terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Ano novo, vida velha


As Krónikas Viníkolas e as Krónikas Tugas desejam a todos os seus fornecedores, clientes, amigos, leitores, visitantes, comparsas, parceiros, colaboradores e mais todos aqueles que têm pachorra para nos aturar, um bom ano de 2015 (como já se prevê que 2014 vai ser ainda pior do que os anteriores, achámos melhor saltar já um ano...).

tuguinho e Kroniketas, os enófilos bandalhos diletantes preguiçosos

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

No meu copo 356 - Caves São João Reserva 1995; Porta dos Cavaleiros Reserva Seleccionada 1995

Para fechar o ano em beleza continuamos nas Caves São João, agora com duas relíquias de 1995: uma do Dão e outra da Bairrada, duas marcas emblemáticas e que fizeram história, não só na casa como no panorama nacional.

A aquisição destas garrafas foi impulsionada por dois artigos publicados em 2012 por João Paulo Martins, na sua coluna semanal no jornal Expresso. Num desses artigos falava das memórias dum dos fundadores das Caves, o sr. Luís Costa (em homenagem de quem foi lançado recentemente um espumante), e apresentava como sugestões de compra o Caves São João Reserva 1995, o Poço do Lobo Cabernet Sauvignon 1990 e o Porta dos Cavaleiros Reserva Seleccionada 1985, todos à venda na Garrafeira de Campo de Ourique, em Lisboa. No outro falava das relíquias existentes nas caves em formato magnum, e apresentava o extraordinário Porta dos Cavaleiros Reserva Seleccionada 1975 (que tivemos a felicidade de poder comprar e beber há uns anos, e que também esteve em prova no Mercado de Vinhos do Campo Pequeno, no início do passado mês de Novembro), o de 1966 e o Frei João Reserva 1985.

Perante tão aliciantes sugestões, num fim de tarde eu e o Politikos dirigimo-nos à Garrafeira de Campo de Ourique para ver o que havia que pudesse interessar. Saímos de lá com mais garrafas do que aquelas que íamos procurar, entre elas estes exemplares de que agora falamos, além de outros que entretanto foram sendo bebidos com os comensais do costume.

Estes dois, por serem do mesmo ano, foram deixados para emparelhar um com o outro em mais um encontro dos Comensais Dionisíacos, em que acompanharam umas costeletas de novilho e umas tiras de entrecosto grelhadas. Presentes na ocasião estiveram também outras relíquias da Sogrape, mas delas falaremos noutra oportunidade.

Tivemos o cuidado de abrir os vinhos com antecedência e verificar se seria ou não necessário (e conveniente) decantá-los.

Ambos se apresentaram de perfeita saúde, sem qualquer sintoma de perda de aroma ou envelhecimento excessivo. No entanto o Caves São João Reserva, em versão 100% Baga, contrariamente às expectativas apresentou-se mais delgado do que se esperava e com final algo curto, parecendo estar a perder robustez, pois mesmo com idade avançada é um vinho que costuma apresentar toda a sua pujança e estrutura, como tive oportunidade de verificar na prova do Reserva Particular de 1959, nas próprias Caves, aquando do Encontro com o Vinho e os Sabores da Bairrada.

O Porta dos Cavaleiros Reserva Seleccionada, por sua vez, estava à altura do que se esperava, com uma cor ligeiramente acobreada, notas discretas a alguns aromas do bosque mas sem estar demasiado exuberante, com corpo e acidez ainda em equilíbrio e um bom fim de boca, num conjunto harmonioso. Aguentou-se bem na prova com os grelhados, embora também pareça estar num ponto em que não melhorará muito mais.

Em suma, dois vinhos que, embora não estando num ponto excepcional como outros exemplares que temos provado, não desmereceram na experiência da prova, sobretudo pela raridade e porque continuam a ser dos tais que já não se vão fazendo.

E com isto fechamos o ano desejando a todos os enófilos um ano de 2014 repleto de boas provas. E não se esqueçam: “a vida é curta demais para se beber maus vinhos”. (Hubrecht Duijker)

Kroniketas, enófilo esclarecido

Produtor: Caves São João

Vinho: Caves São João Reserva 1995 (T)
Região: Bairrada
Grau alcoólico: 12,5%
Casta: Baga
Preço: 17,95 €
Nota (0 a 10): 7,5

Vinho: Porta dos Cavaleiros Reserva Seleccionada 1995 (T)
Região: Dão
Grau alcoólico: 12,5%
Castas: Não indicadas
Preço: 17,80 €
Nota (0 a 10): 8

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

No meu copo 355 - Quinta do Poço do Lobo Reserva 2007; Quinta do Poço do Lobo Reserva, Cabernet Sauvignon 2004

Voltamos aos clássicos da Bairrada para revisitar as Caves São João, agora com novo fôlego e com novos produtos lançados recentemente no mercado, como alguns novos espumantes (um deles premiado com a Escolha da Imprensa no Encontro com o Vinho e Sabores 2013) e novos brancos e tintos, como o Quinta do Poço do Lobo Reserva branco de Arinto e Chardonnay, ou o Caves São João Lote Especial.

Neste caso tratou-se duma prova conjunta de dois exemplares duma das marcas tradicionais da casa, o Quinta do Poço do Lobo, nas duas versões habituais: o Reserva 2007 e o Reserva Cabernet Sauvignon 2003.

O Reserva 2007 apresentou-se pleno de força, cor uma cor rubi opaca, muito estruturado, robusto e persistente, com grande volume de boca, taninos presentes e firmes mas redondos, sem arestas a agredir o paladar. Algumas notas de frutos maduros no aroma e ligeiro tostado resultante dos 12 meses de estágio em pipas de carvalho francês. Um Bairrada tradicional, fazendo um bom casamento da Baga com a Touriga Nacional e o Cabernet Sauvignon, a comporem um conjunto com mais variantes aromáticas.

Quanto ao Reserva Cabernet Sauvignon 2004, habitualmente um dos Cabernet mais bem conseguidos em Portugal, apresentou alguns traços apimentados e aroma a frutos maduros, mas com pouca exuberância para o que é habitual. Os traços mais marcantes da casta estavam lá mas pouco evidentes, parecendo denotar alguma perda de aromas, ou então estava num patamar de evolução menos favorável. Às vezes acontece. Madeira discreta e bem integrada, resultante de 13 meses de estágio também em pipas de carvalho francês.

Não deixando de ser um bom Bairrada, perdeu na comparação directa com o seu parceiro de lote, o que também pode ter influenciado a percepção da prova. Comparar vinhos de lote com vinhos monocasta acaba, muitas vezes, por penalizar estes últimos, que podem ser um pouco ofuscados pela maior complexidade dos vinhos de lote. Para rever a solo.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Região: Bairrada
Produtor: Caves São João

Vinho: Quinta do Poço do Lobo Reserva 2007 (T)
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Baga, Cabernet Sauvignon, Touriga Nacional
Preço em feira de vinhos: 8,99 €
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Quinta do Poço do Lobo Reserva, Cabernet Sauvignon 2004 (T)
Grau alcoólico: 14%
Casta: Cabernet Sauvignon
Preço em feira de vinhos: 12,71 €
Nota (0 a 10): 7,5

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

No meu copo 354 - Herdade do Perdigão Reserva 2004

Aqui temos um vinho que é quase o oposto do anterior. Um alentejano clássico, baseado na cada vez menos popularizada e badalada Trincadeira (há as castas da moda e aquelas que vão passado de moda...), pleno de pujança, corpo, persistência, mas com muita elegância e arestas bem limadas. No aroma nota-se algum vegetal proveniente da predominância de Trincadeira, dando-lhe o Aragonês e o Cabernet Sauvignon alguma vivacidade e complexidade.

