quarta-feira, 30 de maio de 2012

Na Delidelux 2 - Herdade da Malhadinha Nova


Outro dia, outro comparsa, outra prova, o mesmo local. A Delidelux, mercearia-charcutaria-garrafeira – tudo no mesmo espaço físico – com prateleiras bem preenchidas com vinhos de gabarito, produtos gourmet nacionais e estrangeiros e esplanada a poucos metros da água. Um local aprazível à beira-Tejo, junto ao cais de embarque de cruzeiros frente a Santa Apolónia, a convidar a um remanso de fim de tarde nestes dias temperados de primavera que se vai mostrando timidamente, na companhia dum cálice de vinho e mais alguns petiscos.

Voltei então ao local para a prova de vinhos da Herdade da Malhadinha Nova. Depois de penosamente atravessarmos o Cais do Sodré e o Terreiro do Paço (mais de um quarto de hora para fazer estes troços, graças às excelentes políticas de expulsão dos automóveis da cidade de Lisboa promovidas pelo excelentíssimo presidente da câmara António Costa, cuja principal distracção parece ser infernizar a vida aos automobilistas que circulam pela capital), chegámos ao destino pelas 19h45, quase uma hora de atraso em relação ao previsto...

Após uma espera de copo vazio na mão, fruto das conversas que, junto à mesa, se sobrepunham às provas, começámos a função por um rosé Monte da Peceguina, com 14% de álcool, o que não foi propriamente um bom começo. Rosés com 14% servem para quê, para apanhar bebedeiras rosadas? Na nossa opinião um rosé deve ser antes de mais um vinho leve, a apelar ao aperitivo e a comidas leves de Verão. Para beber um vinho com 14% bebe-se tinto! Se há coisa que não compreendo é que haja produtores a fazer rosés anunciando que lhes querem dar um perfil de tinto… Por mim dispenso-os a todos. Concluindo, por 8,30 € não o levaria para casa. A bem dizer, não o levaria para casa, ponto.

Passámos aos brancos, um deles feito em inox (o Antão Vaz) e o outro com estágio em madeira (o Malhadinha). Este último estava quase morno porque não tinha sido posto a arrefecer com o devido tempo. Nenhum deles encantou, mas pior foi quando olhámos para os preços. De memória, penso que um custava 11 € e o outro 20!!! É certo que não eram maus, mas para darmos um tal valor por um vinho branco, tem de ser algo de muito bom. Assim como um Redoma...

Finalmente, 3 tintos: Pequeno João, Malhadinha e Menino António. Preços: 25 € (garrafa de 0,5 L), 33 € e 41 €!!! Um despautério!

Nenhum deles convenceu verdadeiramente e, tendo em conta os preços, ficámos com a sensação de que aquilo é mais para exportação, porque duvido que, por aqueles valores, os consigam vender em terras lusas. Nenhum deles justifica os preços referidos, nem de perto, nem de longe, principalmente tendo em conta os termos de comparação que existem por aí e que bem conhecemos. Dos que nos são mais caros (não em termos de custo mas de afeição), pensamos imediatamente em Quinta da Leda, Callabriga, Duas Quintas Reserva, Redoma e Batuta, Esporão Reserva e Private Selection, Hexagon, ou mesmo alguns Bairrada clássicos, como um Quinta das Bágeiras Garrafeira ou um Baga Encontro, e mesmo um mais moderno como o Quinta das Baceladas, que passaram pelos nossos copos há pouco tempo. Perante estes exemplos, como justificar os preços praticados nos vinhos desta prova?

É certo que estaremos na presença de vinhos de topo deste produtor, que está bem implantado a nível de enoturismo com o seu Country House & Spa, mas francamente!... Para justificar estes preços é preciso muito, muito mais... Basta lembrar-me do modo como, ainda recentemente na Wine O’Clock, numa prova com José Bento dos Santos, eu e o colega Mancha nos sentimos como que esmagados ao primeiro golo do Aurius 2002! E este custou-nos 33 € no dia da prova. Ora o Menino António custa 41 e nem serve para criado do outro...

Como comentei com os comparsas no final da prova, ainda bem que lá fomos para ficarmos a saber o que são aqueles vinhos... e o que não são.

