por ser destinada a acompanhar os petiscos que eram realizados com a caça da herdade... Até que os proprietários resolveram dar o salto em frente e começar a produzir “a sério” com a marca Tapada de Coelheiros a partir de 1991.

Como explicou António Saramago, desde o início tentou-se produzir vinho em estilo bordalês, e para isso apostou-se em castas francesas para compor os lotes com as castas alentejanas mais típicas. Assim temos a presença dominante do Cabernet Sauvignon nos tintos e do Chardonnay para os brancos. Provaram-se exemplares desde a marca principal a monocastas e garrafeiras, passando pelo Branca de Almeida e pela gama de entrada.

A gama intermédia da casa, o Vinha da Tapada, última a ser lançada de modo a poder competir num mercado de maior volume, no caso do tinto tem o Syrah a compor o lote com as muito típicas Aragonês e Trincadeira, e estagia 6 meses em madeira. É um vinho relativamente fácil que não vai além do que se espera para o sector em que se posiciona.

Quando se entra na marca principal da casa, o caso já muda de figura. De modo geral são vinhos com uma boa estrutura na boca e complexidade aromática e gustativa, que não são devidamente apreciados numa prova de tão carácter imediato como esta, pois precisam de tempo para se mostrar no copo, libertar os aromas, e sem dúvida pedem comida a acompanhar.

O Tapada de Coelheiros branco junta o Chardonnay (20% fermentado em madeira) ao Arinto e ao Roupeiro, havendo também o Chardonnay em versão monocasta, mais estruturado e pesado, mas que adquire aquele amanteigado que habitualmente me desagrada neste tipo de vinho. É um estilo assumido pelos enólogos, mas que não me convence.

O Tapada de Coelheiros tinto também existe em diversas versões, num com o Cabernet Sauvignon a emparceirar com as clássicas Aragonês e Trincadeira, em versão Garrafeira em que a Trincadeira não está presente, e ainda numa versão a solo do Petit Verdot, complementada com uma outra só de Syrah. A versão clássica, chamemos-lhe assim, é mais frutada, sem deixar de ser marcadamente estruturada e complexa, sendo o Garrafeira um pouco mais contido no início, com os aromas mais ainda aprisionados. Precisa de mais tempo no copo para soltar a marca deixada por 18 meses em barrica.

No caso do Branca de Almeida, feito num lote com Merlot (a outra casta típica bordalesa) a acompanhar Trincadeira e Alicante Bouschet, foi o que menos me agradou, mostrando-se talvez demasiado vegetal. Já não me tinha agradado particularmente no evento Vinhos do Alentejo em Lisboa...

Em suma, não vale a pena pensar nestes vinhos para refeições rápidas e leves nem continuar a elucubrar a partir de uma prova de curta duração, perante esta variedade. São vinhos que pesam no bolso, por isso é melhor pensar primeiro quanto se está disposto a pagar, porque estamos na casa dos 10 € para cima, chegando perto dos 40 € no caso do Garrafeira. Mas que merecem a prova, merecem.

Kroniketas, enófilo esclarecido

sexta-feira, 5 de julho de 2013

No meu copo 325 - Brancos e rosés de João Portugal Ramos (1)

Conde de Vimioso Colheita Selecionada branco 2011; Conde de Vimioso rosé 2011; Marquês de Borba branco 2011; Vila Santa Reserva branco 2011


Desde há alguns meses, a empresa João Portugal Ramos Vinhos tem tido a amabilidade de nos enviar amostras de alguns dos seus vinhos (o que aliás culminou com o recente convite para a apresentação das novidades no Hotel Altis Belém, de que demos conta aqui e aqui). Brancos, tintos, rosés, espumantes, de vez em quando chega a casa do tuguinho um exemplar de um dos vinhos em que o produtor e enólogo coloca o seu dedo. Até agora, com uma frequência superior ao consumo que fazemos dos mesmos, por falta de oportunidade.

Não querendo, contudo, deixar passar a oportunidade que nos é facultada para fazermos a nossa apreciação dos ditos vinhos, tivemos oportunidade recentemente de apreciar três brancos e um rosé companhia dos comensais do costume, a acompanhar uns petiscos e entradas antes de passarmos aos pratos mais pesados...

Começando pelos vinhos do Tejo, ambos da gama de entrada e produzidos pela Falua na zona de Almeirim, as opiniões dividem-se e a minha opinião diverge significativamente entre o branco e o rosé.

O Conde de Vimioso Colheita Selecionada branco mostrou uma bela frescura e acidez, numa conjugação quase perfeita do Arinto com o Fernão Pires, não esquecendo que esta é uma casta que se dá particularmente bem naquela região e faz uma boa parceria com aquela que será, porventura, a mais versátil das nossas castas brancas, o Arinto, verdadeiro todo-o-terreno que melhora sempre os vinhos em que entra. Vinho suave, aromático quanto baste, com notas limonadas, leve na boca, perfeito para o tempo quente. Belíssima aposta a rever, e certamente difícil de superar pelo preço que custa. Pode dizer-se deste vinho que é daqueles que valem bem mais do que o seu preço pressupõe.

