terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

No meu copo 92 - Monte Judeu, Aragonês 2002

Há pouco mais de três anos desloquei-me em família para um almoço de aniversário ao restaurante “O Labrego”, na Feliteira, perto de Dois Portos (na zona de Torres Vedras). Este restaurante ainda há-de merecer uma apreciação mais detalhada aqui nas Krónikas Viníkolas depois duma visita que se espera para breve, mas por agora o que interessa referir é que ao escolher o vinho foi-nos apresentado pelo responsável um tal Monte Judeu de 2002, da Adega Cooperativa de Dois Portos, da casta Aragonês.

Comecei por torcer o nariz porque os vinhos que conhecia da zona de Torres Vedras eram dos piores que já tinha bebido, mas como nos foi dito que o referido vinho tinha sido premiado resolvemos arriscar. O almoço era cabrito no forno com arroz de miúdos (divinal, por sinal) e pedia um vinho bem encorpado e com alguma robustez, e a casta Aragonês parecia ser uma garantia de qualidade que poderia também fornecer essas características.

O resultado foi mais uma surpresa pela positiva. Apareceu-nos um vinho cheio de pujança, com bastante corpo a envolver o conjunto e com os taninos bem vivos a marcar uma adstringência final, associados a um certo carácter apimentado típico da casta. Sem dúvida, um vinho ainda por domar, pois tinha apenas um ano de existência, a precisar de algum tempo de garrafa.

Perante tão surpreendente revelação, no final adquirimos duas garrafas para levar para casa, cabendo-me ficar com uma que agora abri. Passaram três anos e agora o vinho apresentou-se muito mais macio, os taninos já quase não se notam, bebe-se com muito mais facilidade. Curiosamente, no entanto... fiquei com saudades do que tinha bebido há 3 anos. Aquela agressividade que tinha enquanto novo e que entretanto perdeu parecia, afinal, ser a própria alma do vinho. Acho que esperei tempo demais para ver como ele evoluiu. Tornou-se um vinho diferente que ganhou em suavidade o que perdeu em juventude e pujança. Como entretanto adquiri um exemplar de 2003, vou tratar de bebê-lo rapidamente para ver se ainda o apanho em plena força.

A conclusão que tiro desta experiência é que vale a pena bebê-lo novo para lhe apreciar toda a vivacidade que o afasta da vulgaridade.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Monte Judeu, Aragonês 2002 (T)
Região: Estremadura (Torres Vedras)
Produtor: Adega Cooperativa de Dois Portos
Grau alcoólico: 13%
Casta: Aragonês
Preço: cerca de 9 €
Nota (0 a 10): 7,5

sábado, 24 de fevereiro de 2007

Prémios da Revista de Vinhos - A ausência

Pois é, nós não estivemos presentes porque rumámos a outras paragens bem mais a sul, mas o Vinho da Casa, o Copo de 3, o Pingas no Copo, o Que tal o vinho?, o Saca-a-Rolha, o Vinho a Copo e Os Vinhos estiveram e, pelo que já lemos, estiveram muito bem. Parece que na já célebre mesa 81 jogou-se forte e a parada foi realmente alta.

Um grande TCHIM TCHIM para vocês, rapazes! Agora só nos resta esperar pelo próximo encontro e prometer estar presentes com uma boa representação. À vossa.

tuguinho e Kroniketas, enófilos a seco

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

No meu copo 91 - Porto Quinta do Infantado LBV 2001

Pois que do jantar dos "bandalhos" (e não "cambada", como equivocamente o Kroniketas referiu) parece que me calhou dissertar sobre o vinho dos finalmentes (ou dos quase-finalmentes, porque alguns acabaram mesmo foi com uma aguardente do INIA) - um LBV do ano de 2001, da Quinta do Infantado.

Já me foi dado provar uns quantos LBV, uns filtrados, outros não, e de diversos estilos. Cumpre-me assim confessar várias coisas: acho que os filtrados ficam pífios, quando comparados com os que não sofreram essa operação; gosto mais dos que assumidamente são mais "frutados".

