segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Na minha mesa 428 - Restaurante 3 Pipos (Tonda)

  
 

No caminho de ida para Viseu, para a entronização dos novos confrades, fiz uma pausa do trajecto para almoçar no restaurante 3 Pipos, em Tonda, a caminho de Tondela.

Ambiente familiar, quase rústico, pratos regionais e caseiros, variados. Serviço rápido, simpático e competente. Além do inevitável cabrito, tínhamos como opção um arroz de míscaros e alguns pratos de apelativos, mas o funcionário que me atendeu recomendou-me o arroz de míscaros. Assim fiz e não fiquei nada mal servido.

O arroz veio malandrinho, caldoso, com bocadinhos de carne e os famosos míscaros laminados, muito bem temperado. Não resisti a esvaziar a travessa até ao fim.

Já saciado com o prato principal, não deixei de olhar para a montra de doces, na sala de entrada, que estava bastante bem recheada. Havia uma mousse de chocolate bastante atractiva, mas optei pelas Trapalhadas, que acaba por ser o mais ou menos tradicional doce às camadas, que se vê um pouco por todo o lado com as mais diversas designações.

Não querendo beber muito vinho, uma vez que tinha a viagem para completar, pedi ½ jarro de vinho da casa, que agradou. Suave e macio, um tinto típico do Dão por 3 €. Serviu.

Para além da sala onde me sentei, há uma outra sala maior, mais para dentro, que estava repleta e bastante mais barulhenta que a primeira. Na sala de entrada, bastante espaçosa e onde está situado o balcão, fica localizada, à direita, a loja do restaurante, onde se pode vender vinho e outros produtos regionais.

No final, uma refeição calma, agradável e satisfatória, em ambiente ameno e representativo da boa gastronomia da região. Este 3 Pipos é bom, não é caro e recomenda-se.

Kroniketas, enófilo itinerante

Restaurante: 3 Pipos
Rua de Santo Amaro, 966
Tonda
3460-479 Tondela
Telef: 232.816.851
Preço por refeição: 20 €
Nota (0 a 5): 4,5

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

No Solar do Vinho do Dão - Entronização dos novos Confrades

  
  

Sem que nada o fizesse prever, em Dezembro de 2014 recebemos uma mensagem em nome da Confraria dos Enófilos do Dão, em nome do Grão-Mestre da Confraria e do Presidente da Comissão Vitivinícola Regional do Dão. Tratava-se de um convite para assistir à cerimónia de entronização dos novos confrades, que iria decorrer num fim-de-semana de Dezembro no Solar do Vinho do Dão. Dias antes já tínhamos tido conhecimento de que os dois principais dinamizadores do grupo #daowinelover haviam sido propostos para confrades honorários, o que nos pareceu inteiramente merecido.

O inesperado convite para assistirmos à cerimónia, que muito nos honrou, incluía um programa que preenchia o dia todo: cerimónia de entronização, recepção na Câmara Municipal de Viseu, entrada no Festival de Vinhos de Inverno do Dão, seguido de um jantar e ainda duma Wine Party. Infelizmente, o convite só contemplava uma presença no jantar, pelo que não foi possível angariar companhia para esta jornada. Mas como este era um acontecimento raro, e que por isso mesmo não sabemos se se repetirá, resolvemos aceitar o convite e pus-me sozinho a caminho de Viseu. E é por isso que o resto do post é na primeira pessoa do singular…

Estando a deslocar-me sem companhia, achei por bem planear o regresso atempadamente, considerando a hipótese de pernoitar em Viseu. A seguir a um jantar e prova de vinhos, que terminariam sabe-se lá a que horas, não seria prudente regressar a casa a conduzir sozinho. Portanto reservei um quarto numa residencial da zona, só mesmo para dormir e não ter hora para acordar.

A primeira etapa tratou-se, obviamente, da ida para Viseu, que incluiu paragem para almoço no caminho, pois era suposto estar no Solar do Vinho do Dão às 15h00. Sobre esse almoço falarei no próximo post, bem como do almoço no dia seguinte, já na viagem de regresso.

Duas das primeiras pessoas que encontrei à chegada foram os daowinelovers: Pingus Vinicus e Miguel Pereira. Foram aparecendo depois outras caras conhecidas, alguns deles confrades já trajados a rigor, como o produtor e enólogo João Paulo Gouveia, Grão-Mestre da Confraria, o enólogo Manuel Vieira ou o jornalista Luís Baila. À medida que os convidados se acomodavam na capela onde iria decorrer a cerimónia, fui vendo outros futuros confrades, como a nova enóloga da Quinta dos Carvalhais, Beatriz Cabral de Almeida, o jornalista Carlos Daniel, o ex-atleta Carlos Lopes e o enófilo e gastrónomo Wilson Honrado.

Os novos confrades prestaram o juramento, receberam o traje e um diploma e provaram um vinho do Dão na tambuladeira do colar que lhes foi colocado ao pescoço. Houve momentos musicais, a bênção dos confrades, após o que seguimos de autocarro para a Câmara Municipal de Viseu, não sem antes pararmos numa das ruas principais para ouvir uma tuna académica que dedicou algumas canções aos confrades, os novos e os velhos.

De regresso ao Solar, dirigimo-nos então para o Festival de Vinhos de Inverno, onde marcaram presença muitos dos produtores em destaque no Dão. Por ali fui deambulando a provar o que não conhecia e trocando algumas palavras com quem me ia cruzando, nomeadamente o presidente da CVR do Dão e os jornalistas Carlos Daniel e Luís Baila.

Quando chegou a hora do jantar fomos encaminhados para um outro edifício, onde fomos distribuídos pelas mesas segundo um escalonamento prévio, no qual tive a oportunidade de constatar que eu era o único bloguista presente no evento.

Quanto ao jantar, dois belíssimos pratos: bacalhau com broa e migas e, claro, o inevitável cabrito assado no forno à moda beirã. Para acompanhar, garrafas de vinhos do Dão à discrição (ver ementa completa e lista de vinhos disponíveis nas imagens). Algumas desapareceram imediatamente, mas ainda consegui trazer para a mesa um Meia Encosta branco 2013 e um Quinta das Maias Jaen tinto 2011. O resto foi-se debicando daqui e dali.

Finalmente, e terminado o excelente repasto, ainda dei um salto à Wine Party, mas como o dia seguinte era de regresso, foi quase mera entrada por saída, um interlúdio antes do sono retemperador.