Consegue conjugar uma certa robustez com alguma frescura resultante das zonas altas do norte alentejano. É um vinho que pede pratos fortes, como peças de caça bem temperadas, e que também necessita de tempo para ser devidamente apreciado, pois demora a desenvolver os aromas. Neste caso, apesar da idade, mostrou-se de perfeita saúde, sem qualquer sinal de declínio, parecendo estar para durar outro tanto.

O maior senão será o preço, pois na maior parte dos casos situa-se na zona dos 25 €, o que é sempre um factor dissuasor, mas vale a pena a experiência. Com alguma sorte pode ser encontrado abaixo dos 20 € nalgumas promoções, e aí a compra torna-se muito mais aliciante.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Herdade do Perdigão Reserva 2004 (T)
Região: Alentejo (Monforte - Portalegre)
Produtor: Herdade do Perdigão
Grau alcoólico: 15%
Castas: Trincadeira (80%), Aragonês (15%), Cabernet Sauvignon (5%)
Preço em feira de vinhos: 21,46 €
Nota (0 a 10): 8,5

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

No meu copo 353 - Vinha Grande 2008

Este vinho é um daqueles clássicos acerca dos quais já pouco começa a haver para dizer de novo, à medida que vamos fazendo sucessivas provas. O perfil é conhecido e vai-se mantendo de colheita para colheita, na linha da tradição da Casa Ferreirinha. São vinhos que primam sobretudo pela elegância, suavidade, muito longe das bombas de fruta e álcool que dominam a região.

Sem descurar uma boa estrutura e persistência, tem um aroma profundo a frutos vermelhos, algum floral, um toque a especiarias que lhe dá alguma vivacidade, taninos arredondados e boa integração com a madeira, em que estagia durante cerca de um ano em barricas usadas.

Dentro da gama em que se enquadra, é daqueles que por vezes se encontra a muito bom preço e um valor seguro, nunca nos deixando ficar mal. Deixe-se respirar, de preferência após decantação, para que liberte todos os aromas, e aprecie-se com carnes requintadas e não demasiado temperadas. Um bom companheiro para a mesa.

Kroniketas, enófilo esclarecido


Vinho: Vinha Grande 2008 (T)
Região: Douro
Produtor: Casa Ferreirinha - Sogrape
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz, Tinta Barroca
Preço em feira de vinhos: 7,23 €
Nota (0 a 10): 8

domingo, 15 de dezembro de 2013

No meu copo 352 - Convento da Tomina 2011

Provei este vinho pela primeira vez num restaurante da Praia da Rocha que já não existe (agora no mesmo espaço existe uma casa de refeições do tipo americano, chamada American Diner). Não é um vinho muito falado, mas a verdade é quem em termos de relação qualidade/preço deve ser do melhor que por aí anda. É um dos tais tintos de perfil moderno, mas ao qual é difícil ficar indiferente.

No primeiro contacto agradou-me, depois cruzei-me com ele esporadicamente e agora esta colheita de 2011 voltou a ser alvo de diversos elogios. O perfil mantém-se: encorpado, robusto, estruturado, uma bomba de fruta! Muito extraído, muito concentrado, muito alcoólico. Tudo aquilo contra o que tenho andado aqui a fazer campanha... Mas a verdade é que também é longo e persistente, está muito bem feito e bebe-se com agrado, pois é um vinho guloso.

Tenho alguma dificuldade em admitir isto, mas é um vinho que tendo tudo aquilo que normalmente não aprecio, gosto dele... Que se há-de fazer, então? Esqueçam-se os dogmas e beba-se, naturalmente a acompanhar pratos de carne muito bem temperados, para se bater com tanto tanino e tanto álcool. Mas cuidado ao levantar da cadeira...

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Convento da Tomina 2011 (T)
Região: Alentejo (Moura)
Produtor: Francisco Nunes Garcia
Grau alcoólico: 14,5%
Castas: Aragonês, Alicante Bouschet, Trincadeira, Alfrocheiro
Preço em feira de vinhos: 7,99 €
Nota (0 a 10): 8

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Feito num 8


Faz hoje oito anos que este blog foi criado pelos autores, em primeira medida para autonomizar o que escrevíamos sobre vinhos, comida e afins no nosso blog original, o Krónikas Tugas. Rapidamente ganhou vida própria e ultrapassou o progenitor, a ponto de lhe roubar todo o tempo que lhe dedicávamos e passando praticamente a ser o único blog em que escrevíamos.

Nestes oito anos muita coisa se passou, muito vinho se bebeu e analisou, muita comida foi deglutida e apreciada pelos diletantes que criaram esta baiuca e pelos associados do Grupo Gastrónomo-Etilista “Os Comensais Dionisíacos”. Neste ano que está quase a terminar passámos a colocar menos um copo na nossa mesa porque isto da vida tem que se lhe diga. Neste oitavo ano da existência das Krónikas Viníkolas conhecemos novas pessoas e novos vinhos e continuámos a libar o néctar da uva porque, além de ter o que se lhe diga, a vida também continua.

Os aniversários servem essencialmente para comemorar a existência, para agradecer o facto de estarmos vivos, tanto as pessoas como as coisas. Agradeçamos portanto mais um ano de existência ao Universo e esperemos que durante o ano que se avizinha as nossas gargantas continuem a receber o produto da terra, do sol e do homem que é o vinho.

Já dizia o outro, que não era parvo, “In Vino Veritas”!

Obrigado

tuguinho e Kroniketas, enófilos em festa

sábado, 7 de dezembro de 2013

No meu copo 351 - Domaine Felix, Sauvignon 2010; Villa Maria, Sauvignon Blanc 2012

Depois do fabuloso jantar com vinhos franceses no restaurante Jacinto, foi com alguma expectativa que voltei aos vinhos franceses, neste caso com um monocasta de Sauvignon Blanc de Saint-Bris, sub-região da Borgonha, produzido por Domaine Felix et Fils.

Sem ser um vinho excepcional como outros (a memória do fabuloso Domaine Laroche Les Vaudevey ainda estava muito presente), apresentou, como se esperava, aquela suavidade e finesse dos brancos borgonheses, que os torna diferentes de tudo aquilo que já bebi em termos de brancos. Pontuado pelos aromas da casta, com notas tropicais e algum citrino, destaca-se a frescura e elegância num conjunto muito agradável.

Já o Villa Maria foi uma repetição, depois da prova da colheita de 2011 há cerca de um ano, apresentando-se mais estruturado e marcadamente tropical e com algum floral, confirmou as impressões da prova anterior, também com bastante frescura, sendo um vinho apetitoso de que apetece beber sempre mais um copo. Entre os monocasta de Sauvignon Blanc que invadiram o planeta (e esta casta também vai tendo os seus opositores), este será porventura um dos mais conceituados e bem sucedidos. Embora de preço superior, é um vinho com todas as condições para agradar.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Domaine Felix, Sauvignon 2010 (B)
Região: Saint-Bris - Borgonha (França)
Produtor: Domaine Felix et Fils – Saint-Bris-Le-Vineux
Grau alcoólico: 12,5%
Casta: Sauvignon Blanc
Preço em hipermercado: 6,99 €
Nota (0 a 10): 7,5

Vinho: Villa Maria, Sauvignon Blanc 2012 (B)
Região: Marlborough (Nova Zelândia)
Produtor: Villa Maria Estate – Auckland
Grau alcoólico: 13%
Casta: Sauvignon Blanc
Preço: 10,95 €
Nota (0 a 10): 8,5

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Dãowinelover TN Day

    
    

Realizou-se no passado dia 23 de Novembro mais um evento do grupo #daowinelover, promovido pelos bloguistas Pingus Vinicus e Miguel Pereira, que à semelhança do Dãowhiteday decorreu no restaurante Claro do Hotel Solar Palmeiras, em Paço de Arcos.

