domingo, 31 de dezembro de 2006

Mais um virar de página...

As Krónikas Viníkolas desejam a todos os seus clientes, fornecedores e amigos umas boas entradas no ano (sai daqui, gralha!) de 2007, entradas essas onde mais vos aprouver e se sentirem felizes (entrada num apartamento, entrada numa discoteca, entrada por saída, entrada triunfante, entrada a medo, entrada pelas traseiras, entrada pífia, entrada em cena, entrada quente, entrada a toda a brida, entrada solene, entrada...).

tuguinho e Kroniketas, enófilos bacanos

quarta-feira, 27 de dezembro de 2006

No meu copo, na minha mesa, 77 - A.C. Borba, Aragonês e Alfrocheiro 2002; Restaurante Alqueva (Amadora)



Confessamos que foi uma segunda escolha. Na semana anterior ao Natal muitos restaurantes já estão esgotados todos os dias e o primeiro da nossa lista estava nessa situação. Acabámos por não ficar penalizados com esta escolha, pois o Alqueva revelou-se acolhedor, farto e saboroso.

Apesar de o restaurante se situar num prédio moderno da Amadora, a porta em madeira velha, obviamente transplantada para ali, deu o tom para a decoração interior, à base de utensílios de lavoura e de peças de artesanato típico do Alentejo. Mesas ataviadas com toalha e guardanapos de pano, espaçosas o suficiente, completavam este ambiente acolhedor.

Na mesa já se encontravam diversas entradas, dos enchidos fatiados ao queijo, dos torresminhos a uma espécie de rancho (grão, massa e enchidos guisados), deu e sobrou para nos entreter até chegarem os pratos principais.

Os três convivas (o núcleo duro dos “Comensais dionisíacos”, porque houve 2 desistências de última hora) escolheram: bochechas de porco preto com migas de espargos verdes, mista grelhada de porco preto com as mesmas migas e uma mista de caça com feijão branco.

As migas estavam irrepreensíveis, bem como a mista grelhada de porco preto, composta por três generosos pedaços de diferentes partes do reco. As bochechas, que também provei, têm um gosto demasiado acentuado para o meu paladar, mas também estavam bem confeccionadas.

Não provei a caça guisada com o feijão, mas o Kroniketas, principal deglutidor desse prato, não se mostrou desagradado com o dito cujo, pelo contrário.

As sobremesas eram mais do que suficientes e à base de doces conventuais. Escolheram-se uma encharcada, uma sopa dourada e um torrão da rainha. A encharcada cumpriu, a sopa dourada estava um pouco seca e o torrão da rainha surpreendeu: gila e ovos com uma cobertura de canela, mas sem ser demasiado doce ou enjoativa.

Além dos cafés, ainda se provou uma aguardente da Vidigueira, que se revelou suave e saborosa, boa para finalizar uma refeição.

Para ajudar a empurrar os sólidos bebeu-se primeiro um Alfrocheiro, vinho varietal da Adega Cooperativa de Borba, seguido de um Aragonês da mesma proveniência. O Alfrocheiro bateu o Aragonês em toda a linha, provando as grandes potencialidades desta casta (descrição mais detalhada nos próximos dias).

Concluindo, o Alqueva mostrou-se com merecimento para nos receber por lá outra vez, porque da comida ao ambiente tudo se conjugou para nos proporcionar um bom jantar pré-natalício.

tuguinho, enófilo esforçado

Região: Alentejo (Borba)
Produtor: Adega Cooperativa de Borba

Vinho: Alfrocheiro 2002 (T)
Grau alcoólico: 12,5%
Casta: Alfrocheiro
Preço no restaurante: 12,75 €
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Aragonês 2002 (T)
Grau alcoólico: 13%
Casta: Aragonês
Preço no restaurante: 12,75 €
Nota (0 a 10): 7

Restaurante: Alqueva
Rua Dom João I, 4B
2700-248 Amadora
Tel: 21.492.14.81
Preço médio por refeição: 30 €
Nota (0 a 5): 4

sábado, 23 de dezembro de 2006

No meu copo 76 - Má Partilha, Merlot 2000

Foi com alguma expectativa que abri esta garrafa. Foi adquirida com a Revista de Vinhos em 2005 com a indicação de guardar por algum tempo. Passado cerca de um ano e meio, dada a idade do vinho, considerei que era chegada a altura de bebê-lo.

Abriu-se a garrafa com alguma antecedência. Inicialmente os aromas apresentaram-se fechados, como seria de esperar, mas o arejamento não melhorou grande coisa. Mostrou-se pouco exuberante e medianamente encorpado, já com alguma evolução nos aromas e na cor. Na boca a fruta andou um pouco escondida e deixou um final um pouco curto.

Embora não desagradasse, não me pareceu ser um vinho de encantar. A casta Merlot origina vinhos suaves, sendo usada em França para equilibrar a maior adstringência da Cabernet Sauvignon. No entanto, este Má Partilha acabou por ficar aquém das expectativas. Esperava um vinho com maior frescura, maior vivacidade, o que me levou a não compreender a razão de ser comercializado já com esta idade, pois parece caminhar para algum declínio ou ter estabilizado num patamar donde já não sairá para melhor.

Sendo, além disso, comercializado normalmente a preços algo elevados (na casa dos 10 euros ou mais), era de esperar algo mais na linha da “potência, riqueza e complexidade dos seus aromas”, como diz o contra-rótulo. Mas não os encontrei lá. Enfim, fica para uma segunda oportunidade tentar descobrir os encantos escondidos que esta garrafa não me revelou.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Má Partilha, Merlot 2000 (T)
Região: Terras do Sado
Produtor: J. P. Vinhos (agora Bacalhôa Vinhos)
Grau alcoólico: 13%
Casta: Merlot
Preço com a Revista de Vinhos: 5,95 €
Nota (0 a 10): 7

quarta-feira, 20 de dezembro de 2006

Encontro de eno-blogs

O Pingas no copo lançou o desafio na sequência duma ideia aqui sugerida e de outras conversas do próprio. No blog foram sendo discutidos e desenvolvidos os pormenores, até que se chegou a um plano daquilo que vai acontecer.

Assim, considero chegada a hora de também divulgar o dito encontro, que terá lugar na York House, em Lisboa, a 12 de Janeiro de 2007. Os planos consistem em que os representantes de cada blog levem uma (ou mais, se assim quiserem) garrafa de vinho para uma prova que acontecerá antes do jantar e outra (ou mais) para acompanhar o repasto propriamente dito. A coisa promete porque há quem se disponha a levar várias garrafas. A parte mais interessante da discussão é a decisão de quem vai levar o quê.

Nós aqui estamos à espera de ver o que os outros levam para decidir o que levamos, porque temos possibilidades de escolha em qualquer região, e como não temos preferência por levar vinho de nenhuma região em particular, vamos tentar levar o que mais ninguém levar. A ementa já está definida pelo anfitrião, que pôs as suas instalações à disposição da comunidade, e é de fazer crescer água na boca:


  • Iscas de pato sobre folhado com molho de vinagre balsâmico


  • Lombinhos de linguado com molho de amêndoas e chantereles


  • Costeletas de borrego com molho de azeite de hortelã


  • Tarte Tatin com gelado de canela


  • Café


  • Tudo isto por 25 euros, o que é perfeitamente aceitável. Esperamos que a qualidade corresponda ao requinte do cardápio. Se mais alguém estiver interessado em associar-se a esta iniciativa, faça-o no blog Pingas no copo, onde o Pingus Vinicus está a tratar dos pormenores.

    Kroniketas, enófilo esclarecido

    PS: E esta quarta-feira há encontro do Grupo Gastrónomo-Etilista “Os comensais dionisíacos”. Depois contamos como foi.

    segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

    No meu copo 75 - Conde de Cantanhede Reserva 1995


    Aproveitando a embalagem, continuamos num registo bairradino para dar conta doutro reserva de 1995.

    Os vinhos Conde de Cantanhede são habitualmente suaves para o padrão tradicional da Bairrada, e este não foi excepção, apesar de constituído em 90% pela casta Baga. Já evoluído, apresenta uma cor aberta e brilhante, final prolongado e taninos ainda presentes mas que o tempo amaciou.

    Mostrou um aroma frutado menos marcado que o Messias e com o mesmo toque de especiarias, mas no geral o seu perfil era muito semelhante ao anterior.

    Também já ultrapassou o auge, mas nos vinhos da Bairrada isso não costuma ser um problema, pois são dos que apresentam maior longevidade sem entrarem em declínio acentuado e sem ficarem mortos, pois possuem uma acidez e taninos que os mantêm vivos muito tempo depois de terem envelhecido. Mas quando já não melhoram, também não vale a pena guardá-los mais tempo.

    Kroniketas, enófilo esclarecido

    Vinho: Conde de Cantanhede Reserva 1995 (T)
    Região: Bairrada
    Produtor: Adega Cooperativa de Cantanhede
    Grau alcoólico: 12%
    Casta: Baga (90%)
    Preço (comprado em 2000): 628$
    Nota (0 a 10): 7

    quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

    Prova à Quinta - O terceiro



    Bairrada Messias Garrafeira 1995


    Para o desafio aqui lançado há duas semanas, onde se pedia para encontrar tintos da Bairrada feitos com a casta Baga, fomos buscar um clássico: um Messias Garrafeira de 95, feito exclusivamente com a casta Baga.

    Dada a idade já avançada, o vinho mostrou sinais evidentes de evolução, já com uma cor granada desmaiada e aberta com leves nuances acastanhadas. Os aromas mostraram-se fechados no início, mas após decantação libertaram-se e desenvolveram-se alguns aromas secundários e terciários tão típicos dos grandes Bairradas, embora sem grande exuberância. Apesar da idade, o vinho não apresentou quaisquer sinais de mofo nem de estar “passado”.

    Na boca apresentou um corpo já delgado, com os taninos discretos mas ainda presentes e amaciados e um fim de boca longo sem ser agressivo. Algumas notas de especiarias e fruta discreta marcam um conjunto suave e equilibrado. É um vinho que já deverá ter passado o seu ponto óptimo, sendo que a partir de agora já não melhorará na garrafa, pois já perdeu a pujança dos taninos e grande parte do corpo. Beba-se, pois, antes que se perca.

    Kroniketas, enófilo esclarecido

    Vinho: Messias Garrafeira 1995 (T)
    Região: Bairrada
    Produtor: Sociedade Agrícola e Comercial dos Vinhos Messias
    Grau alcoólico: 12,5%
    Casta: Baga
    Preço: 6,99 €
    Nota (0 a 10): 7


    PS: Novo desafio lançado no Elixir de Baco

    terça-feira, 12 de dezembro de 2006

    No meu copo 74 - Lancers rosé


    Aproveitando algumas refeições com entradas ou comidas mais leves para provar vinhos também mais leves, voltamos agora a um rosé, o Lancers, este verdadeiramente leve, com pouco álcool (apenas 10%). Foi provado com patés, tostas e coisas do género.

    É um vinho com uma boa frescura, que se bebe com agrado e sem ter o peso do álcool excessivo que também se está a tornar moda noutros rosés. Tem um discreto aroma floral e um paladar frutado muito suave, ligeiramente adocicado, com o senão de um final de boca um pouco curto.

    Como entrada, aperitivo ou simplesmente para enganar o calor numa esplanada, está perfeitamente adequado. Beba-se bem fresquinho, de preferência no Verão.

