sexta-feira, 31 de maio de 2013

No meu copo 319 - Foral de Évora 2009

Tinha alguma expectativa relativamente a este vinho, ao qual já tinha ouvido alguns elogios. Tratando-se dum vinho da gama média da Fundação Eugénio de Almeida esperava-se que fizesse jus à fama da casa e dos seus vinhos mais emblemáticos. Como sabemos, é da Adega da Cartuxa que sai um dos vinhos mais famosos do país - quase tão famoso como o Barca Velha - , o Pera-Manca (do qual infelizmente só ainda provei o branco, já lá vão uns bons pares de anos), para além dos vinhos com o nome da casa e um outro vinho de topo, de produção mais recente, o Scala Coeli.

No entanto, no nível de entrada o EA não me agradou particularmente. Foi, portanto, com um misto de expectativa e curiosidade que abordei este vinho de nível médio. A verdade é que fiquei com a sensação de que lhe falta qualquer coisa. Pouco fruto, estrutura média, final curto e discreto, aroma pouco marcante. Estagiou cerca de 12 meses em barricas novas de carvalho francês e pelo menos mais 12 meses em garrafa, mas falta-lhe alguma coisa para ser verdadeiramente bom. Não é mau, obviamente, mas pelo preço que custa e em comparação com os da mesma gama, espera-se, obviamente, algo mais.

Admito que possa ter sido uma colheita menos bem conseguida, ou que o vinho desta garrafa estivesse num ponto de evolução pouco favorável, a atravessar uma fase discreta. Aguardemos por outras oportunidades para que, eventualmente, possa mostrar o que vale.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Foral de Évora 2009 (T)
Região: Alentejo (Évora)
Produtor: Fundação Eugénio de Almeida - Adega da Cartuxa
Grau alcoólico: 14%
Castas: Aragonês, Alicante Bouschet, Trincadeira
Preço em hipermercado: 6,49 €
Nota (0 a 10): 6,5

segunda-feira, 27 de maio de 2013

No meu copo 318 - Cabeça de Toiro Reserva 2008; Guarda Rios 2007; Guarda Rios 2008

Estes são dois representantes (em três garrafas...) da nova geração de vinhos da renomeada região Tejo. Ou talvez deva dizer-se que “eram” representantes, pois mesmo antes de o consumir chegou-me ao conhecimento que o produtor do Guarda Rios, a empresa Vale d’Algares, faliu... A confirmar-se estaremos, portanto, a falar de um vinho a título póstumo...

A verdade é que as novas tendências têm levado a uma lenta mas segura recuperação de imagem, tanto na região Tejo como na região Lisboa. Já lá vai o tempo em que se associava aos vinhos do Ribatejo o carrascão do Cartaxo em garrafões de 5 litros. Agora o perfil é outro, são vinhos frescos, apelativos e mais fáceis de beber. Ao fim e ao cabo, a região seguiu um pouco a onda, com a disseminação de castas importadas de outras paragens e criou novas combinações que permitem provar um vinho destes sem que o associemos imediatamente àquela imagem de antigamente.

Por um preço bastante simpático, o Cabeça de Toiro, produzido pela Enoport (sucessora das Caves Velhas mas que vai mantendo o logótipo desta nos rótulos), dá-nos aroma a frutos maduros, frescura e uma boa acidez, corpo médio e um final vibrante. Boa relação qualidade-preço e um vinho que aparenta ser versátil.

Já o Guarda Rios é (era?) mais estruturado, mais complexo, menos imediato. Deste último tive oportunidade de provar duas colheitas, 2007 e 2008, adquiridas respectivamente em hipermercado e com a Revista de Vinhos. Curiosamente, e talvez contrariando o que fosse expectável, a colheita de 2007, resultante dum lote teoricamente mais complexo (o Alicante Bouschet e o Cabernet Sauvignon não estão presentes na colheita de 2008), agradou menos que a de 2008. Esta última mostrou-se mais estruturada, mais longa, um pouco mais pujante e persistente, com um toque a especiarias mais marcado. Uma versão mais personalizada, em suma, e mais bem conseguida.