Desta vez o tema eram os vinhos do Dão elaborados com base na Touriga Nacional, casta originária da região, trazidos pelos produtores que mais uma vez se associaram graciosamente à iniciativa. Nós voltámos a estar presentes e desta vez conseguimos juntar um contingente de 4 participantes, coisa inédita nestes eventos!

Compareceram à chamada 12 produtores, a seguir listados alfabeticamente, pela mesma ordem em que foram apresentando os seus vinhos: Caminhos cruzados, Carlos Lucas Vinhos/Magnum Vinhos, Casa da Passarela, Casa de Mouraz, Dão Sul, Fonte do Gonçalvinho, Júlia Kemper, Quinta das Marias, Quinta de Lemos, Quinta do Escudial, Quinta dos Carvalhais e Quinta dos Roques.

Porque se tornaria demasiado longo e fastidioso falar de todos os vinhos provados, e porque num evento deste género é sempre difícil fazer uma apreciação aprofundada de cada vinho, falemos um pouco de alguns que mais nos marcaram. Sendo a prova orientada para os vinhos monocasta de Touriga Nacional, não se primou exactamente por uma enorme variedade de estilos, mas foi possível descortinar algumas diferenças evidentes entre alguns dos vinhos, mesmo dentro da mesma empresa.

A função iniciou-se com o Touriga Nacional Titular, do produtor Caminhos Cruzados. Um vinho quente com aromas típicos da casta, macio na boca mas algo curto. Muito interessante revelou-se o Ribeiro Santo, de Carlos Lucas, com algum carácter mineral, mais fresco que o anterior, bem estruturado e sem vestígios do estágio em madeira. Da Casa da Passarela veio um Touriga Nacional 2008, austero, com os aromas fechados, muito extraído e concentrado, a precisar de mais tempo em garrafa, e um Villa Oliveira 2009, proveniente de vinhas velhas com mais de 80 anos, elegante e fresco, sem sinal de sobrematuração. Pessoalmente prefirimos o estilo do segundo, pois o primeiro tende a aproximar-se daquele perfil que nalgumas ocasiões torna alguns vinhos de Touriga algo chatos e cansativos.

A Casa de Mouraz, propriedade de filho de viticultores, apresentou dois vinhos, produzidos em agricultura biológica, sendo um deles de lote com Jaen e uvas de vinhas velhas, apresentando uma frescura que foge ao tom um pouco monocórdico da Touriga. Da Dão Sul vieram as duas marcas emblemáticas da casa: um Quinta de Cabriz e um Casa de Santar. O primeiro era o mesmo que tive oportunidade de provar no almoço na Quinta de Cabriz e confirmou esse perfil. Talvez uns anos em garrafas lhe façam bem. Já o Casa de Santar fez pleno jus ao perfil dos vinhos da casa: elegante, não demasiado concentrado, com notas especiadas, suave e com taninos sedosos. Um clássico com o verdadeiro perfil do Dão, dos melhores do dia.

Outra das estrelas do dia foi o vinho de Júlia Kemper, um vinho sedutor com uma longa história contada na primeira pessoa pela produtora. Da mesma forma uma colheita de 1998 da Quinta dos Carvalhais, concentrado e aromático quanto baste para fazer frente a outros bem mais jovens, e a prometer ainda um longo futuro em garrafa.

Da Fonte do Gonçalvinho veio um casal luso (ele)-francês (ela), que se apaixonou pelo Dão e apresentou um vinho ainda muito jovem e a precisar de tempo na garrafa para crescer. Por seu lado, o “jovem” casal da Quinta do Escudial falou-nos da sua experiência no mundo do vinho que começou já bem dentro da terceira idade, destacando-se a coragem de rejeitar a madeira nos seus vinhos, o que lhes mantém alguma pureza e não os mascara, mostrando o verdadeiro carácter do Dão. E para destoar apresentou-nos um excelente branco já na fase dos petiscos.

Da Quinta das Marias veio mais um estrangeiro apaixonado pelo Dão, Peter Eckert, com um vinho muito vivo e firme na boca, com bons taninos mas todo em equilíbrio. Para terminar em beleza tivemos mais uma eloquente exposição de Luís Lourenço acerca do Quinta dos Roques, ficando desde logo anunciado que para o período pós-prova haveria mais vinhos para além da Touriga Nacional...

Terminada esta fase vieram então os comes, em pequenas sanduíches de composição diversa como salmão, legumes, hamburger, abrindo-se então a possibilidade de provar outros vinhos que não foram apresentados na primeira fase.

Já com o serão algo adiantado, os presentes foram-se retirando a pouco e pouco. Foi mais uma bela jornada de propaganda do Dão graças ao entusiamo dos dois organizadores, a quem mais uma vez cabe agradecer o empenho e o trabalho realizado. No entanto, fica a pergunta: que visibilidade se pode esperar destes eventos enquanto eles decorrerem em ambiente privado e sem qualquer envolvimento das entidades oficiais? Será que um grupo de algumas dezenas de entusiastas está mais interessado em divulgar os vinhos do Dão do que os responsáveis a quem esse trabalho supostamente competiria?

Kroniketas e os outros Dão Winelovers

Nota: devido a um problema com o flash, as fotos tiradas ficaram com deficiente qualidade, pelo que deixamos apenas alguns exemplos ilustrativos.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

No meu copo 350 - Quinta do Gradil, Arinto e Sauvignon Blanc 2011

Continuando nos brancos, damos um salto à região de Lisboa.

A Quinta do Gradil é uma propriedade situada a poucos quilómetros do Cadaval, entre as povoações de Vilar e Martim Joanes, na região vitivinícola de Lisboa e geograficamente situada na órbita da Denominação de Origem Óbidos, num cenário maravilhoso de planície próxima do sopé da serra de Montejunto. Em tempos idos foi propriedade do Marquês de Pombal.

Nos anos recentes a Quinta do Gradil tem proporcionado aos enófilos a possibilidade de passarem um dia na vindima, tomando contacto com o mundo real que existe para além do que está dentro da garrafa. Quem sabe se um dia destes não nos candidatamos a ir lá...

No mercado dos vinhos da zona de Lisboa, marcados pelo clima atlântico devido à proximidade do mar, têm surgido novidades muito interessantes, pois são vinhos marcados por alguma frescura, ao mesmo tempo que mostram uma estrutura interessante (no caso dos tintos) e aromas com alguma predominância vegetal e bastante mineralidade. Curiosamente, continua a ser nesta região que existe uma maior incidência de apostas nos vinhos monocasta, de que tanto a Quinta do Gradil como a Casa Santos Lima são exemplos relevantes. No caso da Quinta do Gradil, a aposta tem-se centrado tanto nos mono como nos bivarietais, e neste caso foi um exemplar destes últimos que tive à mesa.

