segunda-feira, 12 de março de 2012

No meu copo 279 - CARM, Rabigato 2009


Comprada há dois anos na feira de vinhos do El Corte Inglès, esta botelha repousava desde então no mais recôndito da minha garrafeira. Foi transferida há algumas semanas para a garrafeira de serviço, chamemos-lhe assim, bem à mão na despensa do apartamento. E, como já indiciavam estas movimentações, um destes dias o seu destino cumpriu-se e acabou à mesa, a acompanhar uns tagliatelle com molho de tomate e gambas.

O mínimo que se pode afirmar é que cumpriu galhardamente a função, revelando-se um branco de linda cor, quase dourada, com uma bela acidez e frutado sem exageros, tanto no aroma como na boca. Um fundo mineral leve funcionou como integrador das outras características na boca, resultando num vinho muito equilibrado e que dá muito prazer a beber.

Decididamente, um vinho que vai passar a fazer parte da minha garrafeira.

tuguinho, enófilo ressuscitadinho

Vinho: CARM, Rabigato 2009 (B)
Região: Douro
Produtor: Casa Agrícola Roboredo Madeira
Grau alcoólico: 13%
Casta: Rabigato
Preço: 8,99 €
Nota (0 a 10): 8

sexta-feira, 9 de março de 2012

Na minha mesa 278 - Os quatro cavaleiros da barriga cheia – Surtida ao Esporão



Num belo dia de Primavera resolvemos demandar, quais cavaleiros em corcel a diesel, a Herdade do Esporão, alapada nos arredores de Reguengos de Monsaraz. Apesar de não ser uma première para os membros do núcleo duro do grupo gastrónomo-etilista, era a primeira vez que lá nos dirigíamos em conjunto e com intuitos mais sólidos do que líquidos – ou seja, além dos néctares locais pretendia experimentar-se a cozinha do restaurante da Herdade e confirmar as coisas boas que sobre ele tínhamos lido e ouvido.

Saídos manhã cedo (mas não muito cedo) da capital do reino, num sábado de luz primaveril perdido no meio do frio deste Inverno bizarro, e em poucos minutos já circulávamos na sempre apinhada A6 (isto era uma piada) em direcção a Évora, tomando depois a direcção de Reguengos pela estrada nacional e conseguindo não nos perdermos nas inúmeras e mal sinalizadas rotundas que apanhámos pelo caminho. Passado o centro de Reguengos lá seguimos a estrada que levava à Herdade, com alguns pitorescos buracos a adornar o trajecto, e acabámos direitinhos em frente ao edifício que alberga a parte enoturística e sobrejaz às adegas.

O programa previsto era almoçarmos, visitar o complexo após o almoço e fazer uma prova ao fim da tarde, antes do regresso à base. Mas como o corcel foi rápido no trajecto ainda deu para cirandar pelas redondezas do edifício antes do almoço, visto que a mesa estava marcada. Além da constatação de que estávamos mesmo no campo – devido aos insectos que por ali andavam – e de que as formigas alentejanas trabalham tanto como as outras, um vazio no estômago lá nos convenceu de que era hora de entrar no restaurativo estabelecimento e nos amesendarmos. O espaço é agradável, com bastante luz e decoração simples, que no campo é mais importante o que se é do que o que se parece. O serviço mostrou-se desde o início solícito sem ser aborrecido e completamente informado – um bom exemplo para as misérias que se vão vendo por restaurantes em todo o país – não basta ostentar pergaminhos, há que demonstrá-los!

Analisada a ementa nas suas diversas possibilidades optámos pelo denominado almoço vínico, que nos permitiria provar uma panóplia alargada dos vinhos da casa sem a obrigatoriedade de ter de beber uma garrafa de cada – pronto, não é que não conseguíssemos, mas ninguém estava ali para apanhar fémeas de canídeo, vulgo cadelas.

A opção revelou-se mais que acertada! A ementa casou extremamente bem com os vinhos que a acompanharam e estes não faltaram enquanto foram precisos.

Mas conheçamos então o elenco: abertura com azeites para degustar e entradas variadas acompanhadas por um espumante rosé que vai na terceira produção e promete.

Seguiu-se a sopa, um creme de ervilhas bem sápido, adornado com um caramelizado e um ovo de codorniz escalfado, monocasta Verdelho a acompanhar, rico em aroma e sabor, a ressumar frescura e tropicalidade.

Veio depois o prato de peixe, bacalhau cozido a baixa temperatura em duo com batatas gratinadas, bem acolitado por um Esporão Reserva Branco, competente e de belos alicerces, vinho que se baterá bem até com alguns pratos mais dos lados da carniça.

O prato de carne mereceu os melhores encómios, duas peças de Assado do Esporão, carne de vaca confeccionada em vácuo e adornada com uma redução de vinho tinto, que ligou muito bem com o Esporão Reserva Tinto, desde 2006 regressado aos seus melhores tempos. O Kroniketas optou por um arroz de Lebre também provado pelos outros confrades e que convenceu mesmo os menos dados a mimos de perdigueiro, como aqui o escrevente.

Em tempo de sobremesa, e perante a nossa descoroçoante indecisão, veio um pijama com as várias ofertas dulçarengas, humidificadas pelo licoroso produzido pela empresa e que também esteve à altura das lides, doce sem ser enjoativo e servido fresco sem estar gelado.

Acreditem que nesta altura estávamos como o título deste post afirma. O período de fermentação foi realizado no alpendre junto ao restaurante, com alguns membros a aventurarem-se nos fumos. Não sendo a vontade nenhuma, lá nos movemos com dificuldade para iniciar a visita às instalações, esforço não dispiciendo – se duvidar basta realizar um programa idêntico.

Visitaram-se as diversas instalações da adega, das zonas de produção e engarrafamento aos salões (acho que o epíteto é merecido) onde estagiam os vinhos, após o que se realizou uma prova única do monocasta Petit Verdot, que a tarde ia longa e era necessário conduzir de volta à capital. Vinho vibrante tanto na cor como na boca, a convidar à permanência em caves escuras durante algum tempo até estar mais domesticado, cheio de boas promessas para os mais pacientes.
(De salientar a dissidência de um dos membros, que preferiu ficar no bar a apreciar uma aguardente velha e só se nos juntou para a prova, o bandalho!)

A viagem de regresso não teve história, como todas as viagens de regresso, apesar das conversas interessantes que não cabem neste naco de texto e da música ouvida e que não é para aqui chamada.

Veredicto final e unânime: a voltar sempre que possível (mas comedidamente, porque não fica barato) – pelos vinhos, pela comida e pela qualidade do serviço, eficiente e simples, como nós gostamos.

tuguinho, enófilo e tudo (acolitado pelo resto da cambada)

Herdade do Esporão
Apartado 31
7200-999 Reguengos de Monsaraz
Tel: 266.509.280
Fax: 266.519.753

Nota Restaurante (0 a 5): 5