Se este vinho acabou, é uma pena porque era um bom produto que tínhamos no mercado e que ajudava a elevar o nome da região. Sinais (tristes) dos (tristes) tempos...

Kroniketas, enófilo esclarecido

Região: Tejo

Vinho: Cabeça de Toiro Reserva 2008 (T)
Produtor: Enoport - Produção de bebidas
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Touriga Nacional, Castelão
Preço em feira de vinhos: 4,98 €
Nota (0 a 10): 7,5

Vinho: Guarda Rios 2007 (T)
Produtor: Vale d’Algares
Grau alcoólico: 14%
Castas: Syrah, Touriga Nacional, Alicante Bouschet, Merlot, Cabernet Sauvignon
Preço em hipermercado: 6,13 €
Nota (0 a 10): 7,5

Vinho: Guarda Rios 2008 (T)
Produtor: Vale d’Algares
Grau alcoólico: 14%
Castas: Syrah, Touriga Nacional, Merlot
Preço com a Revista de Vinhos: 6 €
Nota (0 a 10): 8

quinta-feira, 23 de maio de 2013

No meu copo 317 - Gaivosa Primeiros Anos 2009; Herança Vinhas Velhas 2009

Tal como tem vindo a acontecer há alguns anos, estes dois vinhos foram comprados aproveitando a promoção efectuada com a edição mensal da Revista de Vinhos.

Quase sempre aproveitamos estas ocasiões para adquirir algumas marcas que conhecemos menos (ou que desconhecemos de todo), ou para adquirir alguns valores seguros por um preço inferior ao do mercado. No primeiro caso existe sempre alguma incógnita, não obstante a confiança que em princípio depositamos nas escolhas da equipa da Revista de Vinhos.

No caso destes dois vinhos em apreço, ambos de 2009, ambos adquiridos no final de 2011, ambos consumidos já em 2013, tratou-se duma boa revelação num caso, e duma certa decepção no outro.

O Gaivosa Primeiros Anos apresentava maiores expectativas, dado ser produzido por Domingos Alves de Sousa. A verdade é que, pelo menos nesta fase, mostrou ser mais um daqueles vinhos superconcentrados, superextraídos, superalcoólicos, pesados e no final... supercansativos. Ao segundo copo já farta. O tal perfil moderno que muitos (ou alguns) teimam em querer impor aos consumidores com o argumento de que o vinho é equilibrado. Não é. Quando o beber começa a enjoar depois de ingerida pouca quantidade, não é bom sinal. Talvez precise de mais tempo em garrafa para amaciar e arredondar com o tempo, mas a verdade é que não convenceu.

Já o Herança Vinhas Velhas, uma marca completamente desconhecia, foi uma boa revelação. E a verdade é que, com o mesmo grau alcoólico, curiosamente apresentou um perfil completamente diferente, conseguindo ter ao mesmo tempo estrutura, aroma e frescura, dando sempre vontade de beber mais um pouco. Mostrou estar mais que pronto para ser consumido. Um vinho guloso e apetitoso, mas que também não perdia nada em ter menos álcool.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Região: Douro

Vinho: Gaivosa Primeiros Anos 2009 (T)
Produtor: Domingos Alves de Sousa
Grau alcoólico: 14,5%
Castas: Tinta Amarela, Sousão, Touriga Nacional
Preço com a Revista de Vinhos: 6 €
Nota (0 a 10): 6

Vinho: Herança Vinhas Velhas 2009 (T)
Produtor: Terroir d’Origem
Grau alcoólico: 14,5%
Preço com a Revista de Vinhos: 6 €
Nota (0 a 10): 8

sábado, 18 de maio de 2013

No meu copo 316 - Tapada do Chaves: Reserva 2002; Vinhas Velhas Reserva 2002

Este é um clássico alentejano com grandes tradições, mas com o qual tenho tido uma relação dispersa e algo difícil. Provei o tinto Reserva pela primeira vez nos anos 90, impulsionado pelo nome e pela fama do vinho, primeiro com a colheita de 1994 e depois com a de 1996 (na altura custou cerca de 2000 $), e de nenhuma das vezes me encantou, sobretudo tendo em conta o preço. As impressões colhidas foram que não valia aquilo que custava.