As castas Arinto e Sauvignon Blanc têm sido usadas com alguma frequência em combinação no mesmo lote, e geralmente com bons resultados. O Arinto, com a sua acidez característica e que se expressa de modo particularmente exuberante na Estremadura/região de Lisboa, é determinante para a frescura do vinho e uma evidente vivacidade na prova de boca pontuada por notas cítricas e alguma mineralidade. Entretanto o Sauvignon, por natureza com notas mais tropicais e algum perfil mais vegetal, complementa o lote com uma boa estrutura e uma macieza que contrabalança a acidez do Arinto. Daqui resulta uma combinação feliz e bem conseguida, num conjunto marcadamente fresco e apelativo, que se expressa muito bem na companhia de entradas diversas, mariscos ou peixes não demasiado temperados.

Tendo em conta o preço, estamos perante um produto que, sendo fácil de agradar, é bastante acessível e versátil. Portanto, uma boa aposta para brancos não muito pretensiosos e para beber com descontracção.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Quinta do Gradil, Arinto & Sauvignon 2011 (B)
Região: Lisboa (Óbidos)
Produtor: Quinta do Gradil - Sociedade Vitivinícola
Grau alcoólico: 13%
Castas: Arinto, Sauvignon Blanc
Preço em feira de vinhos: 4,75 €
Nota (0 a 10): 7,5

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

domingo, 24 de novembro de 2013

No meu copo 349 - Topázio Reserva 2010

Aproveitando a embalagem dos brancos franceses, continuamos a falar de brancos, agora acerca dum vinho que em tempos teve algum destaque entre os brancos portugueses, quando ainda era produzido pelas Caves Velhas. Era um daqueles brancos leves e fáceis de beber. Depois a marca desapareceu do mercado, até ressurgir nas prateleiras há 2 ou 3 anos, já sob o chapéu da Enoport mas mantendo no rótulo a menção às antigas e prestigiadas Caves Velhas.

Muito aromático, floral e citrino, elegante e com uma acidez que dá uma boa frescura na boca, é um vinho simpático, apelativo e fácil de beber. As castas usadas naturalmente ajudam: a acidez do Arinto junta-se ao aroma floral da Malvasia Fina e à estrutura do Viosinho.

Em resumo, o reencontro com este vinho, após longos anos de ausência, foi prazeroso, e o preço apresentado torna-o naturalmente uma compra recomendável para quem quiser um branco agradável e descomplicado, pelo que o juntámos à nossa lista de sugestões.

O único senão é que raramente se consegue encontrar à venda. O Continente por vezes apresenta-o nas feiras de vinhos, mas após o fim destas o vinho desaparece das prateleiras até à próxima feira...

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Topázio Reserva 2010 (B)
Região: Douro
Produtor: Enoport - Produção de bebidas
Grau alcoólico: 12,5%
Castas: Arinto, Viosinho, Malvasia Fina
Preço em feira de vinhos: 3,99 €
Nota (0 a 10): 7,5

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

No meu copo, na minha mesa 348 - Jantar no Jacinto com vinhos franceses

   
   
   
 

Este evento decorreu no mesmo dia do início do Encontro com o Vinho e os Sabores 2013. Tudo aconteceu de forma inesperada, após ter recebido um e-mail, proveniente dum velho conhecido ligado ao sector do vinho, com um convite para um jantar com provas comentadas de champanhe. Embora já tivesse planos para esse dia, que em parte continham uma primeira passagem pelo Encontro com o Vinho, pareceu-me que a proposta era demasiado aliciante para declinar, tendo em conta que não havia custos envolvidos.

Dito isto mudei de planos e, após a confirmação de local e horas, saí mais cedo do Centro de Congressos de Lisboa e dirigi-me a Telheiras para estar no Jacinto por volta das 21 horas. O que aconteceu, no entanto, foi que a quase totalidade dos participantes estavam no Encontro com o Vinho e foram chegando a conta-gotas, de tal forma que pelas 22 horas ainda não estávamos à mesa. Enquanto se esperava, foi-nos servido um copo de champanhe Deutz para ir passando o tempo.

Só quando toda a gente estava à mesa e foram feitas as apresentações do que se iria passar fiquei a saber que o evento era promovido pela distribuidora Mister Wine e que em vez de um produtor de champanhe iríamos ter na sala os representantes de não 1, não 2, não 3, mas 4 produtores franceses: Deutz (da região de Champagne), Delas Frères (Côtes-du-Rhone), Michel Laroche (Chablis) e Pascal Jolivet (Loire). Conversa puxa conversa, um contacto leva a outro, um é convidado para apresentar os seus vinhos e há outro que entra na conversa, e assim em vez de apenas champanhe iríamos ter também vinho branco, tinto e doce. Um verdadeiro desfile de néctares de excepção à nossa espera! E só à medida que fui identificando os presentes, quase todos ligados ao sector do vinho (jornalistas e/ou enólogos e /ou produtores, representantes da Revista de Vinhos, jornal “I”, Exame) é que me apercebi de como era um privilegiado por estar ali, eu, um mero amador que escreve num blog e de vez em quando vai conhecendo as pessoas do meio numas provas aqui e ali...

A condução das operações foi feita por José Carneiro Pinto, ligado à Quinta do Oritgão, que apresentou os representantes dos produtores presentes e anunciou o que se iria beber ao longo da refeição. Tudo em inglês, para que toda a gente percebesse...

E assim foram desfilando os pratos e os vinhos, quase todos em garrafas magnum, começando pelo champanhe Deutz Brut Classic, composto pelas castas Pinot Noir (que dá volume de boca e corpo ao vinho), Pinot Meunier e Chardonnay em partes iguais (portanto um misto de brancas e tintas, como é típico da região). Bolha fina, muito elegante, persistente (Nota: 8,5).

A partir daqui tivemos os vinhos apresentados aos pares para acompanhar cada prato. Começámos com um prato de cogumelos recheados, ovos com farinheira e queijo de cabra com mel, tudo muito bem temperado e apaladado, com os sabores muito suaves a casarem muito bem com os vinhos.

Fui debicando de cada um alternadamente, acompanhando com um branco de Pascal Jolivet, Clos du Roy 2012, da região de Sancerre. Excelente acidez, macio e persistente, com boa estrutura (Nota: 8,5). A emparelhar, um Domaine Laroche, Saint Martin 2011, de Chablis (Borgonha). Mais doce e menos estruturado que o anterior, dois perfis bastante diferentes (Nota: 8).

