sábado, 31 de maio de 2008

Krónikas do Alto Alentejo (XXV)

O balanço final


Terminada a minha permanência em Portalegre, preenchida por bastantes visitas a restaurantes e produtores de vinho e pela descoberta da gastronomia e vinicultura da região, vale a pena fazer um balanço final destas deambulações por terras do Alto Alentejo.

Em termos vínicos aproveitei para descobrir uma série de marcas que ainda não tinha provado e algumas revelações muito interessantes. O perfil de muitos destes vinhos, particularmente nas terras altas de Portalegre, é diferente da maioria dos outros vinhos alentejanos, da planície. Mais frescos, mais suaves e menos pesados, embora isso por si só não faça deles necessariamente melhores vinhos que os outros. Também aconteceram algumas decepções, como o Pedra Basta, o Monte da Penha Reserva e o Monte da Cal Reserva. Revelações agradáveis foram o Casa de Alegrete e o Terrenus, não esquecendo o excelente Herdade das Servas Aragonês, mas esse não foi uma surpresa, vindo donde vem.

Quanto à gastronomia, dentro da tipicidade regional que sempre procurei, e que por si só também não constituiu nenhuma revelação especial, o que mais me surpreendeu (pela positiva) foi a qualidade superior do serviço e da confecção da maioria dos restaurantes visitados. Fiquei verdadeiramente siderado com o profissionalismo da maioria daquelas pessoas e o modo como levam a sério a sua actividade. Atendimento de altíssima qualidade e com grande eficiência, que faz o cliente ficar com vontade de voltar, a complementar uma confecção absolutamente irrepreensível. Destaco nesse aspecto o Rolo Grill, o Tomba Lobos, o Cobre, o Caldeirão de Sabores, a Gruta, a Cadeia Quinhentista e o São Rosas, estes dois últimos em Estremoz. Ainda em Estremoz, talvez a grande desilusão de toda a minha permanência na região, a não menos famosa Adega do Isaías, um espaço como já não se usa e que de modo nenhum justifica a fama que tem. Será que a ASAE já lá foi?

O que mais impressiona é o facto de Portalegre ser uma cidade bem no interior do país e longe de quase tudo, sem grandes referências nas proximidades, a não ser as vilas de Marvão e Castelo de Vide, mas não é certamente a região turística mais apelativa. Isso parece não demover os profissionais da gastronomia de apostar acima de tudo na qualidade, como aliás devia ser apanágio de todos os que entram neste ramo. Tomara a grande maioria dos restaurantes de Lisboa e do Algarve, os dois principais destinos turísticos do país, terem a qualidade destes que por aqui encontrei.

Kroniketas, gastro-enófilo regressado

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Krónikas do Alto Alentejo (XXIV)

No meu copo, na minha mesa 180 - .com 2005; Restaurante São Rosas (Estremoz)




Foi a minha despedida do Alto Alentejo e das minhas actividades em Portalegre. Com o carro carregado até acima, saí à hora de almoço e em Estremoz fiz a segunda tentativa no São Rosas, o restaurante de Margarida Cabaço (produtora do vinho Monte dos Cabaços) e uma das principais referências gastronómicas da região, dentro das muralhas do castelo. Desta vez estava aberto. Lá deixei o carro com a bagagem à vista ali no largo junto à pousada e não me arrependi.

O espaço não é muito amplo mas mostra-se bastante acolhedor, quase intimista (não tanto como na Cadeia Quinhentista, mas ainda assim...). A zona de refeições fica mais abaixo, à esquerda, e à direita fica um pequeno balcão com o bar, pelo que o visitante tem uma perspectiva de todo o estabelecimento quando franqueia a porta de entrada. Estando sozinho, fui conduzido à mesa mais ao fundo, ao canto da sala e junto a uma série de prateleiras onde repousam variadas garrafas de vinho, com os respectivos locais devidamente catalogados. Para beber uma era só esticar um braço e tirá-la...

A ementa apresenta-nos uma enorme variedade de opções de pendor regional, mas sendo eu um amante da caça (no prato, não para ir caçar) voltei a optar por um prato de perdiz, tal como tinha feito na Cadeia Quinhentista. Desta vez com o nome Perdiz à Glória, estufada e regada com molho de azeite, acompanhada com batatas, couve e esparregado. Uma verdadeira delícia.