Passaram alguns anos até que voltasse a arriscar, mais especificamente até ter estado a trabalhar em Portalegre e ter visitado a própria Tapada do Chaves (então já na posse das Caves Murganheira, depois da venda pela família Fino à SLN), e conhecido um pouco melhor a sua história, Voltou então a despertar o meu interesse pelos seus vinhos, o que me levou inclusivamente a provar o espumante ali produzido. Comprei novamente o Reserva, da colheita de 2002, que experimentei uma e outra vez. Posteriormente comprei também o Vinhas Velhas 2002, que conheci também nessa visita às instalações da casa, e mais recentemente comprei o Reserva 2005 e o Reserva 2009 (já com o novo e horrível rótulo).

Continuei com algumas reticências em relação ao resultado das provas efectuadas. Primeiro pareceu-me um vinho inicialmente muito fechado e depois algo cansado, com demasiada evolução. Não convencido, insisti e tentei ajudar com a decantação. Achei-lhe alguma falta de aroma, pouco exuberante.

Recentemente, juntamente com o tuguinho, resolvemos fazer uma prova comparada do Reserva 2002 e do Vinhas Velhas Reserva 2002, a acompanhar umas costeletas de novilho grelhadas na brasa. Sem hesitações, tratámos de decantar as duas garrafas, de modo a dar tempo ao vinho para respirar.

Esperámos por alguma exuberância aromática que não se manifestou no Vinhas Velhas, estando mais evidente no Reserva. Na boca apresentam-se macios mas o corpo é mediano e a persistência também. Para nossa surpresa, sendo de um patamar superior, o Vinhas Velhas voltou a mostrar-se mais contido e mais evoluído, enquanto o Reserva mostrou uma maior frescura. Ambos estagiados em madeira de carvalho nacional, facto realçado no contra-rótulo, esta não apareceu muito marcada, integrando-se bem no conjunto.

Em termos de balanço, pode-se dizer que se esperava mais. Tenho lido várias opiniões desencontradas acerca deste vinho e desta colheita em particular: umas elogiando o seu classicismo e suavidade, mantendo vivo o traço da tradição que nos permite regressar à base “quando já não temos paciência para os vinhos certinhos ou muito concentrados e extraídos, acabamos por encontrar consolo nos vinhos mais frescos, elegantes e complexos que se faziam primeiro”; outras considerando que o vinho não tem uma boa relação qualidade-preço, que é algo desequilibrado em termos de álcool e que decepciona face às expectativas. Tendo a inclinar-me mais para esta última opinião, parecendo-me que é uma marca que vive muito do nome mas a que falta talvez alguma alma. E, no entanto, como eu gosto de regressar aos clássicos...

No caso do Vinhas Velhas, embora teoricamente melhor que o Reserva, também não me parece que justifique o preço. Se para o Reserva ainda se pode questionar ou não o patamar de preço, no caso do Vinhas Velhas não justifica a compra, pois aquilo que perde em frescura com a idade, não ganha em complexidade como seria de esperar.

Os diletantes preguiçosos:
Kroniketas, enófilo esclarecido, com revisão e censura de tuguinho, enófilo preguiçoso


Região: Alentejo (Portalegre)
Produtor: Tapada do Chaves, Sociedade Agrícola e Comercial

Vinho: Tapada do Chaves Reserva 2002 (T)
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Trincadeira, Aragonês, Castelão
Preço: 12 €
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Tapada do Chaves Vinhas Velhas Reserva 2002 (T)
Grau alcoólico: 13%
Castas: Trincadeira, Aragonês, Castelão, Tinta Francesa
Preço: 17 €
Nota (0 a 10): 8

terça-feira, 14 de maio de 2013

No meu copo 315 - Quinta da Ponte Pedrinha: branco 2010; tinto 2008

Numa época em que estamos a tentar trazer para a ribalta os vinhos do Dão, a partir do grupo Dão Winelover criado no Facebook, vem a propósito citar as provas do branco e do tinto da Quinta da Ponte Pedrinha, produzidos na zona de Gouveia.

