sábado, 11 de agosto de 2012

No meu copo 289 - Dão Pipas 1983 e 1997

Diferentes ocasiões permitiram ir buscar outras antiguidades à garrafeira: um Dão Pipas 1983 e um 1997, os penúltimos exemplares que subsistiam deste vinho (só resta um exemplar de 1999).

A garrafa de 1983 mostrou-se notável: aberto, suave, com um enorme bouquet, uma acidez ainda muito viva mas o conjunto já amaciado pela idade. Mais um grande vinho de outras eras, daqueles que quem nunca conheceu não pode imaginar como é diferente das bombas de fruta e álcool que alguns parecem insistir em querer...

Quanto ao de 1997, como o tempo quente na ocasião exigia, foi refrescado atempadamente, decantado antecipadamente, teve todo o tratamento necessário para que nada falhasse. Faltava apenas esperar o tempo suficiente. E demorou. Ao fim de quase 3 horas após a decantação, finalmente foi possível apreciá-lo na plenitude. A cor não mostrava ainda demasiada evolução, o aroma inicialmente muito fechado finalmente libertava profundidade e complexidade. Na boca mostrou-se ainda vibrante, longo, persistente, sem sinais de declínio.

Em suma, mais dois belos exemplares daquilo que os vinhos velhos nos podem oferecer quando se aguentam na garrafa.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Região: Dão
Produtor: Sogrape Vinhos

Vinho: Dão Pipas Reserva 1983 (T)
Grau alcoólico: 12%
Preço: 2495 $ (em 1997)
Nota (0 a 10): 9

Vinho: Dão Pipas Reserva 1997 (T)
Grau alcoólico: 12%
Preço: 6,95 € (em 2003)
Nota (0 a 10): 8,5

terça-feira, 7 de agosto de 2012

No meu copo 288 - Porta dos Cavaleiros 1980; Carvalho, Ribeiro & Ferreira Garrafeira 1990

De vez em quando gostamos de ir ao baú buscar umas relíquias que por lá andam. Neste caso, foram duas aquisições recentes feitas em parceria pelos comensais mais habituais.

O Porta dos Cavaleiros veio da Garrafeira Nacional como oferta integrado numa compra de 6 garrafas do Porta dos Cavaleiros Touriga Nacional 2007, enquanto o Carvalho, Ribeiro & Ferreira Garrafeira, um clássico que conhecemos há quase 20 anos, foi adquirido no mesmo local para vermos se ainda estava bebível, depois de nos ter despertado o interesse após a leitura duma prova efectuada pela Revista de Vinhos que percorreu a história deste vinho.

Como sempre acontece quando se abrem garrafas de vinho com estas idades, nunca se sabe o que se vai encontrar: desde um vinho azedo a um que parece estar apenas morto e a outro que está quase como novo, tudo é possível. Desta vez tivemos alguma sorte, embora em tempos diferentes. Cronologicamente foi como a seguir se conta.

Tudo começou num repasto alargado com todo o plantel, a pretexto duma peça de veado que o Caçador fez chegar à nossa mesa. Enquanto se ia debicando diversas entradas, que incluíram paio de porto preto, folhado de queijo no forno, requeijão com doce de abóbora e ovos mexidos com espargos e farinheira, acompanhadas por diversos brancos em desfile, fomos abrindo o Porta dos Cavaleiros e o Carvalho Ribeiro & Ferreira para lhes dar tempo de mostrar o estado em que se encontravam. Passados os primeiros aromas a mofo que por vezes andam por ali na primeira impressão, desde logo se percebeu que o Porta dos Cavaleiros 1980 estava de muito boa saúde. De corpo delgado como é normal num vinho com mais de 30 anos, cor acastanhada algo desmaiada, mas o aroma limpo e muito suave na boca, na boa tradição dos grandes tintos clássicos do Dão. Fomos bebericando aqui e ali e esperando a evolução. Durante o jantar todo o conteúdo da garrafa desapareceu antes de entrarmos nos pesos pesados.