Na sobremesa voltei a deixar-me seduzir pelos doces conventuais e terminei em beleza com uma excelente encharcada.

Para acompanhar estes pitéus escolhi meia garrafa do vinho do filho da patroa, como lhe chamou o empregado que me atendeu: o .com, produção de Tiago Cabaço que resolveu voar sozinho. E parece fazê-lo bem. Apesar dos 14 graus de álcool, apresentou-se muito equilibrado, sem aquele perfil pesado e enjoativo que tenho notado em muitos destes vinhos hiper-alcoólicos. Predomina a fruta e mostra-se macio, os taninos estão bem domados e envolvidos por um bom corpo. Pareceu-me ser uma aposta simpática e bem conseguida.

O serviço é 5 estrelas, mais uma vez com grande profissionalismo e eficiência, sem qualquer falha. No final duma excelente refeição não deixei de dar os parabéns ao responsável. Foi o que se chama terminar em beleza e com a certeza de que hei-de lá voltar. Este São Rosas entra no rol dos obrigatórios.

Kroniketas, gastro-enófilo viajante

Vinho: .com 2005 (T)
Região: Alentejo (Estremoz - Borba)
Produtor: Tiago Cabaço
Grau alcoólico: 14%
Castas: Alicante Bouschet, Aragonês, Cabernet Sauvignon, Trincadeira
Preço em feira de vinhos: 2,98 €
Nota (0 a 10): 7

Restaurante: São Rosas
Largo D. Diniz, 11
7100-509 Estremoz
Tel: 268.333.345
Preço por refeição: 33 €
Nota (0 a 5): 5

segunda-feira, 26 de maio de 2008

A propósito de preços

Ainda acerca do preço da refeição n’Os Arcos, que ficou pelos 40 €, só gostava de saber onde é que os senhores que escrevem os livros sobre restaurantes, como um recentemente editado em parceria entre a Revista de Vinhos e o Modelo, entre outros, descobriram que se pode pagar 25 € por uma refeição destas. Só o prato custava 19 € por cabeça. Será que tiveram desconto, ou não beberam vinho nem comeram sobremesa? Poderá ser isso, mas não brinquem connosco quando põem o preço médio duma refeição num livro destes.

Já na recente visita à Casa da Dízima se verificou a mesma discrepância: o livro refere como preço médio 20 €! Só se for para comer uma omoleta!

Perante isto, digam-me lá até que ponto é que podemos confiar nestes guias...

Kroniketas, gastrónomo desconfiado

domingo, 25 de maio de 2008

No meu copo, na minha mesa 179 - Kopke branco 2006; Restaurante Os Arcos (Paço d’Arcos)




Por ocasião desta última ponte, o núcleo duríssimo dos Comensais Dionisíacos (leia-se os autores das Krónikas Viníkolas) resolveu ter um almoço mais saudável do que uma dose cavalar de entrecôte ou filet mignon. Com esse objectivo demandou novamente Paço de Arcos, desta vez para penetrar no quase homónimo Os Arcos, porventura o decano dos restaurantes da zona, mas continuando no topo, como se comprova pelas salas sempre cheias e pelos Mercedes à porta.

Ultrapassada a luta com um parquímetro que não dava trocos (isso aqui há uns tempos chamava-se roubo, mas agora deve ser arredondamento que se diz), lá descemos a rua Costa Pinto em direcção ao local escolhido.

Depois da consulta necessária ao cardápio, secção do peixe - e de se ter evitado uma recaída do Kroniketas para o lado das carnes - optámos por um robalo de mar no capote, devidamente acolitado por feijão verde salteado e batatas a murro. O capote mais não é que uma envoltura em massa de pão que permite manter os sucos do animalejo enquanto é cozinado, resultando numa preparação assaz suculenta quando comparada com algumas grelhaduras que o deixam firme e hirto como uma barra de ferro.

Não nos arrependemos da escolha, e até o envoltório de pão se finou pela garganta abaixo dos mastigantes, com evidente satisfação (dos mastigantes, não do pão).

