terça-feira, 22 de agosto de 2006

No meu copo, na minha mesa 58 - Pasqua, Trebbiano e Sangiovese; Pizzeria Le Delizie (Ferragudo)


Uma das deambulações de férias trouxe-me a um local onde tinha estado há 2 anos, mas do qual não tinha guardado referências. Agora voltámos ao “local do crime” para recuperar impressões.

Trata-se dum restaurante italiano denominado “Le Delizie”, situado em Ferragudo, do outro lado do rio Arade. Para quem sai de Portimão pela ponte velha, junto ao cais, vira-se à direita no cruzamento para Ferragudo, estaciona-se (se se conseguir) na praça central da povoação, entra-se pelo largo e segue-se por uma ruela à direita. Uns 30 ou 40 metros à frente encontramos o dito restaurante.

O espaço não é muito amplo mas é acolhedor. Na época de verão convém marcar mesa senão é difícil arranjar lugar.

Embora o nome do restaurante indique “Pizzeria”, este é muito mais que uma simples pizzaria (aliás, se assim não fosse eu nem perdia tempo a ir lá, porque pizza é coisa que não me passa pelo estreito e acho o maior desperdício estar a perder tempo e dinheiro num restaurante para comer coisa tão desinteressante...). A oferta é variada em termos de massas e pastas, e é por aí que se deve seguir.

No grupo presente (4 adultos e 3 crianças) escolheu-se o “4 Crostino misto” para entrada. Eram umas tostas do tipo pão-de-alho com várias guarnições por cima. Provei 3 e só uma não consegui engolir, parece que era de anchovas. As outras eram óptimas.

Nos pratos, para além duma inevitável pizza-não-sei-de-quê (de que aliás sobraram 5 das 6 fatias...), escolhemos o “Ravioli al funghi porcini”, uma “Gratinata no forno com molho bolonhesa”, uma “Carbonara” e uma “Paglia e Fieno”. Como se vê, bem diferentes das tradicionais pizzas, lasagnas e esparguete à bolonhesa.

A “Gratinata no forno” é um prato de massa gratinada com molho bolonhesa que calha sempre bem (3ª foto). O “Ravioli al funghi porcini”, com cogumelos, também estava saboroso. A Carbonara (esparguete, natas e bacon) não tem muito de novo mas come-se bem. Mas a surpresa da noite, escolhida já à última, foi a “Paglia e Fieno” (4ª foto), com os espinafres a fazerem a diferença no panorama geral e desenjoando das natas e dos molhos.

Para finalizar apenas se pediu um magnífico crepe com gelado de chocolate e chantilly, que nunca deixa ninguém ficar mal (5ª foto)!

Para os líquidos, os adultos escolheram os dois vinhos italianos da casa, um branco e um tinto, ambos da Sicília. O branco, de nome Pasqua Trebbiano, de 2005, estava na linha de muitos brancos que temos por cá, um pouco vulgar. Algum aroma floral mas pouco elegante na prova de boca. Poderá safar-se se estiver bem fresco, mas não é vinho para encantar.

O tinto, Pasqua Sangiovese, também está na linha dos tintos italianos vulgares, com aquele aspecto meio aguado que os caracteriza, muito longe do corpo e da estrutura pujante dos tintos portugueses. É mesmo um vinho adequado para comida italiana, embora um Mateus Rosé não ficasse pior.

Em suma, nenhum deles era nada de especial, mas pelo preço que custaram (8 €) não se podia esperar mais. Há outras escolhas na carta de vinhos, como Chianti, o Lambrusco ou o Valpolicella, com preços na ordem dos 15, 20 e até 30 €, que talvez experimentemos noutra visita. Porque este é, sem dúvida, um local a revisitar. Para uma boa refeição à italiana vale a pena ir a Ferragudo. Foi a segunda vez que estive no local e pretendo voltar. O atendimento é simpático e o ambiente descontraído. Ou seja, sentimo-nos bem e comemos bem. É o que se deseja.

Uma referência a anotar no panorama medíocre dos restaurantes para turistas no Verão.

Kroniketas, enófilo veraneante

Vinho: Pasqua, Trebbiano 2005 (B)
Região: Sicília (Itália)
Casta: Trebbiano
Nota (0 a 10): 5,5

Vinho: Pasqua, Sangiovese 2005 (T)
Região: Sicília (Itália)
Casta: Sangiovese
Nota (0 a 10): 6

Restaurante: Pizzeria Le Delizie (italiano)
Rua Vasco da Gama, 25
8400 Ferragudo
Tel: 282.461.868
Preço médio por refeição: 12,5-15 €
Nota (0 a 5): 4,5

sexta-feira, 18 de agosto de 2006

Na minha mesa 57 - Área Benta (Trancoso)



É longe. Se formos daqui do sul não iremos lá de propósito, certamente, mas se por lá andarmos a cirandar vale a pena adentrar a sua porta.

