Sábado, 15 de Junho de 2013

No meu copo 321 - Tintos velhos da Bairrada (2)

Frei João 1992; Quinta do Poço do Lobo 1990; Quinta do Poço do Lobo Reserva 1995


De vez em quando vamos fazendo umas visitas às relíquias que foram ficando esquecidas nas garrafeiras, as quais incidem maioritariamente em tintos do Dão e sobretudo da Bairrada. Ao longo dos anos vamos abrindo umas quantas quando calha, tentando reter na memória as impressões que nos causaram e que são quase irrepetíveis. Um traço distintivo parece uni-los, pois tanto os tintos do Dão como os da Bairrada envelhecem talvez como nenhuns outros em Portugal. A idade não lhes retira o carácter, amacia-lhes o perfil e confere uma complexidade impossível de encontrar nas bombas de fruta e juventude actuais. São algumas dessas impressões que vamos tentando, uma vez por outra, dar a conhecer. Pelo menos para memória futura e para ajudar esses impressões a perdurar no tempo...

Estas abordagens são feitas quer em conjunto com os comparsas do costume, quer, uma vez por outra, a solo em casa, sempre bem acompanhadas por uns bifes fritos em molho, costeletas de novilho ou até com as já habituais gravatinhas do restaurante David que têm acompanhado alguns repastos.

Já lá vão uns anos desde que aqui escrevi um apontamento sobre uma abordagem feita a solo. Agora esta abordagem foi feita em grupo, perante o plenário dos habituais comensais e a bater-se com uma bela peça de veado abatida pelo nosso caçador de serviço e, para grande pesar nosso, a última em que pudemos contar com a presença do nosso Mancha, o amigo que nos deixou recentemente. A única coisa que me consola é o facto de na última prova ter contado com os seus vinhos de eleição, cuja escolha contou com a sua colaboração.

Estavam disponíveis vinhos do Dão e da Bairrada e, perante o aroma que se desprendia durante a cozedura do cervídeo, foi rapidamente decidido que os da Bairrada seriam os mais adequados para a função. Assim se fez, tendo a escolha recaído apenas em vinhos das Caves São João e com a decantação a ajudar em dois dos casos, depois duma rápida apreciação ao estado de cada vinho.

O Frei João, um clássico da Bairrada que não é dos mais badalados, sempre foi dos nossos vinhos preferidos, não obstante em termos de preço se situar na gama baixa, mas é daqueles que nunca nos deixou ficar mal, e bate-se excelentemente com carnes poderosas. Tem alguma macieza a par com suficiente robustez para não se perder nos temperos. Um valor seguro, e este, adquirido o ano passado na Garrafeira de Campo de Ourique já com 20 anos de idade, embora com sinais evidentes de evolução, a mostrar que já não iria melhorar mas também sem denotar um claro declínio, estava perfeitamente bebível e justificou plenamente o valor que demos por ele.

Os dois exemplares da Quinta do Poço do Lobo suscitaram opiniões desencontradas. Houve quem preferisse o da colheita de 1990 (o mais caro dos três), que apresentou alguma elegância mas ao mesmo tempo boa estrutura e persistência, com bastante equilíbrio de conjunto.

Já o Reserva de 1995 acabou por colher a preferência da maioria, como foi também o meu caso, pois além das características mostradas pelo de 1990 ainda lhe acrescentou uma complexidade aromática com uma panóplia de aromas terciários e uma persistência notáveis, com maior vivacidade no palato e taninos arredondados mas ainda evidentes e firmes, o que fez pender a balança para o seu lado. De tal forma que, comprado há uns meses numa promoção no Continente e pelo que custou, nos faz agora lamentar não ter comprado mais garrafas... ou até todas as que estavam em stock!!! Notável, um daqueles vinhos que nos fazem sempre reconciliar com os vinhos antigos.

Eu sei que já é uma frase repetitiva, mas não nos cansamos de beber e elogiar estes vinhos, e cada vez mais vamos concluindo que vale a pena comprar todos os que pudermos.

Kroniketas, enófilo esclarecido e o resto da cambada

Região: Bairrada
Produtor: Caves São João

Vinho: Frei João 1992 (T)
Grau alcoólico: 12,5%
Preço: 7,5 €
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Quinta do Poço do Lobo 1990 (T)
Grau alcoólico: 12,5%
Castas: Baga, Castelão, Moreto
Preço: 14,75 €
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Quinta do Poço do Lobo Reserva 1995 (T)
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Baga, Castelão, Moreto
Preço: 8,30 €
Nota (0 a 10): 8,5

Sexta-feira, 7 de Junho de 2013

Estamos mais pobres

  
Um dos elementos fundadores do núcleo duro daquilo a que chamámos o Grupo gastrónomo-etilista “Os Comensais Dionisíacos” já não está connosco. Mestre Mancha, em cuja casa realizámos inúmeros repastos e incontáveis provas, em que passámos tardes e noites longas a falar de tudo e de nada, de nós e da vida, e também de vinho e comida, partiu sem nos dar tempo para nos despedirmos dele.

Ainda há poucos dias estivemos todos juntos à mesa, a degustar o que ele mais gostava, os tintos clássicos da Bairrada, numa das muitas ocasiões registadas mas ainda não contadas (e ainda há tantas para contar), mas já não poderemos contar com ele para dar a sua opinião sobre aqueles que tínhamos comprado e que ainda estão à espera de ser provados...

Há uma frase feita que diz que ninguém é insubstituível e que os cemitérios estão cheios de insubstituíveis. Mas na verdade ninguém é substituível, porque o lugar que ele ocupava não pode ser ocupado por mais ninguém, e porque quando perdemos um dos nossos perdemos também uma parte de nós próprios.

Neste momento de luto e de pesar, curvamo-nos respeitosamente perante a memória do nosso amigo e fazemos também o nosso luto, interrompendo as publicações neste blog durante a próxima semana.

Resta-nos apenas brindar em sua homenagem... com um tinto velho da Bairrada, naturalmente.

Para ti, Zé, de todos nós.

Os diletantes preguiçosos, tuguinho e Kroniketas, mais o caçador, o pirata, o fotógrafo, o Politikos, o bandeira e o marmelo

PS: Quando nos encontrarmos, tem um copo de Bairrada á nossa espera.