Para beber com o nadador compulsivo escolhemos um branco relativamente recente no mercado, da casa Kopke, anteriormente produtora exclusiva de vinhos do Porto. Com um discreto aroma floral e uma magnífica cor amarelo-citrino, na boca mostrou-se suave, com um fundo mineral que complementou muito bem as notas florais que primeiro se mostraram, tudo muito bem envolvido por uma acidez tão equilibrada quanto discreta. Álcool muito bem integrado com uma graduação certíssima (e raríssima nos tempos mais recentes), temperatura de serviço ideal e mais um branco do Douro a ter em conta quando formos às compras, até porque é barato (no mercado deverá andar por baixo dos 4 €).

Para compensar o pecado do peixe (muito mais grave a nosso ver que o pecado da carne!), escolhemos para sobremesa uma surpresa de chocolate, fatia com base de bolo de chocolate húmido e recheio estilo mousse de chocolate, que apesar desta constituição não se mostrou enjoativa.

Pode dizer-se que esta primeira arremetida contra Os Arcos se saldou por nota muito positiva, em que teremos de incluir o serviço atencioso e esmerado, que trata clientes e produtos servidos muito bem. Havemos de voltar para atacar uma posta à mirandesa da qual nos foram tecidas loas muito atraentes. Ou então um valente bife... O preço é bem puxado, mas vale aquilo que custa.

tuguinho e Kroniketas, os diletantes preguiçosos

Vinho: Kopke 2006 (B)
Região: Douro
Produtor: Kopke
Grau alcoólico: 12,5%
Castas: Arinto, Gouveio
Preço no restaurante: 12 €
Nota (0 a 10): 7,5

Restaurante: Os Arcos
Rua Costa Pinto, 47
2770-046 Paço de Arcos
Tel: 21.443.33.74
Preço por refeição: 40 €
Nota (0 a 5): 5

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Krónikas do Alto Alentejo (XXIII)

Adega Cooperativa de Borba





Foi a última visita aos produtores de vinho, já quase em fase de regresso definitivo a casa. Voltei a deslocar-me um pouco para sul e fui até Borba, visitar as instalações da Adega Cooperativa, uma das mais antigas do país e a mais antiga do Alentejo.

Fundada em 1955, tem cerca de 350 sócios que cultivam um total de 2200 hectares de vinha, sendo 65% são de uvas tintas e 35% de brancas, com destaque para Aragonês, Trincadeira, Castelão, Alicante Bouschet, Roupeiro e Rabo de Ovelha em termos de área plantada.

As instalações da Adega Cooperativa de Borba, situada junto à entrada vindo de Estremoz, ocupam cerca de 12.000 m2 e delas fazem parte a zona de fermentação em cubas, a linha de engarrafamento, a cave de estágio em garrafa e barricas e ainda uma loja de venda ao público, onde além da compra se pode ainda fazer a prova de alguns vinhos da casa. Sendo uma Adega Cooperativa, tal como em Portalegre, as vinhas não estão localizadas junto às instalações pelo que não foi possível visitar nenhuma vinha, ao contrário do que acontece com os restantes produtores onde me desloquei. Mas pude ver todo o circuito que o vinho percorre e onde repousa.

A Adega Cooperativa recebe anualmente 18 milhões de quilos de uvas e produz 14 milhões de litros por ano. Esta enorme dimensão, completamente diferente dos patamares dos outros produtores que visitei, resulta não em uma, mas duas linhas de engarrafamento, totalmente automatizadas desde a colocação das paletes com as garrafas até ao embalamento em caixas.

O portefólio da casa engloba uma vasta gama com mais de 30 marcas, entre brancos, tintos e rosés, que vão desde as de grande consumo, como o Convento da Vila e o Galitos para comercialização em bag-in-box, até aos topos de gama Garrafeira e Cinquentenário (produzido para comemorar os 50 anos da Adega), passando pelos conhecidos Reserva com rótulo de cortiça (um dos mais equilibrados na relação qualidade/preço e talvez a grande referência da casa actualmente), o muito badalado Montes Claros Reserva, os mono e bi-varietais, os Borba DOC e AdegaBorba.pt. São ainda produzidos vinhos licorosos, aguardentes vínicas e bagaceiras. Muito trabalho para o enólogo da casa, Óscar Gato.

Os tintos AdegaBorba.pt, varietais, Reserva e Garrafeira têm estágios em madeira, que vão desde 3 a 18 meses, tendo ainda um posterior estágio em garrafa, que vai até 9 meses no Cinquentenário.