O primeiro foi um desafio lançado no grupo do Facebook há algumas semanas, que solicitava a prova do branco. Mostrou-se um vinho de aroma frutado algo discreto, corpo médio e final macio. Algumas notas citrinas, algum mineral e acidez bem equilibrada conferem frescura e fim de boca agradável. Indicado para pratos de peixe não muito pesados mas pode aguentar-se com alguma gordura, pois tem uma acidez que ajuda a limpar o paladar.

O tinto foi bebido com um prato menos habitual, uma mussaka, prato com alguma exigência devido ao elevado teor de gordura. Foi um desafio curioso, dada a dúvida sobre se o vinho teria estrutura para se bater com o prato, e a verdade é que teve. O aroma mostra inicialmente algum vegetal, discreto, sendo que a prova de boca começa por ser suave mas com o tempo vão-se mostrando algumas especiarias e taninos arredondados, começando a revelar-se uma estrutura que parecia não estar lá. O final vai em crescendo, acabando por revelar-se um vinho gastronómico, a pedir algum tempo para se mostrar à mesa. Aconselha-se, em todo o caso, a acompanhar pratos de carne com alguma delicadeza, não excessivamente temperados.

Pelo preço que custa, é sem dúvida uma boa aposta para o dia-a-dia sem perder na comparação com outros nomes mais sonantes. Uma prova muito agradável, a repetir.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Região: Dão
Produtor: Maria de Lurdes Osório

Vinho: Quinta da Ponte Pedrinha 2010 (B)
Grau alcoólico: 13%
Castas: Encruzado, Cerceal
Preço em hipermercado: 3,98 €
Nota (0 a 10): 7

Vinho: Quinta da Ponte Pedrinha 2008 (T)
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Tinta Roriz, Jaen
Preço em hipermercado: 4,49 €
Nota (0 a 10): 7,5

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Na minha mesa 314 - Restaurante XL (Lisboa)

 

Este é um clássico lisboeta, que conheço há quase 20 anos, ainda do tempo das instalações na Rua de S. Bento, um pouco acima do parlamento. Nessa altura o menu destacava-se principalmente pela variedade de bifes, onde sobressaía um com molho de tutano. Depois veio a doença das vacas loucas e esse exemplar foi retirado da ementa, com grande pena nossa nas visitas que lá fizemos.

Foram bons tempos em que era fácil ir lá jantar sem gastar uma fortuna. Com a mudança para a esquina da Calçada da Estrela com a Rua Miguel Lupi, mesmo ao lado do edifício da Assembleia da República, o estilo modificou-se. Decoração mais sofisticada, assim como o menu (muito elogiados são os soufflés, além de mais de 20 entradas), preços em crescendo, assim como o tipo de clientela. Mas a nossa aposta nas visitas que lá fizemos continuou a ser nos bifes, ainda e sempre com uma variedade assinalável, com opção entre lombo e vazia e uma panóplia de diferentes tipos de molho que fazem crescer água na boca aos mais famintos do tipo carnívoro...

O pior aconteceu com a garrafeira. A sofisticação do estilo e da clientela foi acompanhada dum disparatado aumento dos preços dos vinhos, que torna quase proibitivo beber qualquer vinho decente sem pagar mais pela garrafa do que por toda a refeição... Esse foi um dos motivos que fizeram com que mediassem quase 9 anos desde a minha visita anterior e a mais recente. Esta última decorreu há poucas semanas, em formato de casal, a propósito duma comemoração familiar. Contemo-la, então.