Foi, pois, um dia muito bem passado, com bons momentos de convívio e a possibilidade de falar um pouco com algumas personalidades relevantes da “fileira do vinho” na região. Resta-me agradecer à Confraria dos Enófilos do Dão, na pessoa do Grão-Mestre João Paulo Gouveia, e à Comissão Vitivinícola Regional do Dão, na pessoa do seu Presidente, Prof. Arlindo Cunha, ficando a promessa de as KV continuarem a divulgar os excelentes vinhos que o Dão tem para nos oferecer.

Aos novos confrades, parabéns pela honraria com que foram contemplados. E viva o Dão!

Kroniketas, enófilo itinerante

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Na GN Cellar 6 - Malmsey’s Blandy’s



Temos aqui uma prova vertical de vinhos da Madeira, realizada no passado mês de Dezembro na GN Cellar, contada na primeira pessoa pelo Politikos.

Aproveitando uma ida forçada à Baixa, decidi-me a rumar à Garrafeira Nacional, na Rua da Conceição, para a prova vertical dos vinhos da Madeira Blandy’s, na qual se degustaram seis vinhos, a saber:

  • Malmsey (ou Malvasia), antes do Canteiro
  • Blandy’s Malmsey 5 anos
  • Blandy’s Malmsey 10 anos
  • Blandy’s Malmsey 15 anos
  • Blandy’s Malmsey Colheita 1996
  • Blandy’s Malmsey Colheita 1988

Como cheguei tarde, já apanhei a prova no terceiro vinho, o 10 anos, o que não foi necessariamente mau, pois permitiu-me descer ao 5 anos e depois ao vinho de base, antes do chamado «Canteiro», o método tradicional de envelhecimento dos Madeira, percepcionando as diferenças, e depois voltar a subir...

A prova foi apresentada pelo enólogo da Blandy’s, Francisco Albuquerque, que de forma sabedora, pedagógica e paciente, a soube conduzir, mostrando-se sempre disponível para responder às perguntas da assistência.

Foi uma experiência muito gratificante percepcionar o trajecto ascensional dos vinhos no que se refere à intensidade aromática e gustativa... O salto do vinho de base – delgado e ainda sem o carácter dos Madeira – para o 5 anos é muito notório… Como notória é a diferença entre os 5, 10 e 15 anos e os Colheitas… Dentro das respectivas categorias, os vinhos mantêm o perfil característico da casta, terroir, local e método de envelhecimento, mas progridem em intensidade, mais até do que no corpo ou na complexidade… Achei alguma diferença no último, mais delicado, e que foi mesmo apelidado de Vintage por Francisco Albuquerque, uma curiosa apropriação pelos Madeira de um termo característico do vinho do Porto, indicador de um vinho de excepcional qualidade e reconhecível para o mercado… Diga-se, aliás, que o perfil dos Madeira 5, 10 e 15 anos é, grosso modo, equivalente aos nos Portos, e o dos Colheita aos seus homónimos no Douro (a que acresce os LBV e Vintage)… E nesta viagem, quando se pensa que já se está a beber um vinho óptimo, ainda vem um excelente, e depois deste um sublime... Que foi o que aconteceu com aquele Colheita 1988 que obteve recentemente um Gold Outstanding no International Wine and Spirit Competition (IWSC), um dos mais antigos concursos do Reino Unido, o que também se reflecte no custo: 281€ a garrafa!

Três (para mim) novidades: o vinho antes do estágio em Canteiro – designação que provém do facto de se colocarem as pipas sobre suportes de madeira, denominados canteiros, normalmente nos pisos mais elevados dos armazéns e onde as temperaturas são mais elevadas, por um período mínimo de 2 anos: sendo que o Colheita 1988 foi envelhecido em cascos de carvalho americano durante 25 anos (no 4.º andar até 1991; no 2.º andar até 1993; no 1.º andar os restantes 20 até ao engarrafamento); o Madeira deve ser conservado de pé e não deitado; o Madeira, depois de aberto, pode durar seis meses sem perda de qualidade, o que se deve ao envelhecimento por oxidação que sofreu...

Em suma, um excelente final de tarde com Madeiras, infelizmente não tão divulgados como claramente merecem...

Politikos, enófilo convidado

PS: Na ausência de outras fotos, usámos uma da própria Garrafeira Nacional, com a devida vénia.

sábado, 17 de janeiro de 2015

Na Wines 9297 (2) - Com Jorge Moreira

  

Depois de várias provas a passarem-me ao lado, finalmente consegui voltar à Wines 9297 para uma prova apresentada pelo enólogo Jorge Moreira. Este é um nome que está associado a várias marcas de vinho: para além da produção que apresenta em nome próprio (de que começou por se destacar o Poeira), é também enólogo da Real Companhia Velha e mais recentemente associou-se a Jorge Serôdio Borges e Francisco (Xito) Olazabal para a produção de vinhos no Dão (M.O.B. e Quinta do Corujão).

Foram alguns destes vinhos que estiveram à prova num fim de tarde em meados de Dezembro passado. Na realidade, foram 5 vinhos: o M.O.B. branco e tinto, o Poeira branco e tinto e ainda uma novidade do Douro, o Passagem Reserva tinto.

No caso do M.O.B. agradou-me particularmente o branco (baseado em Encruzado), muito mineral e com grande frescura, bem estruturado mas suave. O tinto apresentou-se também muito elegante, fresco e com alguma delicadeza. É um lote pouco habitual, que junta Touriga Nacional, Alfrocheiro, Jaen e Baga.

No caso dos Poeira, o tinto é conhecido pela sua pujança e estrutura, enquanto o branco apareceu mais marcado por algum floral, bastante corpo e persistência, muito mais austero no nariz e na boca que o M.O.B., enfim, dois perfis bastante diferentes que dividiram as opiniões dos presentes em termos de preferências.

Finalmente o Passagem Reserva, uma novidade bem recebida, um tinto do Douro com alguma delicadeza, muito focado na fruta, suave e aromático.

No geral, uma prova de nível muito agradável, em que todos os vinhos provados eram bons, sendo o resto apenas uma questão de preferência pelos diversos perfis apresentados. E, claro, sem deixar de lado o preço, que não é uma questão menor...

Kroniketas, enófilo esclarecido

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

No meu copo 427 - Horta da Palha, Touriga Nacional 2008

Terminamos esta viagem por terras do Alentejo em Benavila, no concelho de Avis, na Fundação Abreu Callado, próximo da barragem do Maranhão.

Temos aqui um monocasta de Touriga Nacional, a casa da moda em todo o lado, mas com um resultado que não é espectacular. Por muito boa que seja a Touriga Nacional, querer impô-la em todo o lado nem sempre resulta, principalmente se for a solo em vez de integrada num lote.