Passámos então à pièce de résistance, com dois pratos. Primeiro veio um polvo de cebolada que depois foi ao forno, bastante suculento, bem temperado e apetitoso. Para acompanhar, novamente um vinho de Sancerre e um de Chablis, tal como na parelha anterior. Pascal Jolivet Les Caillottes 2001, suave, aromático e profundo (Nota: 9). Infelizmente perdeu na comparação com o parceiro que veio ao mesmo tempo, para mim o vinho da noite: um Chablis Premier Cru (o segundo nível de topo, apenas abaixo dos Grand Cru) Domaine Laroche Les Vaudevey 2006, 100% Chardonnay. Grande corpo, grande estrutura, aroma interminável, tudo pontuado por uma finesse notável e uma elegância soberba. Grande, grande vinho, um autêntico néctar dos deuses que nos ajuda a perceber o porquê da fama dos brancos franceses, e dos da Borgonha em particular! E que diferença em relação aos Chardonnay feitos em Portugal, carregados de madeira, pesados, amanteigados, enjoativos... No fim, como recordação, levei para casa a garrafa de 1,5 L deste vinho sublime! (Nota: 10)

Seguiu-se outro prato de resistência, uma empada de pato com salada de alface, também excelentemente temperada. Para acompanhar, um champanhe e um tinto. Champagne Deutz Brut 2006: mousse suave, fino, elegante, excepcional! (Nota: 10). A fazer parceria, o único tinto da noite: Marquise de La Tourette Delas 1999, da região de Hermitage (Côtes-du-Rhone), 100% Syrah ou não esitvessemos no berço da casta. Um vinho que se impõe pela suavidade e elegância, típica dos tintos daquela região, marcando a diferença em relação às bombas de fruta e álcool com que vamos levando por cá na última década. (Nota: 8,5)

Para as sobremesas ainda tivemos direito a mais um duo de pratos. Primeiro um folhado de morangos com natas, acompanhado com um Champanhe Deutz rosé. Elegante, suave e aromático, corpo médio. (Nota: 8).

Finalmente, uma trilogia de doces conventuais, encharcada, fidalgo e sericaia (qual deles o melhor), acompanhados por mais um duo de vinhos. O famoso Sauternes, porventura o branco doce mais emblemático do planeta, um Château Doisy Daëne 2005 (Nota: 8,5) e mais um champanhe: Cuvée William Deutz Millésime 1999, muito seco, elegante e equilibrado. (Nota: 9)

Foi um fecho em beleza para um repasto excepcional e inolvidável, com pratos de alto nível e vinhos de excepção. Lá pela 1:30 da manhã finalmente abandonei o local, ainda restando alguns minutos de convívio entre os mais resistentes, que foram ficando até ao fim.

Só me resta agradecer o convite que em boa hora me foi dirigido pelo meu amigo José Carneiro Pinto e à Mister Wine por ter organizado este magnífico jantar. Também ao restaurante Jacinto, com uma confecção, um serviço de refeição e de vinhos irrepreensível. Depois de alguma crise atravessada na década de 1980, o Jacinto renasceu em grande e tem sido palco de alguns jantares de grande nível, cotando-se como um dos locais de eleição para jantares vínicos na cidade de Lisboa  nos últimos anos já tinha lá participado num jantar da Niepoort (1ª parte e 2ª parte) e num da Dão Sul. E finalmente aos produtores que disponibilizaram os seus fantásticos vinhos e me permitiram pela primeira vez provar e degustar um painel de vinhos franceses sublimes.

Foi mais uma noite para recordar no restaurante Jacinto. Parabéns a todos.

Kroniketas, enófilo embevecido

domingo, 17 de novembro de 2013

Encontro com o Vinho e os Sabores 2013 - As nossas visitas

 

Este é um ritual que já celebramos há bastantes anos. O Encontro com o Vinho e Sabores, organizado pela Revista de Vinhos, é sempre um marco no nosso ano vínico, chamemos-lhe assim, e um acontecimento da maior importância para todos os amantes do vinho. Por isso, mais uma vez, lá estivemos presentes no passado sábado (e não só), com a maior satisfação e disponibilidade.

Antes de falarmos mais sobre o certame e as provas, algumas considerações gerais. A quem tem ido lá todos os anos, como nós, é fácil constatar várias coisas: a afluência de público que cresceu de forma acentuada nos últimos anos o que, embora espelhe o êxito do evento, torna cada vez mais difícil o seu usufruto; a alteração na composição desse mesmo público, que passou do quase exclusivamente masculino para um equilíbrio entre os géneros, o que muito nos apraz por diversos motivos; a manutenção da representatividade dos produtores, apesar das flutuações naturais neste tipo de organizações.

A experiência deste ano começou na noite de 6ª feira, em que o Kroniketas aproveitou não só para fazer uma primeira ronda pelos stands e estar presente na divulgação dos prémios da imprensa, como se aventurou pelas mesas do restaurante Jacinto num convite de última hora (mas deste acontecimento noutra posta se falará).

Vamos então às impressões destes escribas sobre os vinhos provados no Encontro, recolhidas no sábado à tarde. Desde logo se notou a afluência mais vespertina do público, apresentando-se o pavilhão bem cheio logo por volta das 16 horas. Começou-se pela ala direita do certame, zona onde pontificam habitualmente verdes e espumantes, e foi exactamente por um verde estreme da casta Loureiro que se iniciaram as lides. O vinho da Casa da Senra mostrou grande afabilidade, sem exagero na acidez e sabor acentuado à casta. Correcto e apetecível.

Continuou-se pelos brancos com um Chardonnay Quinta do Valdoeiro, da Messias, que se mostrou escorreito, a mostrar que a casta também aqui pode fazer vinhos de valor, embora diferentes dos obtidos na origem ou nas versões Novo Mundo (leia-se, essencialmente, Nova Zelândia). Provou-se a seguir um Encruzado da Quinta da Pellada (Álvaro Castro) que, apesar do potencial que se lhe adivinhou, mostrou-se ainda muito novo e um tanto agreste. De certeza que o tempo o transformará em mais um excelente Encruzado deste produtor, que de há muito nos habituou a elevada qualidade.

A intenção de efectuar uma primeira volta só a provar brancos e fazer uma segunda passagem só para os tintos mostrou-se impossível de concretizar, pelo que se passou a usar o método habitual, ou seja, tudo à mistura.

O Bairrada estreme de Merlot (pois, agora pode) Nelson Neves Reserva mostrou-se correcto nos taninos, aromas e sabores da casta mas, como os nossos leitores já sabem, a nossa Bairrada preferida não passa por aqui. Um bom Merlot, mas que podia ser feito noutra região qualquer. De caminho provou-se também um “velho” conhecido, o Moscatel Galego da Quinta do Vallado, fresco e com o moscatel bem presente, bem adequado a pratos leves ou entradas.

Os clássicos Meandro e Quinta do Vale Meão mostraram-se iguais a si próprios, mas temos de confessar que é um perfil que começa a cansar e a saber a mais do mesmo, não refutando a sua notável qualidade. São gostos...

Outros destaques foram o Frei João Reserva 1990 em garrafa magnum, das Caves São João, o espumante Quinta do Encontro Special Cuvée (foi um dos premiados) e os Villa Maria Sauvignon Blanc e Sauvignon Blanc Reserve, assim como o Riesling e o Pinot Noir. Também se experimentou o Antónia Adelaide Ferreira no stand da Sogrape e uma grande surpresa foi um espumante de Arinto da A. C. Borba, muito bem conseguido e com uma frescura inesperada para aquelas paragens.

Acabámos também por descobrir dois produtores que não tínhamos o prazer de conhecer, um do Douro, outro do Dão. Comecemos pela Vinilourenço, onde se provaram dois monocastas durienses sob a chancela D. Graça, um de Tinto Cão, outro de Sousão. Ambos se mostraram equilibrados, com os taninos domados e sabor característico das castas que lhes deram origem. Sendo o escriba apreciador confesso da casta Tinto Cão, gostou bastante do exemplar provado – casta que não anda pelos sabores florais ou de fruta, de bom corpo sem deixar de ser elegante, pode não ser da moda mas esta metade das Krónikas gosta muito; surpreendeu a casta Sousão (Vinhão na zona dos Vinhos Verdes), tanto pelo corpo como pelo fim de boca que se diria reverberar o sabor sentido no início da prova – não a conhecíamos em versão estreme, embora seja um clássico no verde tinto e nos lotes de Porto. Só agora começa a surgir com maior notoriedade em nome próprio e parece-nos que daqui poderão sair grandes vinhos, se não se enveredar pelas bombas de fruta e álcool e quejandos.