    Kroniketas, enófilo esclarecido




    Vinho: Lancers - Vinho de mesa sem data de colheita (R)
    Região: Terras do Sado (sem denominação de origem)
    Produtor: José Maria da Fonseca
    Grau alcoólico: 10%
    Preço em feira de vinhos: 2,56 €
    Nota (0 a 10): 6,5

    segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

    Primeiro aniversário



    Assinala-se hoje um ano de provas nas Krónikas Viníkolas, em simultâneo com o 3º aniversário das Krónikas Tugas.

    Um brinde à nossa e à vossa saúde.

    tuguinho e Kroniketas, enófilos e tudo

    quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

    No meu copo 73 - Lambrusco Dell’Emilia - Torre Colle

    Na última feira de vinhos do Jumbo havia alguns vinhos estrangeiros a preços baratos e resolvi experimentar alguns para ver no que dava. Um dos escolhidos foi um Lambrusco, em que nem sequer reparei com atenção no rótulo. Só antes de abrir a garrafa e observando o contra-rótulo é que reparei que se tratava dum vinho frisante, sem data de colheita, aconselhado para acompanhar massas ou queijos e para beber fresco. E assim se fez.

    Saiu-me um vinho do tipo espumante tinto, mas com muito menos graduação (apenas 7,5º de álcool) e menos gás, ligeiramente adocicado e que acaba quase por se beber como refresco... a acompanhar massas. Trata-se de um vinho leve, não muito aromático, que serve para beber despreocupadamente e certamente mais aconselhado para os dias quentes de Verão.

    Não há muito mais a dizer, porque ele também não nos diz mais nada. Ficou a experiência e o pouco que custou.

    Kroniketas, enófilo esclarecido


    Vinho: Lambrusco Torre Colle (frisante) (T)
    Região: Emília Romagna (Itália)
    Produtor: Chiarli - Modena
    Grau alcoólico: 7,5%
    Preço em feira de vinhos: 1,57 €
    Nota (0 a 10): 5

    domingo, 3 de dezembro de 2006

    No meu copo 72 - Reguengos Garrafeira dos Sócios 1999

    Este vinho faz parte das nossas garrafeiras há muito tempo e é por nós considerado um dos melhores aqui do rectângulo. Não sendo barato, também não é demasiado dispendioso, e é um valor seguro. Falo, como é óbvio (é só ler o título do post), do Reguengos Garrafeira dos Sócios, a marca de topo da CARMIM - Cooperativa Agrícola de Reguengos de Monsaraz.

    Confesso que estava um pouco apreensivo antes de libertar o génio da garrafa, porque uma da mesma colheita bebida há cerca de um ano mostrara-se, se não em declínio, pelo menos já fora do auge. Mas os meus receios não tinham razão de ser – o vinho apresentava uma cor grenat profunda e limpa, sem laivos de declínio, e o aroma não possuía odores espúrios. A decantação prévia ajudara o vinho a abrir e, não tendo um aroma exuberante, mostrou na boca sabores secundários agradáveis, uma madeira discreta e um fim de boca que ainda exibia uma ligeira adstringência, como que a mostrar que ainda ali estava para a luta.

    Ainda me resta uma garrafa desta colheita de 1999. Vou bebê-la brevemente na esperança de que a evolução tenha sido idêntica. Aos leitores resta comprar a colheita agora à venda. Depois é beber já ou esperar um pouco. Não se vão arrepender.

    tuguinho, enófilo esforçado

    Vinho: Reguengos Garrafeira dos Sócios 1999 (T)
    Região: Alentejo (Reguengos)
    Produtor: CARMIM - Cooperativa Agrícola de Reguengos de Monsaraz
    Grau alcoólico: 13,5%
    Castas: Aragonês, Castelão, Trincadeira
    Preço em feira de vinhos: 7,79 €
    Nota (0 a 10): 8

    sexta-feira, 1 de dezembro de 2006

    Desafio Prova à Quinta - 3ª ronda



    Como ninguém se chegou à frente entretanto, nós avançamos. Propomos para a próxima prova um tinto da Bairrada com casta Baga. Pode ser exclusivamente de Baga ou misturada com outras, mas tem de ter Baga. Isto porque actualmente, depois da alteração da legislação, onde antes quase só se podia fazer vinho de Baga agora pode-se fazer praticamente de tudo, de tal forma que há vinhos sem Baga.

    Vamos, pois, à procura dos Bairrada clássicos, à moda antiga, em que a Baga era rainha. Esperamos as vossas respostas até ao dia 14. E esperamos também que não se distraiam como na 2ª ronda, com a prova proposta pelo Vinho da casa.

    tuguinho e Kroniketas, enófilos e tudo

    quinta-feira, 30 de novembro de 2006

    Prova à Quinta - O segundo



    Vinha da Nora 2002


    Nesta segunda Prova à Quinta, o desafio lançado pelo Vinho da Casa era o de provar um vinho português de 2002. Escolhi o Vinha da Nora, um vinho que já conhecia de nome, mas que nunca tinha provado a não ser no último Encontro com o vinho, no meio de muitos outros. Tal como dizia o anúncio do brandy Constantino há umas décadas, é fama que vem de longe. A primeira vez que ouvi falar neste vinho foi num programa da RTP, onde foi referido que era o vinho recomendado na carta dum dos mais prestigiados restaurantes de Paris.

    Agora proporcionou-se bebê-lo à refeição, a acompanhar uma excelente empada de coelho no forno, e veio a calhar para esta prova por ser de 2002. Foi aberto com antecedência, mas teria valido a pena ser decantado para mostrar todo o seu potencial, pois foi melhorando ao longo da refeição. Os copos usados, infelizmente, não foram os melhores para o efeito, pois eram mais largos na boca, o que poderá ter prejudicado a prova, principalmente em termos aromáticos, mas mesmo assim não deixámos de apreciar este vinho.

    Produzido exclusivamente com a casta Syrah, tem uma bela cor rubi aberta, é medianamente encorpado, mostrando um carácter frutado, com os taninos suaves e a madeira discreta, sem se sobrepor aos aromas. Inicialmente mostrou-se mais fechado mas depois foi libertando os aromas secundários e marcando um final de boca cada vez mais persistente, que com muita pena minha atingiu o auge quando a garrafa estava a acabar...

    No seu conjunto, é um vinho de grande elegância, com um perfil bastante apelativo, sem excesso de álcool a impor-se e permitindo assim desfrutar dos seus sabores e aromas na plenitude, além de ser uma óptima companhia para pratos requintados e não excessivamente condimentados. Sem dúvida um vinho que no panorama actual parece “fora de moda”, pelo seu corpo aberto e grau alcoólico moderado, e ainda bem que assim é. Felizmente ainda há quem faça vinhos que se podem saborear. Não o coloco já na nossa lista de escolhas porque precisa de uma segunda oportunidade, com todas as condições de prova no ponto ideal, mas mesmo assim já mostrou muito daquilo que é.

    Kroniketas, enófilo esclarecido

    Vinho: Vinha da Nora 2002 (T)
    Região: Estremadura (Alenquer)
    Produtor: José Bento dos Santos - Quinta do Monte d’Oiro
    Grau alcoólico: 13%
    Casta: Syrah
    Preço em feira de vinhos: 11,95 €
    Nota (0 a 10): 8

    quarta-feira, 29 de novembro de 2006

    No meu copo 71 - Quinta da Alorna branco, Colheita tardia 2003

    Um vinho difícil é a primeira coisa que se pode dizer deste, que segue um pouco a moda actual de fazer vinhos deste género, em que as uvas são colhidas em Outubro ou Novembro, em estado de sobrematuração, normalmente naquilo que se convencionou chamar de podridão nobre.

    Estes vinhos resultam muito concentrados de corpo e muito doces, com elevado grau alcoólico, dando-lhes um perfil quase de vinhos generosos, adequados para acompanhar sobremesas. Dada a sua elevada concentração e doçura, normalmente são apresentados em garrafas de 1/2 litro e não de 7,5 dl.

    Este Quinta da Alorna segue essa linha, com uma cor quase de mel, a tender para o caramelizado. No nariz, a primeira sensação parece realmente de algo apodrecido, o que estranha quem não está habituado. Depois prova-se e vamos tentando habituar o paladar àqueles sabores adocicados fora do vulgar. Aqui a sensação tende para as compotas ou mais para o mel, mas sempre com um certo travo de fungos ou bolor lá no fundo.

    Como experiência é interessante, mas confesso que não fiquei fã do género. É necessária bastante habituação a estes aromas, o que, dada a pouca frequência com que se prova um vinho destes, não deve ser fácil de conseguir.

    Kroniketas, enófilo esclarecido

    Vinho: Quinta da Alorna, Colheita tardia 2003 (B)
    Região: Ribatejo (Almeirim)
    Produtor: Quinta da Alorna Vinhos
    Grau alcoólico: 14%
    Casta: Fernão Pires
    Preço em feira de vinhos: 8,5 €
    Nota (0 a 10): 6,5

    sábado, 25 de novembro de 2006

    No meu copo 70 - Quinta do Crasto 2003

    Eis mais um vinho do Douro que me deixa com dúvidas sobre o que hei-de achar.

    À partida a expectativa era alta, mas a impressão ficou aquém do esperado. O aroma é pouco vivo e o ataque na boca pouco pronunciado.

    Fazemos girar o vinho pelos cantos da boca à procura dos aromas e dos sabores, mas o vinho aparece algo delgado, algo indefinido.

    Depois de deglutir é que se sente o álcool e aparecem os taninos bem presentes, deixando um final prolongado com notas de especiarias.

    Em suma, não tenho grande coisa a dizer deste vinho, porque não guardei grandes memórias dele. Mais uma vez deixou-me aquela sensação de... muita parra e pouca uva que acontece com muitos vinhos do Douro quando saímos dos topos de gama.

    Kroniketas, enófilo esclarecido


    Vinho: Quinta do Crasto 2003 (T)
    Região: Douro
    Produtor: Sociedade Agrícola da Quinta do Crasto
    Grau alcoólico: 14%
    Castas: Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz, Tinta Barroca
    Preço em feira de vinhos: 8,39 €
    Nota (0 a 10): 6

    quarta-feira, 22 de novembro de 2006

    Na minha mesa 69 - Restaurante Arcoense (Braga)



    Levaram-me os afazeres profissionais até à cidade dita dos arcebispos, Braga.

    Aproximando-se inexoravelmente a hora do jantar e não havendo ninguém disposto a jantar no hotel, um daqueles vetustos no parque do Bom Jesus, sugeri eu a Adega Arcoense, restaurante a que já não ia há uns anos, mas que belíssimas recordações me deixara.

    Não vou aqui entrar em grandes pormenores sobre as peripécias que passámos para encontrar o dito retiro, porque eu tinha apenas recordações da zona da cidade onde se encontrava e faltou-nos um golpe de asa para o atingirmos sozinhos. Depois de quase uma hora a deambular pela urbe ao volante, valeu-nos o dono do restaurante que nos serviu de navegador telefónico e nos levou a bom porto (neste caso Braga, mas enfim).

    Em boa hora insistimos e não desistimos. Na mesa já preparada encontravam-se um prato com rodelas de um enchido assim entre o paio e o salame, um belíssimo queijo amanteigado e pão do bom. Foram chegando pimentos guisados, pataniscas, jaquinzinhos bem fritos, gambas al ajillo, outras simplesmente cozidas, pimentos morrones, choquinhos fritos naquela polpa que se usa para os calamares, um salpicão de porco preto com grelos sateados, alheira de caça com batatinhas assadas, e outros acepipes que de tanta variedade acabaram por me baralhar a memória.