Posto isto, direi que este Quinta do Infantado não me encheu as medidas. É certo que se bebe sem problema, mas pareceu-me demasiado seco e delgado para os meus gostos em termos de LBV, apesar de não ser filtrado. Já bebi bem melhor da Ramos Pinto ou da Dow's, para só mencionar alguns.

Em conclusão, pelo preço que este custou há coisas melhores. Mas nisto como noutras coisas, é uma questão de gosto, e os gostos não se discutem. Lamentam-se!

tuguinho, enófilo esforçado

Vinho: Porto Quinta do Infantado LBV 2001
Região: Douro/Porto
Produtor: Quinta do Infantado
Grau alcoólico: 19,5%
Castas: Touriga Nacional, Touriga Francesa, Tinta Roriz, Tinto Cão
Preço em feira de vinhos: 12,89 €
Nota (0 a 10): 6,5

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

No meu copo 90 - Pinheiro da Cruz 1997, 1999, 2003



O primeiro contacto que tive com este vinho foi na já longínqua colheita de 1991, então através duma amiga que tinha contactos com alguém que adquiriu a garrafa directamente na produção. Tinha um carimbo no rótulo com o ano de colheita e a indicação original no brasão de que provinha da prisão de Pinheiro da Cruz, ali para os lados de Grândola e Melides.

Era um vinho surpreendente, com um perfil um pouco rústico, cheio de corpo e robustez, daqueles vinhos que se “mastigam” e nunca mais acabam. Rapidamente se revelou apropriado para se bater com pratos bem fortes e condimentados, e ao longo dos anos tive oportunidade de o comprar e beber algumas vezes em restaurantes. Uma das melhores combinações que encontrei foi com um arroz de lebre muito condimentado, malandrinho e com um molho muito espesso que comia no Barrote Atiçado, na Pontinha, às portas de Lisboa (que entretanto mudou de nome para António do Barrote e de local para o Parque Colombo, em Carnide). “Aquele” Pinheiro da Cruz era perfeito para a pujança daquele prato.

Nessa altura era quase uma raridade e difícil de comprar fora da própria prisão, embora o Pingo Doce tivesse desde logo lançado a colheita de 1992 numa das suas feiras de vinhos. Também por isso era caro quando aparecia. O exemplar de 1997 que aqui vos apresentamos foi um de 3 exemplares adquiridos por 2775$ (13,84 €) na feira de vinhos do Continente de 1999. Em 2005, no Corte Inglês, uma garrafa de 2002 custou 12,95 €.

Com a instauração de uma série de novas regiões vitivinícolas de norte a sul, nomeadamente a criação das DOC Alentejo, Ribatejo e Estremadura e ainda os vinhos regionais, o Pinheiro da Cruz, que entretanto alargara a produção, deixou de ser vinho de mesa como era originalmente e pretendeu também ser classificado com uma denominação de origem. Tinha todas as características de vinho alentejano, mas surpreendentemente começou a aparecer como Vinho Regional Terras do Sado a partir da colheita de 98. O rótulo estilizou-se, passou a haver informação no contra-rótulo e a indicação das castas utilizadas. E, para satisfazer as exigências da denominação de origem (certamente a burocracia impediu que fosse classificado como vinho alentejano), descaracterizou-se. A primeira colheita com o novo rótulo mostrou um vinho muito mais aberto e frutado que os anteriores, deixando de ser aquele vinho poderoso que fora até aí. Em suma, acabou por vulgarizar-se.

Deve ter sido também devido a isso que foi possível aumentar significativamente a produção e encontrá-lo agora à venda a uns módicos 6,44 € na feira de vinhos da Makro. É mais acessível, mas eu preferia o perfil antigo e mais caro.

Nos últimos meses fui à garrafeira buscar os exemplares que lá tinha, de 1997, 1999 e 2003. O primeiro e o último foram bebidos no recente jantar de javali com a “cambada”. O de 1997 foi decantado com todos os cuidados para evitar a passagem de borras para os copos e para lhe dar tempo de respirar. Revelou-se ainda em excelente forma, a fazer lembrar os mais antigos, embora com esta idade tivesse já perdido a pujança inicial, mas ainda se bateu excelentemente com o javali. Já o de 2003, mais frutado e leve e sem aquela robustez anterior, ainda assim aguentou-se no balanço. Quanto à colheita de 1999, bebida há algum tempo a acompanhar uma lebre, já não tinha a frescura inicial mas aproximava-se mais das características da de 1997 e também se bateu bem com a caça.

