segunda-feira, 29 de agosto de 2016

5º Festival de Vinhos do Douro Superior (5ª parte)

Quinta da Terrincha




Final de tarde do segundo dia. Após a visita ao festival de vinhos, rumámos à Quinta da Terrincha, um espaço de enoturismo a norte de Torre de Moncorvo e numa zona mais plana onde se vislumbra um afluente do rio Sabor a correr de forma pachorrenta por entre margens mais baixas.

Há ali não propriamente um vale, numa garganta entre margens apertadas como no coração das quintas visitadas no Douro Superior, mas uma espécie de planície entre montanhas, com uma vista mais desafogada. Junto à estrada que nos conduz para norte, fica esta quinta que está concebida para permitir desfrutar dos prazeres do repouso e da paisagem que se estende para oeste.

Há edifícios para alojamento com apartamentos semelhantes a uma residência, com todas as comodidades para o visitante se sentir em casa. Há um terreno com vinha para produção própria de vinho, há uma piscina e há um restaurante na suave encosta donde se pode contemplar a estrada mais abaixo e as montanhas ao longe. O local é quase paradisíaco e convida à preguiça. Mesmo ao lado do restaurante há um terraço onde se pode permanecer em amena cavaqueira e onde começamos a provar o branco, tinto e rosé da casa e provar os primeiros petiscos antes do jantar que se aproxima. Mas uma deliciosa açorda de perdiz faz-me perder a contenção e faço do petisco o pré-jantar, quase dispensando o que virá a seguir.

Já com a noite a cair entramos no restaurante totalmente envidraçado, onde iremos provar peixinhos do rio em escabeche com açorda de espargos bravos e polvo afogado em azeite biológico produzido na quinta. Mas já não há estômago para mais depois da ronda pela açorda de perdiz... Pelas paredes envidraçadas do restaurante vemos o dia despedir-se na paisagem bucólica que nos rodeia.

Quando chega a hora de regressar ao alojamento no Centro de Alto Rendimento, no Pocinho, fica a vontade de voltar a este empreendimento onde a simpatia impera e, se nos esquecermos do calor que aperta e do Verão que convida à praia, onde se pode estar apenas a pensar na natureza e no silêncio que nos rodeia e faz esquecer o bulício da grande cidade.

Fica, quiçá, a promessa de não ser um adeus mas um até qualquer dia.

Kroniketas, enófilo viajante

Foto: Ricardo Palma Veiga

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

5º Festival de Vinhos do Douro Superior (4ª parte)

Quinta da Cabreira




Segundo dia.

Depois da votação no Concurso de Vinhos do Douro Superior durante a parte da manhã, rumámos para leste, na direcção de Almendra, embrenhando-nos pela primeira vez nas “profundezas” do Douro Superior, para a meio do percurso fazermos um transbordo para duas carrinhas de caixa aberta que nos levaram durante vários quilómetros de terra batida (que pareciam intermináveis...), pelo meio de vinhas, por muitos montes e alguns vales, até à Quinta da Cabreira, propriedade da Quinta do Crasto.

Várias paragens durante o percurso para ouvir algumas explicações dadas pelos membros da equipa que ali trabalha, com o enólogo Manuel Lobo de Vasconcelos à cabeça. Subimos, descemos, cruzámos caminhos já percorridos e por fim chegámos ao topo! Ali está-se, literalmente, no meio de nada! Acima de nós, o céu; algumas centenas de metros abaixo, o Douro. Estamos na margem esquerda e aqui, para os mais místicos e que acreditam nessas coisas, parece que estamos mais perto de Deus. Não é o meu caso, que sou ateu, mas a ideia ocorreu-me.

Há um casão, armazém, para os trabalhos na vinha a pouco mais. Não há casa de banho, pelo que os mais aflitos dão uma escapadela para trás do casão e lavam as mãos na água duma mangueira.

Somos recebidos pelo proprietário Jorge Roquette que faz as honras da casa, enquanto nos dispersamos por uma mesa disposta ao comprido mesmo no cimo do monte: vamos almoçar a 400 metros de altitude, com o Douro a correr pachorrentamente lá em baixo. O calor é quase sufocante nestas paragens, donde só se vislumbra, para além das muitas vinhas, montanha e mais montanha. Confirma-se in loco que no Douro Superior há um microclima em que as temperaturas máximas, mesmo em altitude, atingem valores impensáveis. Felizmente dispuseram uns chapéus-de-sol de esplanada para nos resguardar, mas mesmo assim muitos dos presentes almoçam com o chapéu de palha que nos ofereceram posto na cabeça...

Come-se um caldo verde e arroz de pato enquanto se degustam três vinhos da Quinta do Crasto: o Crasto Superior branco, muito fresco e com muito boa acidez, bem estruturado mas elegante, o Crasto Superior tinto, que já conhecia, e um surpreendente Crasto Superior Syrah, que se porta muito bem e revela uma personalidade inesperada. São vinhos elaborados com uvas precisamente dali, da Quinta da Cabreira. Termina-se, nas sobremesas, com um Porto LBV.

Não apetecia sair dali, mas a tarde corre depressa e ainda vamos visitar o pavilhão da Expocôa para dar uma volta pelo festival de vinhos, afinal o evento que deu o mote a todo este programa. Mas à saída, antes de voltarmos a subir para as carrinhas, ainda somos presenteados com uma caixa onde está uma garrafa de Crasto Superior branco e uma de Crasto Superior tinto.