    Este rol de entradas já seria o suficiente para muitos estômagos. Algures pelo meio foi-nos descrita a ementa, cheia de coisas boas, de um misto de carnes assadas ao lombo estufado de boi com arroz de caça, do sarrabulho até ao bom bacalhau cozinhado de várias formas.

    Optámos pelo assado misto, mas conseguimos trazer à prova o arroz de caça, feito na hora apenas para acompanhamento do tal boi (de que também havia notícia de uns nacos grelhados apenas com sal...), e de que o simpático proprietário obteve o excedente do que tinha feito um pouco antes para uma outra mesa. Profuso de carniças várias, com um ligeiro toque de sangue a lembrar remotamente as cabidelas, bem untuoso sem ser um pingo de enjoativo, teve o aval entusiasta dos amesendados.

    O tal assado que escolhemos (Assado Misto na Pingadeira) incluía cabrito, vitela (uns nacos bem suculentos e tenros) e costela mindinha (penitencio-me já aqui, porque esta foi a peça que mais me agradou, mas não sei de que alimária era...), acolitados por batatinha nova e castanha saborosa, reforçados com uma travessita de grelos de couve salteados e arroz de forno feito com os miúdos da bestita mais ligeira, o cabrito. Tudo no ponto e de qualidade e frescura irrepreensíveis, para as quais também contribui o facto de muitos dos ingredientes, inclusive carnes das bestitas mais avantajadas, provirem de uma quinta que pertence ao dono do restaurante.

    Para acompanhar condignamente este roteiro gastronómico escolhemos um valor seguro: um Sogrape Reserva do Douro, colheita de 2001, que esteve mais que à altura de tudo o que se provou. Um grande bem haja para a Sogrape, que nunca me deixou mal.

    Mudou de nome, perdeu um balcão que tinha à entrada, mas não perdeu nenhuma das qualidades de que eu me recordava. Pelo contrário, achei-o ainda melhor. Portanto, quando for a Braga, e mesmo que não o encontre às primeiras, não desista! Vai ver que vale a pena.

    tuguinho, enófilo esforçado

    Restaurante: Arcoense
    Rua José Justino Amorim, 96
    4715-023 Braga
    Tel: 253.278.952
    Preço médio por refeição: 40 €
    Nota (0 a 5): 5

    sábado, 18 de novembro de 2006

    No meu copo 68 - Dão Meia Encosta 2001

    Um dia destes ao almoço resolvi pedir meia garrafa de vinho para acompanhar uns escalopes de vitela com cogumelos. Claro que as opções de meias garrafas são sempre escassíssimas, pelo que não há muito por onde escolher. Como já não o bebia há muito tempo, resolvi experimentar o Dão Meia Encosta, para ver como estava. Por acaso foi um dos primeiros vinhos que provei quando me iniciei nestas lides do vinho, ainda de forma muito incipiente, e foi dos primeiros a agradar-me.

    Pois voltou a não me decepcionar. Tem aquela suavidade inigualável nos vinhos do Dão e que hoje tanto vai rareando. Ainda é um vinho elegante, que se bebe com agrado, sem ter toda aquela carga de fruta, álcool e acidez que molda o perfil dos vinhos actuais. É um vinho aberto, de corpo médio, frutado quanto baste, aroma discreto e acidez correcta. Este exemplar era de 2001, mas revelou ainda frescura e juventude, o que é outra qualidade que aprecio nos vinhos do Dão, que aguentam bastante bem a idade. Num vinho alentejano, por exemplo, 5 anos nalguns casos pode já ser demais.

    Curiosamente, evoluiu favoravelmente no copo ao longo da refeição, chegando ao fim com uma maior evidência dos taninos, mostrando alguma garra que inicialmente parece não existir. Em todo o caso, aconselha-se para acompanhar pratos delicados e não excessivamente temperados.

    É um vinho que sem brilhar também não deslustra. Nada parece ter sido deixado ao acaso, está tudo no sítio certo. Para o dia-a-dia é uma aposta simpática e, principalmente nos tempos que correm, uma excelente alternativa aos vinhos hiperalcoólicos e superconcentrados da moda. E pasme-se, tem só 12 graus de álcool! Tivesse-o eu provado antes do Cister da Ribeira, e a minha prova à quinta teria corrido bem melhor. Dentro deste patamar pode ser considerado um valor seguro, pelo que o incluímos nas nossas preferências.

    Kroinketas, enófilo esclarecido

    Vinho: Meia Encosta 2001 (T)
    Região: Dão
    Produtor: Sociedade dos Vinhos Borges
    Grau alcoólico: 12%
    Castas: Touriga Nacional, Tinta Roriz, Alfrocheiro
    Preço em feira de vinhos: 2,20 €
    Nota (0 a 10): 6,5

    quinta-feira, 16 de novembro de 2006

    Prova à Quinta - O primeiro


    Cister da Ribeira 2001


    Respondendo ao desafio lançado pelo Copo de 3 (tinto português com menos de 13% de álcool) as Krónikas Viníkolas associam-se à iniciativa. Para esta primeira prova, e por falta de oportunidade para uma escolha mais criteriosa, aproveitei um vinho que me ofereceram à saída do Encontro com o Vinho. É um Douro da região de Cima Corgo, um Cister da Ribeira de 2001, da Quinta de Ventozelo, situada em Ervedosa do Douro, perto de São João da Pesqueira. É feito com as castas mais representativas da região do Douro: Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz e Tinta Barroca.

    Apesar de ter boa matéria-prima, o resultado é francamente pobre. Tem uma cor rubi carregada, o aroma é discreto, a prova na boca pouco exuberante, com algumas notas de especiarias muito pouco pronunciadas, talvez um pouco de couro e um final curto, corpo delgado e acidez talvez um pouco acima do ideal para a graduação do vinho: 12,5%.

    Em suma, pareceu-me um vinho um pouco desequilibrado nas suas componentes, que não deixa grandes memórias. É mais uma daquelas experiências do Douro que me deixam de pé atrás quando saímos dos topos de gama. Fui depois consultar os catálogos das feiras de vinhos e percebi porque é que este vinho custa o que custa. Mas na gama mais baixa, e por esse preço, pode-se comprar e beber muito melhor.

    Enfim, para começar a prova não foi uma escolha muito feliz, vamos ver se nas próximas tenho mais sorte.

    Kroniketas, enófilo esclarecido

    Vinho: Cister da Ribeira 2001 (T)
    Região: Douro
    Produtor: Quinta de Ventozelo
    Grau alcoólico: 12,5%
    Castas: Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz, Tinta Barroca
    Preço em feira de vinhos: 1,68 €
    Nota (0 a 10): 5

    terça-feira, 14 de novembro de 2006

    Eventos gastro-etílicos



    Esta primeira quinzena de Novembro tem sido pautada pela presença em vários acontecimentos. No dia 1 foi o Festival de Gastronomia de Santarém; no dia 4 foi o Encontro com o Vinho; este domingo foi a estreia no Festival do Chocolate em Óbidos.

    Contrariamente aos receios, não se confirmaram as piores expectativas em relação ao trânsito e ao acesso ao festival. Parece que já toda a gente tinha esgotado as visitas e conseguiu-se chegar sem problemas a Óbidos, estacionar com relativa facilidade e andar pelas ruas e visitar as barraquinhas e stands de chocolate com algum à-vontade, apesar dos espaços diminutos por onde vamos passando, nas ruas e dentro das muralhas do castelo.

    Para um aficionado do chocolate, aquilo é um verdadeiro maná, e só alguma contenção me impediu de devorar bolos, tartes, brigadeiros, queijadas, fondues de chocolate, para além das inevitáveis chávenas de chocolate quente, para beber e trazer a chávena. Aqui tive duas experiências antagónicas: um feito apenas com água e achocolatado despejado lá para dentro, que nos deixou um sabor pouco agradável, mas já na saída vinguei-me noutra que tinha visto na entrada e aí bebi um verdadeiro chocolate quente espesso e cremoso, de beber e chorar por mais, para terminar em beleza.

    Destaque ainda para uma casinha com “O melhor bolo de chocolate do mundo”, que já tinha tido a felicidade de provar no Chafariz do Vinho, e para a famosa ginjinha de Óbidos, com a particularidade de se beber num copo de chocolate... que depois se comia! Delicioso.

    Como não há bela sem senão, os resquícios das filas intermináveis que tinham sido noticiadas no primeiro fim-de-semana verificaram-se no acesso às esculturas de chocolate. Uma verdadeira serpente que percorria as ruas ao longo de centenas de metros para ter acesso à igreja onde se encontravam as esculturas. Obviamente, passámos ao lado.

    Obivamente é uma experiência a repetir, agora já com conhecimento do que merece ser provado, mas só é pena ser naquele local. Claro que o pitoresco da vila dá uma certa graça a tudo aquilo, mas o espaço não tem quaisquer condições para receber uma grande afluência de público. Mais valia montarem tudo fora da vila, num espaço aberto e de acesso fácil. E já agora, construir una parques de estacionamento para alguns milhares de carros. Mas em Portugal nunca se pensa nestes pormenores ínfimos das infra-estruturas...

    Agora fica a faltar uma visita a um desses festivais de caça que há por aí. Mas parece que não será este ano que me vou estrear na feira de Borba...

    Kroniketas, chocoólico militante

    sábado, 11 de novembro de 2006

    Encontro com o vinho (e alguns poucos sabores...)



    O encontro estava marcado para a entrada do Centro de Congressos de Lisboa, no passado sábado à tarde. Veio tudo de barriga bem cheia para aguentar o embate previsto e não cair para o lado vencido pelas provas sucessivas. Por volta das 15:30 comprámos a entrada, fomos levantar o copo de prova e introduzimo-nos no evento.

    Falo obviamente do Encontro com o Vinho e os Sabores, organizado pela Revista de Vinhos e que vai na sua 4ª edição. Esta espécie de feira dos vinhos de Portugal, e não só, é constituída por stands dos diversos produtores e distribuidores presentes, e possibilita a prova dos vinhos por eles apresentados. Estão também presentes alguns stands de produtos como queijos e presuntos ou enchidos, bem como alguns de acessórios do serviço do vinho.

    Além da mostra propriamente dita existem também provas pagas, com um tema definido – do tipo prova transversal ou tourigas de todo o país - que exigem inscrição prévia.

    Fomos sem programa e sem plano de provas definido. O único plano era ir percorrendo os corredores e parando nos stands quando achávamos que podia valer a pena provar alguma coisa, principalmente aqueles que não bebemos habitualmente ou que não conhecemos, ou que certas escolhas feitas nas feiras de vinhos e ainda não provadas foram certas. A única restrição, naturalmente, era deixar os generosos para o fim.

    No meio das deambulações, e apesar dos vapores etílicos, conseguimos identificar o Pingus Vinicus mai-la sua quadrilha, e deu para entabularmos algumas conversações. Bom conversador, o mestre do blog, e quem é bom conversador deve ser bom copo e bom garfo. Esperamos poder reencontrá-lo noutras ocasiões, quem sabe até nalgum repasto inter-bloguista (porque não?). Um abraço, Rui.

    A meio da tarde houve necessidade de abastecer um pouco o estômago, mas deparámos com uma sandes de presunto salgadíssimo que nos estragou o paladar para os minutos seguintes, e houve necessidade de lavar os aromas com um espumante e um rosé, porque nenhum tinto sabia a nada.

    Mau grado alguma resistência, começámos com um espumante Murganheira de Malvasia Fina, que foi um excelente começo. Muito seco, muito bom! Já o Vértice, que se seguiu, decepcionou um bocado.