Terça-feira, 4 de Junho de 2013

No meu copo 320 - Quinta da Terrugem 2006; Vinha de Saturno 2006; Casal de Santa Maria Colheita Tardia 2010


Em mais um encontro dos Comensais Dionisíacos na casa de Mestre Mancha, acompanhando umas gravatinhas e umas costeletas grelhadas, abrimos dois néctares de alto gabarito, um deles já nosso conhecido de tempos recentes, o Vinha de Saturno.

Abertas as garrafas e verificado o estado de cada um dos vinhos, começámos pelo Quinta da Terrugem, mais suave e delicado. Apresentou-se com boa estrutura, bem encorpado, ligeira evolução na cor, macio na boca e com boa persistência. Um vinho caracterizado acima de tudo pela delicadeza e elegância, próprio para pratos requintados.

Já o Vinha de Saturno, provado pela primeira vez num jantar no restaurante Jacinto, já aqui relatado, transporta-nos para outra galáxia. É um daqueles vinhos que conseguem ultrapassar o limiar da excelência e que, quando os bebemos, nos sabem como néctares dos deuses. Obrigatório decantar para não deixar toda a panóplia de aromas presos na garrafa, porque o primeiro ataque, tanto no nariz como na boca, é algo fechado e austero. Concentrado na cor, com grande corpo, grande estrutura, grande persistência, taninos em evidência mas bem integrados no conjunto marcado por alguma especiaria e notas evidentes da madeira (estágio de 12 meses), é um daqueles vinhos que nunca mais acabam na boca e que duram toda a noite, e só ao fim de algum tempo libertam todo o seu esplendor. Notável, de facto!

Para terminar, e a acompanhar a sobremesa, uma garrafa de Colheita Tardia adquirido na Wine O’Clock aquando da prova dos vinhos do Casal de Santa Maria. Este vinho foi mostrado nessa prova e agradou-nos bastante, pelo que tratámos de levar uma garrafa. Muita frescura, algumas notas meladas e compotadas, com uma consistência quase a lembrar xarope mas sem aquela sensação de podridão que por vezes marca estes vinhos, bebe-se com muito agrado. Valerá a pena repetir, embora o preço, para o tamanho da garrafa, não seja dos mais apelativos... No entanto, a nível de colheitas tardias é sem dúvida uma opção a considerar.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Quinta da Terrugem 2006 (T)
Região: Alentejo (Borba)
Produtor: Caves Aliança
Grau alcoólico: 14,5%
Castas: Aragonês, Trincadeira, Alicante Bouschet
Preço: 11,24 € (comprado em 2010)
Nota (0 a 10): 8,5

Vinho: Vinha de Saturno 2006 (T)
Região: Alentejo (Fronteira - Portalegre)
Produtor: Herdade Monte da Cal - Dão Sul
Grau alcoólico: 14,5%
Castas: Trincadeira, Aragonês, Alicante Bouschet e Baga
Preço: 33,60 € (comprado em 2009)
Nota (0 a 10): 9

Vinho: Casal de Santa Maria, Colheita Tardia 2010 (B) (garrafa de 375 ml)
Região: Lisboa (Colares)
Produtor: Adraga Explorações Vitivinícolas
Grau alcoólico: 11,5%
Casta: Petit Maseng
Preço: 12,32 €
Nota (0 a 10): 8

Sexta-feira, 31 de Maio de 2013

No meu copo 319 - Foral de Évora 2009

Tinha alguma expectativa relativamente a este vinho, ao qual já tinha ouvido alguns elogios. Tratando-se dum vinho da gama média da Fundação Eugénio de Almeida esperava-se que fizesse jus à fama da casa e dos seus vinhos mais emblemáticos. Como sabemos, é da Adega da Cartuxa que sai um dos vinhos mais famosos do país - quase tão famoso como o Barca Velha - , o Pera-Manca (do qual infelizmente só ainda provei o branco, já lá vão uns bons pares de anos), para além dos vinhos com o nome da casa e um outro vinho de topo, de produção mais recente, o Scala Coeli.

No entanto, no nível de entrada o EA não me agradou particularmente. Foi, portanto, com um misto de expectativa e curiosidade que abordei este vinho de nível médio. A verdade é que fiquei com a sensação de que lhe falta qualquer coisa. Pouco fruto, estrutura média, final curto e discreto, aroma pouco marcante. Estagiou cerca de 12 meses em barricas novas de carvalho francês e pelo menos mais 12 meses em garrafa, mas falta-lhe alguma coisa para ser verdadeiramente bom. Não é mau, obviamente, mas pelo preço que custa e em comparação com os da mesma gama, espera-se, obviamente, algo mais.

Admito que possa ter sido uma colheita menos bem conseguida, ou que o vinho desta garrafa estivesse num ponto de evolução pouco favorável, a atravessar uma fase discreta. Aguardemos por outras oportunidades para que, eventualmente, possa mostrar o que vale.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Foral de Évora 2009 (T)
Região: Alentejo (Évora)
Produtor: Adega da Cartuxa - Fundação Eugénio de Almeida
Grau alcoólico: 14%
Castas: Aragonês, Alicante Bouschet, Trincadeira
Preço em hipermercado: 6,49 €
Nota (0 a 10): 6,5

Segunda-feira, 27 de Maio de 2013

No meu copo 318 - Cabeça de Toiro Reserva 2008; Guarda Rios 2007; Guarda Rios 2008

Estes são dois representantes (em três garrafas...) da nova geração de vinhos da renomeada região Tejo. Ou talvez deva dizer-se que “eram” representantes, pois mesmo antes de o consumir chegou-me ao conhecimento que o produtor do Guarda Rios, a empresa Vale d’Algares, faliu... A confirmar-se estaremos, portanto, a falar de um vinho a título póstumo...

A verdade é que as novas tendências têm levado a uma lenta mas segura recuperação de imagem, tanto na região Tejo como na região Lisboa. Já lá vai o tempo em que se associava aos vinhos do Ribatejo o carrascão do Cartaxo em garrafões de 5 litros. Agora o perfil é outro, são vinhos frescos, apelativos e mais fáceis de beber. Ao fim e ao cabo, a região seguiu um pouco a onda, com a disseminação de castas importadas de outras paragens e criou novas combinações que permitem provar um vinho destes sem que o associemos imediatamente àquela imagem de antigamente.

Por um preço bastante simpático, o Cabeça de Toiro, produzido pela Enoport (sucessora das Caves Velhas mas que vai mantendo o logótipo desta nos rótulos), dá-nos aroma a frutos maduros, frescura e uma boa acidez, corpo médio e um final vibrante. Boa relação qualidade-preço e um vinho que aparenta ser versátil.