No final ainda me desloquei à loja onde pude fazer uma rápida prova do AdegaBorba.pt branco, tinto e rosé. Antes de vir embora, como recordação adquiri uma garrafa do Cinquentenário e uma do Garrafeira. Reparei que os preços eram bastante competitivos em relação ao que se vê no mercado, estando o Reserva mais barato do que o mais barato que já encontrei nas grandes superfícies, mas parece que isto nem sempre acontece nos produtores. Neste caso pareceu-me que compensa ao visitante comprar os vinhos na casa.

E assim terminei as minhas incursões vinicas por terras do Alto Alentejo. Dali ainda dei um salto ao Redondo e passei junto à Roquevale, mas já não houve tempo para entrar. Talvez numa próxima ocasião...

Kroniketas, enófilo itinerante

Adega Cooperativa de Borba
Rossio de Cima
7151-913 Borba
Tel: 268.891.660

domingo, 18 de maio de 2008

O “senhor Bairrada”



Excelente programa na “Hora de Baco” de ontem, com Luís Pato. Uma verdadeira lição de fazer vinho e de cultura da vinha por parte de um dos mais sabedores e estudiosos enólogos do país.

Para quem ainda puder ver ou gravar, repete na noite de 2ª para 3ª feira na RTP N, com início agendado para a 1 da manhã. A não perder.

Kroniketas, enófilo atento

Krónikas do Alto Alentejo (XXII)

No meu copo, na minha mesa 178 - Lóios 2006; Restaurante Cadeia Quinhentista (Estremoz)




De passagem por Estremoz, depois da visita ao Monte da Caldeira de João Portugal Ramos, fui à procura do famoso restaurante São Rosas, junto à Pousada de Santa Isabel. Logo por azar estava fechado. Fiquei por ali a ver a paisagem lá em baixo, a dar uma vista de olhos à pousada quando o meu olhar pousou numa placa que indicava Cadeia Quinhentista, que já alguém me tinha referido, para uma rua estreitinha que saía junto da pousada.

Fui ver o aspecto e entrei, atraído pelas opções de caça da ementa. Ainda cá fora, para além da ementa está uma explicação sobre a história do edifício. Ali funcionou a cadeia de Estremoz.
Depois de abandonada, o actual dono, que entretanto tinha saído da Pousada de Santa Isabel, negociou com a Câmara Municipal a reconversão do edifício para restaurante, e assim nas antigas masmorras repousam agora as mesas do restaurante e um bar (no piso superior há outro bar).

O ambiente é acolhedor, estando o interior decorado com cores quentes, em tons de vermelho, e há música ambiente a dar as boas vindas ao cliente. Era dia de semana, ao almoço, pelo que não havia muita gente. Fui conduzido por uma simpática senhora a uma mesa na sala mais interior e sentei-me junto a uma janela fechada a grades.

Estando sozinho, não havia grandes possibilidades de fazer escolhas muito complicadas, mas entre as elaboradíssimas opções existentes na carta comecei por uma canja de perdiz, seguindo-se como prato principal meia perdiz marinada em azeite, que veio decorada com pequeninos bagos de uva e castanhas. Ambos estavam excelentes, com a perdiz em azeite a mostrar aromas diferentes do habitual mas muito bem confeccionada.

Para sobremesa um doce incontornável do Alentejo, que repeti sempre que pude, tal como a encharcada: a sopa dourada, irrepreensível, um daqueles doces que fazem a delícia de quem gosta de doces à base de ovos.

Finalmente, o vinho. Tive de optar por meia garrafa e a escolha recaiu num vinho de João Portugal Ramos, o Lóios. Não sendo nada de extraordinário, faz parte daquele lote de vinhos que, sendo baratos, são agradáveis e fáceis de beber. Embora os 14% de álcool se façam sentir, mostra uma certa macieza e uma predominância frutada, com alguma persistência final. Um vinho agradável sem grandes complexidades nem pretensões.

A par de tudo isto, um serviço excelente, competentíssimo, atento, eficiente e simpático. A meio da refeição o próprio dono veio ter comigo para saber se estava tudo a decorrer a contento. A senhora que me conduziu à mesa e me atendeu durante a refeição mostrou ter formação na matéria, tal o profissionalismo que demonstrou ao longo de todo o serviço. O preço faz-se sentir, mas pela elevada qualidade do serviço acaba por não ser excessivo. É um local a voltar para uma refeição calma em ambiente recatado.

