sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

No meu copo 421 - Palácio da Brejoeira, Alvarinho 2012; Soalheiro, Alvarinho 2013

De dois vinhos bons passamos para dois vinhos brilhantes.

Palácio da Brejoeira: excelente, como sempre! É um daqueles vinhos para os quais até é difícil encontrar palavras que descrevam a sua excelência. Quase sublime. Elegância e suavidade a toda a prova. Finesse, aromas delicados e quase veludo na boca.

Se não é o melhor verde ou o melhor Alvarinho do país, não deve andar longe. E está tudo dito.

Quanto ao Soalheiro, não lhe fica muito atrás. Ano após ano tem vindo a ganhar terreno no panorama dos Alvarinhos, guindando-se consistentemente a um lugar entre os melhores e mais aclamados. Belo aroma frutado com notas tropicais, excelente acidez, boca vibrante, elegante e longa, final persistente e suave.

Um prazer para beber, e beber, e beber...

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Palácio da Brejoeira, Alvarinho 2012 (B)
Região: Vinhos Verdes (Monção)
Produtor: Palácio da Brejoeira Viticultores
Grau alcoólico: 13%
Casta: Alvarinho
Preço em feira de vinhos: 12,99 €
Nota (0 a 10): 9

Vinho: Soalheiro, Alvarinho 2013 (B)
Região: Vinhos Verdes (Melgaço)
Produtor: Vinusoalleirus
Grau alcoólico: 12,5%
Casta: Alvarinho
Preço em feira de vinhos: 8,48 €
Nota (0 a 10): 8,5

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

No meu copo 420 - Planalto Reserva 2013; Vinha Grande rosé 2013

 

Planalto: eis um vinho que nunca nos desilude. É um daqueles vinhos consistentes de ano para ano, que ao longo do tempo se vão revelando como apostas sempre seguras, em que se pode confiar numa boa compra sem grande risco de decepções.

Aromático, equilibrado, perfumado, ligeiramente floral. Bebe-se sempre com agrado, no Verão ou no Inverno, com frio ou com calor. Não é o vinho mais brilhante que existe, mas nunca nos desilude.

Quanto ao Vinha Grande rosé, foi uma novidade absoluta em termos de prova, e desde logo começou por uma surpresa na cor: o vinho é dum rosa completamente desmaiado, quase branco. A cor pode não ser apelativa quando se está à espera dum vinho rosado, mas a prova contraria a possível má impressão inicial. O vinho apresenta-se com bastante frescura e acidez, com aroma ligeiro a flores e notas a frutos vermelhos e tropicais, boa estrutura e final persistente. A falta de cor deve-se às condições da colheita, que fizeram as uvas perder grande parte da coloração, mas não é por aí que o vinho deixa de ser agradável.

Segundo fomos informados, o vinho não esteve à prova no Encontro com o Vinho e os Sabores porque os clientes, aparentemente, estão a reagir mal à falta de cor. Pois é, mas o que conta é o que está dentro da garrafa... Esqueçam a cor e provem-no, porque vale a pena.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Região: Douro
Produtor: Casa Ferreirinha - Sogrape

Vinho: Planalto Reserva 2013 (B)
Grau alcoólico: 12,5%
Castas: Viosinho, Malvasia Fina, Gouveio, Códega, Arinto
Preço em feira de vinhos: 3,95 €
Nota (0 a 10): 7,5

Vinho: Vinha Grande 2013 (R)
Grau alcoólico: 12%
Casta: Touriga Nacional
Preço: 8,99 €
Nota (0 a 10): 8

sábado, 13 de dezembro de 2014

No meu copo 419 - Esporão, Verdelho 2011; Esporão, Duas Castas 2013

Regressamos a dois brancos do Esporão que já se impuseram nas nossas preferências. O monocasta Verdelho e o Duas Castas que, seguindo o mesmo princípio do Quatro Castas tinto, é composto pelas duas melhores castas brancas de cada ano, pelo que a sua composição é muito variável.

O Verdelho, mais uma vez, correspondeu inteiramente ao que se esperava. Aroma intenso com notas tropicais, vivo, persistente e estruturado na boca, com uma acidez refrescante e apetitosa, que o torna um vinho guloso e de que apetece sempre beber mais. Para nós tornou-se um branco incontornável, e consideramo-lo um dos melhores do país.

Quanto à versão mais recente do Duas Castas, apresenta-se suave, aromático, persistente e estruturado. Um ligeiro aroma cítrico complementado com notas minerais, boa acidez e elegância. Também é uma boa aposta, tanto mais notável quanto é verdade que estamos a falar dum branco da planície, de clima quente.

Como o Esporão consegue produzir brancos com esta frescura, acidez e leveza, é um feito de realçar. Só pode ser um caso de extrema competência e sabedoria.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Região: Alentejo (Reguengos)
Produtor: Esporão

Vinho: Esporão, Verdelho 2011 (B)
Grau alcoólico: 13,5%
Casta: Verdelho
Preço em feira de vinhos: 7,98 €
Nota (0 a 10): 9

Vinho: Esporão, Duas Castas 2013 (B)
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Gouveio (70%), Antão Vaz (30%)
Preço em feira de vinhos: 7,75 €
Nota (0 a 10): 8

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

9 é o número


O tempo passa. E hoje o tempo passado perfaz nove anos completos desde a fundação deste blog, que surgiu como uma emanação das Krónikas Tugas, que hoje completam já 11 anos de existência. Os anos passam e os vinhos também, pelas nossas garrafeiras e, muito mais importante, pelas nossas gargantas.

No ano que quase finda, como nos outros, conhecemos novas pessoas e novos vinhos, e fortalecemos as relações com quem já conhecíamos – tanto pessoas como vinhos.

No ano que se avizinha, se for mais do mesmo, já é bom.

Nove é um bom número, mas dez ainda nos parece melhor – assim estejamos por cá daqui a um ano, para os comemorar.

Obrigado

tuguinho e Kroniketas, enófilos comemorativos

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

No meu copo 418 - Tágide, Chardonnay 2012

Já este ano tínhamos provado um vinho muito interessante desta marca, produzido a partir das castas Arinto e Vital, e que pareceu um caso muito bem sucedido. Agora deparámo-nos com uma outra versão em que, sem se perceber porquê, aquelas castas foram substituídas pelo Chardonnay. Existe uma certa mania do Chardonnay em Portugal (a juntar à mania da madeira), e em muitos casos, infelizmente, os resultados não são famosos.

Foi o que aconteceu com este exemplar. Liso, chato, sem frescura e sem alma, completamente desinteressante, não agradou a ninguém. Todos os que tinham provado a versão anterior concordaram que este vinho não tinha nada que o recomendasse.

Há apostas que não se compreendem...