Sendo um vinho já com 6 anos, e portanto com tempo de garrafa suficiente para haver uma boa integração dos aromas e polir arestas, apresentou-se algo linear na prova de boca, aroma pouco exuberante, corpo algo delgado e final curto. As notas de violeta e flor de laranjeira estão presentes mas de forma muito discreta, com pouca expressividade.

Não é um mau vinho, longe disso. Bebe-se com facilidade, mas não encanta nem surpreende. Deixa-nos mais ou menos neutros e sem grandes memórias do que estava dentro da garrafa.

Talvez esta aposta na Touriga Nacional não seja a mais aconselhada. Também já começa a fartar...

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Horta da Palha, Touriga Nacional 2008 (T)
Região: Alentejo (Avis)
Produtor: Fundação Abreu Callado
Grau alcoólico: 14%
Casta: Touriga Nacional
Nota (0 a 10): 6

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

No meu copo 426 - Monte da Ravasqueira Reserva 2011

O Monte da Ravasqueira tem vindo nos últimos anos a ganhar alguma notoriedade entre os vinhos do Alentejo, e esta garrafa apresentada pela Revista de Vinhos mereceu os melhores encómios, tendo em conta que todas as garrafas promovidas são seleccionadas pelo painel de provadores e sujeitas a um escrutínio que obriga a que atinjam uma classificação mínima, creio que 16.

Teoricamente, isso significa que estaremos sempre próximos dum patamar de qualidade bem acima da média, com classificações de bom ou muito bom (não esquecer que se trata de vinhos vendidos a 6 € que apresentam um preço de mercado a rondar os 9/10 €), mas às vezes, na prática, não é bem isso que acontece. Já se sabe que os gostos não são iguais, e nem sempre os gostos e opiniões alheiras coincidem com os nossos. E quando se fala de vinhos, então, é impossível impor um padrão seja a quem for...

Aconteceu isso com esta garrafa, que me desiludiu. Este Reserva 2011 apresentou-se demasiado alcoólico, com muita fruta no nariz mas algo curto, pouco estruturado e sem persistência. A combinação de Touriga com Syrah não revelou nada de especial, o que veio mais uma vez confirmar as impressões que tenho ido formando acerca do Syrah nos vinhos alentejanos.

Mais recentemente a Revista de Vinhos voltou a apresentar uma nova colheita deste vinho, referindo de passagem o enorme sucesso que foi o lançamento anterior. Se o que se pretende é um vinho da moda, pois então que seja, já que a receita está lá toda: fruta, álcool e madeira, o trio inefável e inevitável que inundou o mercado na última década.

A impressão que me fica deste reserva, com muita pena minha pelo dinheiro gasto, é esta: nada de novo, mais do mesmo. Não surpreende, não encanta, não inova, não acrescenta nada às dezenas que invadem as prateleiras e são quase iguais. É apenas mais um na torrente. Por mim, passo. Passei o de 2012 e continuarei a passar os seguintes. Qualquer coincidência com o Julian Reynolds, referido no post anterior, será... inexistente!

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Monte da Ravasqueira Reserva 2011 (T)
Região: Alentejo (Arraiolos)
Produtor: Sociedade Agrícola D. Diniz
Grau alcoólico: 14,5%
Castas: Touriga Nacional, Syrah
Preço com a Revista de Vinhos: 6 €
Nota (0 a 10): 5

sábado, 3 de janeiro de 2015

No meu copo 425 - Julian Reynolds 2006

Iniciamos o ano da melhor forma com este belíssimo tinto. Este foi apenas o segundo vinho desta casa que provei, depois de há uns anos ter provado o Gloria Reynolds 2004. Tomei contacto com ele numa edição da Revista de Vinhos, em 2011, e a surpresa foi tal que quando o reencontrei voltei a comprá-lo.

Depois de provar mais duas ou três garrafas, as impressões mantiveram-se. Trata-se dum excelente vinho, muito vivo e apelativo na boca, robusto e ao mesmo tempo elegante, encorpado e bem estruturado, persistente e com um toque a especiarias, com uma acidez refrescante, taninos muito sedosos e elegantes.

É mais um bom exemplo de como se pode fazer um vinho com robustez e elegância, sem ser uma bomba de fruta e extracção, muita madeira e muito álcool. Tem isso tudo mas apenas na medida necessária, tudo na conta certa. E o preço é excelente para a qualidade que tem.

Boa compra? Não: excelente compra! Entrou de imediato (e de caras) para a nossa lista de sugestões.

Kroniketas, enófilo esclarecido


Vinho: Julian Reynolds 2006 (T)
Região: Alentejo (Arronches - Portalegre)
Produtor: Julian Cuellar Reynolds
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Alicante Bouschet, Aragonês, Trincadeira, Syrah
Preço em hipermercado: 6,99 €
Nota (0 a 10): 8,5

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

No meu copo 424 - Porta da Ravessa Reserva 2013; Reserva ACR 2010

Para fechar o ano descemos até ao Redondo, continuando nas adegas cooperativas. Estes dois tintos foram uma estreia nas nossas provas, e tínhamos alguma curiosidade em conhecê-los, pois nos últimos anos temos andado algo afastados dos vinhos do Redondo, com excepção de alguns produzidos pela Roquevale.

O Porta da Ravessa Reserva mostrou-se eminentemente frutado mas com os aromas ainda algo desligados, indefinidos. Algo simples e linear na boca, com final curto e medianamente encorpado. Claramente um vinho a precisar de tempo na garrafa, pelo que esta prova não terá sido de todo conclusiva.

Já o Reserva ACR, da colheita de 2010 (curiosamente com as mesmas castas do Porta da Ravessa Reserva à excepção do Cabernet Sauvignon), mostrou-se mais acabado, mais integrado e bem mais harmonioso. Bem estruturado, cheio e persistente, com aroma marcado a frutos vermelhos e alguma complexidade.

Em suma, dois vinhos baratos mas com perfis bastante diferentes, talvez muito diferenciados pelo tempo em garrafa. A rever, pois esta dupla prova não foi claramente conclusiva...