    Provámos os seguintes vinhos:

    - Murganheira Bruto Malvasia Fina 2002
    - Vértice Bruto 2002
    - Versus branco, Síria 2005
    - Versus tinto 2004
    - Quinta de La Rosa reserva 2004
    - Quinta do Vale Meão 2004
    - Luís Pato Vinhas Velhas 2004
    - Vinha da Nora 2002
    - Quinta do Monte d’Oiro 2003
    - Madrigal branco 2005
    - Contra-corrente (Campolargo)
    - Campolargo
    - Frei João Reserva 2001
    - Porta dos Cavaleiros Reserva 2002
    - Espumante Bruto Quinta do Boição Arinto 2004
    - Alandra rosé
    - T da Terrugem 2002
    - Quinta dos Quatro Ventos 2004
    - Vinha do Almo Escolha 2004
    - Herdade do Perdigão Reserva 2003 e 2004
    - Quinta de Pancas Special Selection, Cabernet 2003
    - Quinta de Pancas, Chardonnay e Arinto 2005
    - Quinta de Alcube Reserva 2003 e 2004
    - Porto Vintage Fonseca Guimaraens 85, 88, 2004
    - Quinta do Vale Meão Vintage 2004
    - Nieport Vintage 2003


    Destes destacamos o já referido espumante Murganheira Malvasia Fina; o Quinta de La Rosa Reserva, uma multidão de aromas e sabores parcialmente proveniente de vinhas velhas de castas misturadas (ou mesmo desconhecidas…); o Quinta do Monte d’Oiro, com um belo e elegante corpo proporcionado pela Syrah, muito quente e aromático; o Contra-Corrente de Carlos Campolargo, um Cabernet extraordinário que, em conjunto com o Quinta de Pancas Special Selection, é a prova de que não é em França que se encontram os melhores vinhos desta casta francesa; o Vinha do Almo Escolha, que nos encheu a alma e pode vir a ser um dos vinhos de topo do Alentejo; e os Vintage da Fonseca Guimaraens, que nos mostraram como um Porto desta categoria é algo à parte, assim como que um Rolls Royce dos néctares vínicos.

    Em jeito de conclusão, estes eventos são extremamente úteis, não só para conhecer uma parte importante do que está disponível no mercado, mas também como veículo de evolução para quem melhor quer conhecer o vinho e as suas nuances. E, tal como já acontece no futebol, o sexo feminino marcava assinalável presença na multidão de visitantes. Ainda bem, que vinho não é coisa de homens, mas sim de apreciadores.

    Para o ano, se a vida nos deixar, lá estaremos.

    tuguinho e Kroniketas, apreciadores da vida airada

    quarta-feira, 8 de novembro de 2006

    No meu copo 67 - Vinha da Defesa rosé 2005

    Uma refeição diferente levou-me, um destes fins-de-semana, a fazer uma prova diferente com o núcleo duro dos “Comensais dionisíacos”. Planeada a confecção dos saborosos filetes de robalo com agrião, para fugir à “ditadura” das carnes, decidi aproveitar a ocasião para fugir também à “ditadura” dos tintos e provar uns rosés que comprei nas feiras de vinhos.

    Compareceram à ocasião um Clarete da Quinta do Monte d’Oiro, que o tuguinho já analisou em tempos, e um Vinha da Defesa rosé, da Herdade do Esporão.

    O tempo ainda estava quente e o arrefecimento dos líquidos não se processou como era desejável, apesar das várias horas que as garrafas estiveram no frigorífico e de ainda terem passado pelo congelador. Já estou a ver algumas pessoas a arrepelarem-se com esta heresia. Pois é, às vezes o recurso ao congelador - mau grado o que dizem os cânones expressos nos livros - é inevitável e a única solução para arrefecer um vinho até ao ponto desejado (mesmo os tintos no Verão, que normalmente estão mornos). E olhem que alguns críticos menos dogmáticos já o escreveram: um bocado de congelador não traz mal nenhum ao mundo nem ao vinho, desde que não nos esqueçamos dele lá...

    Utilizado o termómetro de vinho no Clarete, este acusava 16 graus, que é uma boa temperatura para os tintos. Nem mesmo a manga de refrigeração chegou a tempo. Desta forma, apesar de apresentar uma suavidade assinalável, o Clarete não fez as delícias dos presentes.

    A seguir experimentou-se o Vinha da Defesa, que tinha ficado no frio mais algum tempo e já se conseguiu baixar até aos 12 graus (embora o contra-rótulo aconselhasse entre os 8 e os 10). Depois do Clarete, mais seco, este Vinha da Defesa, mais adocicado, feito com as castas Aragonês e Syrah, também não fez o consenso à mesa, parecendo um pouco deslocado naquele filme. O próprio contra-rótulo o indica como bom aperitivo, mas valia a pena ver como se comportava com um prato de peixe, com agrião, ovo cozido, natas e pimenta. Apesar de também não ter brilhado, a metade que sobrou voltou para o frigorífico e no dia seguinte, mais fria, foi consumida com uma tarte de bacalhau com espinafres, e a sensação foi substancialmente diferente. Sem a pimenta e o ovo cozido a baralhar os sabores, o Vinha da Defesa pôde mostrar ali a sua verdadeira face, com outra frescura e os aromas muito mais exuberantes, notando-se algum frutado e um toque a frutos vermelhos.

    É de facto um bom vinho para aperitivo, dada a sua delicadeza, pelo que poderá ser convenientemente apreciado com entradas não muito condimentadas, mas que merecerá, certamente, uma segunda prova para tirar as dúvidas. Sobretudo depois de devidamente refrescado.

    Kroniketas, enófilo esclarecido

    Vinho: Vinha da Defesa 2005 (R)
    Região: Alentejo (Reguengos)
    Produtor: Herdade do Esporão
    Grau alcoólico: 12,5%
    Castas: Aragonês, Syrah
    Preço em feira de vinhos: 4,58 €
    Nota (0 a 10): 6,5

    domingo, 5 de novembro de 2006

    No meu copo 66 - Vinho Verde Espumante - Torre de Menagem Reserva Bruto 2004

    O feriado de 1 de Novembro deu-me a oportunidade de me deslocar ao Festival de Gastronomia de Santarém. Nem sempre a oportunidade pode ser aproveitada, mas desta vez fez-se por isso, tal como o ano passado.

    Como à noite havia jogo para ir ver ao estádio, o passeio foi planeado para o almoço. Apesar de nos termos deslocado cedo (antes das 12:30 já lá estávamos), deparámos com um cenário que não esperávamos: as tasquinhas repletas de gente a almoçar e muito mais gente à espera. Ficámos a pensar se terão ido para lá à hora do pequeno-almoço.

    Dando uma volta pelo recinto para identificar a oferta, verificámos que os presentes são praticamente os mesmos do ano passado, nos mesmos locais. Perante tão densa multidão, havia que escolher um local para abancar e ficar à espera de vez. Ao passarmos num restaurante do Minho, gostámos do aspecto dum prato que vimos na mesa e decidimos ficar por ali e deixar o nome. Eram 7 pessoas (2 casais e 3 filhos), pelo que se afigurava difícil conseguir mesa nos próximos minutos. Assim, aproveitámos para ir tentar comer uma sopa da pedra ali perto, numa tasquinha do Ribatejo, mas ao balcão. Depois de esperar pacientemente por uma aberta, lá conseguimos pedir 4 malgas de sopa, que estava um pouco ensossa e pouco apaladada para o que é habitual (até porque ainda nos lembrávamos da do ano anterior). Mas dado o tempo de espera, sempre aconchegou o estômago dos 4 resistentes.

    Voltámos à tasquinha do Minho, pertencente ao restaurante Torres, de Vila Verde. Quando chegou a nossa vez de abancar pedimos duas doses de rojões e um costeletão de boi azeitado, para 2 pessoas, além de um caldo verde e um mini-prato de papas de sarrabulho. Não foi fácil de despachar, este.

    Os rojões estavam muito tenros e saborosos, com um toque de cominhos no tempero, mas a mim coube enfrentar o costeletão de boi, já fatiado e mal passado como se impunha. Bastante saboroso e igualmente tenro.

    Para acompanhar estes pitéus, resolvemos experimentar uma novidade: um espumante de vinho verde. De seu nome Torre de Menagem, pertencente à sub-região de Monção e feito com 95% da casta Alvarinho e 5% de Trajadura. E foi uma surpresa muito agradável. Eu, que costumo elogiar o Murganheira, fiquei rendido a este tipo de espumante. Com uma cor citrina brilhante, muito aromático e frutado, com um toque a maçã, de grande frescura na boca, bastante suave, com bolha muito fina e sem ser gasoso em excesso, é um espumante guloso, que apetece ir bebendo sem pensar na comida, quase como se de refresco se tratasse. Quase despejámos a primeira garrafa enquanto esperávamos pelos pratos. Mas cuidado com os 13% de álcool, pois corremos o risco de, sem dar por isso, ficarmos incapazes de nos levantarmos da cadeira.

    Este entrou directamente para a nossa lista de preferências, o que levou a fazer uma actualização nas nossas escolhas para incluir o grupo dos espumantes, que estava esquecido. Este espumante deixou-me de sobreaviso para os espumantes de vinho verde, que a julgar por este parecem ter grandes potencialidades para se impor rapidamente no panorama nacional, destronando alguns clássicos da Bairrada e de Távora-Varosa e, sobretudo, deixando a grande distância a maioria dos que se fazem nas outras regiões.

    Para finalizar a visita, ainda fomos comer a sobremesa a uma tasquinha de Portalegre, do restaurante “A Gruta”, onde tal como há um ano saboreámos a deliciosa encharcada alentejana, polvilhada com canela. É difícil haver doce melhor que aquele, e os alentejanos são mestres em doces. Não é, Pingus Vinicus?

    Kroniketas, enófilo esclarecido

    Vinho: Torre de Menagem Reserva, Espumante Bruto 2004 (B)
    Região: Vinhos Verdes (Monção)
    Produtor: Quintas de Melgaço, Agricultura e Turismo
    Grau alcoólico: 13%
    Castas: Alvarinho (95%), Trajadura
    Preço no restaurante: 13,50 €
    Nota (0 a 10): 9

    sexta-feira, 3 de novembro de 2006

    No meu copo 65 - Caves Velhas, 3 “terroirs”; Caves São João Reserva 1985

    O FC Porto-Benfica de sábado serviu de pretexto para dar um primeiro passo na operação “O desbaste da garrafeira”. Perante o excesso de stock que de momento se verifica nas nossas garrafeiras após as compras das feiras, as Krónikas Viníkolas empenham-se no fornecimento dos líquidos para os repastos que se querem frequentes.

    Compareceram à chamada o tuguinho (escreve-se sempre com minúscula), o Kroniketas, o Mancha na qualidade de anfitrião, o Pirata e ainda o Politikos na qualidade de artista convidado. Faltou o Caçador, que anda entretido com a caça (vamos ver se dali sai algum material para mais um repasto).

    Não tendo havido acordo prévio acerca dos vinhos a servir, decidimos escolher, cada um, dois grupos de 3 garrafas de uma região, para depois submeter à votação.

    O tuguinho apresentou 3 varietais do Douro:
    - 1 Quinta da Urze Touriga Nacional
    - 1 Quinta do Cachão Tinta Roriz
    - 1 Quinta do Cachão Tinto Cão


    A estes juntaram-se 3 vinhos de Castelão feitos pelas Caves Velhas em 3 regiões diferentes:
    - 1 no Ribatejo
    - 1 na Estremadura
    - 1 em Palmela


    O Kroniketas optou por 3 varietais da Casa Cadaval:
    - 1 Trincadeira Preta
    - 1 Merlot
    - 1 Pinot Noir


    Como segundo grupo apresentou 3 relíquias da Bairrada:
    - 1 Messias Garrafeira de 83
    - 1 Vilarinho do Bairro Garrafeira de 83
    - 1 Caves São João Reserva de 85


    Apareceram ainda um Reserva do Esporão de 1990, levado pelo Pirata, e um Herdade do Pinheiro levado pelo Politikos. O aspecto geral do painel era o que se pode ver no post introdutório a este.

