quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Krónikas do Alto Alentejo (II)



A serra, a vinha, o montado


Aqui em Portalegre a vida corre mais devagar, há mais tempo para tudo (até para não fazer nada), e estou a 900 metros do local de trabalho, 2 minutos de carro e 12 minutos a pé, e na periferia da cidade já estou em pleno campo, com um quintal, oliveiras à porta, passarinhos a cantar de manhã. Mas no centro da cidade vêem-se, sobretudo, estudantes de capa e batina, supostamente da Escola Superior de Educação e da Escola Superior de Enfermagem. A semana passada deve sido tempo de praxe: uma rapariga tinha metade da cara pintada de roxo e outra tinha na cabeça umas orelhinhas do tipo-rato Mickey (porque raio não as tirou ela, pensei eu?).

Ir ao supermercado é quase como um passeio, não há quase ninguém, nem bicha nas caixas, e há quatro supermercados para aí num raio de 500 metros (Modelo, Intermarché, Leclerc e Lidl) e três bombas de gasolina, sendo que a do Leclerc vende combustível entre 10 e 15 cêntimos mais barato que as outras. Isto do outro lado da rotunda que as separa... Ali ao lado a zona industrial, com as poucas fábricas que restam, mais para a esquerda um estádio junto a um kartódromo e a zona onde se concentraram há duas semanas os jipes para a Baja de Portalegre, que vim a saber depois que já vai na 21ª edição e é um dos clássicos todo-o-terreno do país e uma das provas mais importantes. Quando saí para o regresso a casa eles andavam por ali, junto ao IP2, e o estacionamento nas bermas prolongava-se por quilómetros.

Aqui à volta a vinha é omnipresente, assim como a oliveira e o montado, este mais a caminho de Estremoz. Ainda se podem ver uns rebanhos a pastar perto da estrada. Empregos é que parece que nem por isso. Os lanifícios já tiveram a sua importância mas fecharam. À semelhança do resto do país, parece que o comércio e os serviços predominam. Só me pergunto é: se poucos produzem, como é que todos compram?

Subindo a serra de S. Mamede encontram-se várias propriedades vitícolas. Já passei à porta da Adega da Cabaça, da Quinta do Centro (de que o enólogo Rui Reguinga é um dos proprietários) e passei ao lado das Altas Quintas sem dar por isso. Ainda hei-de voltar e procurar também a Tapada do Chaves. E na Adega Cooperativa de Portalegre passo todos os dias...

Kroniketas, enófilo viajante

terça-feira, 30 de outubro de 2007

No meu copo 142 - Casal dos Jordões, Touriga Francesa 1999

Comprei este vinho há seis anos e na altura decidi guardá-lo e ver como estaria algum tempo depois. Decidi abri-lo agora.

Este é um vinho de produção biológica, o que por si só não garante vinhos de excepção.

Contrariamente ao que se devia fazer, não o decantei, visto ser só eu a bebê-lo – se fosse decantado estragar-se-ia muito rapidamente; assim, com a rolha de vácuo, foi possível mantê-lo durante vários dias e degustá-lo completamente.

Quando o verti para o copo a cor, granada, surgiu forte, não revelando sinais de velhice. O aroma, discreto, apresentou odores complexos fruto da evolução e um ligeiro bafio que logo se desvaneceu.

Na boca mostrou fruta de caroço muito madura (ameixa, predominantemente), com taninos presentes mas redondos e madeira muito suave. O corpo primou pela elegância – este vinho não nos tenta esmagar com a sua força, antes nos tenta convencer pela astúcia. O fim de boca foi médio, mas persistente, ajudado pelos taninos ainda presentes.

Este Casal dos Jordões Touriga Francesa é pois um bom vinho do Douro, que joga na discrição o que outros apostam na exuberância. Embora, como se pode constatar pela nota de prova, o vinho estivesse óptimo ainda, bebê-lo com dois anos a menos seria o que eu aconselharia aos leitores.

tuguinho, enófilo esforçado

Vinho: Casal dos Jordões, Touriga Francesa 1999 (T)
Região: Douro
Produtor: Arlindo da Costa Pinto e Cruz
Grau alcoólico: 12%
Castas: Touriga Francesa
Preço em feira de vinhos: 12 €
Nota (0 a 10): 7,5

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

No meu copo 141 - Terra Quente 1999

Há muitos anos, nas férias, em casa dum amigo, ele trouxe para a mesa um vinho de Valpaços de nome Terra Quente. Na altura eu nem sabia que havia vinho em Valpaços. O jantar era uma carne no forno, bem temperada, a pedir um vinho pujante.