E com isto desejamos a todos um bom ano de 2015, de preferência com bons vinhos.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Região: Alentejo (Redondo)
Produtor: Adega Cooperativa de Redondo

Vinho: Porta da Ravessa Reserva 2013 (T)
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Aragonês, Trincadeira, Alicante Bouschet, Cabernet Sauvignon
Preço em feira de vinhos: 3,99 €
Nota (0 a 10): 7

Vinho: Reserva ACR 2010 (T)
Grau alcoólico: 14%
Castas: Aragonês, Trincadeira, Alicante Bouschet
Preço em feira de vinhos: 3,89 €
Nota (0 a 10): 8

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

No meu copo 423 - Adega de Borba Reserva, Rótulo de Cortiça 2008

De Reguengos vamos para Borba para provar outro clássico, da Adega Cooperativa. À semelhança do tinto anterior, também mantém características e qualidade consistentes ao longo dos anos, tornando-se uma marca emblemática da casa.
Com uma cor granada de laivos acastanhados, apresentou-se encorpado, robusto e bem estruturado, com final persistente e um toque a madeira bem integrada no conjunto, com taninos arredondados mas presentes a conferirem ligeira adstringência. No aroma mostra alguma evolução, com notas intensas de compota e frutos em passa. É outro vinho que vale a pena ter e esperar algum tempo antes de beber.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Adega de Borba Reserva, Rótulo de Cortiça 2008 (T)
Região: Alentejo (Borba)
Produtor: Adega Cooperativa de Borba
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Aragonês, Trincadeira, Castelão, Alicante Bouschet
Preço em feira de vinhos: 7,63 €
Nota (0 a 10): 8

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

No meu copo 422 - Reguengos: Reserva tinto 2005; Reserva branco 2011

Iniciamos agora um pequeno périplo por alguns vinhos alentejanos, uns mais conhecidos que outros.

Começamos por Reguengos de Monsaraz, uma das nossas sub-regiões preferidas. Da Cooperativa Agrícola sai há longos anos este Reguengos Reserva tinto que tem mantido um perfil e uma qualidade consistentes (ver aqui colheitas anteriores). O preço, entretanto, foi baixando, ao ponto de chegar a um patamar onde o vinho é muito melhor do que aquilo que custa. Continua também a ser um vinho que vale a pena guardar algum tempo em vez de o beber em novo, pois normalmente melhora com o tempo em garrafa.

Esta colheita de 2005 confirmou essa impressão. Com 9 anos de idade, apresentou-se com grande frescura, com todos os aromas e sabores bem integrados, taninos macios embora ainda presentes. Aroma vinoso, intenso, com notas de frutos pretos. Encorpado, bem estruturado e robusto, persistente e com final marcado por um toque de madeira e especiarias.

Continua a ser um bom vinho para pratos de carne fortes e bem temperados, como a típica cozinha alentejana. E continua a ser um vinho que gostamos de ter sempre em stock, pois normalmente porta-se à altura.

Novidade, desta vez, foi a prova do Reserva branco, que nunca tínhamos experimentado. Apresentou um volume de boca interessante, aroma discreto com notas a frutos brancos e amarelos, um ligeiro toque vegetal e herbáceo, acidez suave e final mediano. Não é um vinho de qualidade média/alta ao nível do tinto, mas faz uma boa companhia a pratos de peixe não muito complexos nem condimentados. Não desilude e não é um daqueles brancos pesados que aparecem muitas vezes no Alentejo.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Região: Alentejo (Reguengos)
Produtor: CARMIM - Cooperativa Agrícola de Reguengos de Monsaraz

Vinho: Reguengos Reserva 2005 (T)
Grau alcoólico: 14%
Castas: Trincadeira, Aragonês, Tinta Caiada, Alicante Bouschet
Preço em feira de vinhos: 2,59 €
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Reguengos Reserva 2011 (B)
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Arinto, Antão Vaz
Preço em feira de vinhos: 3,99 €
Nota (0 a 10): 7

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

No meu copo 421 - Palácio da Brejoeira, Alvarinho 2012; Soalheiro, Alvarinho 2013

De dois vinhos bons passamos para dois vinhos brilhantes.

Palácio da Brejoeira: excelente, como sempre! É um daqueles vinhos para os quais até é difícil encontrar palavras que descrevam a sua excelência. Quase sublime. Elegância e suavidade a toda a prova. Finesse, aromas delicados e quase veludo na boca.

Se não é o melhor verde ou o melhor Alvarinho do país, não deve andar longe. E está tudo dito.

Quanto ao Soalheiro, não lhe fica muito atrás. Ano após ano tem vindo a ganhar terreno no panorama dos Alvarinhos, guindando-se consistentemente a um lugar entre os melhores e mais aclamados. Belo aroma frutado com notas tropicais, excelente acidez, boca vibrante, elegante e longa, final persistente e suave.

Um prazer para beber, e beber, e beber...

Kroniketas, enófilo esclarecido

Vinho: Palácio da Brejoeira, Alvarinho 2012 (B)
Região: Vinhos Verdes (Monção)
Produtor: Palácio da Brejoeira Viticultores
Grau alcoólico: 13%
Casta: Alvarinho
Preço em feira de vinhos: 12,99 €
Nota (0 a 10): 9

Vinho: Soalheiro, Alvarinho 2013 (B)
Região: Vinhos Verdes (Melgaço)
Produtor: Vinusoalleirus
Grau alcoólico: 12,5%
Casta: Alvarinho
Preço em feira de vinhos: 8,48 €
Nota (0 a 10): 8,5

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

No meu copo 420 - Planalto Reserva 2013; Vinha Grande rosé 2013

 

Planalto: eis um vinho que nunca nos desilude. É um daqueles vinhos consistentes de ano para ano, que ao longo do tempo se vão revelando como apostas sempre seguras, em que se pode confiar numa boa compra sem grande risco de decepções.

Aromático, equilibrado, perfumado, ligeiramente floral. Bebe-se sempre com agrado, no Verão ou no Inverno, com frio ou com calor. Não é o vinho mais brilhante que existe, mas nunca nos desilude.

Quanto ao Vinha Grande rosé, foi uma novidade absoluta em termos de prova, e desde logo começou por uma surpresa na cor: o vinho é dum rosa completamente desmaiado, quase branco. A cor pode não ser apelativa quando se está à espera dum vinho rosado, mas a prova contraria a possível má impressão inicial. O vinho apresenta-se com bastante frescura e acidez, com aroma ligeiro a flores e notas a frutos vermelhos e tropicais, boa estrutura e final persistente. A falta de cor deve-se às condições da colheita, que fizeram as uvas perder grande parte da coloração, mas não é por aí que o vinho deixa de ser agradável.