Já o Guarda Rios é (era?) mais estruturado, mais complexo, menos imediato. Deste último tive oportunidade de provar duas colheitas, 2007 e 2008, adquiridas respectivamente em hipermercado e com a Revista de Vinhos. Curiosamente, e talvez contrariando o que fosse expectável, a colheita de 2007, resultante dum lote teoricamente mais complexo (o Alicante Bouschet e o Cabernet Sauvignon não estão presentes na colheita de 2008), agradou menos que a de 2008. Esta última mostrou-se mais estruturada, mais longa, um pouco mais pujante e persistente, com um toque a especiarias mais marcado. Uma versão mais personalizada, em suma, e mais bem conseguida.

Se este vinho acabou, é uma pena porque era um bom produto que tínhamos no mercado e que ajudava a elevar o nome da região. Sinais (tristes) dos (tristes) tempos...

Kroniketas, enófilo esclarecido

Região: Tejo

Vinho: Cabeça de Toiro Reserva 2008
Produtor: Enoport
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Touriga Nacional, Castelão
Preço em feira de vinhos: 4,98 €
Nota (0 a 10): 7,5

Vinho: Guarda Rios 2007
Produtor: Vale d’Algares
Grau alcoólico: 14%
Castas: Syrah, Touriga Nacional, Alicante Bouschet, Merlot, Cabernet Sauvignon
Preço em hipermercado: 6,13 €
Nota (0 a 10): 7,5

Vinho: Guarda Rios 2008
Produtor: Vale d’Algares
Grau alcoólico: 14%
Castas: Syrah, Touriga Nacional, Merlot
Preço com a Revista de Vinhos: 6 €
Nota (0 a 10): 8

Quinta-feira, 23 de Maio de 2013

No meu copo 317 - Gaivosa Primeiros Anos 2009; Herança Vinhas Velhas 2009

Tal como tem vindo a acontecer há alguns anos, estes dois vinhos foram comprados aproveitando a promoção efectuada com a edição mensal da Revista de Vinhos.

Quase sempre aproveitamos estas ocasiões para adquirir algumas marcas que conhecemos menos (ou que desconhecemos de todo), ou para adquirir alguns valores seguros por um preço inferior ao do mercado. No primeiro caso existe sempre alguma incógnita, não obstante a confiança que em princípio depositamos nas escolhas da equipa da Revista de Vinhos.

No caso destes dois vinhos em apreço, ambos de 2009, ambos adquiridos no final de 2011, ambos consumidos já em 2013, tratou-se duma boa revelação num caso, e duma certa decepção no outro.

O Gaivosa Primeiros Anos apresentava maiores expectativas, dado ser produzido por Domingos Alves de Sousa. A verdade é que, pelo menos nesta fase, mostrou ser mais um daqueles vinhos superconcentrados, superextraídos, superalcoólicos, pesados e no final... supercansativos. Ao segundo copo já farta. O tal perfil moderno que muitos (ou alguns) teimam em querer impor aos consumidores com o argumento de que o vinho é equilibrado. Não é. Quando o beber começa a enjoar depois de ingerida pouca quantidade, não é bom sinal. Talvez precise de mais tempo em garrafa para amaciar e arredondar com o tempo, mas a verdade é que não convenceu.

Já o Herança Vinhas Velhas, uma marca completamente desconhecia, foi uma boa revelação. E a verdade é que, com o mesmo grau alcoólico, curiosamente apresentou um perfil completamente diferente, conseguindo ter ao mesmo tempo estrutura, aroma e frescura, dando sempre vontade de beber mais um pouco. Mostrou estar mais que pronto para ser consumido. Um vinho guloso e apetitoso, mas que também não perdia nada em ter menos álcool.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Região: Douro

Vinho: Gaivosa Primeiros Anos 2009 (T)
Produtor: Domingos Alves de Sousa
Grau alcoólico: 14,5%
Castas: Tinta Amarela, Sousão, Touriga Nacional
Preço com a Revista de Vinhos: 6 €
Nota (0 a 10): 6

Vinho: Herança Vinhas Velhas 2009 (T)
Produtor: Terroir d’Origem
Grau alcoólico: 14,5%
Preço com a Revista de Vinhos: 6 €
Nota (0 a 10): 8

Sábado, 18 de Maio de 2013

No meu copo 316 - Tapada do Chaves: Reserva 2002; Vinhas Velhas Reserva 2002

Este é um clássico alentejano com grandes tradições, mas com o qual tenho tido uma relação dispersa e algo difícil. Provei o tinto Reserva pela primeira vez nos anos 90, impulsionado pelo nome e pela fama do vinho, primeiro com a colheita de 1994 e depois com a de 1996 (na altura custou cerca de 2000 $), e de nenhuma das vezes me encantou, sobretudo tendo em conta o preço. As impressões colhidas foram que não valia aquilo que custava.

Passaram alguns anos até que voltasse a arriscar, mais especificamente até ter estado a trabalhar em Portalegre e ter visitado a própria Tapada do Chaves (então já na posse das Caves Murganheira, depois da venda pela família Fino à SLN), e conhecido um pouco melhor a sua história, Voltou então a despertar o meu interesse pelos seus vinhos, o que me levou inclusivamente a provar o espumante ali produzido. Comprei novamente o Reserva, da colheita de 2002, que experimentei uma e outra vez. Posteriormente comprei também o Vinhas Velhas 2002, que conheci também nessa visita às instalações da casa, e mais recentemente comprei o Reserva 2005 e o Reserva 2009 (já com o novo e horrível rótulo).

Continuei com algumas reticências em relação ao resultado das provas efectuadas. Primeiro pareceu-me um vinho inicialmente muito fechado e depois algo cansado, com demasiada evolução. Não convencido, insisti e tentei ajudar com a decantação. Achei-lhe alguma falta de aroma, pouco exuberante.

Recentemente, juntamente com o tuguinho, resolvemos fazer uma prova comparada do Reserva 2002 e do Vinhas Velhas Reserva 2002, a acompanhar umas costeletas de novilho grelhadas na brasa. Sem hesitações, tratámos de decantar as duas garrafas, de modo a dar tempo ao vinho para respirar.

Esperámos por alguma exuberância aromática que não se manifestou no Vinhas Velhas, estando mais evidente no Reserva. Na boca apresentam-se macios mas o corpo é mediano e a persistência também. Para nossa surpresa, sendo de um patamar superior, o Vinhas Velhas voltou a mostrar-se mais contido e mais evoluído, enquanto o Reserva mostrou uma maior frescura. Ambos estagiados em madeira de carvalho nacional, facto realçado no contra-rótulo, esta não apareceu muito marcada, integrando-se bem no conjunto.