    Apesar da insistência do tuguinho, os varietais do Douro foram desde logo rejeitados, porque ninguém estava para aí virado, até porque era inoportuno. Levar vinho do Douro em dia de Porto-Benfica só podia dar azar (e deu...).

    Acabámos por escolher os 3 Caves Velhas, uma compra partilhada de há alguns anos que nos despertou a atenção por terem sido elaborados com a casta Castelão cultivada em 3 regiões diferentes, daí o conjunto ser conhecido como 3 “terroirs”. Deixou-se a respirar o Caves São João, depois de devidamente decantado, para apreciar lá mais para o fim.

    Para o repasto compraram-se uns bifes de vazia do Brasil, bem assessorados por uma dose extra de medalhões do lombo da raça Angus. Para a cozinha avançou o Kroniketas, tendo os ditos sido temperados com sal e pimenta e fritos em margarina a que se juntou limão, mostarda, natas e ervas de Provence, que deram um toque aromático excelente. Depois de fritos no ponto certo para deixar a carne tenra e ainda bem rosada, juntaram-se umas gotas de whisky ao molho que ferveu um pouco para engrossar. Regaram-se os bifes com o molho e serviram-se acompanhados por uma dose generosa de batatas fritas.

    Passou-se então à degustação dos vinhos. Começou-se a contenda pelo Caves Velhas do Ribatejo, que pela análise do aroma nos pareceu ser o “mais pronto” para ser bebido. O dito aroma era a frutos vermelhos maduros, o corpo era médio e na boca também se mostrou meão.

    Seguiu-se o da Estremadura: o aroma estava um bocado sujo e na boca surgiu com um ligeiro gás a torná-lo desagradável. Parecia demasiado evoluído, mas como muita coisa na vida, nem tudo o que parece é - depois de estagiar por minutos nos copos esse gasoso foi-se e mostrou-se um vinho que, embora não sendo um portento de corpo, revelou sabores que só se apanham num vinho com alguns anos e acabou por ultrapassar o do Ribatejo nas opiniões dos convivas.

    A versão Palmela mostrou o que já esperávamos: um Castelão típico, com o sabor a caramelo característico da casta quando criada na suas região de eleição, um corpo razoável e um fim de boca médio.

    Mais do que a qualidade intrínseca de cada vinho, que não era nada de extraordinário, o mais interessante nesta prova foi mesmo ver como a mesma casta, em regiões relativamente próximas e com um tratamento idêntico, deu origem a vinhos tão diferentes. Deixámos o Bairrada para o fim, por respeito aos mais velhos. Mostrou-se saudável, com bons aromas e algo delgado de corpo, embora já não estivesse no seu auge - um Bairrada à moda antiga, daqueles que já se fazem pouco hoje em dia mas que dão muita satisfação a quem sabe esperar para os beber.

    Enfim, foi melhor o repasto do que o resultado do futebol.

    tuguinho e Kroniketas, enófilos e tudo

    Vinhos: Castelão 2000 (T)
    Regiões: Ribatejo, Estremadura e Palmela
    Produtor: Caves Velhas - Enoport
    Grau alcoólico: 12%
    Preço: não disponível
    Nota (0 a 10): 6,5

    Vinho: Caves São João Reserva 1985
    Região: Bairrada
    Produtor: Caves São João
    Grau alcoólico: 12,5%
    Preço: cerca de 1600 $
    Nota (0 a 10): 7

    quinta-feira, 2 de novembro de 2006

    Mais comes e bebes

    Ainda decorre até Domingo o 26º Festival Nacional de Gastronomia, na Casa do Campino em Santarém. Hoje mesmo começou o Festival Internacional de Chocolate de Óbidos, que vai decorrer até ao próximo dia 12. São muitos programas em pouco tempo, para quem quiser aproveitar.

    Kroniketas, gastrónomo informado

    quarta-feira, 1 de novembro de 2006

    No meu copo 64 - Quinta de Cidrô Reserva, Chardonnay 2004

    Já há bastante tempo que não bebia um vinho exclusivamente da casta Chardonnay. Este Quinta de Cidrô foi uma das promoções que acompanham a Revista de Vinhos, a 5,95 €.

    Trata-se dum vinho fermentado em madeira, com 14% de álcool. Apresenta uma cor palha, um pouco carregada, e aromas amanteigados. Na boca o elevado grau alcoólico torna-se um pouco agressivo, ao mesmo tempo que a madeira o torna mais robusto do que é habitual nos vinhos brancos. O toque amanteigado faz-se também sentir na boca, formando um conjunto que se torna enjoativo para o meu paladar.

    Só na segunda prova, com um prato de bacalhau no forno regado com azeite, é que o vinho se mostrou adequado para o prato. Trata-se, efectivamente, de um daqueles brancos que pedem um prato forte, como o bacalhau ou um pargo no forno, com uma boa dose de temperos, pois com pratos mais delicados o vinho sobressai em demasia, abafando os sabores do prato.

    Em todo o caso, o conjunto não me encantou. Não é o meu género de branco, porque, seguindo a moda actual, tem álcool em excesso, a meu ver desnecessariamente. 14 graus de álcool para um branco parece-me francamente exagerado. Gosto de brancos mais suaves e delicados, necessariamente com menor grau alcoólico. No entanto, esta característica poderá ser compensada com o prato. O que menos me agradou, definitivamente, foi esta predominância da manteiga, típica do Chardonnay, de que já não me recordava e que é um dos aromas que não me agradam num vinho. Por isso estarei atento para evitar os vinhos desta casta vinificada isoladamente.

    Kroniketas, enófilo esclarecido

    Vinho: Quinta de Cidrô Reserva, Chardonnay 2004 (B)
    Região: Trás-os-Montes (regional)
    Produtor: Real Companhia Velha
    Grau alcoólico: 14%
    Casta: Chardonnay
    Preço em feira de vinhos: 4,68 €
    Nota (0 a 10): 6

    terça-feira, 31 de outubro de 2006

    É já no sábado

    Decorre no próximo fim-de-semana (4 e 5 de Novembro) mais uma edição do “Encontro com o vinho” e “Encontro com os sabores”, no Centro de Congressos de Lisboa, na antiga FIL na Junqueira, organizada pela Revista de Vinhos.

    Os blogs nossos congéneres têm divulgado largamente o evento, com a descrição exaustiva das provas especiais disponíveis. Nós ficamos pela sugestão: vão lá e provem os melhores vinhos do país, que estão à nossa disposição.

    Kroniketas, enófilo esclarecido

    domingo, 29 de outubro de 2006

    Encontro báquico



    Uma versão ligeiramente desfalcada do Grupo Gastrónomo-Etilista “Os comensais dionisíacos” reuniu à mesa este sábado, após sofrer com as incidências do Porto-Benfica. Mas no fim afogámos as mágoas com uns tintos escolhidos após acesos duelos para decidir o que é que se havia de beber. Perante a variedade da oferta, foi difícil chegar a acordo, mas no fim todos ficámos a ganhar, apesar de o Benfica ter perdido.

    A reportagem nas Krónikas Viníkolas um destes dias, porque agora é demasiado tarde e estamos um pouco atordoados com os néctares de Baco.

    tuguinho e Kroniketas, os diletantes preguiçosos

    sábado, 28 de outubro de 2006

    No meu copo 63 - Quinta de Cabriz, Experiência VL-1 1999

    Odeio pargo! Convém especificar que é apenas quando cozido, porque adoro um bom pargo legítimo assado no forno! E foi precisamente esse o prato que acompanhou o vinho de que aqui vou falar. Bem assadinho, coberto de cebola às rodelas e com batatinhas aos cubos bem embebidas no molho que, como não podia deixar de ser, também leva vinho.

    Esta experiência da Quinta do Cabriz foi uma espécie de vinho em sentido contrário ao que se devia fazer. Como diz no contra-rótulo: “Em vez de mosto de gota usámos mosto de prensa; em vez de corrigir a acidez optámos por manter o desequilíbrio dos ácidos; em vez de fermentar abaixo de 20°, fermentou bem acima; em vez de 3 meses de madeira, teve exactamente um ano! É um vinho difícil, mas estimula-nos os sentidos.” - Virgílio Loureiro, o seu criador, dixit!*

    Esta garrafa foi-me oferecida pelo Continente (Obrigado Engenheiro Belmiro! E ainda dizem que é forreta, veja lá!), no âmbito do seu Clube de Vinhos, já nos idos de 2002. A cor era dourada, a denunciar o prolongado contacto com a madeira. O aroma era discreto e não muito atractivo, mas sem odores estranhos, bastante limpo.

    Na boca revelou-se excelente, com os 13 graus de álcool discretos e elegantemente casados com a madeira, também ela nada impositiva. Um fim de boca que muitos tintos não possuem concluiu as manifestações deste bom vinho nos meus sentidos.

    É actuando assim que se evita que todos os vinhos fiquem iguais. Podem não se conquistar os clientes que procuram sempre o mesmo, mas de certeza que se vão ganhar outros que se tornarão fiéis.

    A moda por vezes pode ser uma ditadura. E as ditaduras têm de ser contrariadas. Quase sempre dá bons resultados.

    tuguinho, enófilo esforçado

    Vinho: Quinta do Cabriz Experiência VL-1 1999 (B)
    Região: Dão
    Produtor: Dão Sul
    Grau alcoólico: 13%
    Preço: não foi comercializado
    Nota (0 a 10): 7


    * Virgílio Loureiro é um dos enólogos mais reputados do país. Professor no Instituto Superior de Agronomia, doutorado em Microbiologia Alimentar e especialista em Análise Sensorial, tem uma paixão pelo Dão, donde é originário, e pelos vinhos brancos, de que resulta esta experiência que baptizou com as suas iniciais. Colabora no Clube de Vinhos do Continente e na selecção dos vinhos para a Feira de Vinhos.

    sábado, 21 de outubro de 2006

    Actualização de sugestões e preços

    Depois de exaustivamente percorridas as feiras de vinhos e recolhidos os preços, actualizámos a nossa lista de sugestões, que agora mudou de data. Retirámos alguns por não se encontrarem à venda há muito tempo, noutros casos optámos por manter porque ainda se poderão encontrar algures por aí. Acrescentámos mais alguns que achamos que valem a pena. No total temos 117 vinhos, dos quais 91 tintos, 13 brancos, 8 verdes brancos, 3 rosés, 2 espumantes.

    Por regiões temos:

    - 39 do Alentejo
    - 13 da Bairrada
    - 3 de Bucelas
    - 16 do Dão
    - 15 do Douro
    - 4 da Estremadura
    - 6 do Ribatejo
    - 1 de Távora-Varosa
    - 9 de Terras do Sado
    - 2 de Trás-os-Montes
    - 9 dos Vinhos Verdes


    Os preços referem-se, sempre que possível, aos preços encontrados nas feiras de vinhos deste ano, embora nalguns casos sejam do ano passado. Aqueles que não têm aparecido nas feiras mantêm o último preço encontrado. Em qualquer dos casos, usamos sempre como referência o preço mais barato encontrado para cada vinho, para dar uma ideia de quanto pode custar.