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Tágide, Chardonnay 2012 (B)
Região: Lisboa (Óbidos)
Produtor: Quinta da Barreira
Grau alcoólico: 13,5%
Casta: Chardonnay
Nota (0 a 10): 3

sábado, 6 de dezembro de 2014

No meu copo 417 - João Portugal Ramos, Loureiro 2013; Vila Santa Reserva branco 2012

Continuando a provar alguns dos vinhos que simpaticamente nos têm sido enviados pela João Portugal Ramos Vinhos, provámos recentemente dois brancos. Um deles é novidade, um verde da casta Loureiro, depois de já termos provado o excelente Alvarinho aquando da apresentação de várias novidades no Hotel Altis Belém.

Apresentou-se suave, floral e perfumado, de aroma algo discreto e não muito intenso. Na boca mostrou persistência média e final um pouco curto.

O Vila Santa Reserva branco tinha sido uma óptima revelação na prova anterior, mas desta vez tivemos azar com a garrafa. O vinho mostrou-se sem frescura, com aroma cansado e cheiro a rolha. Ainda lhe demos tempo para ver se com o arejamento o vinho evoluía para melhor, mas de nada serviu. Ao fim de algumas horas morreu nos copos e na garrafa.

Acontece a qualquer um, e nunca o podemos prever. Ficamos a aguardar por uma próxima oportunidade para fazer a contraprova e confirmar as excelentes impressões que tínhamos colhido anteriormente.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Produtor: João Portugal Ramos Vinhos

Vinho: João Portugal Ramos, Loureiro 2013 (B)
Região: Vinho Verde
Grau alcoólico: 12%
Casta: Loureiro
Preço: 3,15 €
Nota (0 a 10): 6,5

Vinho: Vila Santa Reserva 2012 (B)
Região: Alentejo (Estremoz - Borba)
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Arinto, Alvarinho e Sauvignon Blanc
Preço: 9,99 €
Nota (0 a 10): não classificado

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

No meu copo 416 - QM, Alvarinho 2012; Quinta da Aveleda Colheita Selecionada, Loureiro e Alvarinho 2012


Temos aqui dois verdes, em que um não é verde mas Regional Minho por causa da utilização do Alvarinho fora da sub-região autorizada (tema em debate nos últimos meses na região).

O QM Alvarinho foi uma estreia nas nossas provas. Apresenta-se muito aromático e suave, fresco, elegante, redondo e persistente. Não sendo um Alvarinho excepcional, não decepciona, podendo merecer novas provas, até porque o preço é convidativo.

Quanto ao Quinta da Aveleda Colheita Selecionada, já em repetição, manteve o perfil da prova anterior: leve, suave, aromático, notas florais (Loureiro) bem ligadas com um fundo de tropicalidade (Alvarinho). Uma aposta barata para um vinho não muito complexo e despretensioso, fácil de beber e adequado para mariscos, entradas ou pratos de peixe leves e não muito requintados.

Kroniketas, enófilo esclarecido


Vinho: QM, Alvarinho 2012 (B)
Região: Vinhos Verdes (Melgaço)
Produtor: Quintas de Melgaço
Grau alcoólico: 13%
Casta: Alvarinho
Preço em feira de vinhos: 5,99 €
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Quinta da Aveleda Colheita Selecionada, Loureiro e Alvarinho 2012 (B)
Região: Regional Minho
Produtor: Aveleda
Grau alcoólico: 11,5%
Castas: Loureiro, Alvarinho
Preço em feira de vinhos: 3,39 €
Nota (0 a 10): 7

sábado, 29 de novembro de 2014

Na Empor Spirits & Wine 1 - Quinta de Foz de Arouce

 

No mundo do vinho, apesar da crise que tem assolado o país nos últimos anos, e embora se supusesse que este seria inevitavelmente um sector bastante afectado, a verdade é que os sinais que passam para o exterior parecem indicar o contrário.

Recordando os locais onde me deslocava com alguma frequência há 2, 3, 4 anos para participar em provas de vinhos em Lisboa, de memória destaco 3 ou 4, os mais habituais: Wine o’clock, nas Amoreiras, Garrafeira Nacional, na baixa, Delidelux, em Santa Apolónia, Coisas do Arco do Vinho, no Centro Cultural de Belém, e Garrafeira Internacional, no Príncipe Real (menos frequente). Mesmo com estes, por vezes era difícil gerir o calendário das provas, porque em várias ocasiões houve provas simultâneas em 3 ou 4 locais. Para além destas, claro, havia as clássicas, como algumas na baixa, a Agrovinhos em Alcântara ou a histórica Garrafeira de Campo de Ourique.

A verdade é que, apesar da crise, cada vez há mais e desde há 2 ou 3 anos as garrafeiras (tal como os wine bars) têm surgido na capital quase como cogumelos. Compilando alguns dos convites que vou recebendo via Facebook para diversos eventos e mais algumas informações (e vou esquecer algumas, com certeza), registei estes espaços de existência mais ou menos recente:

• Adega & Gourmet (Campo de Ourique)
• Aprazível (Chiado)
• Algés com sabores (Algés)
• Empor Spirits & Wine (Rua Castilho – Parque Eduardo VII)
• Estado d’Alma (Alcântara)
• Garrafeira de Santos (Janelas verdes – Santos)
• Garrafeira São João (S. Domingos de Benfica)
• Hill’s Bottled (Avenidas Novas – Saldanha)
• Living Wine (Avenida de Roma)
• Néctar das Avenidas (Avenidas Novas – Saldanha)
• Portugal Wine Room (Bairro de Alvalade)
• The Wine Company (S. Domingos de Benfica)
• Wines 9297 (Telheiras)

Já tive oportunidade de me deslocar a quase todas pelo menos uma vez (há muitos dias em que decorrem 5 ou 6 eventos em simultâneo), para provas ou para fazer compras. Alguns até encontrei por acaso ao passar na rua... A verdade é que, a julgar pela proliferação de espaços para venda e degustação de vinhos, o mercado está bem... e recomenda-se.

Vem isto a propósito, e depois da maior edição de sempre do Encontro com o Vinho e os Sabores (19.000 visitantes, ao que consta), de uma deslocação efectuada já há algumas semanas a um destes novos espaços, dirigido por uma “velha” conhecida de outra loja. Trata-se da Empor Spirits & Wine, uma nova garrafeira localizada num ponto estratégico da cidade e de fácil acesso, quase junto ao alto do Parque Eduardo VII e com estacionamento relativamente fácil ao fim da tarde, onde decorreu uma prova vertical de brancos e tintos da Quinta de Foz de Arouce, um dos produtores com o dedo enológico de João Portugal Ramos. Entre os vinhos provados encontrava-se um daqueles que viriam a ser premiados com a “Escolha da Imprensa” no Encontro com o Vinho e os Sabores, o tinto Vinhas Velhas de Santa Maria 2009.

Embora não sejam dos vinhos que tenho provado com mais frequência, conheço a marca há bastantes anos e quando surge a oportunidade lá se vai provando uma ou outra colheita. Novidade, contudo, foi a prova dos brancos que, curiosamente, me surpreenderam mais que os tintos. Gostei em particular da acidez, da persistência, da profundidade aromática a par com alguma mineralidade, no que pareceu ser um branco bastante polivalente e com bom potencial de guarda. Foram provados apenas dois vinhos, mas prometeram bastante.