Curioso é ver a informação do contra-rótulo, de que apresentamos aqui o de 2003 (clique na imagem para ampliar). O de 1999 era composto pelas castas Castelão, Trincadeira, Alicante Bouschet e Aragonês, mas ao de 2003 foram ainda acrescentados o Syrah e o Cabernet Sauvignon, ou seja, estamos perante as castas da moda para fazer um vinho que acompanhe a moda. Mais curioso ainda é observar a evolução do grau alcoólico de colheita para colheita: de 12,5% em 1997 para 13% em 1999 e 14% em 2003, a seguir a tendência da moda.

De realçar que deste último contra-rótulo desapareceu a frase assassina “A sua alma nasce do sentimento que os reclusos põem neste trabalho que os liberta”.  “O trabalho liberta” era a frase que esperava os presos à entrada do campo da morte de Auschwitz. Há ideias que nunca se deviam ter.

Enfim, o Pinheiro da Cruz já não é aquele vinho que nos surpreende no primeiro impacto, mas ainda assim continuamos a achar que vale a pena tê-lo na garrafeira. Até porque agora se tornou bem mais acessível.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Produtor: Estabelecimento Prisional de Pinheiro da Cruz

Vinho: Pinheiro da Cruz 1997 (T)
Região: Vinho de mesa
Grau alcoólico: 12,5%
Preço em feira de vinhos: 2775$
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Pinheiro da Cruz 1999 (T)
Região: Terras do Sado (Melides - Grândola)
Castas: Castelão, Trincadeira, Alicante Bouschet, Aragonês
Grau alcoólico: 13%
Preço: cerca de 12 €
Nota (0 a 10): 7

Vinho: Pinheiro da Cruz 2003 (T)
Região: Terras do Sado (Melides - Grândola)
Grau alcoólico: 14%
Castas: Castelão, Trincadeira, Alicante Bouschet, Aragonês, Syrah, Cabernet Sauvignon
Preço em feira de vinhos: 6,44 €
Nota (0 a 10): 7

sábado, 17 de fevereiro de 2007

No meu copo 89 - Adega de Pegões, Colheita Seleccionada 2001; Quatro Regiões 1997

Uma peça de javali, generosamente oferecida pelo caçador de serviço, foi pretexto para uma reunião do plenário do Grupo Gastrónomo-Etilista “Os Comensais Dionisíacos”, 13 meses depois dum repasto épico copiosamente regado para acompanhar lebres e perdizes.

Como fiel depositário dos restos mortais do “senhor porco”, como diria o Pumba, mais uma vez abri as portas (e a mesa) para receber a cambada. O suíno foi cozinhado na panela com banha e azeite depois de marinar em sal, alho, cebola, limão, laranja, cravinho e vinho tinto. Deixou um abundante molho e uma carne suculenta e muito saborosa.

Pesquisando a garrafeira, resolvi fugir ao hábito dos vinhos alentejanos e lá fui buscar para a segunda fase da operação “O desbaste da garrafeira” uns exemplares de Terras do Sado, que ficaram de pé um dia antes, para assentar eventuais borras que os vinhos apresentassem. Ainda chegaram alguns reforços, como o Herdade da Figueirinha de que já falámos no post abaixo e abriu as hostilidades ainda antes de passarmos à mesa, mas perante a diversidade da escolha os outros ficaram de reserva para a próxima. Na hora de atacar o animal no prato foram previamente decantadas as duas primeiras garrafas escolhidas.

