terça-feira, 19 de agosto de 2008

No meu copo, na minha mesa 196 - José de Sousa 2004; Restaurante A Cantina (Olhos d'Água)



Depois de um dia passado num parque aquático com a família e uns amigos, saímos à procura dum local para jantar. Estando perto de Quarteira rumámos em direcção a Albufeira pela estrada nacional 125, passando por várias localidades, entre as quais Boliqueime, e por vários restaurantes de estrada. Acabámos por assentar arraiais num restaurante que os outros já conheciam, em Olhos d’Água, pertencente a um aparthotel.

A nossa figura a entrar no restaurante parecia um pouco deslocada: dois casais com filhos, tudo em calções e t-shirt, com chinelas e sacos de praia. O ambiente e os outros clientes pediam mais fato e gravata, porque aqui o estilo é mais selecto, talvez por isso havia mesas vagas em cima da hora de jantar.

Mas é Verão e somos turistas na nossa própria terra, por isso abancámos calmamente, que a hora já ia adiantada e a fome apertava. Sentámo-nos numa mesa redonda, junto ao armário de vinhos e perto do balcão. Bem decorada, com vários tipos de copos, os empregados vestidos a rigor.

A ementa é vasta e variada. As escolhas recaem num bife Diana, um bife à Cantina e costeletas de borrego com molho de hortelã. O bife à Cantina, alto e com um excelente molho, estava delicioso e suculento, acompanhado de batatas fritas e legumes salteados.

Para beber escolhemos o José de Sousa, da colheita de 2004. A primeira surpresa, pela positiva, foi o facto de o vinho ter vindo para a mesa à temperatura correcta, ligeiramente frio. Foi então explicado que os vinhos são mantidos no armário a uma temperatura constante, aquilo que todos os restaurantes que levam o vinho a sério deviam fazer em vez de os manterem “à temperatura ambiente”, de pé a apanhar o calor do fogão e a levar com as lâmpadas em cima. Um exemplo a seguir, esta forma de tratar os vinhos.

Este clássico alentejano da Casa Agrícola José de Sousa Rosado Fernandes, agora propriedade da José Maria da Fonseca, fermentou parcialmente em ânforas de barro. Apresentou um aroma frutado e complexo, um paladar cheio com taninos firmes mas suaves, com final de boca prolongado, tudo bem integrado com um ligeiro toque de madeira, que aqui aparece na conta certa: sente-se mas não abafa o resto. Em comparação com a colheita de 2003, que tínhamos provado há alguns meses, este revelou-se mais bem estruturado, um vinho mais completo, mais personalizado. Um bom parceiro para pratos de caça, mas esteve muito bem a acompanhar os nossos bifes, pois o frutado e a suavidade da prova equilibraram-se bem com a delicadeza das carnes. Parece estar de volta aos velhos tempos.

O preço da refeição, para a qualidade que teve, não foi nada exagerado, e tendo em conta a qualidade do serviço e da confecção este restaurante ficará como uma referência para possíveis visitas de Verão. Ainda bem que no meio da mediocridade que muitas vezes faz lei na restauração turística do nosso país ainda se conseguem encontrar estas ilhas de qualidade indiscutível. É a diferença que faz quem leva o negócio a sério.

Kroniketas, enófilo veraneante

Vinho: José de Sousa 2004 (T)
Região: Alentejo (Reguengos)
Produtor: José Maria da Fonseca
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Trincadeira, Aragonês, Grand Noir
Preço em feira de vinhos: 6,09 €
Nota (0 a 10): 8

Restaurante: A Cantina
Aparthotel Olhos d’Água
Olhos d’Água
8200 Albufeira
Tel: 289.580.385
Preço por refeição: 25 €
Nota (0 a 5): 4,5

sábado, 16 de agosto de 2008

Por falar em turismo à portuguesa

Aqui há tempos passei na Herdade dos Grous, ao pé de Albernoa, um dos nomes em destaque no panorama de vinhos do Alentejo.

Fui lá só para ver como era. Pedi uma lista de preços dos alojamentos e deram-me uma… em alemão!

Eu quero aplaudir!

Kroniketas a banhos

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

“Guilho” shrimps



Esta imagem está à porta de um restaurante em Alvor. Reparem bem no pormenor do “guilho” shrimps. Presume-se que são camarões à “Guilho”. O que eu não sei é que raio é o “guilho”, e presumo que os estrangeiros que passarem também não fazem ideia.

Isto mostra o rigor com que certas coisas são tratadas em Portugal, e no turismo é o que se sabe. O que eles querem dizer, mas na sua infinita ignorância nem imaginam, é que tudo isto começou com camarões “al ajillo”, ou seja, ao alhinho ou coisa que o valha. Mas como ninguém faz a mínima ideia daquilo que está a fazer, vá de começar a escrever que os camarões “al ajillo” são “à la guilho”, seja lá isso o que for.

Então sai esta maravilhosa tradução para inglês ver: temos os famosos “guilho” shrimps.