Quanto aos tintos, foram percorridas várias colheitas que mostraram alguma evolução (as mais antigas) mas muita consistência e estrutura, ou não estejamos paredes meias com a Bairrada. Curiosamente, o tinto que mais se destacou na opinião dos presentes foi precisamente o 2009, isto ainda antes de ser um dos premiados com a “Escolha de imprensa”. Profundo, aromático, com alguma robustez mas sem perder elegância, sem dúvida um belo vinho. Parecia premonitório...

Quanto à loja propriamente dita, o portefólio, embora não seja muito vasto (o espaço também não é...) está bem selecionado, fugindo um pouco ao mais comum e apostando sobretudo em vinhos da gama média-alta. O espaço está bem decorado, bonito, bem arrumado, é agradável estar lá dentro, com uma ampla montra para a rua. Se for bem gerido (e isto de vender vinho não se trata “apenas” de vender o vinho) tem todas as condições, até pela sua localização privilegiada no coração da cidade, para ter sucesso. Pela minha parte, tentarei dar o meu pequeno contributo dentro das minhas possibilidades, divulgando o que por lá se faz e adquirindo alguma coisa sempre que for possível. Afinal é para isso que estes espaços existem, para nós consumidores os frequentarmos. Como não se pode ir a todas, vai-se aparecendo onde e quando se pode.

Kroniketas, enófilo itinerante

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Encontro com o Vinho e os Sabores 2014 (4ª parte)

Resta falar do Encontro propriamente dito, por onde fui deambulando com os acompanhantes de circunstância que apareceram ao longo dos 3 dias. Nos intervalos das provas especiais fui provando nos vários stands um pouco o que calhava, o que conhecia pior, o que havia de novo. Com uma prova especial em cada dia, não sobrou muito espaço nem vontade para provar muito mais, pois havia que moderar a quantidade consumida.

Este ano o recinto principal foi estendido com stands dos produtores até ao fim, sendo a área de petiscos deslocada para uma sala lateral, o que me pareceu uma boa decisão, pois assim não só se ganhou espaço no recinto de provas como também se autonomizou a zona de comidas, permitindo alargar a oferta e disponibilizar mesas para os comensais se sentarem um pouco. Com o passar dos anos as coisas vão-se afinando a pouco e pouco, e é sempre possível melhorar o que está menos bem.

Também é de realçar que a prova dos vinhos premiados também correu melhor, não só pelo espaço em que decorreu, como pelo facto de os vinhos estarem à temperatura correcta, ao contrário do ano transacto, em que no início todos os vinhos estavam mais ou menos mornos...

Também a organização dos stands foi agrupada de modo diferente, criando zonas dedicadas às regiões, o que facilita a procura do que se quer encontrar.

Quanto aos vinhos, provou-se de tudo, pelo que não há nada para destacar. Exceptua-se o facto de eu e o tuguinho ainda termos passado pelo stand das Caves São João e termos trazido duas garrafas do Quinta do Poço do Lobo, de 1995 e 1996. Para fechar o certame em beleza...

Kroniketas, enófilo itinerante

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Encontro com o Vinho e os Sabores 2014 (3ª parte)

Os gloriosos anos 60 das Caves São João


   

O princípio da tarde do último dia foi reservado para mais uma prova especial, dedicada aos vinhos das Caves São João lançados na década de 60 do século passado. Apresentados pelo enólogo José Carvalheira e pela gerente Célia Alves, ao longo de 1 hora e meia desfilaram colheitas de brancos e tintos, do Dão e da Bairrada, com base nas marcas Porta dos Cavaleiros e Frei João.

Houve Colheitas e houve Reservas. Houve ainda, no final, um Caves São João Reserva Particular 1967 (um vinho guloso, porventura o melhor da prova) e uma Aguardente Velhíssima de 1965, a primeira certificada com denominação Bairrada. Mas houve, sobretudo, uma viagem inigualável pelo tempo para encontrar vinhos de excelência que fazem parte da história e do património vinícola nacional, verdadeiros embaixadores da essência do Dão e da Bairrada e que as Caves São João zelosamente guardaram ao longo de décadas. Actualmente, é a empresa com maior e mais diversificado património vinícola em Portugal (cerca de 1 milhão de garrafas em cave) e a mais antiga em actividade no sector - desde 1920, à beira de completar um século, o que tem motivado o lançamento de várias colheitas comemorativas desde os 90 anos de história, onde também se enquadra esta aguardente velhíssima prestes a sair para o mercado.

Tentar descrever vinhos de 1963, 64, 66, 67 é quase uma blasfémia. Vinhos destes não se descrevem, saboreiam-se e aspiram-se até ao último odor. Vamos, por isso, listar apenas os vinhos provados e resumir algumas curtas considerações.

Do Dão tivemos o Porta dos Cavaleiros branco 1964, os tintos 1963, 1966 e Reserva 1966. Da Bairrada o Frei João branco 1966, os tintos Reserva 1963, Reserva 1966 e Colheita 1966.

Os Porta dos Cavaleiros, habitualmente com uma presença de Baga na ordem dos 25% no meio do Dão, são habitualmente longos, suaves, elegantes, com taninos presentes mas muito macios, com um certo aroma a fundo do bosque. Mostraram grande saúde tanto no nariz como na boca.

Os Frei João mostraram o carácter da Bairrada, com muitas notas de aromas terciários com muita evolução, taninos ainda sólidos, boa estrutura e final longo, alguns ainda muito carregados na cor e com acidez bem presente, a mostrarem como é notável o potencial de evolução dos vinhos da região.

Quanto aos brancos provados, mostraram ainda boa saúde e alguma fruta e acidez, embora eu não seja tão apreciador do género como nos tintos.

Mais uma vez comprovou-se aquilo que digo muitas vezes: quem nunca provou vinhos velhos não faz ideia do que perde e nunca apreciou verdadeiramente um néctar destes em todo o seu esplendor.

Obrigado às Caves São João e aos seus responsáveis, presentes numa mesa bem preenchida, por mais este momento memorável.

Kroniketas, enófilo itinerante

sábado, 22 de novembro de 2014

Encontro com o Vinho e os Sabores 2014 (2ª parte)

Prova vertical das Cortes de Cima - Incógnito e Homenagem a Hans Christian Andersen


  
   

A segunda etapa do primeiro dia terminou com uma prova vertical das Cortes de Cima, com a degustação de várias colheitas do Incógnito sendo algumas delas em paralelo com o Homenagem a Hans Christian Andersen (escritor dinamarquês).

Apresentada pelo enólogo Hamilton Reis, este começou por fazer um breve historial da casta Syrah (crê-se que originária do Vale do Ródano), a base dos vinhos em prova, no mundo e nas Cortes de Cima em particular, um dos primeiros locais em Portugal onde a mesma foi plantada, em 1991.

