quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Na Garrafeira Nacional 1 - Douro, Rio de patrimónios e Quinta da Leda 2009



A apresentação da nova colheita do novo Quinta da Leda 2009 foi uma oportunidade para mais uma deslocação à Garrafeira Nacional, na baixa lisboeta, onde decorreu ao mesmo tempo a apresentação de um novo livro de José A. Salvador sobre o rio Douro e a sua ligação à cultura do vinho, Douro - Rio de patrimónios.

Esteve presente o enólogo da Casa Ferreirinha, Luís Sottomayor, que falou sobre as características deste fantástico vinho e do seu enquadramento no portefólio dos vinhos da Sogrape. Pena foi que não estivesse presente o autor do livro, estando apenas dois representantes dos CTT, que apadrinha o lançamento do livro. Assim, foi possível conversar acerca dos vinhos da Sogrape mas não acerca do livro sobre o rio Douro.

Quanto à prova do Quinta da Leda 2009, o mínimo que se pode dizer é que estava magnífico como se esperava. Mantém o perfil eminentemente elegante que o caracteriza sem perder uma notável persistência e profundidade aromática a par com uma boa estrutura na boca. Mesmo os 14,5% de álcool que esta colheita apresenta não prejudicam o equilíbrio da prova. Parece ser vinho para longos anos de vida na garrafa, e deverá merecer prova à mesa quando a ocasião se proporcionar.

Kroniketas, enófilo esclarecido

domingo, 21 de outubro de 2012

Vinhos de Portugal 2013



Já está à venda do novo livro de João Paulo Martins, Vinhos de Portugal 2013 – Notas de prova, que constitui a 19ª edição deste guia, o mais antigo dos que são actualmente publicados me Portugal. A apresentação decorreu no final de Setembro no hotel Sheraton, em Lisboa, tendo-se reunido uma delegação dos suspeitos do costume para ir lá assistir.

Num ambiente descontraído, o jornalista e redactor da Revista de Vinhos falou sobre a dimensão crescente do conteúdo do livro e do trabalho acrescido de ano para ano, passando depois à apresentação dos vinhos premiados e entrega dos respectivos prémios, onde se contam alguns nomes importantes do panorama vinícola nacional a par com outros que começam a ganhar relevância.

Depois da entrega dos prémios foi possível provar uma boa parte dos vinhos premiados (não havia Barca Velha 2004…), entre brancos, tintos, espumantes, Porto e Madeira acompanhados por alguns acepipes preparados para o efeito.

Tal como referiu o autor, o livro tem ganho volume de ano para ano, começando a ser quase uma enciclopédia, mais que um livro. Em todo o caso continua a ser uma referência entre as publicações do género e, como é apanágio do autor, é direccionado para o consumidor com uma linguagem clara, simples e perceptível, sem entrar por expressões herméticas por vezes muito usadas pelos “especialistas” e pelos aspirantes a tal. João Paulo Martins tem a vantagem, em relação a outros, de provar e apreciar vinhos com o espírito focado naquilo que o consumidor percebe e não naquilo que ele próprio gosta; escreve para o leitor e não para si mesmo e para exibir a sua sapiência, o que só lhe fica bem. É dentro deste espírito que se enquadra a inclusão na actual edição de um capítulo dedicado aos melhores vinhos até 4 €.

Muitos anos de boas provas e continuação de sucesso é o que lhe desejamos.

Kroniketas, com Mancha e Politikos

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

No meu copo 293 - Casa Burmester Reserva 2007; Duas Quintas 2006; Quinta dos Aciprestes 2005; Quinta dos Quatro Ventos 2005



Um jantar entre amigos proporcionou a prova de quatro tintos do Douro da gama até aos 10 euros. A ordem de apresentação neste caso não é importante, pelo que seguem por ordem alfabética.

O curioso nesta prova é que se trata de vinhos com preços não muito distantes, os perfis não são semelhantes mas também não são completamente diferentes e apresentam um padrão de qualidade aproximado, pelo que a classificação atribuída, com mais ou menos uns pozinhos para cima ou para baixo, também acabou por ser igual. Até o grau alcoólico é igual.