O outro produtor dá pelo nome de Quinta das Camélias. Provaram-se um Touriga Nacional e um Reserva de lote, com castas características da região (Touriga, Alfrocheiro, Tinta Roriz e Jaen). Embora o Touriga Nacional se mostrasse de grande classe, a nossa preferência foi para o clássico de lote, que evidenciava todas as características que idolatramos nos tintos do Dão, a começar pela elegância e continuando na complexidade de aroma e sabor, naqueles níveis a que um vinho de uma única casta, por muito bom que seja, nunca conseguirá chegar (na nossa opinião, claro).

Terminou-se o périplo com uma ligeira incursão pelos Portos, que a condução posterior não permitia abundâncias etílicas. Desta vez optou-se por provar três tawnies de dois produtores: um Niepoort de 20 anos e dois Kopke, um de 10 e outro de 20 anos. Não há muito a dizer sobre estas três maravilhas – o nosso favor continua a oscilar entre a força dos Vintage e a beleza dos Tawnies velhos –, apenas que, em termos de perfil, os Kopke nos agradaram imenso.

Como já referimos, fomos amavelmente convidados (com direito a um representante, tarefa que esteve a cargo do Kroniketas) para a prova aberta à imprensa e bloggers com os 44 vinhos premiados na Escolha da Imprensa, que englobava 4 categorias: espumantes, brancos, tintos e fortificados (nenhum dos rosés avaliados teve direito a prémio).

Infelizmente, no início da prova nenhum dos vinhos estava à temperatura correcta (nem sequer os brancos e espumantes), com a excepção dos Portos Burmester 1937 e 1965, que estavam no frio e, como não existiam cuspideiras, não havia para onde deitar fora o vinho, pelo que os participantes o foram despejando no gelo onde estavam as garrafas a refrescar. Só cerca de 10 minutos depois apareceram dois bidões para servirem de cuspideiras e os vinhos, com o tempo, lá foram ficando capazes para provar.

A meio dos tintos voltou-se a um espumante rosé da Aliança, para refrescar a boca que já estava encortiçada de tanto tinto morno. E no Quinta da Leda ainda se teve direito a um bocado de rolha esfarelada dentro do copo...

Agradaram bastante os espumantes premiados, todos bem feitos, e nos brancos destacou-se o Viosinho da Quinta do Gradil, com excelente acidez e muita frescura, muito equilibrado e com boa estrutura mas elegante. Outro destaque para o Poeira branco, uma boa novidade.

A seguir aos Portos da Burmester só se experimentou um Noval 2001 e, como saltou imediatamente o álcool ao nariz, acabou-se a prova por aqui.

Chegado o tempo de partir, que o derby estava à porta, ainda houve tempo para agradecer os convites oferecidos pela Revista de Vinhos à gestora de produto da revista e para comprar umas castanhas de Trás-os-Montes que, digo-vos já, estavam óptimas!

Fica aqui também um agradecimento especial pelo convite dirigido a este blog bem como a respectiva credenciação para o acesso à prova dos vinhos premiados na escolha da imprensa. Há que ter em atenção, contudo, à logística deste evento paralelo que não é assim tão complicada. Tendo em conta a longa experiência tanto da organização como dos produtores neste tipo de certames, não se compreende que não se tenha tido na preparação da prova os cuidados básicos que qualquer enófilo minimamente experiente tem em casa: as garrafas tinham de estar à temperatura correcta para a prova antes de serem transportadas para o local, os brancos e espumantes tinham de estar já devidamente frescos e as cuspideiras tinham de estar a postos, para não se incorrer na situação verificada, de começarmos a provar espumantes que nem frios estavam e ficarmos a olhar para os produtores e os produtores para nós, sem sabermos o que fazer ao vinho que tínhamos no copo porque o mesmo não estava bebível e não tínhamos onde o despejar... Uma falha a corrigir em próximas edições, quem em nada retira o mérito a esta enorme empreitada. Mas como no melhor pano cai a nódoa, convém não descurar os detalhes para que não ocorram situações embaraçosas. Até porque provar vinhos a tender para o morno não faz jus à qualidade que os levou a serem premiados.

Até para o ano!

tuguinho, enófilo esforçado e às vezes regressado

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

No meu copo 347 - Dão Pipas Reserva 1999

Para finalizar este périplo pelo Dão, e continuando no universo Sogrape, voltamos aos clássicos.

Ainda antes do evento na Quinta da Espinhosa à volta dos vinhos do século XX, tinha sido consumida com os comensais habituais o último exemplar de Dão Pipas, adquirido em 2008 aproveitando uns restos de colecção no Jumbo a um preço muito atractivo. E depois de provar este último exemplar, como lamentei não ter comprado todas as garrafas que lá estavam...

Prudentemente decantado com a antecedência suficiente para libertar os aromas aprisionados por tão longa permanência em garrafa, rapidamente o vinho se guindou a um nível de exuberância aromática surpreendente e com uma vivacidade e estrutura na boca que em nada indiciavam estarmos perante um vinho já com 14 anos. A cor estava lindíssima, com um rubi brilhante que era característico de muitos clássicos do Dão em novos, o aroma limpíssimo e jovem, ainda com bastante presença de fruta e um final longo, longo, longo... Mais uma vez se confirmou que estes vinhos eram autênticas preciosidades feitas para durar e apreciar durante longos anos.

Depois desta prova e da que se realizou na Quinta da Espinhosa, ficou a vontade de voltar a procurar estes vinhos nas garrafeiras. Porque estes nos deixam memórias quase irrepetíveis.

Notável!

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Dão Pipas Reserva 1999 (T)
Região: Dão
Produtor: Sogrape Vinhos
Grau alcoólico: 12%
Preço: 8,57 € (em 2008)
Nota (0 a 10): 9


Provas de outras colheitas deste vinho:
Dão Pipas 1985
Dão Pipas 1983 e 1997
Dão Pipas 1996

domingo, 10 de novembro de 2013

Na GN Cellar 3 - Quinta dos Carvalhais

     
Mesmo na véspera do arranque do Encontro com o Vinho e os Sabores 2013, ainda houve oportunidade de passar pelas instalações da Garrafeira Nacional na Rua da Conceição para uma prova de vinhos da Quinta dos Carvalhais, com a presença do enólogo-chefe Manuel Vieira e da enóloga Beatriz Cabral de Almeida.

Em prova estiveram dois brancos e quatro tintos, que foram sendo apresentados pelo Eng. Manuel Vieira à medida que cada um deles era servido no copo. Nesta provas tivemos a curiosidade de serem provados vinhos monocasta e vinhos de lote de forma intercalada, o que permitiu diferenciar claramente as características duns e doutros.

Nos brancos tivemos em primeiro lugar um monocasta de Encruzado. Pareceu-me algo linear na prova de boca, embora melhor no aroma, mais exuberante e mineral. Lembrei-me ainda do Encruzado da Quinta da Falorca que tinha provado na semana anterior, e tinha-me agradado mais, revelando-se mais estruturado e persistente.