Em termos de balanço, pode-se dizer que se esperava mais. Tenho lido várias opiniões desencontradas acerca deste vinho e desta colheita em particular: umas elogiando o seu classicismo e suavidade, mantendo vivo o traço da tradição que nos permite regressar à base “quando já não temos paciência para os vinhos certinhos ou muito concentrados e extraídos, acabamos por encontrar consolo nos vinhos mais frescos, elegantes e complexos que se faziam primeiro”; outras considerando que o vinho não tem uma boa relação qualidade-preço, que é algo desequilibrado em termos de álcool e que decepciona face às expectativas. Tendo a inclinar-me mais para esta última opinião, parecendo-me que é uma marca que vive muito do nome mas a que falta talvez alguma alma. E, no entanto, como eu gosto de regressar aos clássicos...

No caso do Vinhas Velhas, embora teoricamente melhor que o Reserva, também não me parece que justifique o preço. Se para o Reserva ainda se pode questionar ou não o patamar de preço, no caso do Vinhas Velhas não justifica a compra, pois aquilo que perde em frescura com a idade, não ganha em complexidade como seria de esperar.

Os diletantes preguiçosos:
Kroniketas, enófilo esclarecido, com revisão e censura de tuguinho, enófilo preguiçoso


Região: Alentejo (Portalegre)
Produtor: Tapada do Chaves, Sociedade Agrícola e Comercial

Vinho: Tapada do Chaves Reserva 2002 (T)
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Trincadeira, Aragonês, Castelão
Preço: 12 €
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Tapada do Chaves Vinhas Velhas Reserva 2002 (T)
Grau alcoólico: 13%
Castas: Trincadeira, Aragonês, Castelão, Tinta Francesa
Preço: 17 €
Nota (0 a 10): 8

Terça-feira, 14 de Maio de 2013

No meu copo 315 - Quinta da Ponte Pedrinha: branco 2010; tinto 2008

Numa época em que estamos a tentar trazer para a ribalta os vinhos do Dão, a partir do grupo Dão Winelover criado no Facebook, vem a propósito citar as provas do branco e do tinto da Quinta da Ponte Pedrinha, produzidos na zona de Gouveia.

O primeiro foi um desafio lançado no grupo do Facebook há algumas semanas, que solicitava a prova do branco. Mostrou-se um vinho de aroma frutado algo discreto, corpo médio e final macio. Algumas notas citrinas, algum mineral e acidez bem equilibrada conferem frescura e fim de boca agradável. Indicado para pratos de peixe não muito pesados mas pode aguentar-se com alguma gordura, pois tem uma acidez que ajuda a limpar o paladar.

O tinto foi bebido com um prato menos habitual, uma mussaka, prato com alguma exigência devido ao elevado teor de gordura. Foi um desafio curioso, dada a dúvida sobre se o vinho teria estrutura para se bater com o prato, e a verdade é que teve. O aroma mostra inicialmente algum vegetal, discreto, sendo que a prova de boca começa por ser suave mas com o tempo vão-se mostrando algumas especiarias e taninos arredondados, começando a revelar-se uma estrutura que parecia não estar lá. O final vai em crescendo, acabando por revelar-se um vinho gastronómico, a pedir algum tempo para se mostrar à mesa. Aconselha-se, em todo o caso, a acompanhar pratos de carne com alguma delicadeza, não excessivamente temperados.

Pelo preço que custa, é sem dúvida uma boa aposta para o dia-a-dia sem perder na comparação com outros nomes mais sonantes. Uma prova muito agradável, a repetir.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Região: Dão
Produtor: Maria de Lurdes Osório

Vinho: Quinta da Ponte Pedrinha 2010 (B)
Grau alcoólico: 13%
Castas: Encruzado, Cerceal
Preço em hipermercado: 3,98 €
Nota (0 a 10): 7

Vinho: Quinta da Ponte Pedrinha 2008 (T)
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Tinta Roriz, Jaen
Preço em hipermercado: 4,49 €
Nota (0 a 10): 7,5

Quinta-feira, 9 de Maio de 2013

Na minha mesa 314 - Restaurante XL (Lisboa)

 

Este é um clássico lisboeta, que conheço há quase 20 anos, ainda do tempo das instalações na Rua de S. Bento, um pouco acima do parlamento. Nessa altura o menu destacava-se principalmente pela variedade de bifes, onde sobressaía um com molho de tutano. Depois veio a doença das vacas loucas e esse exemplar foi retirado da ementa, com grande pena nossa nas visitas que lá fizemos.

Foram bons tempos em que era fácil ir lá jantar sem gastar uma fortuna. Com a mudança para a esquina da Calçada da Estrela com a Rua Miguel Lupi, mesmo ao lado do edifício da Assembleia da República, o estilo modificou-se. Decoração mais sofisticada, assim como o menu (muito elogiados são os soufflés, além de mais de 20 entradas), preços em crescendo, assim como o tipo de clientela. Mas a nossa aposta nas visitas que lá fizemos continuou a ser nos bifes, ainda e sempre com uma variedade assinalável, com opção entre lombo e vazia e uma panóplia de diferentes tipos de molho que fazem crescer água na boca aos mais famintos do tipo carnívoro...

O pior aconteceu com a garrafeira. A sofisticação do estilo e da clientela foi acompanhada dum disparatado aumento dos preços dos vinhos, que torna quase proibitivo beber qualquer vinho decente sem pagar mais pela garrafa do que por toda a refeição... Esse foi um dos motivos que fizeram com que mediassem quase 9 anos desde a minha visita anterior e a mais recente. Esta última decorreu há poucas semanas, em formato de casal, a propósito duma comemoração familiar. Contemo-la, então.

A deslocação processou-se com o objectivo focado nos bifes, embora haja muitas alternativas para onde olhar. O que nos chama mais a atenção são as variedades de molhos: molho XL, molho de mostarda à antiga, molho café Paris, molho de natas e por aí fora... Optámos por um com molho XL (na foto) e outro com molho café Paris. Bifes altos da vazia, no ponto (mais para o mal passado que para o bem, embora esse ponto de confecção não seja consensual no caso vertente). Ambos excelentes, o de molho XL mais clássico, o de molho café Paris mais aromático.