Segundo fomos informados, o vinho não esteve à prova no Encontro com o Vinho e os Sabores porque os clientes, aparentemente, estão a reagir mal à falta de cor. Pois é, mas o que conta é o que está dentro da garrafa... Esqueçam a cor e provem-no, porque vale a pena.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Região: Douro
Produtor: Casa Ferreirinha - Sogrape

Vinho: Planalto Reserva 2013 (B)
Grau alcoólico: 12,5%
Castas: Viosinho, Malvasia Fina, Gouveio, Códega, Arinto
Preço em feira de vinhos: 3,95 €
Nota (0 a 10): 7,5

Vinho: Vinha Grande 2013 (R)
Grau alcoólico: 12%
Casta: Touriga Nacional
Preço: 8,99 €
Nota (0 a 10): 8

sábado, 13 de dezembro de 2014

No meu copo 419 - Esporão, Verdelho 2011; Esporão, Duas Castas 2013

Regressamos a dois brancos do Esporão que já se impuseram nas nossas preferências. O monocasta Verdelho e o Duas Castas que, seguindo o mesmo princípio do Quatro Castas tinto, é composto pelas duas melhores castas brancas de cada ano, pelo que a sua composição é muito variável.

O Verdelho, mais uma vez, correspondeu inteiramente ao que se esperava. Aroma intenso com notas tropicais, vivo, persistente e estruturado na boca, com uma acidez refrescante e apetitosa, que o torna um vinho guloso e de que apetece sempre beber mais. Para nós tornou-se um branco incontornável, e consideramo-lo um dos melhores do país.

Quanto à versão mais recente do Duas Castas, apresenta-se suave, aromático, persistente e estruturado. Um ligeiro aroma cítrico complementado com notas minerais, boa acidez e elegância. Também é uma boa aposta, tanto mais notável quanto é verdade que estamos a falar dum branco da planície, de clima quente.

Como o Esporão consegue produzir brancos com esta frescura, acidez e leveza, é um feito de realçar. Só pode ser um caso de extrema competência e sabedoria.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Região: Alentejo (Reguengos)
Produtor: Esporão

Vinho: Esporão, Verdelho 2011 (B)
Grau alcoólico: 13,5%
Casta: Verdelho
Preço em feira de vinhos: 7,98 €
Nota (0 a 10): 9

Vinho: Esporão, Duas Castas 2013 (B)
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Gouveio (70%), Antão Vaz (30%)
Preço em feira de vinhos: 7,75 €
Nota (0 a 10): 8

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

9 é o número


O tempo passa. E hoje o tempo passado perfaz nove anos completos desde a fundação deste blog, que surgiu como uma emanação das Krónikas Tugas, que hoje completam já 11 anos de existência. Os anos passam e os vinhos também, pelas nossas garrafeiras e, muito mais importante, pelas nossas gargantas.

No ano que quase finda, como nos outros, conhecemos novas pessoas e novos vinhos, e fortalecemos as relações com quem já conhecíamos – tanto pessoas como vinhos.

No ano que se avizinha, se for mais do mesmo, já é bom.

Nove é um bom número, mas dez ainda nos parece melhor – assim estejamos por cá daqui a um ano, para os comemorar.

Obrigado

tuguinho e Kroniketas, enófilos comemorativos

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

No meu copo 418 - Tágide, Chardonnay 2012


Já este ano tínhamos provado um vinho muito interessante desta marca, produzido a partir das castas Arinto e Vital, e que pareceu um caso muito bem sucedido. Agora deparámo-nos com uma outra versão em que, sem se perceber porquê, aquelas castas foram substituídas pelo Chardonnay.

Existe uma certa mania do Chardonnay em Portugal (a juntar à mania da madeira), e em muitos casos, infelizmente, os resultados não são famosos.

Foi o que aconteceu com este exemplar. Liso, chato, sem frescura e sem alma, completamente desinteressante, não agradou a ninguém. Todos os que tinham provado a versão anterior concordaram que este vinho não tinha nada que o recomendasse.

Há apostas que não se compreendem...

Kroniketas, enófilo esclarecido


Vinho: Tágide, Chardonnay 2012 (B)
Região: Lisboa (Óbidos)
Produtor: Quinta da Barreira
Grau alcoólico: 13,5%
Casta: Chardonnay
Nota (0 a 10): 3

sábado, 6 de dezembro de 2014

No meu copo 417 - João Portugal Ramos, Loureiro 2013; Vila Santa Reserva branco 2012

Continuando a provar alguns dos vinhos que simpaticamente nos têm sido enviados pela João Portugal Ramos Vinhos, provámos recentemente dois brancos. Um deles é novidade, um verde da casta Loureiro, depois de já termos provado o excelente Alvarinho aquando da apresentação de várias novidades no Hotel Altis Belém.

Apresentou-se suave, floral e perfumado, de aroma algo discreto e não muito intenso. Na boca mostrou persistência média e final um pouco curto.

O Vila Santa Reserva branco tinha sido uma óptima revelação na prova anterior, mas desta vez tivemos azar com a garrafa. O vinho mostrou-se sem frescura, com aroma cansado e cheiro a rolha. Ainda lhe demos tempo para ver se com o arejamento o vinho evoluía para melhor, mas de nada serviu. Ao fim de algumas horas morreu nos copos e na garrafa.

Acontece a qualquer um, e nunca o podemos prever. Ficamos a aguardar por uma próxima oportunidade para fazer a contraprova e confirmar as excelentes impressões que tínhamos colhido anteriormente.

Kroniketas, enófilo esclarecido

Produtor: João Portugal Ramos Vinhos

Vinho: João Portugal Ramos, Loureiro 2013 (B)
Região: Vinho Verde
Grau alcoólico: 12%
Casta: Loureiro
Preço: 3,15 €
Nota (0 a 10): 6,5

Vinho: Vila Santa Reserva 2012 (B)
Região: Alentejo (Estremoz - Borba)
Grau alcoólico: 13,5%
Castas: Arinto, Alvarinho e Sauvignon Blanc
Preço: 9,99 €
Nota (0 a 10): não classificado

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

No meu copo 416 - QM, Alvarinho 2012; Quinta da Aveleda Colheita Selecionada, Loureiro e Alvarinho 2012


Temos aqui dois verdes, em que um não é verde mas Regional Minho por causa da utilização do Alvarinho fora da sub-região autorizada (tema em debate nos últimos meses na região).

O QM Alvarinho foi uma estreia nas nossas provas. Apresenta-se muito aromático e suave, fresco, elegante, redondo e persistente. Não sendo um Alvarinho excepcional, não decepciona, podendo merecer novas provas, até porque o preço é convidativo.

Quanto ao Quinta da Aveleda Colheita Selecionada, já em repetição, manteve o perfil da prova anterior: leve, suave, aromático, notas florais (Loureiro) bem ligadas com um fundo de tropicalidade (Alvarinho). Uma aposta barata para um vinho não muito complexo e despretensioso, fácil de beber e adequado para mariscos, entradas ou pratos de peixe leves e não muito requintados.