Importa referir que estamos a falar de colheitas com 5, 6 e 7 anos – são vinhos que estiveram guardados algum tempo à espera de amaciar os taninos e integrar melhor todos os aromas com a madeira (todos eles passaram pela barrica), em suma, em vez dos habituais vinhos cheios de fruta e juventude tiveram tempo para amadurecer e apresentar-se já numa fase adulta.

O Casa Burmester Reserva 2007 tem cor ruby, estrutura média, primando sobretudo pela elegância e macieza. Frutado quanto baste e com taninos macios, é um vinho adequado para carnes delicadas e não demasiado temperadas. Tínhamos provado a colheita de 2005 que foi uma boa revelação e esta de 2007 confirmou-o. Estágio: 12 meses em barrica de carvalho francês.

O Duas Quintas 2006 é aquilo que se espera dele: bom corpo, alguma pujança, boa persistência, equilíbrio entre fruta, estrutura, taninos e frescura. Sempre uma aposta segura nos vinhos desta gama, mais vocacionado para pratos mais fortes em termos de tempero. Estágio: 20% do vinho durante 18 meses.

O Quinta dos Aciprestes 2005 prima sobretudo pelo paladar intenso a frutos vermelhos maduros com uma boa envolvência de estrutura e de taninos. Apropriado para pratos de carne com alguma complexidade de sabores e temperos. Estágio: 8 a 10 meses.

Finalmente o Quinta dos Quatro Ventos 2005. De cor granada e aroma a frutos maduros, apresenta boa estrutura e persistência, suave na boca e com os taninos presentes mas elegantes. Adequado para pratos de cozinha tradicional. Estágio: 12 meses.

Em resumo, quatro bons vinhos que consideramos merecedores do preço que custam e que vale a pena ter sempre em casa.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Região: Douro

Vinho: Casa Burmester Reserva 2007 (T)
Produtor: Casa Burmester - Sogevinus
Grau alcoólico: 14%
Castas: Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz
Preço em feira de vinhos: 9,98 €
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Duas Quintas 2006 (T)
Produtor: Ramos Pinto
Grau alcoólico: 14%
Castas: Tinta Roriz, Touriga Nacional, Touriga Franca
Preço em feira de vinhos: 8,49 €
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Quinta dos Aciprestes 2005 (T)
Produtor: Real Companhia Velha
Grau alcoólico: 14%
Castas: Touriga Franca, Tinta Roriz, Tinta Barroca
Preço em feira de vinhos: 6,49 €
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Quinta dos Quatro Ventos 2005 (T)
Produtor: Caves Aliança
Grau alcoólico: 14%
Castas: Tinta Roriz, Touriga Nacional, Touriga Franca
Preço: 9,78 €
Nota (0 a 10): 8

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Vinhos do Alentejo em Lisboa 2012



Decorreu no passado fim-de-semana na Fundação Champalimaud a 4ª edição do certame Vinhos do Alentejo em Lisboa. À falta de mais quorum (os outros bandalhos baldaram-se todos), desloquei-me sozinho ao fim da tarde para fazer uma ronda pelo espaço.

Comecei por percorrer o recinto dos expositores, bastante acanhado para o número de stands e visitantes presentes, de tal forma que quando de lá saí, já bem dentro da hora de jantar, tornava-se difícil circular pelos corredores. A dimensão do espaço será um aspecto importante a rever em futuras edições.

Contrariamente ao que costuma acontecer em eventos semelhantes, ainda sem copo na mão percorri todos os stands com o objectivo de, digamos assim, identificar o terreno e apontar os alvos, ou seja, os vinhos a provar. Assim, quando me dirigi à entrada para adquirir o copo de prova já tinha mais ou menos planeada a volta que iria dar, até porque a permanência não poderia ser tão longa quanto é habitual: desta vez ficou-se por cerca de 2 horas.

A verdade é que o método pareceu resultar e, desta forma, em vez de cirandar por lá de modo aleatório e sem saber o que ia provar a seguir, fui percorrendo os stands sem ordem previamente definida mas sabendo onde queria ir e que vinhos pretendia provar.