Pior foi a escolha do vinho. A carta é agora apresentada num tablet de reduzidas dimensões, que requer alguma prática de manuseamento de equipamentos do género, e uma acuidade visual apurada. Os preços, como se esperava, são absolutamente proibitivos. Os bifes custam entre os 15 e os 25 €, enquanto um vinho normal de entrada de gama aparece na carta a 20 €, um vinho da gama média vai para os 40 €. Os de topo custam centenas. Só por curiosidade olhei para o Barca Velha: 416 €! Um verdadeiro despautério, de todo injustificado, ainda mais nos temos que correm. Pode-se presumir que a generalidade da clientela não se deve importar muito com o preço das garrafas de vinho, mas a qualidade do restaurante, da confecção e do serviço são bem remuneradas em todo o resto da refeição, não se justifica tamanho exagero, que aliás já começa a ser corrigido noutros restaurantes que pecam pelo mesmo defeito.

Com bastante esforço lá se consegue encontrar uma ou outra garrafa na ordem dos 10-12 €, mas não é fácil. Como praticamente só eu é que ia beber, acabei por optar por um vinho tinto da casa numa daquelas garrafas de meio-litro quase em formato de jarro, por 8 €. Um vinho sem história, apenas aceitável para acompanhar a refeição.

A lista de sobremesas também é extensa e apetitosa, mas destaco um sorbet de limão e o gelado com chocolate quente.

O ambiente é acolhedor e ao mesmo tempo sofisticado, vai animando à medida que a casa enche, o serviço é simpático, eficiente e atencioso, enfim tem tudo para nos sentirmos lá bem e passar um bom serão à mesa. O pior é quando vem a conta. E se quiser beber vinho da carta, o melhor é rechear primeiro a carteira, ou levar um grupo de pessoas para dividir melhor o custo do líquido.

Só pelos preços dos vinhos não lhe atribuo a nota máxima, porque é de facto o grande e notório defeito a apontar. Não fosse isso e, embora caro, seria quase perfeito.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Restaurante: XL
Esquina da Calçada da Estrela com a Rua Miguel Lupi (entrada pela Rua Miguel Lupi)
1200-661 Lisboa
Telef: 21.395.61.18
Preço por refeição: a partir dos 40 €
Nota (0 a 5): 4,5

Domingo, 5 de Maio de 2013

No meu copo 313 - Ramos Pinto Collection: 2005, 2006, 2007

Foi com a colheita de 2005 que esta marca apareceu pela primeira vez no mercado. Como normalmente acontece, as novidades provenientes da Ramos Pinto despertam-nos especial atenção, como aconteceu há uns anos aquando do lançamento duma colheita única, o Duas Quintas Celebração - Quinta de Ervamoira, de que infelizmente também só comprei um exemplar único...

Este Collection surgiu pouco tempo depois. Posicionado num patamar de preços entre o Duas Quintas e o Bons Ares (abaixo) e o Duas Quintas Reserva (acima), trouxe como originalidade o facto de todas as colheitas terem um rótulo diferente, votado pelos internautas, que vai recuperar a colecção de rótulos antigos utilizados no vinho do Porto... Daí resultou o nome “Collection”, com o qual a Casa Ramos Pinto pretende homenagear o seu fundador, Adriano Ramos Pinto, mergulhando na história da casa como inspiração para a criação de cada rótulo que invoca o estilo Belle Époque, do início do século XX.

Temos adquirido exemplares de todas as colheitas lançadas, e consumido com parcimónia e sem pressas. Os consumos mais recentes mostram que estes são vinhos de guarda, que vale a pena esquecer durante alguns anos na garrafeira. Comparando as três colheitas que já consumi, há algumas diferenças notórias entre elas, pois cada uma pretende reflectir as especificidades da respectiva colheita, e não homogeneizar o estilo de ano para ano.

A colheita de 2005, provada mais de uma vez, foi a que se apresentou desde sempre como mais suave e apelando mais a aromas de frutos vermelhos, algum floral, corpo e estrutura marcados por alguma elegância. Todas as castas do lote fermentaram em barricas de 2/3 anos durante 16 meses, apresentando-se a madeira bastante discreta e sem marcar o vinho de forma evidente. O rótulo evoca o beijo induzido pelo néctar de Baco...

A colheita de 2006 mostrou-se mais fechada inicialmente, começando por aparentar algum aroma a mofo, o que requereu a imediata decantação após a qual libertou aromas de alguma evolução. Um pouco menos frutado que o de 2005, mostrou-se apto para pratos mais consistentes graças a uma estrutura mais complexa na boca e final prolongado. Foram usadas as mesmas castas da colheita de 2005, provenientes da Quinta de Ervamoira e da Quinta do Bom Retiro. O rótulo, de 1911, foi desenhado por Leopold Metlicovitz e evoca Adão e Eva e a tentação da serpente, mais uma vez simbolizada pelo néctar de Baco.

Finalmente, a colheita de 2007, com um perfil significativamente diferente dos anteriores. Mais uma vez com uvas da Quinta de Ervamoira e da Quinta do Bom Retiro, apresenta-se com outra juventude, mais pujante, no limite do grau alcoólico, irreverente e a pedir tempo para acalmar, embora esteja já perfeitamente bebível. Muita fruta com sugestões do bosque, alguma especiaria, madeira presente sem ser em excesso, persistência a prometer longevidade. Provavelmente uma colheita destinada a apreciar melhor daqui por mais uns anos, ainda capaz de melhorar na garrafa. O rótulo, “A jovem do Regalo”, é também um original de 1911, da autoria do pintor italiano M. A. Rossotti.

Em suma, um vinho para comprar, comprar e comprar... ir bebendo e ir guardando. Pelo que nos foi dado perceber nas garrafas já provadas, cada colheita será uma surpresa de sensações e aromas.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Região: Douro
Produtor: Ramos Pinto

Vinho: Ramos Pinto Collection 2005 (T)
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Barroca
Preço (em 2007): 12,75 €
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Ramos Pinto Collection 2006 (T)
Grau alcoólico: 14,5%
Castas: Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Barroca
Preço (em 2009): 13,81 €
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Ramos Pinto Collection 2007 (T)
Grau alcoólico: 15%
Castas: Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Barroca
Preço (em 2010): 14,50 €
Nota (0 a 10): 8,5

Quinta-feira, 2 de Maio de 2013

No meu copo 312 - Esporão Reserva 2008; Quatro Castas Reserva 2007; Quatro Castas 2010

Depois da recente prova do Quatro Castas Reserva 2002, damos um salto no tempo para falar de colheitas mais recentes provenientes da Herdade do Esporão: o Reserva 2008 e o Quatro Castas 2007 e o 2010, este agora em nova versão.