Bem diferente foi o segundo branco, um Colheita Selecionada de Encruzado e Verdelho, que mostrou bem a diferença em relação ao anterior. Teve estágio em madeira, o que lhe dá outra complexidade, sendo que a madeira não se impõe nos sabores nem nos aromas. Este provou melhor, revelou-se com outro porte, estando mais vocacionado para a mesa, com aromas mais tropicais e maior persistência. Não conhecia esta versão e fiquei bastante agradado.

Passando aos tintos, começámos pelo Colheita, o mais barato dos quatro e feito a partir de um lote de Tinta Roriz, Trincadeira e Alfrocheiro. Um vinho equilibrado mas consistente, estruturado quanto baste e feito para se gostar. Um Dão típico, à moda clássica.

Seguiu-se um monocasta de Touriga Nacional, com aquelas características florais típicas da casta. Confesso, no entanto, que este perfil de vinhos já me começa a cansar, porque apesar de todas as loas que são cantadas a esta casta, a solo começa a tornar-se monocórdica, sempre igual, nunca se espera nada de novo. Não há muito tempo tinha bebido um Alfrocheiro de 2006, que se revelou muito mais vibrante que este. Após muita insistência, a Touriga já cansa, principalmente porque se seguiu o Reserva, outro vinho de lote entre a Tinta Roriz e a Touriga Nacional, que se apresentou muito mais complexo e estruturado, com outra persistência, um vinho a requerer mais tempo no copo para melhor lhe apreciar as características.

Finalmente, o topo da gama dos Carvalhais: o Único 2009, apenas a segunda colheita depois da de 2005 que tínhamos provado há uns anos em estreia na Wine O’Clock. Na altura achámo-lo extraordinário, quase ao nível dum Vinho do Porto, e pareceu estar ali o potencial e ansiado Barca Velha do Dão. Nesta prova apareceu menos exuberante, com os aromas algo escondidos, porque ao contrário da ocasião anterior não houve tempo para libertar todas as suas características aromáticas e estruturais. Mas o potencial pareceu novamente estar lá.

Manuel Vieira foi explicando as características de cada vinho e o modo como é produzido e como são escolhidas as uvas, dando realce a duas vinhas da Quinta dos Carvalhais: a vinha da Palmeira e a vinha da Anta, que parece ser aquela que apresenta as características ideais para a escolha das uvas para fazer vinhos de excepção. Foi dali que saíram as uvas para o Único, que deveria ser um lote mas em que as uvas de Touriga se impuseram ao enólogo, nas palavras do próprio.

E assim ficámos a conhecer as novidades da Sogrape no Dão, numa antecipação do evento que se ia seguir. No dia seguinte marchámos para a 14ª edição do Encontro com o Vinho e os Sabores.

Em aberto ficou ainda a hipótese de marcar uma visita conduzida pelo Eng. Manuel Vieira à garrafeira da Quinta dos Carvalhais, para descobrir as relíquias que por lá estão...

Kroniketas, enófilo esclarecido

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Na GN Cellar 2 - Quinta da Falorca



Continuando este périplo pelo Dão, na passada semana tive oportunidade de me deslocar às novas instalações da Garrafeira Nacional, a GN Cellar na Rua da Conceição, na baixa lisboeta, para uma prova de vinhos da Quinta da Falorca, onde tive oportunidade de reencontrar o Pingus Vinicus, natural e grande aficionado da região.

Sendo um dos nomes que vão sendo badalados como estando na linha da frente para a reabilitação do prestígio do Dão, era uma boa oportunidade de conhecer o que este produtor nos coloca à disposição. Começámos por um branco de Encruzado de 2012, a casta da moda nos brancos do Dão, que se mostrou apetitoso, bem estruturado, com alguma mineralidade e frescura na boca. Apesar dos 14% de álcool, este não se faz sentir e não pesa na prova.

Seguiram-se 4 tintos, um deles que apareceu como surpresa para o fim do evento. O Reserva Lagar 2009 é um tinto típico do Dão, suave e equilibrado, algo discreto de aromas. Os dois seguintes, um Touriga Nacional 2005 e um Garrafeira 2007, mostraram perfis bastante diferentes. No caso no monocasta, apresentou o floral típico da Touriga, alguma vivacidade na boca, mas perdeu na comparação muito próxima com o Garrafeira. Este revelou-se um vinho já maduro, crescido, num óptimo ponto de evolução, elegante e ao mesmo tempo estruturado, um verdadeiro Dão clássico, um vinho claramente para mesa, a pedir um prato requintado e bem temperado.

Já na recta final, apareceu o vinho-surpresa, um Reserva 2001. Um dos tais a fazer lembrar os vinhos antigos. Suave, equilibrado, elegante, com tudo no ponto certo, um vinho para apreciar e degustar devagarinho e sem pressa.
Daquilo que é possível reter num evento deste género, a qualidade média mostrou-se bastante elevada, embora os preços dos vinhos apresentados possam tornar-se dissuasores, uma vez que à excepção do branco todos apresentam valores acima dos 20 €. Há que lhes dar tempo para fazerem o seu caminho.

Kroniketas, enófilo esclarecido

domingo, 3 de novembro de 2013

No meu copo 346 - Paço dos Cunhas de Santar Nature 2010

Continuando na onda dos vinhos do Dão, e ainda dentro do universo da Dão Sul/Global Wines, agora um vinho recente e que se pretende diferente. O nome “Nature” que foi acrescentado à marca refere-se ao modo de elaboração do mesmo: obtido a partir de uvas biológicas, sem estágio em madeira, estabilização pelo frio nem filtração. Pretende-se, portanto, ter um produto o mais natural possível.

A verdade é que o resultado é deveras agradável. Embora mantendo também o defeito de um pouco de álcool a mais, aqui esse aspecto não é tão evidente como no Cabriz Touriga Nacional mencionado no post anterior. Este Paço dos Cunhas de Santar Nature é um vinho mais aberto na cor, com a fruta bem marcada no aroma, muito menos concentrado e bastante mais leve na prova de boca, onde predomina alguma elegância e o equilíbrio.

Deste modo temos aqui um vinho que faz jus à suavidade dos vinhos do Dão enquanto apresenta um perfil moderno que pode dar um bom contributo para a recuperação do prestígio da região.

Um bom produto, por um preço aceitável, a revisitar.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Paço dos Cunhas de Santar Nature 2010 (T)
Região: Dão
Produtor: Paço de Santar - Dão Sul
Grau alcoólico: 14%
Castas: Tinta Roriz, Touriga Nacional
Preço em feira de vinhos: 6,99 €
Nota (0 a 10): 8

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Um passeio pelo Dão - 2 (por entre serras e vinhas)

No meu copo, na minha mesa 345 - Cabriz, Touriga Nacional 2010; Restaurante Quinta de Cabriz (Carregal do Sal)


                
   

O resto do fim-de-semana foi para passear e conhecer a zona, tanto quanto possível dentro dos limites da região demarcada do Dão. De tarde fomos a Penalva do Castelo, passeámos nos enormes jardins da Casa da Ínsua, depois fomos a Fornos de Algodres e regressámos a Mangualde. Seguimos a sugestão do Pingus Vinicus e tentámos jantar no Valério... só que estava fechado, num sábado à noite. Foi difícil encontrar algo decente para jantar, e acabámos numa churrasqueira/pizzaria, a comer pizza e lombinhos de porco com cogumelos. Jantar tipicamente beirão, portanto...

Estranhámos a falta de oferta gastronómica na cidade num sábado à noite, mas talvez a crise ajude a explicar o fenómeno, pois no distrito de Viseu, para além da capital de distrito, Manugalde parece ser a cidade mais em destaque e naquela zona, para sueste, não há mais nenhuma cidade. Talvez o turismo não seja muito tido em conta por aquelas paragens...