    Obviamente fora das feiras de vinhos os preços disparam imediatamente, nalguns casos para o dobro (há vinhos que passam de 8 € para 16 €, por exemplo). Por isso é que é importante aproveitar os preços de feira para comprar a preços de ocasião que não se encontram no resto do ano, a não ser excepcionalmente em algumas promoções (este ano conseguimos comprar no Jumbo, em fim de stock, 5 garrafas de Herdade do Peso, Alfrocheiro 2000, a 7,99 €, quando o seu preço em feira de vinhos era de 13,89 €. Agora está a 16,90 €).

    Kroniketas, enófilo organizado

    As nossas escolhas

    Preços de Feira de Vinhos (referenciados a 2006)


    Verde - Acima da Média
    Azul - Os Melhores dos Melhores
    Laranja - Sublime


    Região - Marca - Melhor Preço - (Local) - Preço na Makro

    Espumantes

    Távora-Varosa - Murganheira Reserva Bruto - 8,94 € (Jumbo)
    Vinho Verde - Torre de Menagem Reserva Bruto


    Rosés

    Alentejo - Vinha da Defesa - 4,58 € (Feira Nova) - 4,65 €
    Estremadura - Quinta do Monte d'Oiro Clarete - 7,99 € (Jumbo)
    Trás-os-Montes - Mateus - 3,09 € (Jumbo/Feira Nova) - 2,70 €


    Verdes

    Vinho Verde - Deu-La-Deu, Alvarinho - 5,18 € (Jumbo) - 5,06 €
    Vinho Verde - Ponte de Lima, Loureiro - 2,78 € (Jumbo) - 2,52 €
    Vinho Verde - Morgadio da Torre, Alvarinho - 7,98 €
    Vinho Verde - Muralhas de Monção - 2,99 € (Jumbo) - 3,01 €
    Vinho Verde - Ponte da Barca, Colheita Seleccionada - 2,83 €
    Vinho Verde - Quinta da Aveleda - 3,23 € (Jumbo) - 3,35 €
    Vinho Verde - Quinta de Azevedo - 2,97 € (Jumbo) - 3,57 €
    Vinho Verde - Solar das Bouças - 3,58 € (Continente/Jumbo/Feira Nova) - 3,91 €


    Brancos

    Bucelas - Bucellas Caves Velhas - 3,25 € (Jumbo) - 3,68 €
    Bucelas - Prova Régia - 2,89 € (Jumbo) - 2,79 €
    Bucelas - Quinta da Murta - 3,25 €
    Dão - Casa de Santar - 3,29 € (Jumbo)
    Douro - Planalto - 3,85 € (Corte Inglês) - 3,68 €
    Douro - Porca de Murça Reserva - 3,58 € (Feira Nova)
    Douro - Sogrape Reserva - 5,23 € (Continente)
    Estremadura - Grand'arte, Alvarinho e Chardonnay - 5,61 €
    Estremadura - Quinta de Pancas, Chardonnay e Arinto - 5,61 €
    Terras do Sado - Adega de Pegões, Colheita Seleccionada - 2,87 € (Jumbo) - 3,64 €
    Terras do Sado - BSE - 3,29 € (Continente/Jumbo/Feira Nova) - 3,08 €
    Terras do Sado - Catarina - 3,18 € (Jumbo) - 3,53 €
    Terras do Sado - João Pires - 4,48 € (Jumbo) - 4,65 €


    Tintos

    Até 5 Euros

    Alentejo - Alabastro - 3,13 € (Jumbo) - 3,57 €
    Alentejo - Alandra - 1,72 € (Feira Nova) - 1,78 €
    Alentejo - Anta da Serra - 2,79 € (Feira Nova) - 2,45 €
    Alentejo - Borba - 2,38 € (Continente/Feira Nova) - 2,39 €
    Alentejo - Carmim, Aragonês - 4,15 € (Jumbo) - 5,03 €
    Alentejo - Carmim, Trincadeira - 3,88 € (Jumbo) - 5,03 €
    Alentejo - Encostas de Estremoz, Touriga Nacional - 4,65 € (Corte Inglês) - 9,52 €
    Alentejo - Encostas do Enxoé - 4,69 € (Jumbo) - 4,69 €
    Alentejo - Lóios - 2,69 € (Jumbo) - 3,23 €
    Alentejo - Marquês de Borba - 4,98 € (Jumbo/Continente) - 4,97 €
    Alentejo - Monsaraz - 1,98 € (Jumbo) - 2,00 €
    Alentejo - Montado - 2,65 € (Corte Inglês) - 2,63 €
    Alentejo - Monte das Servas - 4,48 € (Continente)
    Alentejo - Monte Velho - 3,36 € (Jumbo) - 3,57 €
    Alentejo - Reguengos - 1,59 € (Jumbo/Feira Nova) - 1,67 €
    Alentejo - Reguengos Reserva - 3,78 € (Jumbo) - 4,02 €
    Alentejo - Tinto da Talha - 2,59 € (Jumbo) - 2,56 €
    Alentejo - Vale Barqueiros - 3,48 € (Feira Nova)
    Bairrada - Aliança Clássico - 2,77 € (Jumbo) - 3,16 €
    Bairrada - Conde de Cantanhede Reserva - 3,13 €
    Bairrada - Frei João - 1,89 € (Continente) - 2,51 €
    Bairrada - Luís Pato - 4,45 € (Continente) - 4,42 €
    Bairrada - Marquês de Marialva Reserva, Baga - 4,29 € (Feira Nova) - 3,53 €
    Bairrada - Messias - 2,65 € (Corte Inglês)
    Bairrada - Primavera Reserva - 3,15 € (Corte Inglês)
    Bairrada - Quinta do Poço do Lobo - 3,95 € (Corte Inglês)
    Bairrada - Sidónio de Sousa - 4,98 € (Feira Nova)
    Dão - Aliança Clássico Garrafeira - 4,31 €
    Dão - Casa de Santar - 3,58 € (Jumbo) - 3,57 €
    Dão - Caves Velhas - 1,89 € (Jumbo) - 2,74 €
    Dão - Meia Encosta - 2,20 € (Jumbo) - 2,79 €
    Dão - Milénio, Touriga Nacional e Aragonês - 2,99 € (Continente)
    Dão - Quinta de Cabriz, Colheita Seleccionada - 2,59 € (Corte Inglês) - 2,73 €
    Dão - Quinta de Saes - 3,48 € (Feira Nova)
    Douro - Cheda - 2,97 € (Jumbo) - 4,02 €
    Douro - Evel - 2,89 € (Continente/Feira Nova) - 3,12 €
    Douro - Messias - 4,98 € (Jumbo)
    Douro - Quinta dos Aciprestes - 4,98 € (Corte Inglês/Feira Nova) - 6,05 €
    Douro - Vila Régia - 2,79 € (Continente) - 2,73 €
    Ribatejo - Dom Hermano - 3,25 €
    Ribatejo - Padre Pedro - 2,99 € (Jumbo) - 3,80 €
    Ribatejo - Serradayres Reserva - 2,68 € (Feira Nova) - 3,58 €
    Terras do Sado - J. P. - 1,79 € (Jumbo/Feira Nova) - 1,67 €
    Terras do Sado - Periquita - 3,29 € (Jumbo) - 3,25 €
    Terras do Sado - Serras de Azeitão - 2,35 € (Jumbo) - 2,11 €

    Entre 5 e 10 Euros

    Alentejo - Borba Reserva, Rótulo de Cortiça - 6,89 € (Feira Nova) - 7,72 €
    Alentejo - Carmim, Bastardo - 6,79 €
    Alentejo - Carmim, Cabernet Sauvignon - 6,79 €
    Alentejo - Convento da Tomina - 5,39 € (Jumbo) - 6,71 €
    Alentejo - João Portugal Ramos, Aragonês - 9,38 € (Jumbo) - 9,24 €
    Alentejo - João Portugal Ramos, Trincadeira - 8,89 € (Jumbo/Continente) - 9,62 €
    Alentejo - José de Sousa - 6,15 € (Jumbo) - 6,04 €
    Alentejo - Reguengos Garrafeira dos Sócios - 7,79 € (Jumbo) - 8,95 €
    Alentejo - Roquevale (Rótulo Preto) - 6,78 € - - 5,21 €
    Alentejo - Sogrape Reserva - 9,89 € (Feira Nova)
    Alentejo - Tinto da Talha, Grande Escolha - 6,68 € (Jumbo) - 6,61 €
    Alentejo - Vinha da Defesa - 6,28 € (Feira Nova) - 6,33 €
    Bairrada - Aliança Garrafeira - 7,47 €
    Bairrada - Caves São João Reserva - 7,97 €
    Bairrada - Dom Teodósio Garrafeira - 7,97 €
    Bairrada - Messias Garrafeira - 6,32 €
    Dão - Aliança Particular - 5,16 €
    Dão - Álvaro Castro - 6,85 € (Continente)
    Dão - Casa de Santar Reserva - 8,27 € (Jumbo) - 9,24 €
    Dão - Caves Velhas Juta - 6,18 € (Jumbo) - 6,15 €
    Dão - Messias Garrafeira - 6,96 €
    Dão - Pipas Reserva - 7,95 € (Corte Inglês) - 8,12 €
    Dão - Quinta das Maias - 5,45 € (Corte Inglês) - 5,59 €
    Dão - Sogrape Reserva - 9,89 € (Jumbo) - 8,95 €
    Douro - Duas Quintas - 6,48 € (Feira Nova) - 7,39 €
    Douro - Porca de Murça Reserva - 5,48 € (Jumbo)
    Douro - Sogrape Reserva - 8,98 € (Feira Nova) - 10,07 €
    Douro - Vinha Grande - 8,58 € (Jumbo) - 9,51 €
    Estremadura - Quinta de Pancas, Cabernet Sauvignon - 6,88 € (Jumbo) - 6,44 €
    Ribatejo - Casa Cadaval, Pinot Noir - 7,50 € (Feira Nova) - 10,92 €
    Ribatejo - Fiúza, Cabernet Sauvignon - 6,99 € (Feira Nova)
    Ribatejo - Fiúza, Merlot - 7,95 € (Feira Nova)
    Terras do Sado - Adega de Pegões, Colheita Seleccionada - 6,25 € (Jumbo) - 7,38 €
    Terras do Sado - Pinheiro da Cruz - - 6,44 €
    Trás-os-Montes - Bons Ares - 9,85 € (Corte Inglês) - 9,80 €

    Entre 10 e 15 Euros

    Alentejo - Aragonês (Esporão) - 10,47 € (Jumbo) - 12,54 €
    Alentejo - Esporão Reserva - 12,38 € (Jumbo) - 12,87 €
    Alentejo - Quatro Castas (Esporão) - 12,90 € (Jumbo) - 12,54 €
    Alentejo - Quinta da Terrugem - 11,48 € (Jumbo) - 14,55 €
    Alentejo - Touriga Nacional (Esporão) - 12,90 € (Continente) - 12,54 €
    Alentejo - Trincadeira (Esporão) - 10,95 € (Jumbo) - 12,54 €
    Alentejo - Vila Santa - 10,98 € (Jumbo) - 12,87 €
    Douro - Callabriga - 12,79 € (Jumbo) - 13,99 €
    Douro - Confradeiro - 13,96 €

    Acima de 15 Euros

    Alentejo - Herdade do Peso, Alfrocheiro - 16,90 € (Jumbo)
    Douro - Quinta da Leda - 21,50 € (Jumbo) - 20,71 €


    tuguinho e Kroniketas, enófilos e tudo

    quarta-feira, 18 de outubro de 2006

    Feiras de vinhos (4) - Makro

    Começa hoje, dia 18, e vai até 14 de Novembro. E as Krónikas Viníkolas, obviamente, estão em cima do acontecimento.