Começámos por um dos últimos exemplares que nos restam do Quatro Regiões 97, que foi alvo de várias provas ao longo do último ano. Quando comprámos este vinho, em várias levas entre Outubro de 2003 e Outubro de 2004, ficámos esmagados pela sua pujança, pela exuberância de aromas e sabores, pelo longo fim de boca. Passaram estes anos e o vinho perdeu a pujança e a frescura, mas esta garrafa revelou-se em muito melhor forma que as duas primeiras provadas em 2006, sem os sintomas de declínio e falta de acidez detectados anteriormente, o que mais uma vez confirmou que os vinhos guardados são sempre uma incógnita quando vamos bebê-los: tanto podemos ter uma boa surpresa como uma decepção. Neste caso ficámos pelo meio-termo.

Em seguida passámos a duas garrafas do sui generis Pinheiro da Cruz, que vão merecer um post autónomo, porque acerca deste vinho muito há para dizer.

Já com o javali a desaparecer dos pratos e da panela, ainda fomos buscar mais uma garrafa para compor o painel de Terras do Sado: um Adega de Pegões tinto, Colheita Seleccionada de 2001. Uma estreia absoluta por estes lados (no branco já somos repetentes) que, perante a surpresa geral, foi unanimemente considerado o melhor vinho da noite. De cor granada, corpo robusto que nunca mais acaba, daquele que quase se mastiga, algum frutado misturado com um toque a especiarias, final de boca longo, alguma adstringência na prova com os taninos bem presentes mas sem se tornarem excessivos, quase apetecia que este não acabasse! Sem dúvida um vinho adequado para pratos fortes de carne e principalmente caça, como este. A Cooperativa de Pegões a impor-se no panorama vitivinícola nacional com vinhos de qualidade e a baixo preço. A repetir.

Terminámos com um Porto LBV da Quinta do Infantado, que também vai ser alvo de post autónomo, a acompanhar um excelente pudim Molotof e o reincidente bolo rançoso. E assim resta esperar pela próxima fase da operação “O desbaste da garrafeira”.

Kroniketas, enófilo anfitrião

Vinho: Adega de Pegões, Colheita Seleccionada 2001 (T)
Região: Terras do Sado
Produtor: Cooperativa Agrícola Santo Isidro de Pegões
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Cabernet Sauvignon, Touriga Nacional, Trincadeira
Preço em feira de vinhos: 6,25 €
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Quatro Regiões 1997 (T)

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

No meu copo 88 - Herdade da Figueirinha 2004

No meio da profusão de marcas de vinho alentejano que invadem as prateleiras dos supermercados, fomos encontrar este com o selo de “Melhor compra de 2006” da Revista de Vinhos.

Melhor compra porquê, perguntam vocês? Talvez pelo preço, pouco mais de 3 euros. Mas no conjunto não pareceu acrescentar grande coisa às centenas de marcas já existentes. Não tendo excesso de álcool (parece estar outra vez a tornar-se cada vez mais frequente o reaparecimento de vinhos com teor de álcool “normal”), mesmo assim pareceu não ter corpo nem acidez para aguentar os 13,5º, fazendo uma prova de boca algo desequilibrada, onde o álcool se sente em demasia. Ao contrário do que é dito no contra-rótulo...

Seguindo também a tendência da moda, utiliza a casta Alicante Bouschet, cada vez mais implantada nos vinhos alentejanos, além de Cabernet Sauvignon, Aragonês e Trincadeira. A matéria-prima é promissora mas... parece ficar aquém de mais qualquer coisa. Algo delgado e a tender para o vulgar.

Kroniketas, enófilo esclarecido


Vinho: Herdade da Figueirinha 2004 (T)
Região: Alentejo (Beja)
Produtor: Sociedade Agrícola do Monte Novo e Figueirinha
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Trincadeira, Aragonês, Alicante Bouschet, Cabernet Sauvignon
Preço: cerca de 3,30 €
Nota (0 a 10): 5,5

sábado, 10 de fevereiro de 2007

No meu copo 87 - Porto Niepoort Vintage 2003

Já aqui o referi anteriormente, não sou muito versado em termos de Vinho do Porto. Tenho bebido poucos ao longo da minha experiência enófila e quase nunca por minha iniciativa ou escolha, e na maioria Tawny’s que não me provocaram grandes sensações. Só recentemente comecei a dar mais atenção ao produto e resolvi comprar duas ou três garrafas de LBV, 10 anos e colheita. Isto leva tempo até se aprender.