Kroniketas, enófilo reaparecido

terça-feira, 29 de maio de 2012

Na Delidelux 1 - Cortes de Cima



Prosseguindo um hábito instalado desde há uns 4 anos a esta parte, temos diversificado as nossas presenças em provas de vinhos. Aquilo que começou por ser quase exclusivamente na Wine O’Clock foi-se estendendo a outras garrafeiras, tanto através do conhecimento por outros blogues, como por conversas nas provas em que comparecíamos e também, em boa parte, com o advento do Facebook. Assim, começámos a aparecer nas Coisas do Arco do Vinho, na Garrafeira Nacional, na Garrafeira Internacional, na Delidelux... À medida que as provas se multiplicavam, a escrita no blogue diminuía drasticamente, até chegarmos a um ano inteiro de inactividade, fazendo jus ao nosso epíteto, autoinfligido, de “diletantes preguiçosos”. Mas, embora não escrevendo, continuamos por aqui, vivinhos da costa e a provar bastante...

Fui assim com o Politikos, um dos mais habituais do Grupo gastrónomo-etilista “Os Comensais Dionisíacos”, à prova das Cortes de Cima, o produtor sedeado no Alentejo próximo da Vidigueira, cuja propriedade é de uma americana e de um dinamarquês. Compareceram à chamada 5 tintos e 1 branco.

Começámos inevitavelmente pelo branco, um Sauvignon Blanc de uvas plantadas no concelho de Odemira, próximo de Vila Nova de Milfontes, com o objectivo de obter a frescura resultante da proximidade do mar e dum clima mais ameno. A verdade é que o resultado pareceu bem interessante. O vinho apresentava uma frescura e uma acidez vibrante que não são habituais nos brancos alentejanos saídos da canícula da planície. Aromas típicos da casta, com ligeiras notas de espargos, boa estrutura e final com alguma persistência, foi uma surpresa agradável. O preço nem tanto, mais de 10 €, mas é uma aposta que vale a pena.

Para os tintos foram chamados um Cortes de Cima, um Syrah, um Homenagem a Hans Christian Andersen, um Petit Verdot e um Touriga Nacional. A sensação colhida globalmente foi que se esperava algo mais. A marca que ostenta o nome da casa não deslumbrou, mostrando-se o Syrah algo chato, pouco exuberante de aromas e algo linear na boca. O Homenagem, também à base de Syrah, esteve um pouco mais vivo mas ainda assim algo linear, o mesmo acontecendo com o Touriga Nacional, ao contrário do esperado. Surpresa apenas para o Petit Verdot, a mostrar algumas notas de especiarias e alguma vivacidade na boca, prometendo crescimento em garrafa.

No final ficámos com uma sensação aquém das expectativas. Esperava-se mais daqueles vinhos tão bem conceituados. Por outro lado não pude deixar de observar este facto decepcionante: estávamos a provar vinhos produzidos no Alentejo com uma única casta alentejana (Aragonês, e vá lá, um bocadinho de Alicante Bouschet) e apenas mais uma portuguesa, a inevitável Touriga Nacional. Pouco mais, ali, nos ligava ao local de origem daqueles vinhos. Se nos dissessem que eram doutro sítio qualquer nós acreditávamos.

Será este o caminho que se pretende para os nossos vinhos, a total e completa descaracterização da sua região de origem? É que um vinho do Dão não é seguramente igual a um da Bairrada! E hoje em dia começa a ser difícil perceber o que é um vinho alentejano. Depois da disseminação da Touriga Nacional por todo o país, seguiu-se a proliferação das castas estrangeiras em quase todas as regiões, até chegarmos a este ponto de termos o nome duma região no rótulo duma garrafa e lá dentro um vinho feito unicamente com castas estrangeiras, as mesmas que são usadas na Califórnia, na Nova Zelândia, na Austrália, no Chile, na Argentina ou na África do Sul... Se é este o caminho, então para quê colocar a região no rótulo?

É verdade que há adeptos deste caminho, mas não creio que os apreciadores dos grandes vinhos de Bordéus ou da Borgonha (os que os podem beber, os que lhes têm acesso) esperem que estes sejam iguais a qualquer outro vinho produzido em qualquer lado. Felizmente ainda vamos podendo refugiar-nos nuns Bairrada e Dão clássicos que foram ficando esquecidos na garrafeira desde a década de 90...

Kroniketas, enófilo desaparecido e por vezes esclarecido