domingo, 17 de junho de 2012

No meu copo 282 - Fiúza, Touriga Nacional e Cabernet Sauvignon rosé 2010

Já lá vão dois anos desde que escrevemos pela última vez sobre vinho rosé, ainda na versão antiga deste blog. Daí para cá continuou a crescer o número de produtores a lançar esta variedade de vinho, até há poucos anos mal-amada, e consequentemente o número de marcas disponíveis no mercado, que actualmente já cobrem todo o país e todas as regiões, de norte a sul, do litoral ao interior.

As filosofias presentes continuam a dividir-se: há os que tratam o rosé como uma espécie de sucedâneo do tinto, realizando sangrias de cuba na fermentação dos tintos para assim obter maior concentração e simultaneamente aproveitar essa parte do mosto para fazer umas garrafas de rosé; e há aqueles que tratam e escolhem as uvas ainda na videira, vindimando-as no tempo certo e com a maturação adequada para produzir um rosé.

Os resultados, como se compreende, não podiam ser mais díspares. Dos vinhos que temos tido oportunidade de conhecer dentro destas duas filosofias, não há dúvida de que os rosés produzidos ab initio com esse objectivo batem em toda a linha os seus congéneres resultantes de sangria de cuba (esta é, naturalmente, a minha opinião que só a mim vincula, nem sequer vincula quem mais escreve neste blog). Enquanto os primeiros são leves, aromáticos, normalmente secos, frutados e florais, não muito carregados de cor e com um grau alcoólico aceitável, os segundos normalmente são escuros, pesados, ásperos, enjoativos e, como não podia deixar de ser, hiperalcoólicos (14 graus ou até mais)! O mais estranho é serem os próprios produtores a assumir que nesses casos pretenderam fazer um rosé que substitua um tinto. Salvo melhor opinião, nesse caso bebo um tinto, porque esse tipo de rosé acaba por não ser nem uma coisa nem outra. Mas enfim, são gostos… Pela parte que me toca, quando vejo um rosé com cor de sangria e 14 graus de álcool, normalmente fujo dele...

Dito isto, quero chegar à apreciação de um ribatejano (ou Regional Tejo) que me tem enchido as medidas: o Fiúza, feito com Touriga Nacional e Cabernet Sauvignon, duas castas que têm proporcionado excelentes combinações em diversos tintos. A primeira versão que encontrei deste rosé (2007) tinha apenas Cabernet, sendo a versão de 2008 já composta pelo lote actual, e o resultado foi excelente. Tem todas as características que me agradam num rosé, com notas florais e a frutos vermelhos, fresco, seco e elegante na boca, com alguma persistência e nada pesado. Para a elaboração do Fiúza, a fermentação inicia-se após um período de apenas 24 horas em contacto com as películas das uvas, obtendo-se assim a secura e leveza adequadas.

Uma excelente aposta da Fiúza. Por acaso ou talvez não, é um dos meus preferidos, juntamente com o seu vizinho da Quinta da Alorna, já aqui referido por mais de uma vez.

Kroniketas, enófilo rosado

Vinho: Fiúza, Touriga Nacional e Cabernet Sauvignon 2010 (R)
Região: Tejo (Almeirim)
Produtor: Fiúza & Bright
Grau alcoólico: 13%
Castas: Touriga Nacional, Cabernet Sauvignon
Preço: 5,41 €
Nota (0 a 10): 8

quinta-feira, 14 de junho de 2012

No meu copo 281 - Bairrada: o regresso aos clássicos

Quinta das Bágeiras Garrafeira 2003; Baga Encontro 2005; Quinta das Baceladas 2005;
Quinta da Alorna Reserva, Chardonnay 2008




A propósito dos posts anteriores sobre as provas das Cortes de Cima e da Herdade da Malhadinha Nova, há tempos dizia-me o Politikos que os vinhos alentejanos cada vez o seduzem menos. Lembrei-me desta afirmação ao reflectir sobre as características daqueles vinhos, cada vez mais uniformizados e menos típicos (no sentido de ser possível detectar a sua origem ao prová-los). Não será este um dos motivos para esse interesse decrescente? É que para bebermos vinhos com algum carácter de Alentejo somos “obrigados” a regressar aos clássicos, como os da Cooperativa de Reguengos de Monsaraz, da Adega Cooperativa de Borba, da Tapada do Chaves ou da Cartuxa (o Esporão é um caso à parte de qualidade e modernidade dentro do clássico).

Esta proliferação de vinhos com perfil de novo mundo faz-nos sentir vontade, de vez em quando, de regressar aos clássicos. Desta vez fizemo-lo com aqueles que serão, porventura, os mais clássicos dos clássicos: os tintos da Bairrada à base da casta Baga. Tínhamos em agenda algumas garrafas do stock que resolvemos abrir por ocasião da final da Liga dos Campeões em futebol, no que também se vai tornando um clássico (fizemo-lo pelo 3.º ano consecutivo).

A entrada fez-se com uns camarões fritos por mestre Mancha, acompanhados por um belo branco monocasta Chardonnay da Quinta da Alorna fornecido por um dos comparsas. Para minha satisfação, não revelou aquele travo amanteigado e enjoativo de muitos Chardonnay portugueses, principalmente quando fermentados e/ou estagiados em madeira. Apresentou-se fresco, vivo e persistente, com óptima acidez e a fazer muito boa companhia à gordura dos camarões fritos.