Pois este Terra Quente deixou-me siderado, com um corpo fortíssimo, pujante, aroma vinoso, grande persistência, uma surpresa saída do nada...

Ainda bebi mais umas quantas vezes mas depois o vinho desapareceu. Julguei que já não existia, até que há um ano, nas feiras de vinhos, encontrei umas garrafas da colheita de 1999 no Feira Nova. Comprei duas, para ver como ele estava. Claro que sem demasiadas expectativas.

Nas férias lá abri uma das garrafas, na noite dos vinhos transmontanos. Ainda tentei encontrar alguns resquícios do que me lembrava nele de há uns 10 anos, mas já não tinha a exuberância de outros tempos, com um corpo já delgado e o aroma muito evoluído. Um pouco à semelhança do Bons Ares de 1999, referido no post anterior, já em curva descendente. Ainda se houvesse por aí uma colheita recente, para tirar dúvidas...

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Terra Quente 1999 (T)
Região: Trás-os-Montes
Produtor: Adega Cooperativa de Valpaços
Grau alcoólico: 12,5%
Castas: Trincadeira Preta, Tinta Carvalha, Mourisca, Aragonês
Preço em feira de vinhos: 2,99 €
Nota (0 a 10): 6

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

No meu copo 140 - Bons Ares 1999

Este estava guardado há algum tempo. Tempo demais, porventura. Foi comprado em 2003, esperou 4 anos. Mas embora tenha mostrado já sintomas de algum declínio, não deixou de revelar todo o seu potencial, que faz dele um dos meus preferidos na região de Douro e Trás-os-Montes.

Já tínhamos falado da colheita de 2002, provada em restaurante, e este, mesmo denotando já um certo cansaço, ainda apresentou alguma da pujança que o caracteriza e bateu-se claramente com o José Preto, falado no post anterior, e com o que abordaremos no post seguinte.

Os aromas ainda estavam lá, embora com alguma evolução, a persistência também, ainda com bom corpo e cor muito concentrada, embora tudo muito mais discreto. Já não tinha toda a pujança nem a exuberância aromática que habitualmente ostenta quando está no ponto ideal, mas não engana.

E foi por isso que na primeira oportunidade (leia-se feira de vinhos) tratei logo de adquirir a colheita mais recente à venda. Porque este nunca pode faltar, e agora não vou esperar mais 4 anos para prová-lo.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Bons Ares 1999 (T)
Região: Trás-os-Montes
Produtor: Ramos Pinto
Grau alcoólico: 13%
Castas: Touriga Nacional, Cabernet Sauvignon
Preço em feira de vinhos: 11,79 €
Nota (0 a 10): 7

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

No meu copo 139 - José Preto 2004

Tinha alguma expectativa em relação a este vinho. O tuguinho já tinha comprado uma garrafa e o ano passado resolvi também comprar uma.

Tive oportunidade de prová-lo num dos jantares de férias e fiquei desiludido. As referências que tenho dos vinhos de Trás-os-Montes fora da denominação de origem Douro são geralmente bastante boas, bem acima da média (lembremo-nos do Valle Pradinhos e do Bons Ares, por exemplo).

Este José Preto de 2004, saído da adega do produtor em Sendim, Miranda do Douro, apresentado como o primeiro VQPRD do Planalto Mirandês, ficou aquém das expectativas. Aroma pouco pronunciado, algo delgado de corpo, um daqueles vinhos que nos deixam em dificuldades para escrever sobre ele.

Não que seja mau, mas também não se pode dizer que seja verdadeiramente bom. Ficamos pelo sofrível... Não nos deixa grandes memórias...

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: José Preto 2004 (T)
Região: Planalto Mirandês
Produtor: José Francisco Lopes Preto
Grau alcoólico: 13%
Castas: Touriga Franca, Touriga Nacional, Mourisco Tinto
Preço em feira de vinhos: 4,89 €
Nota (0 a 10): 5

Krónikas do Alto Alentejo (I)

Uma temporada em Portalegre


Cheguei Domingo à noite para umas semanas de trabalho. A antena parabólica não está ligada e a ligação à Internet sem fios da Zapp não funciona.

Sinto-me como se tivesse voltado à pré-história...

Kroniketas, um alentejano do sul na capital mais a norte

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Feiras de vinhos 2007 - As nossas compras

Este ano, por excesso de stock remanescente dos anos anteriores, tentámos reduzir a quantidade de compras nas feiras de vinhos, apostando mais na reposição de produtos em falta, daqueles que nunca podem faltar, e em algumas novidades que ainda não nos passaram pelo estreito. Mesmo assim, ainda se juntou uma quantidade significativa, que tentaremos gastar nos próximos 12 meses. Como habitualmente, tentámos obter o melhor preço para cada marca, depois de comparados os catálogos e os preços dos vários hipermercados. Segue-se a lista.