Kroniketas, enófilo esclarecido


Vinho: QM, Alvarinho 2012 (B)
Região: Vinhos Verdes (Melgaço)
Produtor: Quintas de Melgaço
Grau alcoólico: 13%
Casta: Alvarinho
Preço em feira de vinhos: 5,99 €
Nota (0 a 10): 8

Vinho: Quinta da Aveleda Colheita Selecionada, Loureiro e Alvarinho 2012 (B)
Região: Regional Minho
Produtor: Aveleda
Grau alcoólico: 11,5%
Castas: Loureiro, Alvarinho
Preço em feira de vinhos: 3,39 €
Nota (0 a 10): 7

sábado, 29 de novembro de 2014

Na Empor Spirits & Wine 1 - Quinta de Foz de Arouce

 

No mundo do vinho, apesar da crise que tem assolado o país nos últimos anos, e embora se supusesse que este seria inevitavelmente um sector bastante afectado, a verdade é que os sinais que passam para o exterior parecem indicar o contrário.

Recordando os locais onde me deslocava com alguma frequência há 2, 3, 4 anos para participar em provas de vinhos em Lisboa, de memória destaco 3 ou 4, os mais habituais: Wine o’clock, nas Amoreiras, Garrafeira Nacional, na baixa, Delidelux, em Santa Apolónia, Coisas do Arco do Vinho, no Centro Cultural de Belém, e Garrafeira Internacional, no Príncipe Real (menos frequente). Mesmo com estes, por vezes era difícil gerir o calendário das provas, porque em várias ocasiões houve provas simultâneas em 3 ou 4 locais. Para além destas, claro, havia as clássicas, como algumas na baixa, a Agrovinhos em Alcântara ou a histórica Garrafeira de Campo de Ourique.

A verdade é que, apesar da crise, cada vez há mais e desde há 2 ou 3 anos as garrafeiras (tal como os wine bars) têm surgido na capital quase como cogumelos. Compilando alguns dos convites que vou recebendo via Facebook para diversos eventos e mais algumas informações (e vou esquecer algumas, com certeza), registei estes espaços de existência mais ou menos recente:

• Adega & Gourmet (Campo de Ourique)
• Aprazível (Chiado)
• Algés com sabores (Algés)
• Empor Spirits & Wine (Rua Castilho – Parque Eduardo VII)
• Estado d’Alma (Alcântara)
• Garrafeira de Santos (Janelas verdes – Santos)
• Garrafeira São João (S. Domingos de Benfica)
• Hill’s Bottled (Avenidas Novas – Saldanha)
• Living Wine (Avenida de Roma)
• Néctar das Avenidas (Avenidas Novas – Saldanha)
• Portugal Wine Room (Bairro de Alvalade)
• The Wine Company (S. Domingos de Benfica)
• Wines 9297 (Telheiras)

Já tive oportunidade de me deslocar a quase todas pelo menos uma vez (há muitos dias em que decorrem 5 ou 6 eventos em simultâneo), para provas ou para fazer compras. Alguns até encontrei por acaso ao passar na rua... A verdade é que, a julgar pela proliferação de espaços para venda e degustação de vinhos, o mercado está bem... e recomenda-se.

Vem isto a propósito, e depois da maior edição de sempre do Encontro com o Vinho e os Sabores (19.000 visitantes, ao que consta), de uma deslocação efectuada já há algumas semanas a um destes novos espaços, dirigido por uma “velha” conhecida de outra loja. Trata-se da Empor Spirits & Wine, uma nova garrafeira localizada num ponto estratégico da cidade e de fácil acesso, quase junto ao alto do Parque Eduardo VII e com estacionamento relativamente fácil ao fim da tarde, onde decorreu uma prova vertical de brancos e tintos da Quinta de Foz de Arouce, um dos produtores com o dedo enológico de João Portugal Ramos. Entre os vinhos provados encontrava-se um daqueles que viriam a ser premiados com a “Escolha da Imprensa” no Encontro com o Vinho e os Sabores, o tinto Vinhas Velhas de Santa Maria 2009.

Embora não sejam dos vinhos que tenho provado com mais frequência, conheço a marca há bastantes anos e quando surge a oportunidade lá se vai provando uma ou outra colheita. Novidade, contudo, foi a prova dos brancos que, curiosamente, me surpreenderam mais que os tintos. Gostei em particular da acidez, da persistência, da profundidade aromática a par com alguma mineralidade, no que pareceu ser um branco bastante polivalente e com bom potencial de guarda. Foram provados apenas dois vinhos, mas prometeram bastante.

Quanto aos tintos, foram percorridas várias colheitas que mostraram alguma evolução (as mais antigas) mas muita consistência e estrutura, ou não estejamos paredes meias com a Bairrada. Curiosamente, o tinto que mais se destacou na opinião dos presentes foi precisamente o 2009, isto ainda antes de ser um dos premiados com a “Escolha de imprensa”. Profundo, aromático, com alguma robustez mas sem perder elegância, sem dúvida um belo vinho. Parecia premonitório...

Quanto à loja propriamente dita, o portefólio, embora não seja muito vasto (o espaço também não é...) está bem selecionado, fugindo um pouco ao mais comum e apostando sobretudo em vinhos da gama média-alta. O espaço está bem decorado, bonito, bem arrumado, é agradável estar lá dentro, com uma ampla montra para a rua. Se for bem gerido (e isto de vender vinho não se trata “apenas” de vender o vinho) tem todas as condições, até pela sua localização privilegiada no coração da cidade, para ter sucesso. Pela minha parte, tentarei dar o meu pequeno contributo dentro das minhas possibilidades, divulgando o que por lá se faz e adquirindo alguma coisa sempre que for possível. Afinal é para isso que estes espaços existem, para nós consumidores os frequentarmos. Como não se pode ir a todas, vai-se aparecendo onde e quando se pode.

Kroniketas, enófilo itinerante

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Encontro com o Vinho e os Sabores 2014 (4ª parte)

Resta falar do Encontro propriamente dito, por onde fui deambulando com os acompanhantes de circunstância que apareceram ao longo dos 3 dias. Nos intervalos das provas especiais fui provando nos vários stands um pouco o que calhava, o que conhecia pior, o que havia de novo. Com uma prova especial em cada dia, não sobrou muito espaço nem vontade para provar muito mais, pois havia que moderar a quantidade consumida.

Este ano o recinto principal foi estendido com stands dos produtores até ao fim, sendo a área de petiscos deslocada para uma sala lateral, o que me pareceu uma boa decisão, pois assim não só se ganhou espaço no recinto de provas como também se autonomizou a zona de comidas, permitindo alargar a oferta e disponibilizar mesas para os comensais se sentarem um pouco. Com o passar dos anos as coisas vão-se afinando a pouco e pouco, e é sempre possível melhorar o que está menos bem.