Este foi um dos pontos altos (não só geograficamente falando) do nosso programa. Para mim, pelo menos, que nunca tinha estado no coração do Douro Superior, ali no meio das montanhas. É uma ocasião para recordar, e nunca serão demais os agradecimentos a quem nos levou lá e a quem tão simpaticamente nos recebeu e nos falou da história e das histórias desta empresa.

Kroniketas, enófilo viajante

Fotos: Ricardo Palma Veiga

domingo, 21 de agosto de 2016

5º Festival de Vinhos do Douro Superior (3ª parte)

Muxagat Vinhos







A etapa da tarde passou por uma visita à garrafeira Vinho & Eventos, na Mêda, a sul de Foz Côa, antes de assentarmos arraiais na adega da Muxagat Vinhos, onde fomos recebidos pela nova proprietária, Susana Lopes.

Este produtor merece uma apresentação prévia, uma vez que começou por ser criado por um dos filhos de João Nicolau de Almeida, neste caso Mateus Nicolau de Almeida, que produziu os primeiros vinhos com esta marca, que depois se chamou Mux durante algum tempo antes de voltar à designação inicial.

Entretanto, os Nicolau de Almeida dedicaram-se a um projecto familiar, o pai João saiu da administração da Ramos Pinto, Mateus deixou a Muxagat Vinhos e os restantes filhos juntaram-se ao projecto Quinta do Monte Xisto. Assim, a Muxagat Vinhos mudou de mãos e de enólogo. Luís Seabra, que durante anos teve uma carreira bem sucedida na Niepoort, é agora o responsável pelos vinhos Muxagat. E foi com Luís Seabra que fizemos a prova na adega, a que se seguiu um jantar de cabrito assado acompanhado com os vinhos da casa.

Tivemos oportunidade de provar alguns vinhos ainda em cuba ou em barrica e não filtrados, nomeadamente um Tinta Barroca e um Tinta Francisca. A gama está agora mais vasta, com diversas referências em brancos, tintos e rosés.

Alguns dos vinhos provados estão retratados nas fotos que aqui deixamos, gentilmente cedidas pela organização. Não posso deixar de destacar o branco Xistos Altos 2012, um monocasta de Rabigato que fez as delícias dos presentes pela sua personalidade.

Foi um excelente serão, com um agradável convívio e muito bons vinhos, a mostrar que a empresa está em boas mãos e com muito caminho para se afirmar. Os vinhos provados prometem, e já se sabe que a mão de Luís Seabra costuma produzir bons resultados.

Obrigado a toda a equipa da Muxagat Vinhos pela simpatia com que nos receberam e toda a atenção que nos dispensaram.

Kroniketas, enófilo viajante

Fotos: Muxagat Vinhos e Ricardo Palma Veiga

sábado, 13 de agosto de 2016

5º Festival de Vinhos do Douro Superior (2ª parte)

Quinta do Vale Meão





A primeira etapa do programa terminou na Quinta do Vale Meão. Por um caminho estreito e sinuoso, onde um autocarro manobra com dificuldade, lá atravessámos o Douro frente ao Pocinho e chegámos à mítica quinta que ostenta por cima do portão de entrada o nome de Dona Antónia Adelaide Ferreira.

À nossa espera a família dos donos: pai, mãe e filha receberam-nos num alpendre onde o proprietário Francisco (Vito) Olazabal nos contou em traços gerais a história de como aquela quinta – onde em 1952 nasceu o mítico Barca Velha pela mão de Fernando Nicolau de Almeida – passou de propriedade da Casa Ferreirinha para os descendentes de Dona Antónia.

Enquanto a conversa fluía, provavam-se alguns acepipes e provaram-se os primeiros vinhos, com destaque para o novo Meandro branco, já em segunda colheita, uma boa surpresa que me convenceu logo à primeira impressão.

Já com a hora adiantada, passámos às mesas dispostas em frente à casa, donde se vislumbra uma parte da quinta e algumas curvas do Douro, com a outra margem sempre imponente na paisagem. A proprietária Maria Luísa, filha de Fernando Nicolau de Almeida, convidou-me para me sentar à sua mesa e assim tivemos uma animada conversa sobre histórias do pai e do irmão João Nicolau de Almeida, enquanto saboreávamos um apetitoso bacalhau acompanhado por diversos vinhos da quinta. Pelos nossos copos desfilaram o Meandro branco e tinto, o novo Monte Meão e o inevitável Porto Vintage.

Sobre a quinta, o que dizer? Estar num local mítico como este deixa-nos quase sem palavras. É um momento sobretudo para desfrutar e para não esquecer, assim como a simpatia com que fomos recebidos. A história da quinta e dos vinhos fala por si, pelo que me dispenso de entrar em mais considerandos. Deixo apenas algumas fotos do local que pude captar na ocasião. Para mais tarde recordar.

Seguiu-se a ida para o colóquio na Expocôa, onde alguns convidados de peso usaram da palavra, mas o cansaço da jornada fez-se sentir após o almoço, pelo que essa etapa serviu mais para retemperar forças e preparar-nos para a jornada nocturna que se iria seguir.

Kroniketas, enófilo viajante