O Incógnito viu a luz do dia em 1998 com uma casta à época não autorizada no Alentejo, pelo que sempre foi lançado como vinho regional. O próprio nome do vinho pretendeu realçar os obstáculos legais que foram encontrados para fazer um vinho de Syrah no Alentejo. Com o tempo tornou-se um ícone da propriedade e um dos exemplares mais apreciados dos vinhos desta casta, de que não sou apreciador em particular no Alentejo. No entanto, os vinhos provados mostraram a razão de ser da fama (e do preço) deste vinho, apresentando uma personalidade e uma estrutura fora do comum. O Incógnito provém sempre duma mesma parcela de vinha, com condições particulares dentro da propriedade, e só em anos de qualidade excepcional. De outras parcelas sai, por vezes, uma espécie de “segundo Incógnito”, o Homenagem a Hans Chrsitian Andersen, com características diferentes, mais aberto, mais leve, mais frutado e com menos concentração.

Em prova estiveram, no total, 12 vinhos distribuídos entre estas duas marcas. Dentro das características mais marcantes em cada vinho, foi curioso observar que alguns vinhos de colheitas mais antigas se apresentaram mais robustos que alguns mais jovens, o que mostra a longevidade deste vinho.

Do Incógnito desfilaram as colheitas de 1999 (15% de álcool), 2002 (15%), 2004 (14,5%), 2005 (14,5%), 2008 (14,5%) 2009 (14%) e 2011 (14%), tendo igualmente sido provadas, a par dos Incógnitos, as colheitas do Homenagem dos anos de 2004 (14,5%), 2007 (14,5%), 2008 (14%), 2009 (14%) e 2010 (14%).

Dum modo geral o Incógnito apresenta-se mais concentrado e robusto, com notas balsâmicas, boa estrutura e taninos poderosos, enquanto o Homenagem mostra um carácter mais jovem, frutado, redondo e macio.

Claro que entre tantas colheitas as variações foram imensas. O Incógnito 1999 com clara evolução na cor e no aroma, com notas compotadas, concentrado mas já aberto e suave, a mostrar que já não tem mais para melhorar. O 2002 apresentou-se mais vivo e vibrante na boca, mais frutado, longo e estruturado. 2004 e 2005 mostraram-se ainda rugosos, duros, algo polidos mas com muito para amaciar. Os mais recentes mostraram-se mais frutados e macios, com destaque para o de 2011 que pareceu ser um dos melhores de sempre.

Nas colheitas do Homenagem as de 2004 e 2007 foram as mais equilibradas entre o corpo, a fruta, a estrutura e a elegância. O 2008 mostrou aroma a fruta ainda jovem mas final algo curto, o 2009 mais redondo mas menos complexo e o mais recente, 2010, mostrou a fruta algo verde e a madeira ainda demasiado marcada.

No conjunto, e feito o balanço, tivemos uma excelente amostra de belíssimos vinhos, de qualidade inquestionável e que mereceram bem a ampla plateia que tiveram a presenciar a prova. Estes sim, são vinhos que justificam o bom nome que a casa granjeou, conquanto preço do Incógnito seja, à partida, um factor inibidor da compra (à volta de 60 € em média para o Incógnito).

Kroniketas, enófilo itinerante

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Encontro com o Vinho e os Sabores 2014 (1ª parte)

Prémios Escolha da Imprensa

  
 

Mais um ano, mais um encontro. Desta vez tive a possibilidade de me deslocar 3 dias consecutivos ao Encontro com o Vinho e os Sabores e ainda, pela primeira vez, assistir a algumas actividades paralelas. E assim me desloquei ao Centro de Congressos de Lisboa na 6ª feira, sábado e domingo (dias 7, 8 e 9), repartindo provas e eventos pelos 3 dias.

Na 6ª feira comecei por assistir ao anúncio dos prémios “Escolha da Imprensa”, onde foram anunciados 47 vinhos premiados por um painel de 25 provadores que escolheram aqueles que consideraram os melhores nas categorias espumante, branco, rosé, tinto e fortificado. Um painel de excelência que no sábado estaria à prova para os jornalistas e bloggers, passando depois a estar disponível para o público em geral (lista dos vinhos premiados na última foto).

Foi por aqui que comecei a minha presença na tarde de sábado, tendo a possibilidade de provar uma parte significativa dos vinhos presentes. Destaque para alguns brancos muito interessantes, com muita frescura e acidez, como o Caladessa, o Terra de Alter, o Paulo Laureano Reserve, o Curtimenta de Anselmo Mendes e, claro, o magnífico Condessa de Santar, para além de um Quinta dos Carvalhais Especial, com uma mistura de 3 colheitas diferentes (2003, 2004 e 2005) que deu um vinho misterioso e complexo, parecendo ter ainda muito tempo para evoluir.

Nos rosés, a categoria menos premiada, achei interessante sobretudo o Bombeira do Guadiana, uma novidade vinda de Mértola que mostrou frescura e aroma floral, sem qualquer sinal enjoativo como acontece com alguns rosés “modernos”, e o Covela, um rosé leve e fresco proveniente da região dos Vinhos Verdes.

Nos tintos, claro, estiveram os pesos pesados, com destaque para os grandiosos Palácio da Bacalhôa e Antónia Adelaide Ferreira, dois vinhos de enorme gabarito expostos lado a lado, bem secundados, entre outros, pelo excelente Marquês de Marialva Confirmado 1991, a expressar a grandiosidade dos vinhos velhos da Bairrada, o Herdade das Servas Reserva, com grande concentração e pujança e a prometer grande longevidade tal como o T da Quinta da Terrugem, o nosso muito amado Reguengos Garrafeira dos Sócios, finalmente a ver reconhecida a sua qualidade dentro de portas, e o Villa Oliveira a expressar toda a elegância e profundidade aromática do Dão. Muito curioso igualmente o 1836, da Companhia das Lezírias, com grande concentração aromática. Passei pelo Quinta de Foz de Arouce 2009, mas como o tinha provado há pouco tempo já não era novidade.

Muito interessante o painel de espumantes, com 7 prémios para as Caves Murganheira, repartidos entre 5 vinhos com a marca da casa e 2 da Raposeira, além de 2 das Caves Aliança.

Nos portos, uma palavra especial para um Niepoort, um Moscatel Roxo da Bacalhôa e o Porto Ferreira Vintage. E com este painel quase que ficava a feira feita...

Kroniketas, enófilo itinerante

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

No meu copo 415 - Adega de Pegões, Touriga Nacional 2008

Aqui fica mais uma prova de um vinho de Pegões, desta vez com a colaboração do Politikos.

Cada vez gosto mais da Península de Setúbal como região produtora de vinhos. Há dias, para acompanhar umas almôndegas bem condimentadas, abri um Adega de Pegões Touriga Nacional 2008. Estava no contra-rótulo que não se devia guardar por mais de 7 anos, de onde decidi ser a altura justa para o provar...