Durante alguns anos considerámos que o Quatro Castas estava a dar melhores resultados do que a marca ex-libris da casa. Mais recentemente, a prova do Esporão Reserva da colheita de 2006, posteriormente repetida em mais do que uma ocasião, reconciliou-nos com a marca e levou-nos a apostar nas colheitas seguintes.

Entretanto, os monocastas, que emparelhavam com o Quatro Castas, passaram por uma fase em que eram vendidos em garrafas de meio-litro, depois voltaram ao formato de 7,5 dl, ao mesmo tempo que começavam a surgir os monocastas brancos. Nos últimos anos a roupagem duns e doutros mudou, os monocastas foram reposicionados em termos de preço (passando a custar entre cerca de 23 euros) e nos brancos surgiu o Duas Castas para emparelhar com o seu homólogo tinto. O que durante cerca de duas décadas foram vinhos relativamente acessíveis, tornaram-se produtos de luxo, tornando-se mais caros que a principal marca da casa por uma opção de marketing que me custa a entender... mas se calhar não tenho que a entender.

A verdade é que, nos tintos, só o Quatro Castas se manteve no mesmo patamar de preços, pelo que continuo a comprá-lo. Recentemente tive oportunidade de fazer uma prova comparada de colheitas recentes destas duas marcas e aferir do “estado da arte” em relação a estes dois vinhos.

O Esporão Reserva 2008 mostrou aquilo que se esperava dele e manteve o perfil que, com uma ou outra oscilação, sempre o caracterizou. A base andou sempre à volta de Aragonês, Trincadeira e Cabernet Sauvignon, com algumas incursões também pelo Alicante Bouschet. A colheita de 2008 voltou a ser constituída pelo trio base, sem a presença do Alicante, o que lhe dá um perfil mais aberto e ligeiramente mais leve. As 3 castas continuam a funcionar muito bem em conjunto, com uma boa profundidade aromática associada a um toque de madeira sempre em dose moderada, que ajuda a conferir alguma estrutura e persistência na prova de boca mas sem marcar o conjunto, que é dominado pelo fruto vermelho maduro, alguma especiaria e um final longo pontuado pelas notas da madeira, tudo bem suportado por taninos poderosos mas redondos.

O Quatro Castas aparece agora com outro perfil. Além da roupagem, também o conteúdo está diferente. Desde sempre foi um vinho diferente da corrente dominante, mesmo dentro dos vinhos da casa. A colheita de 2007, também provada recentemente, mantém ainda um perfil relativamente clássico com algumas semelhanças com as anteriores – podem ser vistas aqui (2005), aqui (2002), aqui e aqui (2001). No entanto, em comparação com o 2002, mostrou-se menos exuberante de aromas, menos persistente, menos estruturado, um vinho a prometer menor longevidade. Aragonês, Alicante Bouschet, Touriga Nacional e Syrah compõem este lote, que já lhe alterava o perfil habitual.

Já o 2010, dentro da nova roupagem e a nova variedade castas incorporadas e que até há poucos anos não entravam no lote, está mais frutado e mais fácil, mas quanto a mim perdeu algum encanto. Revendo todos os encómios que aqui fomos debitando ao longo dos anos acerca das provas que fazíamos deste vinho, dificilmente os reconheço neste novo perfil. Continua a ser agradável de beber, mas temo que agora seja apenas mais um.

O contra-rótulo anuncia que “o Aragonez confere estrutura, o Alfrocheiro aromas finos e vibrantes, a Tinta Caiada aveluda o palato e a Tinta Miúda acrescenta-lhe a elegância final”. Vinificaram separadamente e estagiaram 9 meses em barricas de carvalho americano. Tudo isso pode ser verdade, mas... parece que lhe falta qualquer coisa. Talvez a alma que eu encontrava nos outros, feitos à maneira clássica. Continua a ser bom, mas já não o acho encantador nem surpreendente como os antecessores.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Região: Alentejo (Reguengos)
Produtor: Esporão

Vinho: Esporão Reserva 2008 (T)
Grau alcoólico: 14,5%
Castas: Aragonês, Trincadeira, Cabernet Sauvignon
Preço em feira de vinhos: 12,99 €
Nota (0 a 10): 8,5

Vinho: Quatro Castas 2007 (T)
Grau alcoólico: 14 %
Castas: Aragonês, Alicante Bouschet, Touriga Nacional e Syrah
Preço em feira de vinhos: 9,84 €
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Quatro Castas 2010 (T)
Grau alcoólico: 14,5 %
Castas: Aragonês, Alfrocheiro, Tinta Miúda, Tinta Caiada
Preço em feira de vinhos: 9,84 €
Nota (0 a 10): 8

Domingo, 28 de Abril de 2013

Evento João Portugal Ramos/José Maria Soares Franco - Os vinhos da noite

Ficam aqui as fichas técnicas dos vinhos provados durante o evento, incluindo aquele que foi oferecido aos participantes, o Quinta da Viçosa TC 2011.

Kroniketas, enófilo esclarecido


Sábado, 27 de Abril de 2013

Evento João Portugal Ramos/José Maria Soares Franco - Hotel Altis Belém

  
       



O evento João Portugal Ramos/José Maria Soares Franco, realizado no Hotel Altis Belém no dia 18 de Abril, foi fantástico. Estiveram presentes variadíssimos bloguistas e uma representação significativa da Revista de Vinhos (contei pelo menos Luís Lopes, director, Luís Antunes, Fernando Melo e, claro, João Paulo Martins. Ainda apareceu depois o jornalista Aníbal Coutinho e também estava Pedro Gomes, um dos fundadores do blog “Os 5 às 8”, que posteriormente se transformou no “Nova crítica”, além, naturalmente, de vários técnicos da equipa, quer em Estremoz, na Quinta de Foz de Arouce ou na Duorum. Na minha mesa ficaram alguns bloguistas, a jornalista Maria João de Almeida e a enóloga da João Portugal Ramos em Estremoz.

João Portugal Ramos (já com João Ramos júnior na mesma linha, a estudar em Montpellier), começou por fazer uma exposição acerca do seu projecto pessoal, baseado em Estremoz mas com ramificações para outras regiões, sendo a grande novidade a apresentação dum Alvarinho produzido na região de Monção-Melgaço.