Como o tempo era escasso e era necessário voltar para casa em condições de conduzir, optei por seleccionar essencialmente algumas marcas de topo de produtores de referência entre o que estava disponível. A execepção foi o Esporão, por onde comecei, e onde provei quase tudo o que lá estava, entre branco, tinto e rosé. A verdade é que o Reserva tinto nunca desilude, o Private Selection mostrou porque é que a colheita de 2009 recebeu 18 pontos na edição deste mês da Revista de Vinhos e o Vinha da Defesa rosé está mais gastronómico, enquanto o tinto tem uma excelente relação qualidade/preço. O Verdelho e o Duas Castas cotam-se como excelentes apostas nos brancos. Nos varietais só provei o Alicante Bouschet, bem estruturado e equilibrado.

Outros vinhos provados:
- Reserva do Comendador (Adega Mayor)
- T Quinta da Terrguem e Quinta do Carmo Reserva (Aliança/Bacalhôa)
- Cortes de Cima, Trincadeira (Cortes de Cima)
- Baron de B e Caladessa (Herdade da Calada)
- Herdade das Servas Reserva (Herdade das Servas)
- Herdade do Peso Reserva (Herdade do Peso/Sogrape)
- Tapada de Coelheiros e Branca de Almeida (Herdade de Coelheiros)
- Quinta da Viçosa, Syrah-Trincadeira (João Portugal Ramos)
- Cem Reis (Herdade da Maroteira)
- Quinta do Mouro (Miguel Viegas Louro)
- Julian Reynolds Reserva (Reynolds Wine Growers)
- Monsaraz Millennium e Monsaraz Premium (Carmim)


Dum modo geral a qualidade dos vinhos foi excelente, aparecendo vários exemplares de vinhos com 4, 5 e 6 anos de idade a revelarem uma frescura e ainda sinais de juventude notáveis, coisa que há poucos anos dificilmente acontecia, e tive oportunidade de referi-lo em curtas trocas de impressões nalguns stands. O avanço das práticas enológicas é, certamente, bastante responsável por este novo panorama.

Mas o mais interessante, para mim, deste conjunto de provas foi a percepção da diferença de estilos entre os alentejanos clássicos e os alentejanos modernos. Provando alguns dos vinhos e olhando para a sua composição foi fácil perceber o que diferencia os vinhos em que são utilizadas preferencialmente as castas tradicionais (Aragonês, Trincadeira, Alicante Bouschet a que por vezes se junta o Cabernet Sauvignon) daqueles em que se opta pelas castas modernas e de outras regiões para fazer vinhos mais ao estilo “novo mundo” (Syrah, Merlot, Touriga Nacional, Touriga Franca). É um facto que muitos produtores vão à procura de vinhos mais fáceis de beber e mais frutados, mas tal como acontece noutras regiões – como a Bairrada, em que antes quase só se usava Baga e agora usa-se quase tudo – isso contribui grandemente para descaracterizar os vinhos da região e pouco ou nada de novo acrescenta ao que já existe, tornando-os todos iguais ou parecidos.

Um exemplo flagrante desta diferença pude constatá-lo no stand da Herdade de Coelheiros, na prova do Tapada de Coelheiros e do Branca de Almeida. Enquanto o primeiro contém Aragonês, Trincadeira e Cabernet Sauvignon, o segundo contém Merlot, Trincadeira e Alicante Bouschet. A verdade é que os estilos são completamente diferentes e o segundo não me agradou. Na maior parte dos casos (Esporão Reserva e Private Selection, Reserva do Comendador, Quinta do Mouro, Herdade do Peso, Barón de B, Caladessa, T Quinta da Terrguem), a conclusão clara foi que os tintos alentejanos com perfil clássico me agradam muito mais e são os verdadeiros representantes da região.

Felizmente que dentro deste perfil continua a haver muito e muito bom, existindo bastantes produtores que continuam a apostar nele, porque, tal como eu, ainda há consumidores que o preferem.

Kroniketas, enófilo esclarecido