O domingo foi dedicado a mais passeios, mas já apontando a sudoeste: primeiro em direcção a Nelas, com passagem à porta do Bem-Haja, uma referência obrigatória nos guias de restaurantes e com menção no Guia Michelin (pelo sim pelo não, já está localizado...), junto à adega Pedra Cancela e, quase por acaso, acabámos por topar com a entrada do Centro de Estudos Vitivinícolas do Dão, essa entidade histórica e que tão importante papel teve ao longo de décadas no vinho da região, que acabou de completar 105 anos de existência!

De Nelas rumámos a Santar, onde quase somos inundados pela vasta área de vinha da Casa de Santar, que começa a ser visível quando se começa a descer para o vale antes da povoação, depois de passar Vilar Seco. Passámos junto à adega da Casa de Santar, espreitámos o Paço dos Cunhas e a Quinta do Sobral e serpenteámos pelas ruas estreitas da povoação, que mantém uma traça quase medieval muito bem preservada. Para além das empresas produtoras de vinho ali sediadas, vale a pena visitar a pequena povoação pela beleza e enquadramento paisagístico.

Em todo este périplo, acabámos por deixar para trás um dos alvos possíveis da viagem, a Quinta dos Carvalhais, que implica um desvio em direcção a Alcafache. Mas ficou na agenda para uma próxima oportunidade, assim como o Bem-Haja, porque a seguir apontámos o trajecto em direcção a Carregal do Sal para chegar à Quinta de Cabriz à hora de almoço - ainda era demasiado cedo para parar em Nelas e abancar no Bem-Haja.

Mesmo ao pé da rotunda à entrada de Carregal do Sal, quando se entra pelo lado do IC12, logo junto à estrada vemos a placa que indica Restaurante Quinta de Cabriz – Enoturismo. Enoturismo a sério, é o mínimo que se pode dizer. Serviço impecável, rápido, simpático, eficiente, sempre em cima do acontecimento mas sem maçar o cliente.

Antes do prato principal fomos brindados com uma oferta do chefe, que nos enviou uns rissóis e uns pastelinhos de bacalhau ainda quentes, e com um espumante de boas-vindas, um Quinta do Encontro rosé feito exclusivamente de Touriga Nacional, muito leve e aberto, de cor salmão clara e um bom complemento para as entradas.

Havia um menu de degustação por 17,50 €, que incluía uma entrada, um prato e uma sobremesa, cada um acompanhado com o seu vinho, mas com um pequeno senão: era tudo baseado em maçã bravo de Esmolfe, do princípio ao fim, e considerámos que era maçã a mais, pelo que fomos para o menu da casa e escolhemos um cabrito à moda de Cabriz, de confecção irrepreensível, com batatinhas assadas, esparregado e arroz de feijão. De realçar a possibilidade, assinalada no menu, de pedir dose e meia do prato principal, o que também é de saudar e ajuda a gerir as quantidades que se pode comer, e foi essa a opção escolhida.

No final, um carrinho de sobremesas com múltiplas escolhas, tendo-se pedido apenas uma versão cremosa de tiramisu a lembrar mais o leite-creme, que estava bom mas muito consistente, dando para dividir por dois.

Os vinhos são vendidos a preços de produtor, mais baratos que no supermercado, o que se saúda. Por exemplo, o Cabriz Colheita Seleccionada, que se compra por cerca de 2,70 € no comércio, estava à venda a 2,20 € por garrafa de 75 cl, e a 1,10 € a garrafa de 37,5 cl. O preço dos pratos também não escalda. No final, com vinho, sobremesa e café, 20 € por pessoa é bastante razoável para a qualidade do restaurante nas suas diversas vertentes.

O ponto menos positivo acabou por recair precisamente no vinho escolhido. Estando disponível todo o portefólio da Dão Sul, desde os Portos das Tecedeiras até ao alentejanos do Monte da Cal, passando pela Quinta do Encontro na Bairrada e pela Casa de Santar e pelo Paço dos Cunhas no Dão, a dificuldade está em adequar a quantidade que se vai beber e o perfil do vinho ao prato. Dentro dos preços ajuizados, a escolha foi um Cabriz Touriga Nacional 2010, que decepcionou e se revelou uma má opção: 14,5% de álcool, um vinho pesadíssimo, superconcentrado, enjoativo, impossível de beber por muito tempo. Ao segundo copo já farta a ficamos com o palato completamente saturado. Com algum sacrifício, eu e a minha mulher não conseguimos sequer beber metade da garrafa, pelo que o resto veio rolhado para casa. Não é que se possa dizer que o vinho é defeituoso, mas com vinhos deste perfil, infelizmente, por este caminho não vamos lá.

Definitivamente, estou farto deste tipo de vinhos e não consigo mais bebê-los. Bem refere Luís Antunes, no seu artigo na Revista de Vinhos de Outubro, os casos em que em vez de apetecer uma segunda garrafa, nem se consegue acabar a primeira. Foi esse o caso. Se soubesse que esta colheita estava assim, tinha pedido um Casa de Santar Reserva, que de certeza ficava mais bem servido.

Enquanto os produtores e enólogos insistirem neste caminho, estão a dar tiros nos pés. Porque quando o cliente não consegue consumir, sequer, metade duma garrafa de vinho que se espera que seja de qualidade superior, certamente a culpa não é do cliente... Senhores produtores e enólogos, duma vez por todas abram os olhos e não insistam em trilhar este caminho, porque mais cedo ou mais tarde vão arrepender-se. Pela parte que me toca, enquanto este vinho mantiver este perfil não voltarei a pedi-lo nem a comprá-lo em lado nenhum. É pena, porque a Dão Sul é uma das empresas de que se espera sempre o melhor, mas ir atrás da moda é capaz de não ser a melhor política.

No fim, ainda antes do regresso a casa e para ajudar a digerir o almoço, ainda houve tempo para um pequeno passeio pelo jardim entre o restaurante, a loja de vinhos e a adega, uma espreitadela às gigantescas cubas de fermentação por trás desta e ainda a observação de 10 fileiras de cepas com amostras de castas tintas usadas nos vinhos da empresa, que bordejam a entrada da adega. Por ordem alfabética, encontramos Alfrocheiro, Alicante Bouschet, Aragonês, Baga, Jaen, Syrah, Tinto Cão, Touriga Franca, Touriga Nacional e Trincadeira. Aliás, já tínhamos visto o mesmo nos jardins da Casa da Ínsua, onde está devidamente assinalado o Canteiro das Castas que são usadas nos vinhos da casa.

A partir daqui, o regresso à capital com uma sensação de satisfação pelos passeios dados e pelos locais visitados, mas com vontade de voltar ao Dão mais cedo ou mais tarde. De preferência mais cedo...

Viva o Dão e os 105 anos da região demarcada!

Kroniketas, enófilo itinerante

Vinho: Cabriz, Touriga Nacional 2010 (T)
Região: Dão
Produtor: Dão Sul
Grau alcoólico: 14,5%
Casta: Touriga Nacional
Preço no restaurante: 10,40 €
Nota (0 a 10): 5,5

Restaurante: Quinta de Cabriz
Carregal do Sal
Tel: 232.961.222 / 232.960.140
Preço médio por refeição: 20 a 25 €
Nota (0 a 5): 4,5