Foram feitas apresentações sobre os vinhos a servir, o projecto de um e de outro e de ambos, passaram-se slides e beberam-se vinhos fantásticos, que ainda não estão no mercado porque todos eles são novidades. Depois de um espumante Conde de Vimioso sem grande história enquanto se esperava pela chamada para as mesas, pudemos provar um excelente Alvarinho 2012 de João Portugal Ramos, uma belíssima surpresa a prometer uma grande carreira no mercado destes varietais. Seguiu-se um novo tinto de JPR chamado Estremus 2011 (um misto de Estremoz e de extremo, para vincar a extrema qualidade que almeja alcançar), para o qual o enólogo procurou encontrar as castas que lhe conferissem a maior tipicidade alentejana, acabando a escolha por recair no Alicante Bouschet e na quase esquecida Trincadeira. Um vinho cheio de estrutura, aroma profundo, longo e persistente, simplesmente fantástico. Para mim o grande vinho da noite, que vários convivas acharam que irá para o patamar do Esporão Private Selection ou do Marquês de Borba Reserva (ou seja, na casa dos 30 ou mais euros). João Portugal Ramos fez questão de frisar, aliás, que 2011 foi a melhor colheita que já teve na sua carreira como enólogo.

Em seguida, após o uso da palavra por parte de José Maria Soares Franco, duas novidades da Duorum com nome O.Leucura (2008), à cota dos 200 e dos 400 m de altitude, para comparar as características dum e doutro. O nome e a origem deste vinho prendem-se com a existência dum pequeno pássaro existente na zona, o chasco preto que tem a cauda branca, de nome original Oenanthe leucura... mas não foi fácil encontrar o nome para o vinho... Perante a dificuldade, os autores sentiram-se quase próximos da loucura, e daí surgiu este nome invulgar.

Mas... o que diferencia na realidade estes dois vinhos? Segundo nos diz a ficha técnica dos mesmos, a maceração pós-fermentativa é mais longa na versão cota 200. A predominância das castas é semelhante, Touriga Franca e Touriga Nacional provenientes de vinhas velhas. Estagiam ambos cerca de 24 meses, 70% em barricas novas e 30% em barricas de segundo e terceiro ano. O vinho produzido aos 400 metros de altitude apresentou-se mais fresco e mais apelativo em termos imediato. No caso do vinho da cota 200, precisaria de mais algum tempo e menos dispersão para lhe apreciarmos as virtudes.

No fim, e para acompanhar a sobremesa, um Duorum Vintage 2011, que foi o que menos me agradou. Tinha um aroma a álcool canforado, fazia lembrar aquele que se usa para as lamparinas de fondue, com uma acidez volátil ainda excessiva que deu uma prova um pouco agressiva. Um vinho claramente a precisar de tempo na garrafa.

Os comes, é claro, excepcionais. O Chefe José Cordeiro está à frente da cozinha do Altis Belém e as iguarias apresentadas encaixaram na perfeição nos vinhos provados. Não posso deixar de fazer um reparo ao erro existente no menu das entradas: estava escrito “amouse mouche”, em vez “amuse bouche”. Estivemos nos entreténs de boca, e não a entreter moscas, e trata-se do verbo “amuser” e não “amouser”... Dois lapsos a corrigir.

No final do evento ainda deu para trocar algumas impressões com os promotores da iniciativa, bastante acessíveis em termos pessoais. José Maria Soares Franco (o Zé Maria, como João lhe chama) tem um registo talvez um pouco menos descontraído que João Portugal Ramos, mas é igualmente muito acessível. No fim ainda lhe falei no livro sobre a história do Barca Velha onde é relatado o seu longo percurso como enólogo na Casa Ferreirinha/Sogrape (foram 28 anos...) e a sua relação com Fernando Nicolau de Almeida, e ele achou curiosa essa minha abordagem. Pelo meio deu-me um cartão de contacto e um convite para uma visita à Duorum, em Castelo Melhor...

Para finalizar, a melhor surpresa da noite: à saída foi-nos oferecido um saco de cabedal com uma garrafa do Alvarinho de João Portugal Ramos e duas do Quinta da Viçosa Touriga-Cabernet, a colheita mais recente, que não esteve à prova porque o objectivo era mostrar apenas aqueles que são novidades absolutas em termos de mercado. Como complemento ainda foi entregue aos presentes uma pen-drive com o conteúdo das apresentações efectuadas pelos dois enólogos e com as fichas técnicas de todos os vinhos, o que se revelou de grande utilidade para a compreensão dos vinhos provados e para formarmos o nosso juízo acerca dos mesmos.

Resta agradecer à João Portugal Ramos Vinhos e à Duorum Vinhos pelo honroso convite que nos enviaram para este evento, que proporcionou excelentes momentos de convívio e de degustação de óptimos vinhos e excelentes iguarias. Pela nossa parte, tentaremos dar a estes novos vinhos o devido – e merecido – destaque, fazendo votos que para façam uma grande carreira, e que estes dois eméritos enólogos nos continuem a brindar com alguns dos melhores vinhos do país.

Bem hajam.

Kroniketas, enófilo encantado

Quinta-feira, 25 de Abril de 2013

25 (em sincronia com as Krónikas Tugas)



Nestes tempos de desânimo e em que o objectivo dos nossos “líderes” é fazer-nos empobrecer, que significado tem comemorarmos mais uma vez a revolução do 25 de Abril?

Será que falhou? Será que falhámos? Podemos não ter chegado onde desejávamos, mas basta comparar as situações política, social e económica no antes e no depois para nos deixarmos de falácias e de invocar dons sebastiões, chamem-se salazar ou outra porcaria qualquer.

Sim, temos um governo que nem sequer possui o pingo de vergonha que ainda restava aos anteriores e um presidente da República mesquinho, que nem para amanuense obscuro devia servir, mas Portugal vai muito para além disso e é muito para além disso. No futuro, assim daqui a umas décadas, ler-se-á certamente Saramago mas poucos saberão quem foi este cavaco.

Costuma dizer-se que os cães ladram mas a caravana passa – deixemos então estes cães sarnentos ladrar e integremos a caravana que passa. E se a caravana não for a ideal, modifiquemo-la, e não liguemos aos cães.
Já dizia o Manuel Alegre:

"Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não."