Libertados os primeiros aromas próprios de alguns anos de guarda, este Touriga Nacional desde logo mostrou um nariz intenso onde sobressaía a fruta madura e sobretudo as notas de violetas próprias da Touriga Nacional. A cor, escura, apresentava um levíssimo acobreado, próprio da idade, mas não evidenciando qualquer sinal de decadência. O que se confirmou depois na boca onde se mostrou pleno de saúde, denso e concentrado, mas elegante. Os taninos, redondos mas firmes, evidenciavam uma boa evolução, sem se mostrarem em perda. As notas de especiarias e de tosta, oriundas da barrica onde estagiou oito meses, davam alguma complexidade ao conjunto, e o final de boca prolongava-se q.b. para retiramos prazer de todos os momentos da prova.

Revelou estar num ponto certo de consumo mas da próxima vez não me preocuparei tanto com a advertência do produtor, pois poderia durar seguramente mais uns anos em garrafeira.

A sensação que tenho é que, liberta da ditadura do Castelão, esta região se recria dia a dia... E a Adega Cooperativa de Pegões está a trabalhar muitíssimo bem, com vinhos com uma relação qualidade-preço muito interessante, de que este constitui um bom exemplo.

Politikos, enófilo convidado

Vinho: Adega de Pegões, Touriga Nacional 2008 (T)
Região: Península de Setúbal
Produtor: Cooperativa Agrícola Santo Isidro de Pegões
Grau alcoólico: 14%
Casta: Touriga Nacional
Preço: 6 €
Nota (0 a 10): 7,5

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

No meu copo 414 - Adega de Pegões Colheita Seleccionada tinto 2009; Rovisco Pais Reserva tinto 2009

Continuando na Península de Setúbal, e depois de termos passado pela Casa Ermelinda Freitas e pela José Maria da Fonseca, passamos agora pela Adega de Pegões, da qual provámos dois tintos de 2009.

Um já é mais ou menos um clássico, com nome feito no mercado, tanto na versão em branco como em tinto. O Adega de Pegões Colheita Seleccionada tinto mantém o perfil habitual, com bastante corpo, pujante e robusto, com final longo e alguma complexidade, taninos presentes mas sem se sobreporem aos aromas. No nariz apresenta-se com algum floral e notas a frutos silvestres. Pelo preço que custa continua a ser uma boa aposta para acompanhar pratos de carne bem temperados.

O outro constitui um conhecimento mais recente e revelou-se uma boa surpresa. O Rovisco Pais Reserva (proveniente do nome de um agricultor e industrial de cervejas ligado à região, proprietário dos terrenos onde hoje existe a cooperativa e que doou em testamento uma importante quantia aos hospitais) apresentou-se bem estruturado, com aroma intenso e exuberante, encorpado, vivo e persistente. Algum caramelizado temperado com notas frutadas e florais, taninos suaves e madeira discreta e bem integrada no conjunto.

Embora exista à venda por volta dos 5 €, consegue-se encontrar com alguma sorte por menos de 4 €. Um produto bem conseguido e com boa relação qualidade-preço.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Região: Península de Setúbal
Produtor: Cooperativa Agrícola Santo Isidro de Pegões

Vinho: Adega de Pegões Colheita Seleccionada 2009 (T)
Grau alcoólico: 14%
Castas: Touriga Nacional, Trincadeira, Cabernet Sauvignon, Syrah
Preço em feira de vinhos: 3,99 €
Nota (0 a 10): 7,5

Vinho: Rovisco Pais Reserva 2009 (T)
Grau alcoólico: 14%
Castas: Castelão, Touriga Nacional, Cabernet Sauvignon
Preço em feira de vinhos: 3,74 €
Nota (0 a 10): 8

domingo, 9 de novembro de 2014

No meu copo 413 - Hexagon 2005

Foi a terceira garrafa que abrimos em casa, depois das colheitas de 2000 e 2003.

Arrancou em primeiro lugar, na companhia de outros pesos-pesados, para regar duas lebres estufadas fornecidas pelo caçador de serviço. Esperou na garrafeira o tempo que foi necessário até surgir a ocasião adequada para acompanhar um prato que justificasse a sua abertura.

Pelo que já sabíamos das experiências anteriores, não se esperava que acontecesse alguma surpresa desagradável, a não ser por qualquer acidente dentro da garrafa. E assim se revelou tudo o que lá está. Começa por mostrar um perfil austero, fechado, que vai abrindo lentamente com o tempo (requer-se decantação, impreterivelmente).

Gradualmente vai revelando grande estrutura, corpo que nunca mais acaba, taninos bem firmes e musculados mas redondos, madeira bem integrada, tudo a formar um notável conjunto, cheio de complexidade. Apresenta uma mistura de aromas e sabores com algum caramelo, fruto em passa, frutos pretos e vermelhos, tudo complementado por ligeira tosta da madeira – estamos a repetir-nos em relação ao que escrevemos acerca das outras colheitas que provámos, mas é difícil dizer alguma coisa de novo acerca dum vinho deste gabarito quando nos faltam as palavras para o descrever...

Em suma, nenhuma surpresa em mais uma bela prestação de um grande vinho!

Nota: já neste fim-de-semana tivemos oportunidade de provar a colheita de 2008, no Encontro com o Vinho e os Sabores, e a impressão mantém-se: continua fantástico!

Kroniketas, enófilo esclarecido com o resto da cambada

Vinho: Hexagon 2005 (T)
Região: Península de Setúbal
Produtor: José Maria da Fonseca
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Touriga Franca, Touriga Nacional, Syrah, Tinto Cão, Trincadeira, Tannat
Preço: 34,72 €
Nota (0 a 10): 9

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Os vinhos do Mercado 2014



Tal como prometido, no sábado dia 1 de Novembro lá se juntou a dupla das Krónikas Viníkolas para uma visita à edição de 2014 do Mercado de Vinhos do Campo Pequeno.

Este evento, uma criação recente que ocorre na capital imediatamente antes do grande evento do ano, o Encontro com o Vinho e os Sabores organizado pela Revista de Vinhos, não sendo propriamente uma espécie de ECVS em versão média ou reduzida, apresenta como principal ponto de interesse (e de diferenciação em relação ao evento seguinte) o facto de congregar a presença de muitos produtores de média e de pequena dimensão, com menor visibilidade no mercado e que habitualmente não aparecem nos grandes certames. Temos assim à nossa disposição a possibilidade de provar vinhos que nos são completamente desconhecidos e de percorrer várias vezes o recinto sem gastarmos muito a sola dos sapatos devido à sua dimensão.

Não sendo a montra dos grandes acaba por, como afirmámos, ilustrar horizontes não conhecidos e por ganhar uma complementaridade adequada em relação ao Encontro com o Vinho e os Sabores. Outra vantagem que se pode retirar deste evento é o facto de termos mais tempo para estar num determinado stand a conversar com os produtores sem criar uma fila enorme atrás de nós...