A deslocação processou-se com o objectivo focado nos bifes, embora haja muitas alternativas para onde olhar. O que nos chama mais a atenção são as variedades de molhos: molho XL, molho de mostarda à antiga, molho café Paris, molho de natas e por aí fora... Optámos por um com molho XL (na foto) e outro com molho café Paris. Bifes altos da vazia, no ponto (mais para o mal passado que para o bem, embora esse ponto de confecção não seja consensual no caso vertente). Ambos excelentes, o de molho XL mais clássico, o de molho café Paris mais aromático.

Pior foi a escolha do vinho. A carta é agora apresentada num tablet de reduzidas dimensões, que requer alguma prática de manuseamento de equipamentos do género, e uma acuidade visual apurada. Os preços, como se esperava, são absolutamente proibitivos. Os bifes custam entre os 15 e os 25 €, enquanto um vinho normal de entrada de gama aparece na carta a 20 €, um vinho da gama média vai para os 40 €. Os de topo custam centenas. Só por curiosidade olhei para o Barca Velha: 416 €! Um verdadeiro despautério, de todo injustificado, ainda mais nos temos que correm. Pode-se presumir que a generalidade da clientela não se deve importar muito com o preço das garrafas de vinho, mas a qualidade do restaurante, da confecção e do serviço são bem remuneradas em todo o resto da refeição, não se justifica tamanho exagero, que aliás já começa a ser corrigido noutros restaurantes que pecam pelo mesmo defeito.

Com bastante esforço lá se consegue encontrar uma ou outra garrafa na ordem dos 10-12 €, mas não é fácil. Como praticamente só eu é que ia beber, acabei por optar por um vinho tinto da casa numa daquelas garrafas de meio-litro quase em formato de jarro, por 8 €. Um vinho sem história, apenas aceitável para acompanhar a refeição.

A lista de sobremesas também é extensa e apetitosa, mas destaco um sorbet de limão e o gelado com chocolate quente.

O ambiente é acolhedor e ao mesmo tempo sofisticado, vai animando à medida que a casa enche, o serviço é simpático, eficiente e atencioso, enfim tem tudo para nos sentirmos lá bem e passar um bom serão à mesa. O pior é quando vem a conta. E se quiser beber vinho da carta, o melhor é rechear primeiro a carteira, ou levar um grupo de pessoas para dividir melhor o custo do líquido.

Só pelos preços dos vinhos não lhe atribuo a nota máxima, porque é de facto o grande e notório defeito a apontar. Não fosse isso e, embora caro, seria quase perfeito.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Restaurante: XL
Esquina da Calçada da Estrela com a Rua Miguel Lupi (entrada pela Rua Miguel Lupi)
1200-661 Lisboa
Telef: 21.395.61.18
Preço por refeição: a partir dos 40 €
Nota (0 a 5): 4,5

domingo, 5 de maio de 2013

No meu copo 313 - Ramos Pinto Collection: 2005, 2006, 2007

Foi com a colheita de 2005 que esta marca apareceu pela primeira vez no mercado. Como normalmente acontece, as novidades provenientes da Ramos Pinto despertam-nos especial atenção, como aconteceu há uns anos aquando do lançamento duma colheita única, o Duas Quintas Celebração - Quinta de Ervamoira, de que infelizmente também só comprei um exemplar único...

Este Collection surgiu pouco tempo depois. Posicionado num patamar de preços entre o Duas Quintas e o Bons Ares (abaixo) e o Duas Quintas Reserva (acima), trouxe como originalidade o facto de todas as colheitas terem um rótulo diferente, votado pelos internautas, que vai recuperar a colecção de rótulos antigos utilizados no vinho do Porto... Daí resultou o nome “Collection”, com o qual a Casa Ramos Pinto pretende homenagear o seu fundador, Adriano Ramos Pinto, mergulhando na história da casa como inspiração para a criação de cada rótulo que invoca o estilo Belle Époque, do início do século XX.