Já o Conde de Vimioso rosé não me agradou particularmente, à semelhança do que tinha acontecido com a última prova que fiz deste vinho já lá vão uns bons anos, e que na altura também deixou algo a desejar. Entretanto fomos afinando o nosso gosto em termos de rosés, tendendo mais para os secos e leves mas com alguma estrutura. Este mostrou-se um rosé adocicado, com corpo médio e final curto, algo delgado na prova de boca e com alguma falta de persistência mas, sobretudo, alguma falta de acidez que o torna algo “chato” e mortiço, acabando por tornar-se enjoativo. Em suma, não pareceu capaz de altos voos, talvez seja dos tais vinhos de esplanada mas neste patamar de preços, apesar de tudo, há outros mais apelativos. Sem esquecer que dentro da mesma região fica longe, muito longe, de outros muito mais marcantes, como os incontornáveis Quinta da Alorna ou Fiúza. É verdade que neste caso também estamos a falar de preços diferentes, mas mesmo assim dificilmente este vinho me convenceria.

Passando aos alentejanos, produzidos na propriedade de Estremoz, afinal o coração do projecto de João Portugal Ramos, entramos já noutra gama. O Marquês de Borba, na versão em branco de um dos mais conceituados tintos da gama média, mostrou um perfil algo austero, sem deixar de denotar alguma frescura, com notas tropicais e alguma mineralidade, com o Arinto (outra vez) e o Verdelho a trazerem a acidez necessária para complementar alguma estrutura e complexidade que lhe é conferida pelo Antão Vaz, a par com alguma elegância do Viognier. Também é um branco agradável e que não envergonha, mas em termos de relação qualidade/preço eu até me inclinaria mais, curiosamente, para o Conde de Vimioso.

Quanto ao Vila Santa Reserva, aí já estamos noutro campeonato. Trata-se dum vinho com outra estrutura e uma frescura notável para a região do Alentejo (mesmo que parcialmente fermentado em madeira), não parecendo nada um branco das terras baixas, o que vem confirmar que tanto a viticultura como a enologia (a par com a migração de castas entre todas as regiões – veja-se que este Vila Santa inclui Alvarinho e Sauvignon Blanc) têm operado pequenas maravilhas nos vinhos brancos em Portugal, sendo o Alentejo porventura a expressão máxima desses resultados. Ao fim e ao cabo, se não se obtém o vinho que se quer com as castas da região, vão-se buscar fora, e este vinho fez-se com um lote de 3 das melhores castas que por aí encontramos. E assim, de onde antes saíam brancos pesados, agrestes, amargos, agora encontramos brancos frescos, minerais, muito aromáticos e gastronómicos, capazes de se bater muitas vezes com outros de zonas mais frescas. Muito bem este Vila Santa, uma belíssima surpresa e um vinho a rever, que em nada desmerece a qualidade e a fama granjeada pelo seu irmão em versão tinta.

Resta agradecer à João Portugal Ramos Vinhos a simpatia que tem tido de nos enviar os seus vinhos para provarmos, e faremos o possível por ir provando e apreciando os restantes e trazer para aqui as impressões colhidas.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Região: Tejo (Almeirim)
Produtor: Falua - Sociedade de Vinhos

Vinho: Conde de Vimioso Colheita Selecionada 2011 (B)
Grau alcoólico: 12,5%
Castas: Arinto, Fernão Pires
Preço: 2,48 €
Nota (0 a 10): 7,5

Vinho: Conde de Vimioso Colheita Selecionada 2011 (R)
Grau alcoólico: 13%
Castas: Touriga Nacional, Syrah
Preço: cerca de 2,48 €
Nota (0 a 10): 5


Região: Alentejo (Estremoz - Borba)
Produtor: João Portugal Ramos Vinhos

Vinho: Marquês de Borba 2011 (B)
Grau alcoólico: 12,5%
Castas: Arinto, Antão Vaz, Verdelho, Viognier
Preço: 4,99 €
Nota (0 a 10): 7,5

Vinho: Vila Santa Reserva 2011 (B)
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Arinto, Alvarinho, Sauvignon Blanc
Preço: 9,99 €
Nota (0 a 10): 8

terça-feira, 2 de julho de 2013

Na Wine O’Clock 13 - Vinhos Soalheiro




Esta era uma prova há muito aguardada por mim, pois nunca tinha tido a oportunidade de fazer uma prova alargada dos vinhos Soalheiro. Foi, pois, com interesse redobrado que fiz mais uma deslocação à Wine O’Clock para participar na prova dos vinhos apresentados por Luís Cerdeira, que deu a conhecer aos presentes um painel alargado dos vinhos que produz.

Tivemos direito a um pouco de tudo: espumante bruto branco e espumante bruto rosé, verde branco Alvarinho com e sem fermentação em madeira, de vinhas velhas e de vinhas novas, e até um Alvarinho Dócil, apenas com 9% de álcool para ocasiões mais descontraídas e a pedir mais leveza e descontracção. A curiosidade da abertura residiu no facto de aparecer também um lote de Loureiro e Alvarinho com o nome Allo, inspirado na famosa série britânica que girava à volta do não menos famoso Café René...

No geral, todos agradaram, tendo o Soalheiro Primeiras Vinhas e o Soalheiro Reserva concentrado, justificadamente, maiores atenções. O Espumante branco também merece alguma atenção quando for de considerar uma ocasião propícia e, claro, o Soalheiro clássico é sempre um valor garantido por um preço que não choca, posicionando-se entre os melhores Alvarinhos do mercado.

Pode dizer-se que o trabalho de Luís Cerdeira é digno dos maiores elogios, pois discretamente e sem grandes alaridos ajudou a construir uma marca que tem vindo a impor-se no mercado com toda a justiça, merecendo que os apreciadores lhes dediquem toda a atenção quando se fala de vinhos verdes, e de Alvarinho em particular.

Kroniketas, enófilo esclarecido