E foi assim que começámos por deparar com o stand da garrafeira Estado d’Alma, onde não resistimos a comprar uma garrafa de Carvalho, Ribeiro & Ferreira Garrafeira 1990, e terminámos no stand das Caves São João (talvez o único grande nome que faz questão de estar presente) a provar os fantásticos vinhos velhos que a sempre disponível gerente Célia Alves faz o favor de nos ir servindo. E foi assim que, por entre amena cavaqueira, de lá trouxemos também um exemplar da última edição comemorativa dos quase 100 anos da empresa: o “93 anos de história”, um vinho produzido no Dão a partir de Touriga Nacional. As edições anteriores, desde o “90 anos”, estão esgotadas no produtor... Pena foi não termos comprado mais garrafas dos vinhos velhos, com destaque para um fantástico Frei João 1985, que está ali para lavar e durar...

Pelo caminho conhecemos alguns produtores que ainda não tínhamos encontrado, como o do “Serras de Grândola”, uma propriedade situada entre Grândola e Melides, perto da costa alentejana, que nos apresentou um muito interessante branco monocasta de Verdelho e um tinto muito elegante; cruzámo-nos com a Herdade das Barras, de Vila Nova da Baronia, com os novos vinhos lançados pela garrafeira Néctar das Avenidas; revimos alguns néctares da Casa da Passarela; passámos pela Quinta da Giesta onde Nuno Cancela de Abreu apresentou um portefólio alargado dos seus vinhos (onde não faltou um exemplar da sua antiga paixão pela região de Bucelas); conhecemos um Alvarinho de Vale dos Ares, onde trocámos dois dedos de conversa sobre a questão da utilização da denominação “Vinho Verde” nos Alvarinhos produzidos fora das sub-regiões de Monção e Melgaço; e também demos um salto à costa de Sintra para provar um branco cheio de mineralidade do Casal de Santa Maria. Ainda se adquiriram dois brancos da Casa do Paço, Verde o de Loureiro e Arinto, Regional Minho o de Fernão Pires, que são muito aprazíveis e se recomendam.

Acabámos as nossas rondas satisfeitos e a desejar que o evento se repita por muitos anos e bons – é algo que traz valor ao universo enófilo e é com organizações deste tipo que vamos conhecendo melhor o maravilhoso mundo dos vinhos portugueses.

À vossa saúde!

Segue-se o Encontro com o Vinho e os Sabores, já no próximo fim-de-semana, com algumas provas especiais que prometem...

tuguinho e Kroniketas, enófilo e tudo

domingo, 2 de novembro de 2014

Vinhos franceses no LIDL

  
  
   

Decorreu no passado dia 25 de Setembro no Hotel Ritz Four Seasons, em Lisboa, um jantar de apresentação de vinhos franceses promovido pela cadeia de supermercados LIDL, com o objectivo de promover os vinhos que iriam ser colocados à venda nesta superfície comercial a partir de 2 de Outubro, num total e 24 referências. O tempo (ou a falta dele) não nos permitiu publicar este apontamento mais em cima do acontecimento, mas cá vai.

Com um menu especificamente concebido para o efeito, o jantar decorreu com a presença de enólogos, jornalistas, bloggers e outros enófilos, cabendo a apresentação dos vinhos em presença ao enólogo Paulo Laureano, que fez uma pequena introdução a cada vinho que era servido.

Alguns dos pratos apresentados foram acompanhados por mais do que um vinho, de modo a podermos testar as harmonizações dos pratos com vinhos diferentes.

A função iniciou-se com um espumante de boas-vindas, servido na varanda do hotel sobranceira à Rua Castilho, que nos permitiu ir degustando um vinho fresco por entre dois dedos de conversa enquanto contemplávamos o entardecer na capital junto ao Parque Eduardo VII. Este espumante não é um champagne produzido na região com o mesmo nome, sendo designado como crémant e originário da região de Bordéus. Não tem grandes semelhanças com um verdadeiro champagne, sendo mais parecido com os muitos vinhos espumantes disponíveis no mercado, oriundos de vários países e regiões. Este foi também o vinho que começou por acompanhar o primeiro prato à mesa, como está descrito no menu apresentado na primeira foto. Bolha fina e suave na boca, aroma discreto e final mediano.

Seguiu-se o robalo ao vapor, acompanhado por dois brancos: um Riesling, da Alsácia, e um Sauvignon Blanc de Côtes de Gascogne. Ambos suaves e secos, ligaram bem com o prato, sendo o Sauvignon Blanc um pouco mais exuberante de aroma e o Riesling mais redondo e discreto. Depois ainda foi servido um tinto frutado das Côtes du Rhône, , que se destacou essencialmente pela suavidade aroma a frutos vermelhos, embora fosse estivesse mais ou menos neutro na harmonização com o prato.

Com o prato seguinte, um excelente lombo de novilho, tivemos dois tintos de Bordéus: um da sub-região Médoc e outro de Saint-Émillion, basicamente um de cada lado do rio Gironde.

Mostraram uma suavidade a par com uma estrutura bem marcada, com taninos polidos e macios, sendo difícil distinguir qual ligou melhor com o prato.

Finalmente um vinho doce para a sobremesa, talvez a querer imitar o famoso Sautérnes, que não se saiu nada mal da função.

Importa referir que os vinhos servidos são vendidos a preços que variam entre os 2,5 e os 11 euros, portanto estamos a falar duma gama que começa bastante em baixo e vai até ao princípio da gama média alta. Neste enquadramento não se pode dizer que os vinhos desiludiram, bem pelo contrário. Podem constituir uma boa oportunidade para quem não está familiarizado com os vinhos do país mais famoso do mundo nessa matéria poder adquirir alguns vinhos interessantes a preços bastante simpáticos, permitindo assim ficar a conhecer o perfil do que por lá se faz. Claro que não se pode esperar a excelência, mas também não é isso que se pede aqui, porque para tal os preços subiriam 2, 3, 4, 5 vezes...

Os nossos agradecimentos ao Hotel Ritz Four Seasons Lisboa pela excelente refeição que nos preparou, ao enólogo Paulo Laureano pelas informações que nos transmitiu, sempre com aquela bonomia e simpatia que o caracteriza, e aos supermercados LIDL por nos terem proporcionado esta oportunidade de conhecer um leque de vinhos tão variado. Agora, quem quiser saber mais é ir lá comprá-los.