A indicação dos preços e locais de compra corresponde ao mais barato que foi encontrado. No caso do Prova Régia, por exemplo, o stock no Jumbo esgotou rapidamente, pelo que foi comprado no Continente por mais 2 cêntimos.

Região
Marca - Preço - Local

Alentejo

Esporão Duas Castas (Arinto+Antão Vaz) (B) - 7,95 € - Corte Inglês
Altas Quintas (T) - 19,90 € - Continente
Altas Quintas Crescendo (T) - 7,95 € - Corte Inglês
Cortes de Cima (T) - 9,87 € - Jumbo
Dona Maria (T) - 6,75 € - Jumbo
Dona Maria Amantis (T) - 12,95 € - Jumbo
Herdade dos Grous (T) - 7,85 € - Corte Inglês
Herdade Perdigão Reserva (T) - 18,98 € - Jumbo
Lima Mayer (T) - 9,99 € - Continente
Quinta da Amoreira da Torre, Reserva (T) - 12,45 € - Corte Inglês
Reguengos Garrafeira dos Sócios (T) - 10,90 € - Carrefour
Roquevale (T) - 5,89 € - Jumbo
Tinto da Talha Grande Escolha (T) - 5,79 € - Jumbo
Vinha do Almo Escolha (T) - 9,59 € - Continente

Beiras
Luís Pato Vinhas Velhas (T) - 14,95 € - Corte Inglês

Bucelas
Bucellas Caves Velhas (B) - 3,49 € - Corte Inglês
Prova Régia, Arinto (B) - 2,97 € - Jumbo

Dão
Cabriz, Colheita Seleccionada (B) - 2,79 € - Feira Nova
Outono de Santar, Vindima Tardia (B) - 8,85 € - Jumbo
Quinta de Saes Reserva (B) - 5,95 € - Corte Inglês
Quinta do Cerrado, Malvasia Fina (B) - 4,65 € - Corte Inglês
Cabriz Reserva (T) - 6,90 € - Feira Nova
Casa de Santar Reserva (T) - 9,79 € - Continente
Milénio, Touriga Nacional e Aragonês (T) - 2,99 € - Continente
Porta dos Cavaleiros Reserva (T) - 4,95 € - Corte Inglês
Quinta de Cabriz, Touriga Nacional (T) - 12,85 € - Jumbo
Quinta do Sobral Reserva (T) - 6,25 € - Jumbo

Douro
Muxagat (B) - 7,59 € - Corte Inglês
Apegadas Quinta Velha, Reserva (T) - 14,45 € - Corte Inglês
Duas Quintas Reserva (T) - 19,59 € - Continente
Duas Quintas Celebração, Quinta da Ervamoira (T) - 9,85 € - Jumbo
Esmero (T) - 14,85 € - Jumbo
Maria Mansa (T) - 4,48 € - Jumbo
Quinta do Infantado (T) - 6,49 € - Continente
Quinta do Portal Reserva (T) - 12,78 € - Continente
Quinta dos Quatro Ventos (T) - 9,78 € - Continente
Ramos Pinto Collection (T) - 12,75 € - Jumbo
Sogrape Reserva (T) - 10,74 € - Jumbo

Estremadura
Quinta de S. Francisco (B) - 2,45 € - Corte Inglês
Quinta das Cerejeiras, Reserva (T) - 9,95 € - Corte Inglês
Quinta de D. Carlos (T) - 4,72 € - Jumbo
Quinta de Pancas, Caberbet Sauvignon (T) - 6,98 € - Continente
Sanguinhal, Cabernet e Aragonês (T) - 3,75 € - Corte Inglês

Ribatejo
Quinta da Alorna (B) - 2,79 € - Feira Nova
Quinta da Alorna, Touriga Nacional (R) - 4,49 € - Continente
Fiúza Premium (T) - 8,75 € - Corte Inglês
Vinha do Alqueve (T) - 4,98 € - Continente

Távora-Varosa
Murganheira Seco (B) - 3,49 € - Continente

Terras do Sado
Adega de Pegões Colheita Selecionada (B) - 2,99 € - Jumbo
Catarina (B) - 3,48 € - Continente
João Pires (B) - 4,45 € - Corte Inglês
Adega de Pegões Colheita Selecionada (T) - 5,99 € - Jumbo
Casa Ermelinda Freitas, Alicante Bouschet (T) - 7,98 € - Jumbo
Casa Ermelinda Freitas, Syrah (T) - 7,98 € - Jumbo
Periquita Reserva (T) - 6,25 € - Jumbo
Quinta do Peru (T) - 12,45 € - Corte Inglês