Temos adquirido exemplares de todas as colheitas lançadas, e consumido com parcimónia e sem pressas. Os consumos mais recentes mostram que estes são vinhos de guarda, que vale a pena esquecer durante alguns anos na garrafeira. Comparando as três colheitas que já consumi, há algumas diferenças notórias entre elas, pois cada uma pretende reflectir as especificidades da respectiva colheita, e não homogeneizar o estilo de ano para ano.

A colheita de 2005, provada mais de uma vez, foi a que se apresentou desde sempre como mais suave e apelando mais a aromas de frutos vermelhos, algum floral, corpo e estrutura marcados por alguma elegância. Todas as castas do lote fermentaram em barricas de 2/3 anos durante 16 meses, apresentando-se a madeira bastante discreta e sem marcar o vinho de forma evidente. O rótulo evoca o beijo induzido pelo néctar de Baco...

A colheita de 2006 mostrou-se mais fechada inicialmente, começando por aparentar algum aroma a mofo, o que requereu a imediata decantação após a qual libertou aromas de alguma evolução. Um pouco menos frutado que o de 2005, mostrou-se apto para pratos mais consistentes graças a uma estrutura mais complexa na boca e final prolongado. Foram usadas as mesmas castas da colheita de 2005, provenientes da Quinta de Ervamoira e da Quinta do Bom Retiro. O rótulo, de 1911, foi desenhado por Leopold Metlicovitz e evoca Adão e Eva e a tentação da serpente, mais uma vez simbolizada pelo néctar de Baco.

Finalmente, a colheita de 2007, com um perfil significativamente diferente dos anteriores. Mais uma vez com uvas da Quinta de Ervamoira e da Quinta do Bom Retiro, apresenta-se com outra juventude, mais pujante, no limite do grau alcoólico, irreverente e a pedir tempo para acalmar, embora esteja já perfeitamente bebível. Muita fruta com sugestões do bosque, alguma especiaria, madeira presente sem ser em excesso, persistência a prometer longevidade. Provavelmente uma colheita destinada a apreciar melhor daqui por mais uns anos, ainda capaz de melhorar na garrafa. O rótulo, “A jovem do Regalo”, é também um original de 1911, da autoria do pintor italiano M. A. Rossotti.

Em suma, um vinho para comprar, comprar e comprar... ir bebendo e ir guardando. Pelo que nos foi dado perceber nas garrafas já provadas, cada colheita será uma surpresa de sensações e aromas.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Região: Douro
Produtor: Ramos Pinto

Vinho: Ramos Pinto Collection 2005 (T)
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Barroca
Preço (em 2007): 12,75 €
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Ramos Pinto Collection 2006 (T)
Grau alcoólico: 14,5%
Castas: Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Barroca
Preço (em 2009): 13,81 €
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Ramos Pinto Collection 2007 (T)
Grau alcoólico: 15%
Castas: Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Barroca
Preço (em 2010): 14,50 €
Nota (0 a 10): 8,5

quinta-feira, 2 de maio de 2013

No meu copo 312 - Esporão Reserva 2008; Quatro Castas Reserva 2007; Quatro Castas 2010

Depois da recente prova do Quatro Castas Reserva 2002, damos um salto no tempo para falar de colheitas mais recentes provenientes da Herdade do Esporão: o Reserva 2008 e o Quatro Castas 2007 e o 2010, este agora em nova versão.

Durante alguns anos considerámos que o Quatro Castas estava a dar melhores resultados do que a marca ex-libris da casa. Mais recentemente, a prova do Esporão Reserva da colheita de 2006, posteriormente repetida em mais do que uma ocasião, reconciliou-nos com a marca e levou-nos a apostar nas colheitas seguintes.

Entretanto, os monocastas, que emparelhavam com o Quatro Castas, passaram por uma fase em que eram vendidos em garrafas de meio-litro, depois voltaram ao formato de 7,5 dl, ao mesmo tempo que começavam a surgir os monocastas brancos. Nos últimos anos a roupagem duns e doutros mudou, os monocastas foram reposicionados em termos de preço (passando a custar entre cerca de 23 euros) e nos brancos surgiu o Duas Castas para emparelhar com o seu homólogo tinto. O que durante cerca de duas décadas foram vinhos relativamente acessíveis, tornaram-se produtos de luxo, tornando-se mais caros que a principal marca da casa por uma opção de marketing que me custa a entender... mas se calhar não tenho que a entender.