    Kroniketas, enófilo atento

    Na minha mesa 62 - Falésia (Praia da Rocha)



    As férias já acabaram há algum tempo, o Verão também, mas ainda não se esgotaram os ecos de algumas incursões gastronómicas por terras algarvias. Uma das mais marcantes foi uma estreia absoluta. Um restaurante situado mesmo na falésia por cima da Praia da Rocha, muito apropriadamente chamado Falésia. Há anos que o conhecia por fora, agora fiquei a conhecê-lo por dentro.

    Situado na avenida marginal, na zona dos bares e restaurantes, para entrar sobem-se umas escadas a partir da rua, que vão desembocar num terraço com vista directamente sobre a praia, em toda a sua extensão. Como paisagem, não se pode querer melhor. Esta espécie de varanda tem uma zona coberta e outra descoberta, e como o tempo convidava ficámos cá fora em vez de ir para a sala, e optámos pela zona descoberta. Jantámos ao relento, sobre a praia.

    O atendimento é simpático e a ementa é extensa e variada. Dá para todos os gostos. Depois de muitas hesitações pediu-se um bife da vazia com molho Diana e um arroz de tamboril para dois.

    O bife correspondeu às explicações pedidas, com carne tenra e um molho suculento, embora a pessoa que o comeu tenha incorrido naquele pecado habitual, que torna a carne de vaca quase incomestível, que é pedir o bife muito bem passado. Fica como sola, mas enfim: quem prefere assim acaba por estragar o melhor da carne mas fica com a vontade feita.

    No meu caso partilhei o arroz de tamboril com outro comparsa, e só vos digo: foi o melhor arroz de tamboril que já comi na minha vida. Um tempero irrepreensível, delicioso como é difícil descrever, no ponto de cozedura correcto, com muito caldo como convém. E estava tão bem feito que, quando fomos para a segunda volta, mesmo estando tapado no tacho, o restante arroz não secou nem amoleceu. Pode-se dizer, portanto, que foi feito com mão de mestre.

    Nos finais os comensais pediram um Shandy, uma daquelas variantes de gelado com bolo e chocolate derretido por cima, que também colheu o agrado dos presentes, e duas mousses de chocolate que não comprometeram, embora sem encantar.

    De realçar que o serviço às mesas, embora tenha sido algo demorado devido à feitura do arroz, se mostrou eficiente, com realce para o facto de os pratos serem trazidos para a mesa num carrinho com as travessas, onde depois são servidos quando é caso disso. A maioria dos empregados é ainda jovem e parece ter alguma formação no ramo, o que será sempre um sinal positivo (já tinha ficado com a mesma impressão no restaurante Lusitano, de que aqui dei conta há uns meses).

    Para acompanhar o repasto bebeu-se um João Pires (pago ao triplo do preço normal, como é habitual), que calhou lindamente com o arroz de tamboril, e cuja apreciação já fizemos em devida altura. Sem dúvida um valor sempre seguro e referência obrigatória das Krónikas Viníkolas.

    Os preços no Falésia podem ser um pouco dissuasores à partida, mas depois de comer uma refeição destas dá-se o dinheiro por muito bem gasto. Paga-se bem, mas come-se melhor. Pelo menos, para estreia tivemos sorte. Vai ser visita a repetir, e aquele arroz de tamboril... Divino!

    Kroniketas, enófilo esclarecido

    Restaurante: Falésia
    Avenida Tomás Cabreira, Edifício Falésia, Loja 12
    Praia da Rocha 8500-802 Portimão
    Telef: 282.412.917
    Preço médio por refeição: 25 €
    Nota (0 a 5): 5


    PS - Actualização da informação: em 2011 o Falésia já tinha mudado de mãos e de nome. Agora o estilo é outro.

    sábado, 14 de outubro de 2006

    No meu copo 61 - Dão Grão Vasco 2003

    Devo dizer que este vinho nunca me agradou. Toda a regra tem excepção e, neste caso, acho que é a excepção à qualidade aqui abundantemente elogiada dos vinhos da Sogrape.

    Há uns meses tive a oportunidade de experimentar o novo Grão Vasco do Alentejo, que não deslustrou, mas este clássico do Dão, definitivamente, não me consegue convencer. Recentemente bebido em restaurante, continua a pecar pelo mesmo que sempre lhe achei, ou seja, um vinho com alguma falta de aroma, um pouco “chato”, daqueles vinhos com sabor quase neutro.

    Posiciona-se na gama média/baixa, é um daqueles vinhos de “combate”, para o dia-a-dia, mas tanto a Sogrape tem vinhos melhores na gama como no Dão há vinhos muito melhores para o mesmo nível de preços. Por exemplo, o Quinta de Cabriz Colheita Seleccionada, que custa mais ou menos o mesmo e é bem melhor.

    Definitivamente, acho que é das apostas menos conseguidas da Sogrape.

    Kroniketas, enófilo esclarecido

    Vinho: Grão Vasco 2003 (T)
    Região: Dão
    Produtor: Sogrape Vinhos
    Grau alcoólico: 12,5%
    Castas: Jaen, Alfrocheiro, Tinta Pinheira, Touriga Nacional, Tinta Roriz
    Preço em feira de vinhos: 2,78 €
    Nota (0 a 10): 5

    terça-feira, 10 de outubro de 2006

    No meu copo 60 - Porta dos Cavaleiros, Reserva Seleccionada 1975

    O jogo da selecção foi o pretexto, porque o objectivo primeiro era mesmo apreciar alguns néctares do senhor Baco. Foi com isto em mente que o núcleo duro dos Comensais Dionisíacos, conjugado com o não menos duro Politikos do blog Polis & Etc., se reuniram à mesa na casa de um dos membros eméritos deste grupo gastrónomo-etilista, para enfrentarem umas costeletas de novilho grelhadas, acolitadas por tiras de entremeada no banco dos suplentes.

    Para a parte líquida fora escolhida uma vetusta botelha de litro e meio, uma Magnum, de um vinho do Dão feito à moda antiga, quando os imbecis dos yupies e outros urbanóides da treta ainda não tinham imposto a lei do vinho novinho e frutado para palatos normalizados. Rezava no rótulo que fora produzido pelas Caves São João, se chamava Porta dos Cavaleiros Reserva Seleccionada, e que as uvas donde provinha o dito cujo tinham sido colhidas no final do já distante “Verão quente” de 1975!

    Foi com um misto de receio e reverência que se procedeu ao ritual do descasque do lacre, do sacar da rolha (que já não estava nos melhores dos seus dias) e da primeira snifadela ao conteúdo. De dentro da garrafa não saíam odores estranhos, apenas aromas normais num vinho, o que nos deu redobradas esperanças de que dali não sairia vinagre. O vinho foi decantado, mas não totalmente, porque a garrafa era magnum e o decantador não, mas a cor que mostrava era retinta e não a cor de tijolo de possível má evolução.

    Deitou-se um pouco em cada um dos quatro copos, foi-se cheirando e, embora não fosse exuberante de aroma (e poderia um vinho de mesa com esta idade sê-lo?), a primeira prova deixou quatro maxilares inferiores (vulgo queixos) derrubados sobre a mesa, feitos cair pelo espanto (ficámos portanto de queixo caído)!

    Esperávamos um vinho aceitável, por não mostrar sinais de má saúde, e saiu-nos uma coisa espantosa, com um sabor complexo, um corpo elegante mas com estrutura e uma vivacidade que nos remetia para uma colheita bem mais próxima do que a do Verão quente de 1975. E, como era de esperar, a coisa foi melhorando à medida que o vinho jazia nos copos, desdobrando novos odores e fazendo desaparecer o ligeiríssimo sabor a mofo que ainda mantinha no início (não se espante – se o leitor ficasse fechado durante 31 anos numa garrafa garanto-lhe que cheiraria pior!).

    Provavelmente este vinho deve ter sido imbebível nos primeiros cinco anos, mas se assim não fosse duvido que se tivesse chegado a estes resultados – às vezes saber esperar é mesmo uma virtude. Rapidamente o que ainda se encontrava na garrafa foi decantado e bebido com o mesmo prazer. É que surpresas agradáveis como esta não são vulgares, como aliás é apanágio das coisas realmente boas.

    Quando finalmente se finou, passámos para um Dão Pipas de 1983, para continuarmos nos vinhos velhos, sabendo de antemão que seria difícil igualar o desempenho do primeiro vinho. E realmente também este estava muito bem, sem problemas de evolução, mas não conseguia atingir a elegância nem a complexidade aromática do Porta dos Cavaleiros de 1975.

    Assim em jeito de conclusão, apraz-me dizer que, no caso vertente, concordo inteiramente com o glosado provérbio popular: velhos são os trapos!

    tuguinho, enófilo embevecido

    Vinho: Porta dos Cavaleiros - Reserva Seleccionada 1975 (T) (garrafa Magnum)
    Região: Dão
    Produtor: Caves São João
    Grau alcoólico: 12%
    Preço (no Pingo Doce em 1998): 8995$
    Nota (0 a 10): 10

    sexta-feira, 6 de outubro de 2006

    Feiras de vinhos (3) - Sugestões de compra para 2006

    Então cá vai. Depois dum aturado trabalho de compilação e comparação de preços, temos aqui uma extensa lista de vinhos disponíveis nos hipermercados. Claro que a escolha, como sempre, é subjectiva, e só colocamos aqui os vinhos que nos dão garantias e que achamos que merecem o preço que custam. Sejam caros ou baratos, o que importa é a relação qualidade/preço.

    Os preços referenciados são os de feira de vinhos. Há outros disponíveis que não estão com preço de feira, mas que podem ser encontrados à venda. Temos dois exemplares assinalados com um asterisco. *

    Dum modo geral, os melhores preços são os do Jumbo, que é o que apresenta também maior variedade. A seguir vem o Feira Nova, com bons preços mas menos opções. O Continente, ao contrário do que se poderia esperar, tem menor escolha e perde nos preços. O Corte Inglês, apesar de algumas opções que não há nos outros, é o mais caro dos quatro. Portanto, está tudo dentro das previsões. Para comprar barato o melhor é ir ao Jumbo ou ao Feira Nova.

    Claro que em muitos casos as diferenças são de meia-dúzia de cêntimos ou pouco mais, o que poderá não justificar a deslocação a outro lado. No entanto, se pretender ir a mais do que uma feira, estas referências podem servir como bitola para planear o que comprar em cada uma.