Kroniketas, enófilo viajante

Vinho: Lóios 2006 (T)
Região: Alentejo (Estremoz - Borba)
Produtor: João Portugal Ramos Vinhos
Grau alcoólico: 14%
Castas: Aragonês, Trincadeira, Castelão e outras
Preço em feira de vinhos: 2,64 €
Nota (0 a 10): 6,5

Restaurante: Cadeia Quinhentista
Rua Rainha Santa Isabel
7100-509 Estremoz
Tel: 268.323.400
Preço por refeição: 35 €
Nota (0 a 5): 5

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Na Wine O’Clock 3 - Com Paulo Laureano



Mais uma visita à Wine O’Clock, desta vez para uma prova de vinhos de Paulo Laureano, um dos enólogos da moda, com participação em diversos projectos no Alentejo a agora também com um projecto próprio no baixo Alentejo, na zona da Vidigueira, onde é vizinho das Cortes de Cima e da Herdade do Peso.

Foi o próprio Paulo Laureano que esteve presente a mostrar os seus vinhos, subordinados ao seu lema das castas portuguesas. Foram apresentados 4 brancos e 6 tintos que cobrem toda a gama dos vinhos com o seu nome. Alguns varietais, outros em lote, desde o Clássico que na restauração aparece com o nome Singularis, até ao Reserve passando pelo Splendidus e pelo Premium. No final lá apareceu a casta estrangeira da paixão do enólogo, a Alicante Bouschet que ele adoptou como casta portuguesa e alentejana em particular.

É difícil dissertar sobre 10 vinhos provados em tão pouco tempo, porque o mais importante foram as explicações do próprio Paulo Laureano à medida que os vinhos iam sendo provados. Uma autêntica lição.

Os brancos eram de um modo geral bastante frescos, com alguma mineralidade e boa estrutura de boca, sendo o Paulo Laureano Clássico classificado pelo próprio como "vinho de varanda, para beber e namorar", aparecendo depois alguns mais fechados e com aromas tropicais.

No caso dos tintos as diferenças eram um pouco mais acentuadas, dadas as diferentes concepções dos vinhos. Um traço ficou patente: um perfil médio de boa qualidade, mesmo nos mais baratos. São vinhos fáceis sem serem simples, que denotam algum cuidado na sua feitura e que merecem ser apreciados com alguma calma.

Por mim vou ficar atento aos vinhos deste produtor e experimentá-los com mais tempo à medida que for possível. E no próximo sábado há uma prova de brancos que é capaz de também valer a pena.

Kroniketas, enófilo atento

domingo, 11 de maio de 2008

Krónikas do Alto Alentejo (XXI)

João Portugal Ramos






Uma das minhas visitas mais desejadas por terras do Alto Alentejo era às instalações de João Portugal Ramos, em Estremoz. Situada junto à estrada nacional para Arraiolos a cerca de 3 km de Estremoz, ainda antes da Herdade das Servas, a entrada para o Monte da Caldeira passa quase despercebida ao viajante pois o portão está afastado da estrada e fica logo a seguir a uma curva, pelo que só com atenção se percebe o que ali está. A própria placa com o nome do produtor não está muito visível.

Passei por lá num dia de semana de manhã em que regressava a Portalegre. Cheguei à porta e resolvi entrar. Dirigi-me à recepção e perguntei como eram as visitas. Disseram-me que se quisesse podia fazê-la naquela hora, e lá fui.

João Portugal Ramos é um dos mais conceituados enólogos do país e do Alentejo em particular, com vários vinhos de renome no panorama nacional, tendo já inclusivamente sido premiado. Possui também uma empresa no Ribatejo, a Falua, tendo-se estabelecido em Estremoz em 1988 e plantado a primeira vinha em 1990, depois de vários anos como consultor em diversas empresas de norte a sul do país.

O Monte da Caldeira é a sede da empresa de João Portugal Ramos no Alentejo, onde tem várias parcelas de vinha num total de 450 hectares, estando ainda em fase de plantação uma parcela na encosta por baixo do castelo de Estremoz. Está em funcionamento desde 2003 e todas as instalações do Monte da Caldeira foram construídas de raiz, pelo que foi possível criar todas as facilidades pretendidas, uma das quais é um túnel de trasfega do vinho para a linha de engarrafamento... por baixo da rua! Actualmente produz cerca de 6 milhões de garrafas por ano.