Haveria muito mais a dizer? Certamente. Fica para outros dias…

tuguinho, cínico adiado

Quarta-feira, 24 de Abril de 2013

Dão Winelover Whiteday

 

Foi no passado sábado, numa tarde soalheira de Abril, que decorreu no restaurante Claro, do Hotel Solar Palmeiras, em Paço de Arcos, o encontro dedicado à degustação de vinhos brancos do Dão, promovido pelos dois mentores do grupo Dão Winelover – Rui Miguel Massa, do blogue Pingas no Copo, e Miguel Pereira, do blogue Pingamor –, e que contou com a presença de 9 produtores do Dão e de muitos amantes do vinho que partilham opiniões nas redes sociais, evento para o qual as KV tiveram a honra de ser convidadas, tendo sido representadas pelo Kroniketas, aliás, Barão Vermelho (isto do nickname tem dias...), e pelo Politikos, que tomou o lugar do tuguinho, impossibilitado por motivos medicamentosos...

Seguindo a ordem da foto, estiveram presentes os produtores: Casa da Passarela, Quinta dos Roques/Quinta das Maias, Quinta dos Carvalhais/Sogrape, Quinta do Perdigão, Magnum Vinhos, Casa de Darei, Dão Sul, Álvaro Castro/Quinta da Pellada e Nuno Cancela de Abreu/Quinta da Fonte do Ouro. O encontro começou no jardim, disfrutando de uma magnífica vista sobre o Tejo, com a apresentação de um produtor e de um vinho, e terminou no restaurante onde tivemos oportunidade de provar o portefólio que cada produtor achou por bem colocar à disposição dos convivas.

Pudemos, além disso, conhecer e trocar algumas impressões com os próprios produtores, enólogos e relações públicas, e ir apreciando os diversos perfis dos vinhos em prova, com destaque para os vinhos feitos com Encruzado, a casta-rainha dos brancos do Dão, que mostrou toda a sua consistência, ainda que pudéssemos também testemunhar que nem só de Encruzado vive o Dão... Presente ainda o jornalista Luís Baila, da RTP, também ele um Dão Winelover.

Na impossibilidade de descrever em detalhe tudo o que foi dito e provado, deixámos abaixo as fotos de alguns dos vinhos presentes, e que após a apresentação inicial foi possível ir degustando com alguns acepipes especialmente preparados para o efeito pelo chefe Vítor Claro.

Entre outras coisas, foi interessante saber, através do próprio, que Nuno Cancela de Abreu, nome muito ligado à região de Bucelas e à Quinta da Romeira, e também ao Ribatejo através da Quinta da Alorna, é oriundo do Dão, e que a Quinta da Fonte do Ouro já era há muitos anos um projecto de propriedade familiar. E da mesma forma, conhecer o posicionamento no mercado da Quinta dos Roques ou da Quinta do Perdigão, através dos seus representantes, Luís Lourenço e José Perdigão. Ou ainda saber que o Barcelo era há 50 anos a casta-rainha do Dão, antes de ser substituída pelo Encruzado. Por entre conversas mais ou menos longas, mais ou menos esparsas, foi-se provando e trocando impressões em ambiente informal e descontraído. Interessante foi igualmente descobrir a boa relação, de cordialidade e até de cumplicidade, entre os diversos produtores, que estiveram ali não como concorrentes que pretendem ganhar espaço uns aos outros, mas antes como parceiros dum mesmo negócio cujo sucesso interessa a todos. Talvez, disse alguém, faça falta (à semelhança dos “Douro boys”) a criação de uns “Dão boys”... ou dada a respeitável idade de alguns, dos “Dão men”... isto para não exagerarmos para “Dão old men”... :-)

Este encontro também prova que juntar enófilos, por um lado, e enólogos (produtores, relações públicas, o que for), por outro, é mais fácil do que parece, pois une-os uma coisa: o prazer pelo vinho. E quando nos segundos, além da obrigação, há devoção e amor, a ligação com os primeiros é ainda mais fácil...

De um modo geral, o perfil dos vinhos presentes mostrou que, tal como os tintos, os brancos do Dão nada ficam a dever aos de qualquer outra região, mostrando igualmente a macieza e suavidade que normalmente caracteriza os vinhos da região, a que acresce uma boa frescura e uma capacidade de envelhecimento invulgar. Alguns dos produtores referiram mesmo a necessidade de esperar 2 ou 3 anos antes de consumir os seus vinhos depois da sua colocação no mercado, pois estes geralmente melhoram na garrafa.

Não é nossa intenção destacar aqui nenhum vinho em particular, pois houve desde os de entrada de gama até aos de topo. Dentro de cada patamar, o tom geral foi de muito agrado, havendo alguma natural predominância dos monocasta de Encruzado, fazendo-se notar, pela diferença, uma raridade, um Barcelo 2005, da Quinta das Maias, delicado e suave, até mesmo algo doce, e com um perfil substancialmente diferente dos tradicionais Encruzados; um Loureiro e Bical 2000, da Quinta dos Carvalhais; o inesperado e aromático A Descoberta, da Casa da Passarella; ou uma vertical do Primus, da Quinta da Pellada, com as colheitas 2007, 2009, 2010 e 2011, a mostrarem algumas diferenças entre si, demonstrando que nem só a vinha e o terroir fazem o vinho... E das quais nos agradou mais a de 2007 e a de 2011 (curiosamente os extremos) e menos a de 2009.

Nunca é demais agradecer aos produtores presentes, ao restaurante Claro e principalmente aos dois carolas da organização, os bloguistas Pingamor e Pingas no Copo, que têm dado o melhor do seu tempo e do seu esforço à causa do Dão, apenas por amor ao belo néctar e àquela região, ou literalmente à «camisola» que ostentam – no caso em versão t-shirt – e onde se lê: Dão Winelovers. Pela nossa parte, a solo ou em duo, trio, quarteto ou quinteto, tentaremos ir fazendo o possível por divulgar a qualidade dos vinhos do Dão e ajudar a contribuir para a sua cada vez maior aceitação junto do consumidor. Em suma, a pôr o Dão no mapa dos vinhos que contam...

À vossa e até ao próximo evento.

Kroniketas e Politikos, Dão Winelovers

Terça-feira, 23 de Abril de 2013

Dão Winelover Whiteday - Fotos

   
            

Ficam aqui algumas fotos do Dão Winelover Whiteday, ocorrido no passado sábado no restaurante Claro, do Hotel Solar Palmeiras, em Paço de Arcos.

As descrições seguem dentro de dias.

Kroniketas, enófilo atrasado