Recentemente em casa de um amigo, ele resolveu começar o almoço com um Porto Vintage a acompanhar... as entradas. Disse que lhe apetecia um Porto como aperitivo e, se assim o pensou, melhor o fez. Na mesa, a par das fatias de salmão, tostas e patés, apareceu um Vintage de 2003 da Niepoort. E que posso dizer deste Vintage? Que estava óptimo, com toda a elegância que se espera dum vinho destes, e simultaneamente com alguma robustez na prova.

Claro que o problema foi passar depois para o vinho de mesa, pois este abafou um bocado o paladar. Foi preciso beber alguma água para começar de novo. Mas valeu a pena a experiência.

Kroniketas, enófilo ainda em aprendizagem sobre vinho do Porto

Vinho: Porto Niepoort Vintage 2003
Região: Douro/Porto
Produtor: Niepoort Vinhos
Grau alcoólico: 20%
Preço: desconhecido
Nota (0 a 10): 9

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

No meu copo, na minha mesa 86 - Três Bagos, Sauvignon Blanc 2003; Herdade dos Grous tinto 2004; Restaurante O Orelhas (Queijas)



Foi com alguma expectativa que me desloquei a este restaurante às portas de Lisboa, na localidade de Queijas, entre Carnaxide e o Estádio Nacional. Havia muitas e boas referências ao mesmo, quer em termos da comida quer da garrafeira, e até da dificuldade de conseguir uma vaga, pois só com marcação se consegue lá ir. E às vezes, quando as expectativas são muito altas, acabam por sair defraudadas.

Não digo que a minha visita ao Orelhas tenha sido decepcionante, mas ficou um pouco aquém do esperado. Desde logo, um aspecto desagradável é a má renovação do ar, pois os cheiros da cozinha, que fica à vista da sala, vão-se acumulando tornando-se um pouco sufocantes e entranhando-se na roupa. Quando se sai de lá, todos nós cheiramos a fumo de fritos ou grelhados.

Em termos de atenção, dificilmente seria melhor. Os empregados estão sempre em cima do acontecimento e respondem aos pedidos com rapidez. Nessa atenção está incluída a sugestão dos pratos e dos vinhos a escolher. E aqui é que as coisas se passam de modo diferente do habitual. Não há uma ementa para escolher: somos questionados se queremos carne ou peixe e em função da preferência são dadas 2 ou 3 opções, que no caso da carne era só uma, costeletas de cabrito fritas em azeite e alho, em que recaiu a minha preferência. No caso do peixe, a escolha (largamente maioritária, aliás), foi robalo grelhado.

No meu caso as costeletas de cabrito cumpriram satisfatoriamente a função mas esperava mais, dada a qualidade da matéria-prima. Do robalo não posso falar porque não o provei, mas sei que as 11 pessoas que o comeram pagaram cerca de 255 € pelo peixe!

No caso dos vinhos, outra grande fama da casa, é de ficar sem respiração: a vasta carta, bem recheada com vinhos de qualidade de todas as regiões, é completamente proibitiva em termos de preços. A esmagadora maioria dos vinhos estão listados a mais de 100 € a garrafa, sendo que não mais de 5, no total, custavam menos de 20 €. Seguramente mais de 90% das opções custam mais de 50 €. Um despautério!

Assim sendo, as escolhas para quem não quer pagar por uma garrafa de vinho mais que o preço de todo o jantar, tem pouco por onde escolher. A nossa escolha seria um Duas Quintas branco, a 14 €, e um Monte da Peceguina tinto, a 15 €, mas o empregado que nos atendeu orientou-nos noutro sentido, e trouxe um branco Três Bagos Sauvignon Blanc 2003 e um tinto Herdade dos Grous 2004.