    Boas compras.

    tuguinho e Kroniketas, enófilos esforçados e esclarecidos

    Verdes
    Deu-La-Deu, Alvarinho (B) - 5,18 € - Jumbo
    Muralhas de Monção (B) - 2,99 € - Jumbo
    Quinta de Azevedo (B) - 2,97 € - Jumbo
    Solar das Bouças (B) - 3,58 € - Continente e Feira Nova


    Douro
    Planalto (B) - 3,85 € - Corte Inglês
    Porca de Murça Reserva (B) - 3,58 € - Feira Nova
    Quinta de Cidrô, Sauvignon Blanc (B) - 4,85 € - Corte Inglês
    Callabriga (T) - 12,79 € - Jumbo
    Cheda (T) - 2,97 € - Jumbo
    Duas Quintas (T) - 6,48 € - Feira Nova
    Evel (T) - 2,89 € - Continente e Feira Nova
    Foral, Grande Escolha (T) - 4,75 € - Corte Inglês
    Porca de Murça Reserva (T) - 5,48 € - Jumbo
    Quinta do Côtto (T) - 7,49 € - Continente
    Quinta do Vallado (T) - 5,28 € - Feira Nova
    Quinta dos Aciprestes (T) - 4,98 € - Corte Inglês e Feira Nova
    Vila Régia (T) - 2,79 € - Continente
    Vinha Grande (T) - 8,58 € - Jumbo


    Trás-Os-Montes
    Bons Ares (B) - 5,45 € - Corte Inglês
    Bons Ares (T) - 9,85/9,90 € - Corte inglês e Continente
    Grantom (T) - 4,75 € - Corte Inglês


    Dão
    Borges Reserva (T) - 9,75 € - Corte Inglês
    Borges, Touriga Nacional (T) - 9,75 € - Corte Inglês
    Casa de Santar (T) - 4,49 € - Continente
    Casa de Santar Reserva (T) - 8,27 € - Jumbo
    Milénio, Touriga Nacional e Aragonês (T) - 2,99 € - Continente
    Pipas (T) - 7,95 € - Corte Inglês
    Quinta das Maias (T) - 5,45 € - Corte Inglês
    Quinta de Cabriz, Colheita Seleccionada (T) - 2,59 € - Corte Inglês
    Quinta de Cabriz Reserva (T) - 6,98 € - Jumbo e Feira Nova
    Quinta dos Carvalhais (T) - 7,68 € - Jumbo
    Sogrape Reserva - 9,89 € - Jumbo *

    Bairrada/Beiras
    Aliança Clássico (T) - 2,77 € - Jumbo
    Frei João (T) - 1,89 € - Continente
    Luís Pato (T) - 4,45 € - Continente
    Marquês de Marialva Reserva, Baga (T) - 4,29 € - Feira Nova
    Quinta das Bágeiras (T) - 4,35 € - Corte Inglês
    Quinta de Foz de Arouce (T) - 9,95 € - Corte Inglês
    Quinta do Poço do Lobo, Cabernet Sauvignon (T) - 4,45 € - Corte Inglês
    São Domingos Reserva (T) - 3,28 € - Feira Nova


    Ribatejo
    Fiúza - Caixa com 4 garrafas (Sauvignon Blanc, Chardonnay, Merlot e Cabernet Sauvignon) - 15,67 € - Jumbo
    Fiúza, Cabernet Sauvignon (T) - 6,99 € - Corte Inglês
    Padre Pedro (T) - 2,99 € - Jumbo
    Quinta da Alorna (T) - 2,68 € - Feira Nova


    Estremadura
    Grand'arte, Alvarinho (B) - 4,99 € - Corte Inglês

    Bucelas
    Bucellas Caves Velhas (B) - 3,25 € - Jumbo
    Prova Régia (B) - 2,89 € - Jumbo
    Quinta da Romeira, Chardonnay e Arinto (B) - 5,39 € - Jumbo


    Terras do Sado
    Adega de Pegões, Colheita Seleccionada (B) - 2,87 € - Jumbo
    BSE (B) - 3,29 € - Continente e Feira Nova
    Catarina (B) - 3,18 € - Jumbo
    João Pires (B) - 4,48 € - Jumbo
    Periquita (T) - 3,49 € - Continente
    Quinta de Camarate (T) - 6,15 € - Jumbo


    Alentejo
    Aragonês (Esporão) (T) - 10,47 € - Jumbo
    Bom Juiz Reserva (T) - 5,98 € - Feira Nova
    Borba (T) - 2,38 € - Continente e Feira Nova
    Borba Reserva, Rótulo de Cortiça (T) - 6,89 € - Feira Nova
    Carmim, Trincadeira (T) - 3,88 € - Jumbo
    Convento da Tomina (T) - 5,39 € - Jumbo
    Dom Martinho (T) - 5,28 € - Jumbo
    Encostas do Enxoé (T) - 4,98 € - Feira Nova
    Escolha António Saramago (T) - 8,97 € - Jumbo
    Esporão Reserva (T) - 12,38 € - Jumbo
    Herdade do Peso (T) - 12,95 € - Jumbo
    João Portugal Ramos, Aragonês - 9,38 € - Jumbo *
    João Portugal Ramos, Tinta Caiada (T) - 9,45 € - Corte Inglês
    João Portugal Ramos, Trincadeira (T) - 8,89 € - Jumbo e Continente
    José de Sousa (T) - 6,15 € - Jumbo
    Lóios (T) - 2,69 € - Jumbo
    Marquês de Borba (T) - 4,98 € - Jumbo e Continente
    Monsaraz (T) - 1,98 € - Jumbo
    Montado (T) - 2,65 € - Corte Inglês
    Monte das Servas (T) - 4,48 € - Continente
    Monte Velho (T) - 3,36 € - Jumbo
    Reguengos Garrafeira dos Sócios (T) - 7,79 € - Jumbo
    Reguengos Reserva (T) - 3,78 € - Jumbo
    Tinto da Talha (T) - 2,59 € - Jumbo
    Tinto da Talha, Grande Escolha (T) - 6,68 € - Jumbo
    Touriga Nacional (Esporão) (T) - 12,90 € - Continente
    Vale Barqueiros (T) - 3,48 € - Feira Nova
    Vinha da Defesa (T) - 6,28 € - Feira Nova


    Espumantes
    Castas de Monção, Alvarinho e Trajadura (B) - 6,67 € - Jumbo
    Vértice Reserva Bruto (B) - 10,78 € - Jumbo


    Generosos
    Ramos Pinto 10 Anos - Quinta da Ervamoira - 19,97 € - Jumbo
    Ramos Pinto LBV - 12,35 € - Jumbo

    terça-feira, 26 de setembro de 2006

    Feiras de vinhos (2)

    Informação em cima da hora. Começaram as feiras do Jumbo, do Continente, do Feira Nova e do Corte Inglês. Vão até 15, 15, 18 e 22 de Outubro, respectivamente.

    tuguinho e Kroniketas, enófilos atentos e esforçados

    sábado, 23 de setembro de 2006

    Feiras de vinhos (1) - A nova pseudo-feira do Pingo Doce




    Comecei a frequentar a feira de vinhos do Pingo Doce em 1993, ano em que comecei a interessar-me por aprofundar o meu conhecimento acerca de vinho depois de ter visto o catálogo do ano anterior. A feira do Pingo Doce, tanto quanto me lembro, foi pioneira em certames do género e para nós, aqui nas Krónikas, foi uma referência durante mais de 10 anos. Os seus catálogos foram crescendo até se tornarem verdadeiros tratados de vinicultura, quase em formato de jornal, onde o consumidor mais leigo podia aprender os segredos do vinho com facilidade.

    O Pingo Doce foi ainda pioneiro num conceito da altura, o “Vinho da Feira”, que era comercializado com a marca Pingo Doce e resultava da compra de toda a produção a um determinado produtor, para lançamento exclusivo desse vinho na feira com o rótulo da cadeia de supermercados (a imagem que temos é de 1992) . O passo seguinte foi a criação dos vinhos com a marca Pingo Doce, produzidos em exclusivo para a empresa. A gama foi crescendo até ter marcas em todas as principais regiões vitivinícolas do país, como actualmente (Verdes, Douro, Dão, Bairrada, Estremadura, Ribatejo, Terras do Sado, Alentejo), conseguindo angariar para essa estratégia alguns dos enólogos mais famosos, tais como Anselmo Mendes, Virgílio Loureiro, António Saramago, Nuno Cancela de Abreu, Domingos Soares Franco, João Portugal Ramos, entre outros. A par disto foram ainda estabelecidas parcerias para a produção em exclusivo para o Pingo Doce de algumas marcas de vinho bem conhecidas.

    De ano para ano, o catálogo do Pingo Doce era aguardado com alguma ansiedade dado o manancial de informação que fornecia. Foi através do Pingo Doce que adquirimos algumas preciosidades que ainda repousam na garrafeira, como garrafas de litro e meio de Dão Pipas de 1970 ou Porta dos Cavaleiros de 1975. Mais recentemente a feira começou a incorporar maior variedade de vinhos raros, sob o lema “Raros e preciosos”. Noutros casos era fornecido um roteiro gastronómico ou uma receita tradicional a acompanhar os vinhos apresentados para cada região. Os próprios enólogos que colaboravam com a feira deixavam no catálogo as suas impressões acerca das castas ou das regiões em que trabalhavam.

    Foram também surgindo propostas de garrafeira, em que no catálogo eram apresentadas sugestões de diversos tipos de vinho para constituir uma garrafeira abrangendo as várias regiões. Juntamente com os vinhos eram apresentadas sugestões de consumo (para algumas das garrafas adquiridas nessas ocasiões ainda vou consultar os catálogos, que guardo religiosamente, para saber quando e com quê esses vinhos devem ser consumidos). Dum modo geral, a feira do Pingo Doce - mesmo que não fosse a mais barata - constituía a nossa bússola, pois era aí que apareciam os vinhos melhores e mais raros, que normalmente não era possível adquirir noutras ocasiões. Tirámos algumas imagens desses catálogos para ilustrar o seu conteúdo.

    Pelo meio ainda houve, em 1998 e 1999, duas feiras do vinho verde, entre Maio e Junho, aproveitando a época para dar a conhecer melhor essa variedade, o que também me pareceu uma iniciativa interessante.

    Até que... o ano passado, subitamente, o Pingo Doce resolveu desinvestir na feira e apresentou apenas uma selecção reduzida de vinhos a preços abaixo dos 5 euros. O catálogo emagreceu a olhos vistos, ficando reduzido quase a um folheto sem interesse de maior, e os vinhos apresentados não trouxeram nada de original em relação às restantes feiras de vinhos. Curiosamente, esse papel pareceu ter passado para o Feira Nova, que apresentou sugestões de garrafeira do género que o Pingo Doce costumava fazer.

    Este ano a coisa parece ter piorado ainda mais. Neste momento decorre, desde o dia 13 e até 10 de Outubro, um certame sob o lema “Vinho à la caixa”, em que se propõe ao cliente comprar uma caixa de 6 garrafas dum determinado vinho e pagar apenas 5. Não há catálogo, apenas umas tiras publicitárias penduradas no tecto com os preços e a descrição dos vinhos. Mais uma vez em selecção reduzida (são cerca de 20 vinhos), embora desta vez um pouco mais variada (está lá, por exemplo, o Esporão Reserva).

    Não havendo catálogo, só me restou espreitar para as tiras e registar alguns dados. O Esporão está a 13,90 € a garrafa, o Duas Quintas a 7,99 €. Temos outros baratos e bons, como o Frei João (2,29 €), o Quinta de Saes (2,99 €), o Monte Velho e o Reguengos Reserva (3,99 €), entre vários outros. Vale a pena comprá-los, mas falta saber se vale a pena comprar 5 garrafas para ganhar uma grátis, pelo que esta opção só interessa a quem quiser comprar em quantidade, e também falta saber se estes vinhos não vão aparecer mais baratos nas próximas feiras.

    Resta saber se isto é apenas um aperitivo para uma feira de vinhos a sério ou se o grupo Jerónimo Martins resolveu “matar” aquela que foi durante mais de uma década a melhor feira de vinhos do país. Estou a falar com conhecimento de causa, pois aquilo que vemos agora no Jumbo, no Continente, no Corte Inglês ou no Carrefour são imitações do que o Pingo Doce já tinha há muito tempo. Se assim for, só me resta dizer “paz à sua alma”, pois a verdadeira feira de vinhos do Pingo Doce acabou. Esta que lá está agora é uma pseudo-feira. Pode ser que a feira a sério passe para o Feira Nova...

    Kroniketas, enófilo atento