Kroniketas, enófilo esclarecido


Menu e vinhos apresentados no jantar

Salada de polvo marinado com citrinos, gomos de gaspacho e legumes crocantes
Crémant de Bordeaux AOC Baron Louis Felix (PVP. 6,99€)

Robalo ao vapor de citronela, ravioli de camarão e coentros, espargos grelhados
Sud Ouest IGP Côtes de Gascogne Sauvignon branco L´Escargot 2013 (2,99€)
Alsace Riesling AOP Cave Coopérative branco 2013 (4,49€)

Côtes du Rhône Fruité tinto 2013 (2,79€)

Lombo de novilho glacé com Vinho do Porto, cogumelos e batata confit com tomilho
Bordeaux Haut-Médoc AOP Château Quimper tinto 2010 (7,99€)
Bordeaux Saint-Émilion Grand Cru AOP Château Vieux Labarthe tinto 2011 (8,99€)

Torta de laranja, mousse de clementina, espuma de poejo e sorbet de toranja
Bordeaux Sainte-Croix-du-Mont AOP Château de Berne branco 2013 (5,99€)

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

No meu copo 412 - Dona Ermelinda Reserva 2011

“Elaborado com base na casta mais típica da região, o Castelão, com um toque de Touriga Nacional, Trincadeira e Cabernet Sauvignon. Envelhecido 12 meses em pipas de carvalho francês, é um vinho muito complexo, elegante e macio.”

Assim reza o contra-rótulo deste Dona Ermelinda Reserva 2011, que experimentei pela primeira vez, depois de já ter provado o colheita branco e o colheita tinto. As impressões que ficaram não parecem justificar a escolha deste Reserva em detrimento do colheita, pois não coincidem com o que o contra-rótulo anuncia.

O vinho apresentou-se excessivamente alcoólico, extremamente concentrado, poderoso, a precisar de amaciar na garrafa. Para já, de elegante e macio não se encontra lá nada. Pelo contrário, está um vinho pesado, muito cheio na boca tornando-se cansativo. Talvez daqui a uns anos faça jus ao que se anuncia, talvez esteja a vir demasiado cedo para o mercado.

Seja como for, por esta razão ou outra qualquer, não é daqueles que apeteça ir comprar outra garrafa logo a seguir...

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Dona Ermelinda Reserva 2011 (T)
Região: Península de Setúbal
Produtor: Casa Ermelinda Freitas
Grau alcoólico: 14,5%
Castas: Castelão, Touriga Nacional, Trincadeira, Cabernet Sauvignon
Preço em feira de vinhos: 4,99 €
Nota (0 a 10): 6

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Na Wine O’Clock 18 - Casa de Santar

Em mais uma presença na Wine O’Clock, ocorrida há cerca de um mês, tivemos mais uma oportunidade (em boa hora, diga-se de passagem) para provar alguns dos vinhos da Casa de Santar, propriedade emblemática da Dão Sul e na própria região do Dão.

Tivemos igualmente o prazer de contar com a presença do sempre disponível enólogo Osvaldo Amado, que com a simpatia habitual nos falou dos vinhos em presença.

Depois do encontro na Quinta de Cabriz organizado pelos #daowinelovers em Janeiro, boa parte destes vinhos foram apenas revisitados, mas agora com a vantagem de não estarem dispersos no meio de várias dezenas.

Passando a uma breve apreciação dos vinhos, tivemos em presença os Casa de Santar Reserva branco 2013, tinto 2011 e Touriga Nacional 2010, o Condessa de Santar branco 2011 e o espumante 2010, o Conde de Santar (tinto) 2009 e o Casa de Santar Colheita Tardia 2010.

Dum modo geral, o nível dos vinhos apresentados esteve num patamar bastante elevado, começando pelos Casa de Santar Reserva. O tinto Reserva não nos surpreendeu, como habitualmente, mostrando a sua característica elegância, sem deixar de mostrar uma boa estrutura na boca temperada por grande suavidade e taninos macios. Um verdadeiro must na gama média-alta. Já o branco Reserva mostrou uma evolução de perfil desde a última vez que o tínhamos provado, com madeira agora muito mais domada e menos marcada, mostrando agora uma elegância e uma frescura que antes lhe faltava. Mudou claramente para melhor, o que se saúda. Quanto ao Touriga Nacional, depois dos vinhos de lote, acaba por perder um pouco em termos de complexidade, sem deixar de mostrar um bom aroma e também bastante suavidade.

Depois passámos à realeza, onde entraram os pesos-pesados. O Condessa de Santar, feito de Encruzado e Bical, que há uns anos era uma baforada de madeira no nariz a na boca, agora mostra-se delicado, com grande frescura e acidez, um vinho duma elegância notável que não se esperava. Para grandes e requintados pratos de peixe. Também o espumante do mesmo nome se mostra suave, elegante, fresco e macio.

O Conde de Santar, elaborado com Touriga Nacional, Alfrocheiro e Tinto Cão, apresenta-se suave e elegante mas com os aromas muito fechados. É claramente um vinho de grande potencial mas preferencialmente de guarda. Precisa de tempo para se libertar no copo e para melhorar na garrafa.

Finalmente, o Colheita Tardia confirmou as impressões anteriores: é mais leve e aberto que outros do género, menos doce e portanto menos enjoativo. Pode ser uma boa aposta para começar a gostar de vinhos doces.

Em suma, uma prova excelente, com uma amostra da elevada qualidade dos produtos da Casa de Santar, em que o melhor elogio que podemos fazer é que são todos bons, muito bons ou excelentes. Melhor que isto é difícil exigir.

Kroniketas, enófilo esclarecido

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

No meu copo 411 - Grand’Arte, Shiraz 2007

Outro vinho com 7 anos, outra boa prova. Neste caso da região Lisboa/ex-Estremadura, um exemplar monocasta da longa lista da DFJ Vinhos.

Já o temos dito aqui, há muitos vinhos de Syrah que, apesar da publicidade, não nos convencem e francamente são mais os exemplares que desagradam do que o contrário. Algumas das melhores excepções vêm precisamente da região de Lisboa, onde a casta parece encontrar o espaço ideal para se desenvolver e gerar vinhos interessantes.

No caso deste Grand’Arte não encontrámos um daqueles vinhos chatos feitos de Syrah que se vêem por outras paragens. Deparámo-nos, antes, com um vinho elegante e persistente, ainda com um bom aroma frutado, macio e longo.

A cor granada mostrava uma concentração que depois na boca não apareceu, sobressaindo principalmente alguma elegância e macieza, com um ligeiro fundo de madeira, onde estagiou apenas 3 meses, a integrar e equilibrar o conjunto.

Quem disse que não vale a pena guardar vinho?

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Grand’Arte, Shiraz 2007 (T)
Região: Lisboa
Produtor: DFJ Vinhos
Grau alcoólico: 13%
Casta: Syrah
Preço com a Revista de Vinhos: 5,95 €
Nota (0 a 10): 7,5

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

No meu copo 410 - Padre Pedro 2007

Este é um cliente antigo das nossas garrafeiras, e um dos tais que normalmente não nos deixam ficar mal. Sendo um vinho da gama baixa de preços, é dos tais que valem bem mais do que aquilo que custam.

Aliás, a Casa Cadaval prima por normalmente não nos desiludir, mesmo nos vinhos de entrada de gama. Há alguns meses provámos um branco que, não sendo da mesma estirpe deste tinto, também não deslustra o nome da casa.