O Três Bagos não agradou a ninguém. Um sabor enjoativo, demasiado amanteigado, e pouco aroma. Uma surpresa pela negativa. Tendo em conta experiências anteriores com esta casta, e à semelhança da Chardonnay, começo a desconfiar que estas castas brancas francesas não têm grandes condições para dar bons vinhos em Portugal, ao contrário das tintas, talvez devido ao clima, ou então à forma como são vinificadas. Provavelmente precisam de climas mais frios para darem vinhos com maior frescura e suavidade, ao passo que as tintas beneficiam de maior calor para dar vinhos mais macios. Recordo que ainda o ano passado bebi dois excelentes vinhos franceses destas castas, e não deve ser por acaso que não gostei das versões portuguesas.

Quanto ao tinto Herdade dos Grous, um dos recentes vinhos alentejanos, de Albernoa, entre Beja e Castro Verde, portou-se bem. De cor carregada, aroma frutado, encorpado e macio na boca. Feito a partir das castas Aragonês, Alicante Bouschet, Syrah e Touriga Nacional, apresenta uma acidez bem equilibrada com a madeira e com o álcool, que foge à tendência actual do exagero, ficando-se por uns razoáveis 13,5º, que não abafam os aromas e paladares do vinho. Não me parecendo excepcional, mostrou-se elegante e equilibrado, tendo todas as condições para agradar. É um vinho de perfil moderno, fácil de beber já, que certamente vai merecer novas oportunidades de prova.

Globalmente, a refeição foi agradável mas as diversas condicionantes apontadas fizeram com que as expectativas saíssem algo defraudadas. As escolhas são demasiado limitadas e os preços, definitivamente, não são nada meigos. Por um preço semelhante comemos bem mais e melhor na Travessa do Rio.

Kroniketas, enófilo esforçado

Vinho: Três Bagos, Sauvignon Blanc 2003 (B)
Região: Douro
Produtor: Lavradores de Feitoria
Grau alcoólico: 13,5%
Casta: Sauvignon Blanc
Preço no restaurante: 14 €
Nota (0 a 10): 4

Vinho: Herdade dos Grous 2004 (T)
Região: Alentejo (Albernoa)
Produtor: Herdade dos Grous
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Alicante Bouschet, Aragonês, Touriga Nacional, Syrah
Preço em feira de vinhos: 8,40 €
Nota (0 a 10): 7

Restaurante: O Orelhas
Rua Cesário Verde, 80 - Loja F
2795 Queijas
Tel: 21.416.45.97
Preço médio por refeição: 35 €
Nota (0 a 5): 3,5

sábado, 3 de fevereiro de 2007

No meu copo 85 - Palmela Pingo Doce, Colheita Seleccionada tinto 2000

Ainda há surpresas agradáveis! À última hora e defrontado com uma bela feijoada de feijoca branca com paio, bom chouriço e farinheira, fui à garrafeira escolher rapidamente um vinho para a acompanhar. Deparei-me com um Palmela DOC - Colheita Seleccionada do Pingo Doce, colheita de 2000, há já alguns anos residente na dita garrafeira.

Numa primeira prova o que se salientou foi o tradicional caramelo da casta Castelão, de que este vinho é produto estreme, que já no aroma se sentira também. Com a permanência no copo evoluiu para um sabor mais alcoólico, embora suave, que o bom corpo ajudou a suportar. De cor vermelha escura, respirava saúde.

Foi uma surpresa porque se revelou em excelente forma para a idade que tinha e o preço que custou! É pena já não haver, visto que transformaram quem em Portugal tinha iniciado as feiras de vinhos numa loja cada vez mais "discount"... Enfim, pode sempre ir-se à origem, visto que este vinho foi engarrafado para o Pingo Doce pela Casa Ermelinda Freitas.

Em suma, um bom Castelão, que nos ajuda a perceber como na região Palmela DOC podem surgir (e surgem!) vinhos excepcionais.

tuguinho, enófilo esforçado

Vinho: Palmela Pingo Doce, Colheita Seleccionada 2000 (T)
Região: Terras do Sado (Palmela)
Produtor: Casa Ermelinda Freitas
Grau alcoólico: 13,5%
Casta: Castelão
Preço em feira de vinhos (2004): 3,65 €
Nota (0 a 10): 7,5