Para a parte mais substancial foram chamadas à liça umas postas mirandesas e umas gravatinhas de porco. Os tintos foram abertos antecipadamente, começando-se pelo Quinta das Bágeiras, previamente decantado, seguindo-se o Baga Encontro e finalmente o Quinta das Baceladas.

O que se pode dizer destes vinhos que seja original? Praticamente nada. Neles podemos apreciar aromas terciários profundos, resultado já de alguma evolução em garrafa, mantendo-se uma estrutura e uma acidez correctas e um grande fim de boca. São vinhos autênticos, genuínos, robustos mas sem serem rústicos. O Quinta das Bágeiras foi naturalmente o que se apresentou com um perfil mais clássico, daqueles Baga bem robustos e com potencial para outros tantos anos. O Baga Encontro pareceu um pouco menos vivo, enquanto o Quinta das Baceladas, um lote de Baga, Merlot e Cabernet Sauvignon, apareceu com grande saúde e com uma acidez mais vibrante do que os anteriores.

Qualquer um destes três vinhos justificou plenamente a aposta, remetendo-nos para os vinhos que se faziam há mais de uma década. Retomando uma frase já aqui dita, ainda bem que nos esquecemos destas garrafas durante uns tempos, para de vez em quando podermos ir buscá-las e apreciar vinhos a sério, de tempos em que não se procurava a superconcentração e as bombas de fruta e álcool. Estes são dos tais que já não se fazem… ou quase.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Quinta da Alorna Reserva, Chardonnay 2008 (B)
Região: Tejo (Almeirim)
Produtor: Quinta da Alorna Vinhos
Grau alcoólico: 14%
Casta: Chardonnay
Preço: 8 €
Nota (0 a 10): 7,5

Vinho: Quinta das Bágeiras Garrafeira 2003 (T)
Região: Bairrada
Produtor: Mário Sérgio Alves Nuno
Grau alcoólico: 14%
Casta: Baga
Preço: 17,13 €
Nota (0 a 10): 8,5

Vinho: Baga Encontro 2005 (T)
Região: Bairrada
Produtor: Quinta do Encontro, Soc. Vitivinícola - Dão Sul
Grau alcoólico: 14,5%
Casta: Baga
Preço: 24,65 €
Nota (0 a 10): 7,5

Vinho: Quinta das Baceladas 2005 (T)
Região: Bairrada
Produtor: Aliança - Vinhos de Portugal
Grau alcoólico: 14,5%
Casta: Merlot, Cabernet Sauvignon, Baga
Preço: 9,44 €
Nota (0 a 10): 8

segunda-feira, 11 de junho de 2012

No meu copo 280 - Aurius 2002

Numa das provas a que nos deslocámos recentemente na Wine o’Clock, eu e o Mancha tivemos a oportunidade e o prazer de assistir a mais uma lição dada pelo engenheiro químico-industrial, produtor, enólogo, cozinheiro, gastrónomo gourmet (e sei lá que mais) José Bento dos Santos. Como já tive oportunidade de confidenciar aos comparsas em mais de uma ocasião, há alguns destes mestres do vinho que são uma lição para quem os ouve. Só para ouvi-los valeria a pena a deslocação, mesmo que não houvesse vinho para provar. José Bento dos Santos é um deles (Luís Pato, o “Senhor Bairrada”, é outro).

Na dita prova percorreu-se praticamente todo o portefólio de vinhos da Quinta do Monte d’Oiro: Lybra (branco e tinto), Madrigal, Têmpera, Aurius, Quinta do Monte d’Oiro Reserva.

Foi na prova do Aurius que surgiu a grande surpresa, quando confrontámos o 2007 com o 2002. Este apresentou-se com uma saúde, uma vivacidade e uma frescura na boca notáveis. De tal forma que, mesmo estando ao dobro do preço do 2007 (cerca de 38 € contra 19 €), resolvemos adquirir uma garrafa desta colheita para partilhar com a comunidade gastrónomo-etilista do costume. Com a vantagem de, sendo dia de prova, haver um desconto de 15% no preço, pelo que acabámos por desembolsar 33,04 €.

A abertura da garrafa efectuou-se no dia seguinte, acompanhada de um Vinha da Nora 2005 dos que ainda constam da minha garrafeira. A degustação confirmou as impressões recolhidas na prova da Wine o’Clock. A elegância típica dos vinhos da Quinta, com os aromas muito harmoniosos a par com uma suavidade e finesse notáveis, na linha daquilo que já escrevi acerca do Vinha da Nora como sendo um vinho aristocrático.

Pessoalmente este vinho encantou-me e entrou directamente para a minha galeria dos notáveis, daqueles que nos fazem esquecer por momentos o seu custo elevado e em que o prazer obtido supera aquilo que se pagou. Notável, de facto!

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Aurius 2002 (T)
Região: Lisboa (Alenquer)
Produtor: José Bento dos Santos - Quinta do Monte d’Oiro
Grau alcoólico: 14,5%
Casta: Touriga Nacional, Syrah, Tinta Roriz, Petit Verdot
Preço: 38,85 €
Nota (0 a 10): 9