Seguiu-se o Carvalho Ribeiro & Ferreira Garrafeira 1990, que pareceu estar mais para lá do que para cá. Cheirou-se, voltou-se a cheirar, verteu-se um pouco para uns copos mas decidiu-se não o decantar, não fosse o processo acelerar-lhe a morte. Algumas opiniões decretaram-lhe mesmo o óbito, mas eu não fiquei convencido. Pareceu-me ser uma daquelas situações em que logo após a abertura o vinho está muito escondido, com os aromas muito presos e a precisarem de tempo para se libertar. Acabou por ficar por ali meio esquecido quase até ao fim do jantar, em que depois de vários outros tintos ainda houve quem se abalançasse a voltar à carga. Não foi o meu caso, que me limitei a tapar a metade restante na garrafa com uma rolha de vácuo e a guardar a garrafa no frigorífico. “Deixa-o estar ali a descansar, se não estiver bom serve para tempero ou vai para o cano”, pensei...

No dia seguinte, enquanto libertava os restos do excesso de álcool da noitada, esqueci-me dele e de todos os outros. Dois dias depois tirei a garrafa do frigorífico meia-hora antes de jantar e resolvi experimentá-lo para tirar todas as dúvidas. E a surpresa foi enorme, depois das impressões colhidas 48 horas antes: o vinho estava fantástico, cheio de pujança e estrutura, com aromas intensos e uma persistência invulgar. Provei uma vez e outra, para me certificar que não estava enganado, dei a provar para comprovar, e não havia engano: o tempo de espera tinha permitido mostrar todo o esplendor daquele produto. Era aquilo que eu e o Mancha tínhamos bebido algumas vezes há quase 20 anos nos restaurantes de Lisboa. Como os restantes comensais já lá não estavam para partilhar o néctar, acabei por distribuir o restante em pequenas garrafinhas que tenho guardadas, para que todos pudessem confirmar a excelência do estado do vinho. Foi pena não o termos podido apreciar devidamente, na hora e mais a solo, mas ficou a intenção de voltarmos à carga. Pelo menos a Garrafeira Nacional ainda tem uns exemplares em stock...

São vinhos destes que nos fazem sentir que realmente vale a pena esperar por momentos assim.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Porta dos Cavaleiros 1980 (T)
Região: Dão
Produtor: Caves São João
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Carvalho, Ribeiro & Ferreira Garrafeira 1990 (T)
Produtor: Carvalho, Ribeiro & Ferreira
Grau alcoólico: 12%
Preço: 17,50 €
Nota (0 a 10): 10

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

No meu copo 287 - Quinta da Alorna, Touriga Nacional rosé 2010

Este não poderia faltar neste conjunto de provas de brancos e rosés que têm acontecido nestas semanas deste Verão meio envergonhado. Depois de termos provado o rosé da Fiúza, era indispensável provar o da Quinta da Alorna, pois constituem a dupla dos meus rosés preferidos.

Tal como para o Fiúza, este Quinta da Alorna, produzido apenas com recurso à Touriga Nacional – que aliás tem dado origem a belíssimos vinho no Ribatejo, tanto tintos como rosés e quer a solo quer em lote com outras castas, nomeadamente o Cabernet Sauvignon – fermenta após um período de tempo ainda mais reduzido em contacto com as películas das uvas, neste caso apenas 8 a 12 horas. Resulta assim um vinho pleno de aromas e frescura, com nuances de morango e framboesa, seco e gastronómico, muito apelativo. Além disso é tão versátil que se bebe bem com praticamente tudo.

Nos últimos dias tive oportunidade de degustar por duas vezes a colheita de 2010 e o perfil mantém-se, as características estão todas lá. Ano após ano, desde que conheci este rosé, continua a ser um dos meus rosés de eleição, e esta colheita de 2010 não foge à regra. Os outros produtores deviam pôr os olhos nele. E pelo que custa tem uma relação qualidade/preço praticamente imbatível.

Kroniketas, enófilo refrescado

Vinho: Quinta da Alorna, Touriga Nacional 2010 (R)
Região: Tejo (Almeirim)
Produtor: Quinta da Alorna Vinhos
Grau alcoólico: 13%
Casta: Touriga Nacional
Preço em feira de vinhos: 4,75 €
Nota (0 a 10): 8,5