O interior já não é o que era. Ainda bem. Apesar de algumas coisas boas se terem perdido, o que se ganhou em qualidade de vida supera as desvantagens. Houvesse por esses lados mais possibilidades de emprego e mais variadas e a população não se acotovelaria certamente no litoral.

Um dos sítios que tem evoluído bastante é Trancoso, não só administrativamente (passou de vila a cidade) como também ao nível do tecido da localidade. Em contraponto às vetustas pensões de outrora (algumas ainda por lá continuam), conta agora com um moderno hotel de 4 estrelas, o que permite pensar noutros voos ao nível do turismo.

Trancoso, apesar da evolução que tem sofrido, mantém o casco histórico quase intocado, protegido por um castelo cuja muralha externa está praticamente intacta, encerrando a parte histórica da cidade dentro das suas paredes. Apesar de ser cidade, Trancoso faz parte do roteiro das aldeias históricas. E faz muito bem, direi eu, apesar da aparente contradição.

Mas, quando falei em porta, não me referia às da cidade, mas sim às de um restaurante, causa desta crónica. Inaugurado há cerca de 5 anos, o Área Benta fica bem dentro da área histórica, escondido numa rua estreita no sopé da encosta do castelo. Para lá chegar o mais simples será entrar pela famosa Porta Del Rei e cruzar em toda a sua extensão a rua da Corredoura que se lhe segue. Desembocados no grande largo interior veremos o pelourinho à direita. Deixando o monumento à nossa direita embocaremos por uma curta rua entalada entre o antigo edifício do Grémio da Lavoura, de fachada recuada por trás de arcos e hoje residência para estudantes, e a igreja de São Pedro, onde jazem os restos do profeta e sapateiro Bandarra, filho dos mais conhecidos da terra.

Virando à esquerda depararemos quase imediatamente com a placa do restaurante, alojado num bem antigo edifício em granito, completamente remodelado no interior.

Mas vamos ao que interessa. Dispensando o bar que fica no piso térreo, subindo as escadas encontrar-nos-emos na sala de refeições, dividida em duas "metades" desiguais pelas referidas escadas. A decoração é eficaz e simples, os talheres não dobram e os guardanapos são de pano. O tecto falso em madeira também nos concede um ar condicionado silencioso e funcional, porque no Verão estas paragens são bem quentes.

As entradas costumam incluir os enchidos tradicionais da região – morcela da Guarda, farinheira, chouriça -, bem como algumas saladinhas (polvo, orelha de porco) e afins (moelas guisadas, mexilhões), que habitualmente não desmerecem.

Para pratos principais escolheram-se o bacalhau à Avó Lurdinhas – filete do gadídeo sem espinhas, enterrado numa mistura espessa em que a cebola quase picada domina e acolitado por batata cozida – e a posta de vitela à Área Benta, frita no ponto e coberta por uma fatia de queijo da Serra derretido, acompanhada por batata cortada em pedaços pequenos (como para a salada russa), primeiro cozida e depois levemente salteada com salsa. Não provei o bacalhau, mas quem o deglutiu não torceu o nariz. Pela vitela posso eu ser o defensor, porque estava óptima, e as tais batatinhas a ela se ligaram bem, fazendo esquecer o duo habitual da batata frita e do arroz branco.

Para beber escolheu-se algo que não nos deixaria ficar mal: um João Portugal Ramos – Trincadeira, de 2003, que obviamente se portou à altura e saiu quase todo connosco do restaurante.

Para fim de refeição, além do melão da região experimentou-se o tradicional requeijão com doce de abóbora. O doce estava bom, mas esta não é a melhor altura para comer requeijão.

Ainda se cobriu o estômago com o bendito café e uma aguardente C.R.F., porque não se ia conduzir a seguir.

Este é um restaurante que, ao longo da sua vida de meia década, já visitei umas quantas vezes. Teve uma fase mais fraca há cerca de 3 anos, mas pelo que me foi dado ver (mais comer, mas enfim) recuperou bem. O serviço é simpático, com os donos incluídos também no serviço de mesa, e não se espera demasiado.

É bom ter sítios destes na dita província, que não desmereceriam se se situassem em Lisboa ou no Porto. É assim que também se desenvolve o país.

tuguinho, enófilo esforçado

Restaurante: Área Benta
Rua dos Cavaleiros, 30A
6420-040 Trancoso
Telef: 271.817.180
Preço médio por refeição: 25 €
Nota (0 a 5): 4

quarta-feira, 9 de agosto de 2006

No meu copo, na minha mesa 56 - Convento da Tomina 2005; Restaurante Lusitano (Praia da Rocha)



Já aqui falámos há alguns meses dum restaurante na Praia da Rocha (Portimão) a propósito do réveillon 2005-2006. Agora com a chegada do Verão, como frequentador indefectível do local, as oportunidades de passar por outros restaurantes da zona são imensas.