Também é de realçar que a prova dos vinhos premiados também correu melhor, não só pelo espaço em que decorreu, como pelo facto de os vinhos estarem à temperatura correcta, ao contrário do ano transacto, em que no início todos os vinhos estavam mais ou menos mornos...

Também a organização dos stands foi agrupada de modo diferente, criando zonas dedicadas às regiões, o que facilita a procura do que se quer encontrar.

Quanto aos vinhos, provou-se de tudo, pelo que não há nada para destacar. Exceptua-se o facto de eu e o tuguinho ainda termos passado pelo stand das Caves São João e termos trazido duas garrafas do Quinta do Poço do Lobo, de 1995 e 1996. Para fechar o certame em beleza...

Kroniketas, enófilo itinerante

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Encontro com o Vinho e os Sabores 2014 (3ª parte)

Os gloriosos anos 60 das Caves São João


   

O princípio da tarde do último dia foi reservado para mais uma prova especial, dedicada aos vinhos das Caves São João lançados na década de 60 do século passado. Apresentados pelo enólogo José Carvalheira e pela gerente Célia Alves, ao longo de 1 hora e meia desfilaram colheitas de brancos e tintos, do Dão e da Bairrada, com base nas marcas Porta dos Cavaleiros e Frei João.

Houve Colheitas e houve Reservas. Houve ainda, no final, um Caves São João Reserva Particular 1967 (um vinho guloso, porventura o melhor da prova) e uma Aguardente Velhíssima de 1965, a primeira certificada com denominação Bairrada. Mas houve, sobretudo, uma viagem inigualável pelo tempo para encontrar vinhos de excelência que fazem parte da história e do património vinícola nacional, verdadeiros embaixadores da essência do Dão e da Bairrada e que as Caves São João zelosamente guardaram ao longo de décadas. Actualmente, é a empresa com maior e mais diversificado património vinícola em Portugal (cerca de 1 milhão de garrafas em cave) e a mais antiga em actividade no sector - desde 1920, à beira de completar um século, o que tem motivado o lançamento de várias colheitas comemorativas desde os 90 anos de história, onde também se enquadra esta aguardente velhíssima prestes a sair para o mercado.

Tentar descrever vinhos de 1963, 64, 66, 67 é quase uma blasfémia. Vinhos destes não se descrevem, saboreiam-se e aspiram-se até ao último odor. Vamos, por isso, listar apenas os vinhos provados e resumir algumas curtas considerações.

Do Dão tivemos o Porta dos Cavaleiros branco 1964, os tintos 1963, 1966 e Reserva 1966. Da Bairrada o Frei João branco 1966, os tintos Reserva 1963, Reserva 1966 e Colheita 1966.

Os Porta dos Cavaleiros, habitualmente com uma presença de Baga na ordem dos 25% no meio do Dão, são habitualmente longos, suaves, elegantes, com taninos presentes mas muito macios, com um certo aroma a fundo do bosque. Mostraram grande saúde tanto no nariz como na boca.

Os Frei João mostraram o carácter da Bairrada, com muitas notas de aromas terciários com muita evolução, taninos ainda sólidos, boa estrutura e final longo, alguns ainda muito carregados na cor e com acidez bem presente, a mostrarem como é notável o potencial de evolução dos vinhos da região.

Quanto aos brancos provados, mostraram ainda boa saúde e alguma fruta e acidez, embora eu não seja tão apreciador do género como nos tintos.

Mais uma vez comprovou-se aquilo que digo muitas vezes: quem nunca provou vinhos velhos não faz ideia do que perde e nunca apreciou verdadeiramente um néctar destes em todo o seu esplendor.

Obrigado às Caves São João e aos seus responsáveis, presentes numa mesa bem preenchida, por mais este momento memorável.

Kroniketas, enófilo itinerante

sábado, 22 de novembro de 2014

Encontro com o Vinho e os Sabores 2014 (2ª parte)

Prova vertical das Cortes de Cima - Incógnito e Homenagem a Hans Christian Andersen


  
   

A segunda etapa do primeiro dia terminou com uma prova vertical das Cortes de Cima, com a degustação de várias colheitas do Incógnito sendo algumas delas em paralelo com o Homenagem a Hans Christian Andersen (escritor dinamarquês).

Apresentada pelo enólogo Hamilton Reis, este começou por fazer um breve historial da casta Syrah (crê-se que originária do Vale do Ródano), a base dos vinhos em prova, no mundo e nas Cortes de Cima em particular, um dos primeiros locais em Portugal onde a mesma foi plantada, em 1991.

O Incógnito viu a luz do dia em 1998 com uma casta à época não autorizada no Alentejo, pelo que sempre foi lançado como vinho regional. O próprio nome do vinho pretendeu realçar os obstáculos legais que foram encontrados para fazer um vinho de Syrah no Alentejo. Com o tempo tornou-se um ícone da propriedade e um dos exemplares mais apreciados dos vinhos desta casta, de que não sou apreciador em particular no Alentejo. No entanto, os vinhos provados mostraram a razão de ser da fama (e do preço) deste vinho, apresentando uma personalidade e uma estrutura fora do comum. O Incógnito provém sempre duma mesma parcela de vinha, com condições particulares dentro da propriedade, e só em anos de qualidade excepcional. De outras parcelas sai, por vezes, uma espécie de “segundo Incógnito”, o Homenagem a Hans Chrsitian Andersen, com características diferentes, mais aberto, mais leve, mais frutado e com menos concentração.

Em prova estiveram, no total, 12 vinhos distribuídos entre estas duas marcas. Dentro das características mais marcantes em cada vinho, foi curioso observar que alguns vinhos de colheitas mais antigas se apresentaram mais robustos que alguns mais jovens, o que mostra a longevidade deste vinho.

Do Incógnito desfilaram as colheitas de 1999 (15% de álcool), 2002 (15%), 2004 (14,5%), 2005 (14,5%), 2008 (14,5%) 2009 (14%) e 2011 (14%), tendo igualmente sido provadas, a par dos Incógnitos, as colheitas do Homenagem dos anos de 2004 (14,5%), 2007 (14,5%), 2008 (14%), 2009 (14%) e 2010 (14%).

Dum modo geral o Incógnito apresenta-se mais concentrado e robusto, com notas balsâmicas, boa estrutura e taninos poderosos, enquanto o Homenagem mostra um carácter mais jovem, frutado, redondo e macio.