A verdade é que, nos tintos, só o Quatro Castas se manteve no mesmo patamar de preços, pelo que continuo a comprá-lo. Recentemente tive oportunidade de fazer uma prova comparada de colheitas recentes destas duas marcas e aferir do “estado da arte” em relação a estes dois vinhos.

O Esporão Reserva 2008 mostrou aquilo que se esperava dele e manteve o perfil que, com uma ou outra oscilação, sempre o caracterizou. A base andou sempre à volta de Aragonês, Trincadeira e Cabernet Sauvignon, com algumas incursões também pelo Alicante Bouschet. A colheita de 2008 voltou a ser constituída pelo trio base, sem a presença do Alicante, o que lhe dá um perfil mais aberto e ligeiramente mais leve. As 3 castas continuam a funcionar muito bem em conjunto, com uma boa profundidade aromática associada a um toque de madeira sempre em dose moderada, que ajuda a conferir alguma estrutura e persistência na prova de boca mas sem marcar o conjunto, que é dominado pelo fruto vermelho maduro, alguma especiaria e um final longo pontuado pelas notas da madeira, tudo bem suportado por taninos poderosos mas redondos.

O Quatro Castas aparece agora com outro perfil. Além da roupagem, também o conteúdo está diferente. Desde sempre foi um vinho diferente da corrente dominante, mesmo dentro dos vinhos da casa. A colheita de 2007, também provada recentemente, mantém ainda um perfil relativamente clássico com algumas semelhanças com as anteriores – podem ser vistas aqui (2005), aqui (2002), aqui e aqui (2001). No entanto, em comparação com o 2002, mostrou-se menos exuberante de aromas, menos persistente, menos estruturado, um vinho a prometer menor longevidade. Aragonês, Alicante Bouschet, Touriga Nacional e Syrah compõem este lote, que já lhe alterava o perfil habitual.

Já o 2010, dentro da nova roupagem e a nova variedade castas incorporadas e que até há poucos anos não entravam no lote, está mais frutado e mais fácil, mas quanto a mim perdeu algum encanto. Revendo todos os encómios que aqui fomos debitando ao longo dos anos acerca das provas que fazíamos deste vinho, dificilmente os reconheço neste novo perfil. Continua a ser agradável de beber, mas temo que agora seja apenas mais um.

O contra-rótulo anuncia que “o Aragonez confere estrutura, o Alfrocheiro aromas finos e vibrantes, a Tinta Caiada aveluda o palato e a Tinta Miúda acrescenta-lhe a elegância final”. Vinificaram separadamente e estagiaram 9 meses em barricas de carvalho americano. Tudo isso pode ser verdade, mas... parece que lhe falta qualquer coisa. Talvez a alma que eu encontrava nos outros, feitos à maneira clássica. Continua a ser bom, mas já não o acho encantador nem surpreendente como os antecessores.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Região: Alentejo (Reguengos)
Produtor: Esporão

Vinho: Esporão Reserva 2008 (T)
Grau alcoólico: 14,5%
Castas: Aragonês, Trincadeira, Cabernet Sauvignon
Preço em feira de vinhos: 12,99 €
Nota (0 a 10): 8,5

Vinho: Quatro Castas 2007 (T)
Grau alcoólico: 14 %
Castas: Aragonês, Alicante Bouschet, Touriga Nacional e Syrah
Preço em feira de vinhos: 9,84 €
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Quatro Castas 2010 (T)
Grau alcoólico: 14,5 %
Castas: Aragonês, Alfrocheiro, Tinta Miúda, Tinta Caiada
Preço em feira de vinhos: 9,84 €
Nota (0 a 10): 8