Recentemente tive oportunidade de conhecer outro restaurante no mesmo edifício do anterior. Chama-se este Lusitano, abriu há alguns meses e por enquanto não tem grande frequência. Mas o aspecto, visto de fora, é bom e convida a uma visita.

À porta está um mapa de Portugal, onde são anunciados pratos regionais que cobrem praticamente todo o país, desde a posta mirandesa à carne de porco com amêijoas, passando pela açorda de marisco e pelos grelhados de porco preto, chegando até à espetada madeirense. Talvez demasiado ambicioso, mas nada como experimentar. Por enquanto deparamo-nos com uma sala praticamente vazia, que só se compõe um pouco para lá das 21 horas, mas mesmo assim ainda fica menos de meia.

Entre os comensais presentes escolheram-se os rojões à minhota, duas espetadas madeirenses e, no meu caso, um bife à Marrare, obviamente mal passado.

O bife estava excelente de tempero, o molho espesso e no ponto certo de fritura, ainda meio ensanguentado. Veio acompanhado com batatas fritas e grelos cozidos, que ligaram na perfeição.

Quanto às espetadas, acompanhadas com uma maçaroca de milho, pecaram por estar, ao contrário do bife, demasiado passadas, para mais sendo carne de vaca. Os rojões, acompanhados com castanhas, pelo menos de aspecto, também estavam satisfatórios.

Para sobremesa, também abarcando todas as regiões, a preferência caiu numas encharcadas do Convento de Santa Clara e em dois D. Rodrigos. A encharcada estava apetitosa, polvilhada com canela, embora talvez demasiado sólida, pois é um doce que se come à colher e não deve necessitar de ser cortado.

O serviço primou pelo esmero e pela atenção. O encarregado do atendimento à mesa, ainda novo, não pareceu ser um novato nestas andanças, ou pelo menos amador. Pelo contrário, pela postura revelada pareceu ser alguém com formação na área e não um biscateiro para os meses de Verão. Sempre atento às necessidades e com a preocupação de saber se estava tudo em ordem ao longo da refeição, não hesitando em aconselhar nas escolhas, quer dos pratos quer dos vinhos. Foi precisamente seguindo uma sugestão sua que escolhemos o vinho, um Convento da Tomina 2005, regional alentejano, de Francisco Nunes Garcia (que apareceu no mercado com um vinho com o seu próprio nome a um preço exorbitante). Também neste aspecto o serviço mereceu boa nota, pois ao servir o vinho para prova, já vinha munido com uma manga de refrigeração, prevendo desde logo que a temperatura não seria a adequada. Que diferença para 95% dos restaurantes portugueses, que no Verão nos tentam impingir vinho quente dizendo que está bom porque é à temperatura ambiente!

Depois de arrefecido para a temperatura adequada, o Convento da Tomina pôde então ser apreciado nas melhores condições, a que não faltaram os copos de pé alto e boca larga (outra raridade). Nas primeiras impressões mostrou um aroma profundo e intenso, a que não serão alheios os 14,5% de álcool, uma cor rubi carregada, a que se seguiu uma prova de corpo cheio, com um toque ligeiramente frutado e alguma predominância de especiarias que prolongam o final de boca. Devidamente acompanhado por pratos com algum requinte mas também generosamente temperados, para aguentar o corpo e o álcool, é um vinho que pode fazer excelente figura numa grande refeição e que não é excessivamente caro para o que vale. Podemos colocá-lo sem dificuldade na gama média-alta, ao nível dos grandes vinhos que não custam fortunas.

Em resumo, o restaurante Lusitano merece ser novamente visitado, restando saber como se comportará o serviço no pico do Verão com a afluência maciça de veraneantes. Não me parece, contudo, que se dirija aos turistas estrangeiros, pois o menu virado para os produtos regionais será chamariz apenas para o cliente português que quer experimentar produtos diversos.

Kroniketas, enófilo veraneante

Vinho: Convento da Tomina 2005 (T)
Região: Alentejo (Moura)
Produtor: Francisco Nunes Garcia
Grau alcoólico: 14,5%
Preço em feira de vinhos: cerca de 6 €
Nota (0 a 10): 8

Restaurante: Lusitano
Avenida Tomás Cabreira - Edifício Casa da Praia
Praia da Rocha - Portimão
Telef: 282.412.177
Preço médio por refeição: 25 €
Nota (0 a 5): 4


PS - Actualização da informação: infelizmente o Lusitano não escapou à crise e encontrava-se fechado no Verão de 2011.