Claro que entre tantas colheitas as variações foram imensas. O Incógnito 1999 com clara evolução na cor e no aroma, com notas compotadas, concentrado mas já aberto e suave, a mostrar que já não tem mais para melhorar. O 2002 apresentou-se mais vivo e vibrante na boca, mais frutado, longo e estruturado. 2004 e 2005 mostraram-se ainda rugosos, duros, algo polidos mas com muito para amaciar. Os mais recentes mostraram-se mais frutados e macios, com destaque para o de 2011 que pareceu ser um dos melhores de sempre.

Nas colheitas do Homenagem as de 2004 e 2007 foram as mais equilibradas entre o corpo, a fruta, a estrutura e a elegância. O 2008 mostrou aroma a fruta ainda jovem mas final algo curto, o 2009 mais redondo mas menos complexo e o mais recente, 2010, mostrou a fruta algo verde e a madeira ainda demasiado marcada.

No conjunto, e feito o balanço, tivemos uma excelente amostra de belíssimos vinhos, de qualidade inquestionável e que mereceram bem a ampla plateia que tiveram a presenciar a prova. Estes sim, são vinhos que justificam o bom nome que a casa granjeou, conquanto preço do Incógnito seja, à partida, um factor inibidor da compra (à volta de 60 € em média para o Incógnito).

Kroniketas, enófilo itinerante

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Encontro com o Vinho e os Sabores 2014 (1ª parte)

Prémios Escolha da Imprensa


  
 

Mais um ano, mais um encontro. Desta vez tive a possibilidade de me deslocar 3 dias consecutivos ao Encontro com o Vinho e os Sabores e ainda, pela primeira vez, assistir a algumas actividades paralelas. E assim me desloquei ao Centro de Congressos de Lisboa na 6ª feira, sábado e domingo (dias 7, 8 e 9), repartindo provas e eventos pelos 3 dias.

Na 6ª feira comecei por assistir ao anúncio dos prémios “Escolha da Imprensa”, onde foram anunciados 47 vinhos premiados por um painel de 25 provadores que escolheram aqueles que consideraram os melhores nas categorias espumante, branco, rosé, tinto e fortificado. Um painel de excelência que no sábado estaria à prova para os jornalistas e bloggers, passando depois a estar disponível para o público em geral (lista dos vinhos premiados na última foto).

Foi por aqui que comecei a minha presença na tarde de sábado, tendo a possibilidade de provar uma parte significativa dos vinhos presentes. Destaque para alguns brancos muito interessantes, com muita frescura e acidez, como o Caladessa, o Terra de Alter, o Paulo Laureano Reserve, o Curtimenta de Anselmo Mendes e, claro, o magnífico Condessa de Santar, para além de um Quinta dos Carvalhais Especial, com uma mistura de 3 colheitas diferentes (2003, 2004 e 2005) que deu um vinho misterioso e complexo, parecendo ter ainda muito tempo para evoluir.

Nos rosés, a categoria menos premiada, achei interessante sobretudo o Bombeira do Guadiana, uma novidade vinda de Mértola que mostrou frescura e aroma floral, sem qualquer sinal enjoativo como acontece com alguns rosés “modernos”, e o Covela, um rosé leve e fresco proveniente da região dos Vinhos Verdes.

Nos tintos, claro, estiveram os pesos pesados, com destaque para os grandiosos Palácio da Bacalhôa e Antónia Adelaide Ferreira, dois vinhos de enorme gabarito expostos lado a lado, bem secundados, entre outros, pelo excelente Marquês de Marialva Confirmado 1991, a expressar a grandiosidade dos vinhos velhos da Bairrada, o Herdade das Servas Reserva, com grande concentração e pujança e a prometer grande longevidade tal como o T da Quinta da Terrugem, o nosso muito amado Reguengos Garrafeira dos Sócios, finalmente a ver reconhecida a sua qualidade dentro de portas, e o Villa Oliveira a expressar toda a elegância e profundidade aromática do Dão. Muito curioso igualmente o 1836, da Companhia das Lezírias, com grande concentração aromática. Passei pelo Quinta de Foz de Arouce 2009, mas como o tinha provado há pouco tempo já não era novidade.

Muito interessante o painel de espumantes, com 7 prémios para as Caves Murganheira, repartidos entre 5 vinhos com a marca da casa e 2 da Raposeira, além de 2 das Caves Aliança.

Nos portos, uma palavra especial para um Niepoort, um Moscatel Roxo da Bacalhôa e o Porto Ferreira Vintage. E com este painel quase que ficava a feira feita...

Kroniketas, enófilo itinerante

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

No meu copo 415 - Adega de Pegões, Touriga Nacional 2008

Aqui fica mais uma prova de um vinho de Pegões, desta vez com a colaboração do Politikos.

Cada vez gosto mais da Península de Setúbal como região produtora de vinhos. Há dias, para acompanhar umas almôndegas bem condimentadas, abri um Adega de Pegões Touriga Nacional 2008. Estava no contra-rótulo que não se devia guardar por mais de 7 anos, de onde decidi ser a altura justa para o provar...

Libertados os primeiros aromas próprios de alguns anos de guarda, este Touriga Nacional desde logo mostrou um nariz intenso onde sobressaía a fruta madura e sobretudo as notas de violetas próprias da Touriga Nacional. A cor, escura, apresentava um levíssimo acobreado, próprio da idade, mas não evidenciando qualquer sinal de decadência. O que se confirmou depois na boca onde se mostrou pleno de saúde, denso e concentrado, mas elegante. Os taninos, redondos mas firmes, evidenciavam uma boa evolução, sem se mostrarem em perda. As notas de especiarias e de tosta, oriundas da barrica onde estagiou oito meses, davam alguma complexidade ao conjunto, e o final de boca prolongava-se q.b. para retiramos prazer de todos os momentos da prova.

Revelou estar num ponto certo de consumo mas da próxima vez não me preocuparei tanto com a advertência do produtor, pois poderia durar seguramente mais uns anos em garrafeira.

A sensação que tenho é que, liberta da ditadura do Castelão, esta região se recria dia a dia... E a Adega Cooperativa de Pegões está a trabalhar muitíssimo bem, com vinhos com uma relação qualidade-preço muito interessante, de que este constitui um bom exemplo.

Politikos, enófilo convidado

Vinho: Adega de Pegões, Touriga Nacional 2008 (T)
Região: Península de Setúbal
Produtor: Cooperativa Agrícola Santo Isidro de Pegões
Grau alcoólico: 14%
Casta: Touriga Nacional
Preço: 6 €
Nota (0 a 10): 7,5