Como diria o Jô Soares, eu quero aplaudir.

Kroniketas a banhos

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Na minha mesa 195 - Mar à vista (Sagres)



Fim de tarde em Sagres, com vista do pôr-do-sol no cabo de São Vicente. A seguir jantar por ali, com mesa marcada no restaurante Mar à vista, na praia da Mareta.

Estamos no Algarve, em Agosto. Estão a ver o filme? Primeiro problema: mesmo tendo mesa marcada, espera-se uma eternidade até nos conseguirmos sentar. Os mais novos já estão doidos de fome e não há forma de os aguentar sossegados. Vamos esperando na esplanada, ao balcão, mirando os peixes e mariscos em exposição...

Quando finalmente nos sentamos e após mais um tempo imenso até pedir os pratos, encontramos alguns pratos tipicamente algarvios: bife pimenta, bacalhau com natas, rojões de porco... Além destes conseguimos desencantar uma cataplana de cherne e um esparguete com amêijoas.

Lá para as 10 e tal da noite consegue-se finalmente comer qualquer coisa. A cataplana de cherne não estava má, assim como o esparguete com amêijoas. Os rojões e o bacalhau não estavam nada de especial. O bife sim, era um bife a sério.

Mas para um restaurante sobre a praia, cheio de peixes em exposição, esperava-se um maior leque de opções locais. No geral a qualidade não era distintiva e o serviço também não, aliás à boa maneira dos restaurantes algarvios no Verão, em que muitas vezes um jantar se transforma em ceia.

Parece que o Mar à vista é um dos mais afamados ali da zona, mas não me convenceu grandemente. Se calhar lá voltar fá-lo-ei, mas se não o fizer não vou sentir a falta.

Kroniketas, enófilo veraneante

Restaurante: Mar à Vista
Praia da Mareta
8650-361 Sagres
Tel: 282.624.247
maravistasagres@hotmail.com
Preço por refeição: 20 €
Nota (0 a 5): 3

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

No meu copo 194 - Quinta de Camarate branco seco 2007

Não quis deixar de publicar este post antes mesmo de ir de férias, porque há dias tive um excelente e surpreendente reencontro com um velho conhecido que tem andado esquecido por aqui. Um dos brancos da José Maria da Fonseca, numa garrafa de imagem renovada, este Quinta de Camarate branco seco de que pouco se fala parece ter ganho novo fôlego.

Com uma bela cor amarela brilhante e alguma predominância de aromas citrinos não muito pronunciados, tem boa estrutura na boca e um final persistente e refrescante. Vinho muito aromático e suave, frutado e delicado, que combina muito bem a acidez e frescura do Alvarinho, aqui importado para a península de Setúbal, com a doçura do típico Moscatel e com o Verdelho, uma casta em ascensão em várias regiões e que começa a aparecer cada vez mais, a integrar-se bem no lote.

Uma boa experiência de Domingos Soares Franco, pioneiro em muitas inovações enológicas e no estudo aprofundado de castas em Portugal. Já ouviram falar dum rosé feito por ele com uvas de Moscatel Roxo?

Sem dúvida um belíssimo branco para o Verão e para todos os meses do ano. Nestas últimas semanas tenho provado alguns bons brancos, mas a verdade é que este branco seco está num patamar acima. Não há dúvida que os brancos estão em franca retoma e ainda bem, como o Pingus Vinicus já tinha previsto há mais de um ano quando intitulou como Brancos, a vingança?, um post que serviu para o Saca-a-rolha pegar no mote e lançar alguma discussão sobre o tema. Na altura eu não andava muito convencido mas tenho de dar a mão à palmatória, porque a qualidade melhora a olhos vistos e conseguem-se muito bons produtos a preços bastante simpáticos. Parece que os enólogos encontraram o mapa da mina e estão a fazê-los cada vez melhores, aliás tal como os rosés.

O consumidor agradece.

Boas férias para os eno-bloguistas e para todos os enófilos em geral, e boas provas.

Kroniketas, enófilo de malas aviadas para as praias algarvias

Vinho: Quinta de Camarate Seco 2007 (B)
Região: Terras do Sado
Produtor: José Maria da Fonseca
Grau alcoólico: 12,5%
Castas: Alvarinho, Moscatel, Verdelho
Preço em hipermercado: 6,44 €
Nota (0 a 10): 8,5


PS: este é mesmo o último post quase antes de me sentar no carro e rumar a Sul. Como sempre, por lá as provas são capazes de ser muitas mas os escritos poucos ou quase nenhuns. Se a oportunidade se proporcionar e a disposição ajudar, pode ser que se vá contando por aqui algumas deambulações gastronómicas. Só que agora o blogger proporciona-nos uma ferramenta que antes não tinha: podemos deixar os posts agendados para publicar quando quisermos mesmo sem lhes mexer. Por isso é possível que apareçam por aqui alguns artigos enquanto eu estou a banhos ou sentado nalguma esplanada... ou quem sabe numa patuscada. Maravilhas da tecnologia...