Na zona dos escritórios está a sala de cubas e, junto a esta, a sala de barricas. Existem também alguns lagares de mármore destinados à pisa de parte da produção dos melhores tintos. Em 2005 foram adquiridas novas cubas destinadas à remontagem do vinho de entrada de gama. Existem também balseiros de madeira para fermentação e estágio dos tintos, que vão ser usados durante 10 anos.

O primeiro vinho produzido por João Portugal Ramos no Monte da Caldeira foi o Vila Santa, a que se foram seguindo os restantes produtos que actualmente conhecemos. Os tintos estagiam em madeira, durante períodos que vão decrescendo de acordo com a gama de posicionamento do vinho: 1 ano para o Marquês de Borba Reserva, 9 meses para o Vila Santa, 6 meses para os monocastas Aragonês, Trincadeira, Syrah e Tinta Caiada, 5 meses para o Marquês de Borba. Só o Lóios não tem estágio em madeira.

Para além destes tintos existe ainda uma produção especial proveniente da outra parcela de vinha situada a caminho de Sousel, a Quinta da Viçosa, que resulta da combinação da melhor casta portuguesa e estrangeira de cada ano. Daqui já resultaram combinações muito curiosas como Trincadeira-Syrah, Aragonês-Petit Verdot (parece que esgotou num ápice) e a mais recente Touriga Nacional-Merlot. O Quinta da Viçosa estagia um ano em madeira.

Atravessando a rua entra-se na linha de engarrafamento, totalmente automatizada, desde a colocação das garrafas até ao embalamento nas caixas. Ali a intervenção humana é praticamente inexistente a não ser para vigiar o bom funcionamento do processo. Curiosamente enquanto lá estive uma das garrafas tombou, pelo que foi necessário parar a linha para recolocar as garrafas todas no sítio. Um momento raro, certamente.

Tal como para a Herdade das Servas, o desejo expresso no final da visita (onde não tive oportunidade de falar com o próprio, que andava por terras do oriente juntamente com outros produtores) foi o de que nos continue a brindar com belíssimos vinhos e alguns dos melhores tintos do Alentejo.

Kroniketas, enófilo itinerante

J. Portugal Ramos Vinhos, S. A.
Monte da Caldeira
7100-149 Estremoz
Tel: 268.339.910

quinta-feira, 8 de maio de 2008

No meu copo 177 - Herdade do Peso Reserva 2002; Herdade do Peso, Trincadeira 2000

Aproveitando uma folga de ambos, os bandalhos que fazem este blog resolveram fazer uns bifes a acompanhar umas garrafas. A escolha dos líquidos recaiu em dois vinhos da Herdade do Peso, a propriedade da Sogrape no Alentejo, na zona da Vidigueira, perto das Cortes de Cima e do novo projecto de Paulo Laureano.

Em provas anteriores já tínhamos apreciado o Alfrocheiro e o Aragonês e há algumas semanas estive numa prova de alguns destes vinhos na Wine O’Clock, na qual se destacou naturalmente o Reserva, que é feito precisamente com uma combinação daquelas duas castas e nesta prova mais demorada não nos decepcionou. Mostrou um aroma profundo com predominância a frutos vermelhos, alguma especiaria bastante discreta, bem estruturado na boca com a madeira muito bem casada e taninos muito firmes mas bem domados, terminando suave, longo e persistente.

De realçar que tratando-se dum vinho com 12 meses de estágio em madeira e 14% de grau alcoólico, nenhuma dessas características sobressaiu na prova, tendo-se apresentado muito equilibrado e prometendo alguma longevidade. No entanto, a pujança apresentada agora, a par com o polimento de todas as arestas parece-nos indicar que está no ponto óptimo para ser bebido... e apreciado.