O contra-rótulo indicava poder ser guardado até 4 anos, pelo que ao fim de 7 anos esta garrafa, a caminhar para uma idade respeitável, poderia apresentar sinais de declínio. Contudo não foi o que aconteceu. O vinho apresentou-se pleno de saúde e aromas a frutos vermelhos ainda com alguma juventude, suave, persistente, elegante, bem estruturado na boca e com boa persistência.

Portanto, pareceu estar longe do fim do seu tempo de vida útil, pelo que poderá ser comprado e esquecido durante algum tempo, porque quando for bebido não deverá defraudar o consumidor. Também merece constar na nossa lista de sugestões.

Kroniketas, enófilo esclarecido


Vinho: Padre Pedro 2007 (T)
Região: Tejo (Muge)
Produtor: Casa Cadaval
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Aragonês (40%), Trincadeira (40%), Cabernet Sauvignon (15%), Merlot (5%)
Preço em feira de vinhos: 3,49 €
Nota (0 a 10): 7,5

domingo, 12 de outubro de 2014

Na minha mesa 409 - Restaurante O Funil (Lisboa)

Situado na zona chamada de Avenidas Novas da capital, este restaurante é um clássico lisboeta que só há poucos anos tive oportunidade de conhecer por dentro. Há poucos anos foi alvo de uma remodelação, pelo que o que antes era a entrada para o restaurante passou a ser entrada para o balcão, abrindo-se agora outra porta ao lado que dá acesso directo à sala de refeições do 1º andar, cujo acesso se fazia internamente.

No 1º andar a sala é separada ao meio pelo acesso das escadas, pelo que se pode optar por uma de duas zonas separadas, uma com janelas sobre a rua, a outra mais interior.

Ao entrar, o ambiente que se respira é desde logo o de um restaurante de nível acima da média. A decoração da sala, das mesas, tudo indica um ambiente recatado. No entanto, à hora de almoço é bastante frequentado (estamos no coração de Lisboa e numa zona onde funcionam muitos serviços), tornando-se muito mais calmo e intimista à hora de jantar, com uma luz repousante e difusa.

A ementa é bem fornecida, conquanto não demasiado extensa. Destaca-se uma variedade apreciável de pratos de bacalhau, com realce para o “bacalhau à Funil” (uma espécie de variante do bacalhau com natas) e o “bacalhau com broa”, recheado com espinafres. Das vezes que lá fui optei sempre por um destes pratos, ambos muito bem conseguidos e apaladados.

A carta de vinhos é bem fornecida, tendo sido justamente aqui que travei conhecimento com os brancos Follies da Aveleda, e onde tive oportunidade de provar quer o verde Alvarinho quer o bairradino Chardonnay e Maria Gomes, ambos já aqui apreciados noutra ocasião.

O serviço não é a despachar, demora o seu tempo, pelo que quem lá for convém que não vá à pressa. É um restaurante onde vale a pena ir numa ocasião mais calma, para desfrutar do ambiente e saborear os acepipes. E convém não ir a pensar numa refeição barata, porque também não será.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Restaurante: O Funil
Avenida Elias Garcia, 82
1050 Lisboa
Tel: 21.796.60.07
Preço médio por refeição: 30 €
Nota (0 a 5): 4,5

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

No meu copo 408 - Bucelas Caves Velhas Garrafeira Branco Seco 1998

Continuamos a provar vinhos velhos de pequenas regiões às portas de Lisboa. Passamos dos tintos para os brancos, e de Colares para Bucelas. Esta foi levada pelo tuguinho e aberta como entrada para um repasto dos comensais do costume.

Já se sabe que beber tintos velhos não é fácil para muita gente, mas brancos velhos ainda é mais complicado. Começam a ficar sem frescura, perdem acidez e às vezes a tender para o enjoativo. Não são mais fáceis de apreciar que os tintos velhos.

Este Garrafeira 1998 das Caves Velhas fermentou e estagiou 6 meses em meias pipas de carvalho nacional, e mais seis meses em garrafa. Mostrou-se um grande branco velho, com uma cor deliciosamente dourada e sem aromas espúrios.

Já não era propriamente um vinho seco, antes começava a tender para o adocicado. Na boca apresentou-se cheio, com a acidez ainda bem presente, corpo meio melado, a pedir tempo para respirar e libertar mais aromas. Claro que não é vinho para muitas comidas, é mais para apreciar a solo e tentar descobrir os mistérios de como um branco pode envelhecer tão nobremente. Não há dúvida que o Arinto por vezes parece fazer milagres, mas há quem diga que o grande segredo está no Rabo de Ovelha...

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Bucelas Caves Velhas Garrafeira Branco Seco 1998 (B)
Região: Bucelas
Produtor: Caves Velhas - Enoport
Grau alcoólico: 11,5%
Castas: Arinto (80%), Esgana Cão, Rabo de Ovelha
Preço em hipermercado: 7,29 €
Nota (0 a 10): 8,5

sábado, 4 de outubro de 2014

No meu copo 407 - Collares V. S. 1994

Foi com algum receio que abrimos esta garrafa, na companhia de outras com vinhos mais robustos, para acompanhar um jantar de costeletas de novilho grelhadas com uma versão quase completa dos “Comensais Dionisíacos”. O tuguinho insistia que o vinho seria demasiado delicado e que pediria um prato mais suave. Eu contrapus que alguma vez teríamos de bebê-lo e que quase sempre comíamos bifes ou costeletas, portanto não havia grandes alternativas.

A razão, felizmente, esteve do meu lado. O vinho aguentou-se esplendorosamente, não ficou abafado pelos temperos da comida, e quanto mais o bebíamos mais apetecia beber. Com 20 anos de idade, apresentou uma frescura e uma persistência notáveis, mostrando-se suave, macio, elegante, com excelente acidez e final longo. Os aromas frutados, claro, não estão muito presentes, mas aparece no seu lugar uma complexidade aromática e de sabor, com aromas terciários a libertarem-se do copo e percorrendo o palato enquanto rodamos o vinho na boca.

Para uma região que quase deixou de existir e ficou reduzida a uma expressão mínima, não há dúvida que cada garrafa que abrimos é uma agradável surpresa, ficando a sensação de que os vinhos de Colares são quase eternos. Muitas vezes quase imbebíveis enquanto novos, envelhecem nobremente e parecem sempre melhorar com o tempo. E veja-se como o baixo grau alcoólico em nada prejudica o envelhecimento, pois embora mais delgado de corpo, a acidez e persistência na boca compensam largamente a baixa graduação, pelo que o vinho não se esvai no palato nem na garganta.

Esta garrafa foi adquirida pelo saudoso Mancha, que há um ano nos deixou, pelo que brindámos à sua memória da melhor forma. O vinho parece eterno, assim como é a sua lembrança nas nossas memórias.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Collares V. S. (Visconde de Salreu) 1994 (T)
Região: Colares
Produtor: António Bernardino Paulo da Silva
Grau alcoólico: 11%
Castas: não indicadas
Preço: 19,55 €
Nota (0 a 10): 9