Trás-os-Montes
Bons Ares (T) - 11,79 € - Continente

Vinhos Verdes
Borges, Alvarinho (B) - 7,15 € - Corte Inglês
Deu-La-Deu, Alvarinho (B) - 5,29 € - Continente
Portal do Fidalgo, Alvarinho (B) - 5,25 € - Jumbo
Quinta do Ameal (B) - 5,35 € - Corte Inglês
Reguengo de Melgaço, Alvarinho (B) - 7,99 € - Continente

Espumantes
Cabriz (B) - 5,99 € - Continente
Quinta do Boição, Arinto Reserva Bruto (B) - 7,49 € - Continente
Vértice Reserva Bruto (B) - 9,85 € - Jumbo

França
Saga R (B) - 6,39 € - Jumbo
Chateauneuf-du-Pape (T) - 9,64 € - Jumbo

Itália
Civ & Civ, Lambrusco di Modena (R) - 2,18 € - Corte Inglês
Montebérin Lambrusco di Modena (R) - 4,59 € - Jumbo


tuguinho e Kroniketas, os diletantes preguiçosos

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

No meu copo, na minha mesa 138 - Quinta da Alorna, Touriga Nacional rosé 2006; Restaurante Pizzeria Al Dente (Alvor)

Os brancos e rosés de férias (V)




Uma das incursões de férias, como já vem sendo habitual, foi a um restaurante italiano (também houve uma a um restaurante indiano, mas essa não é para aqui chamada; aliás, não saberia o que dizer...). Já tínhamos ficado de olho nele o ano passado, numa passagem por Alvor, e desta vez fomos mesmo lá.

O espaço é amplo e frondoso, numa espécie de esplanada interior, a dar para uma varanda que pode ser destapada nas noites mais quentes (não foi o caso deste Verão, certamente), salpicada por várias pequenas árvores espalhadas pelo recinto. Como é habitual na época, mesmo com mesa marcada espera-se... e espera-se... e espera-se... até nos podermos sentar e até sermos atendidos e poder começar a refeição. Mas quanto a isso, já percebi que não há nada a fazer. É ir preparado para começar às 10 da noite.

De qualquer modo, acabou por valer a pena a espera. A ementa é bastante variada, com várias carnes para além da enorme profusão de massas e pastas. E assim se pediram coisas tão variadas como macarrão tostado, regina gratinata, bifinhos de porco panados, bife Veneza, involtini e se terminou com tiramisú, crepe com chocolate e crepe com mel e nozes. E toda a gente ficou agradada com a qualidade da confecção.

O atendimento também é simpático e eficiente, descontado o tempo de espera já referido.

Para acompanhar tão variadas iguarias, a pedido de várias famílias fomos para o rosé. Porque era Verão, porque era comida italiana. As opções não eram muitas e resolvi estrear este Quinta da Alorna, que não conhecia. Agora que os rosés estão na moda e que se faz vinho rosé um pouco por todo o país, já quase não há um produtor conceituado que não tenha o seu rosézito. E este saiu-se muito bem. Bastante aromático, ligeiramente floral e com predominância de frutos vermelhos no aroma e no paladar (sente-se ali um toque a morangos ou framboesa), medianamente encorpado e muito fresco na prova de boca, com alguma persistência a marcar um final suave e seco. Uma boa surpresa para as primeiras impressões.

Claro que saindo das mãos do enólogo Nuno Cancella de Abreu só podia ser bom. Não o tenho visto por aí à venda, mas vou ficar atento.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Quinta da Alorna 2006 (R)
Região: Ribatejo (Almeirim)
Produtor: Quinta da Alorna Vinhos
Grau alcoólico: 13%
Casta: Touriga Nacional
Preço no restaurante: 12 €
Nota (0 a 10): 7,5

Restaurante: Pizzeria Al Dente (italiano)
Quinta da Praia, Lote 4 - Loja 16
8500 Alvor
Tel: 282.457.555
Preço médio por refeição: 20 €
Nota (0 a 5): 4

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Encontro com o vinho e os sabores 2007

Já estão anunciadas pela Revista de Vinhos as datas de realização do próximo evento: 3 e 4 de Novembro para o público em geral. O que significa que teremos dois fins-de-semana consecutivos altamente vínicos: no anterior será o encontro de eno-blogs. E, ou muito me engano, ou pelo meio ainda é capaz de haver o Festival de Gastronomia de Santarém.

Muita actividade gastronómica vai haver por esses dias...

Kroniketas, eno-gastrónomo