Passámos depois ao Trincadeira, já mais envelhecido e muito menos apelativo. Apresentou-se mais redondo mas também discreto, parecendo um pouco monocórdico quando comparado com o Reserva. Mostrou algum fundo vegetal típico da casta mas faltou-lhe algum corpo e aquela estrutura que muitas vezes suporta as outras castas mais exuberantes. Talvez demasiado linear e sem a complexidade que se esperava.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Região: Alentejo (Vidigueira)
Produtor: Sogrape Vinhos

Vinho: Herdade do Peso Reserva 2002 (T)
Grau alcoólico: 14%
Castas: Aragonês, Alfrocheiro
Preço em feira de vinhos: 19,49 €
Nota (0 a 10): 8,5

Vinho: Herdade do Peso, Trincadeira 2000 (T)
Grau alcoólico: 14%
Casta: Trincadeira
Preço em feira de vinhos: 16,78 €
Nota (0 a 10): 7

sábado, 3 de maio de 2008

Prova de vinhos no Hotel da Penha Longa (1)



No mesmo fim-de-semana em que me desloquei à Wine O’Clock de manhã, para uma prova de vinhos da Quinta dos Carvalhais, e à Casa da Dízima à noite para um repasto das Krónikas, os dois eventos ainda foram entrecortados por uma prova no Hotel da Penha Longa, a partir de um contacto bem colocado.

Numa sala especialmente vocacionada para o efeito, decorada com umas quantas dezenas de garrafas, eu e mais dois comparsas fomos recebidos pelo escanção da casa, o simpático Julião Milisse que nos apresentou um conjunto de vinhos escolhidos por si. Na nossa frente um painel de vinhos composto por um espumante, dois brancos e dois tintos, e ainda uma garrafa tapada para descobrir no fim.

Começámos por um espumante Prova Real, que por acaso eu já tinha provado por ocasião da quadra natalícia, pelo que não tenho nada de novo a acrescentar à prova feita na altura. Seguiram-se os dois vinhos brancos, que provámos em conjunto de modo a poder compará-los ainda no copo. O primeiro foi um Herdade Grande Colheita Seleccionada 2006, o segundo um Quinta de Pancas Chardonnay 2005. Embora bem feito, o Herdade Grande revelou mais uma vez aquela característica de rusticidade que os brancos alentejanos apresentam quase sempre, que me arranha na garganta e não me deixa gostar de quase nenhum. Não há volta a dar-lhe. Acho sempre que lhes falta frescura e elegância. O Pancas mostrou outro perfil, com alguns aromas tropicais, mais encorpado e com mais estrutura na boca, o que lhe é dado pelo estágio em madeira, bom para pratos fortes de peixe ou algumas carnes. Mas também não é dos meus preferidos.

Passámos aos tintos em que Julião Milisse fez o grande elogio do Incógnito 2003, um dos ícones (e dos mais caros) das Cortes de Cima, que disse ser um dos seus vinhos de eleição. A par deste provámos o Douro Borges Reserva 2003. As opiniões penderam claramente para o Incógnito, sem dúvida um vinho exuberante e capaz de fazer as delícias dos apreciadores, mas o Borges foi, quanto a mim, um pouco desvalorizado. É mais discreto mas mais elegante, precisa de uma prova mais calma para lhe ser dado o devido valor, pois tem uma complexidade que não aparece logo às primeiras impressões.

Para o fim, a prova cega em copo preto. No nariz mostrou logo que era um branco, pois apresentava alguns aromas com algo de citrino, característicos dos brancos. Na prova de boca também não enganou, com corpo e sabores típicos de brancos. Restava tentar descobrir donde seria. A primeira sugestão foi para Terras do Sado, mas não me pareceu. Bucelas também não pois não tinha a acidez típica da região. Por outro lado apresentava mais frescura e acidez que os alentejanos, pelo que me inclinei para que fosse claramente mais a norte, Dão ou Douro. Descoberta a garrafa, era um Gouvyas Reserva 2004. Parece-me que vale a pena revê-lo. Bem equilibrado em todas as suas componentes.

Ao fim de uma hora e meia bem passada entre provas e amena cavaqueira, ficou a promessa de lá voltarmos para fazer outra prova. Julião dispôs-se de imediato a apresentar os vinhos por nós escolhidos se assim o quisermos, segundo um tema, uma região, um produtor, uma casta, ou uma mistura à escolha dele próprio como foi esta. Melhor ainda será juntar a prova com um jantar, desde que o preço não seja proibitivo. Nesta altura um dos comparsas já está a tratar de organizar o próximo. E terminado o evento, lá seguimos, dois de nós, a caminho da Casa da Dízima ao encontro do tuguinho...

Kroniketas, enófilo esclarecido